Os Óscares proibiram a IA: actores e argumentistas têm de ser humanos para serem nomeados

Há muito que a indústria esperava que a Academia tomasse uma posição clara. Na sexta-feira, finalmente tomou. O conselho de governadores da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas aprovou as regras para a 99.ª cerimónia dos Óscares, marcada para 14 de Março de 2027, e as mudanças são as mais significativas em várias décadas. Três alterações redesenham o mapa dos prémios mais influentes do mundo.

A primeira é a mais simbólica: nas categorias de representação, apenas interpretações “demonstravelmente realizadas por humanos com o seu consentimento” são elegíveis para nomeação. A formulação surgiu directamente do debate gerado pela utilização da imagem de Val Kilmer, falecido em 2025, no filme As Deep as the Grave — uma produção em que a família do actor aprovou o uso da sua likeness através de IA, sem que Kilmer tivesse filmado uma única cena antes de morrer. Essa situação tornou urgente a necessidade de uma regra explícita. Nas categorias de argumento, a mesma lógica: os guiões têm de ser “de autoria humana” para poderem concorrer. A Academia reserva-se ainda o direito de solicitar informação adicional sobre o grau de envolvimento da IA em qualquer filme submetido.

A segunda mudança é a que terá maior impacto a longo prazo. A categoria de Melhor Filme Internacional — aquela que Portugal submete anualmente através do Instituto do Cinema e Audiovisual — deixa de exigir que cada país apresente apenas um título. A partir de agora, um filme em língua não inglesa pode qualificar-se de duas formas: pela via tradicional da submissão nacional, ou ganhando um dos prémios principais de seis festivais internacionais reconhecidos — Berlim (Urso de Ouro), Cannes (Palma de Ouro), Sundance (World Cinema Grand Jury Prize), Toronto (Platform Award), Veneza (Leão de Ouro) e Busan. Isto significa que um filme iraniano de Jafar Panahi ou Mohammad Rasoulof — cujos governos nunca os submeteriam — pode agora entrar na corrida se ganhar em Cannes ou Berlim. A academia muda ainda a titularidade do prémio: passa a ser atribuído ao filme, não ao país.

A terceira alteração diz respeito às categorias de representação: um actor pode agora ser nomeado por duas interpretações distintas na mesma categoria no mesmo ano, desde que ambas se encontrem entre as cinco mais votadas. Acabou o chamado “category fraud” — a prática de deslocar estrategicamente uma performance para a categoria de apoio para evitar que dois filmes do mesmo actor se canibalizem mutuamente.

Para o cinema português e europeu, as novas regras para o Melhor Filme Internacional são particularmente relevantes. Filmes como Anatomia de uma Queda de Justine Triet foram prejudicados no passado por escolhas de submissão nacional que os preteriam em favor de outros títulos. Com a nova regra, uma Palma de Ouro em Cannes pode valer uma entrada directa na corrida aos Óscares — independentemente do que o governo de cada país decida.

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Greta Gerwig leva “As Crónicas de Nárnia” aos cinemas antes do Netflix: a plataforma recua na estratégia de streaming directo

É uma inversão de percurso que diz muito sobre o estado do cinema em 2026. O Netflix confirmou que As Crónicas de Nárnia — a adaptação realizada por Greta Gerwig da obra de C.S. Lewis, um dos projectos mais aguardados da plataforma — terá uma estreia teatral completa antes de chegar ao streaming, estreia nos cinemas a 12 de Fevereiro de 2027 e chegada ao Netflix a 2 de Abril do mesmo ano”. O título oficial é Narnia: The Magician’s Nephew, e o anúncio da data foi feito precisamente ontem pelo Netflix — o que torna este artigo ainda mais oportuno.. A decisão abandona o modelo de lançamento directo para plataforma que o Netflix tinha originalmente delineado para o filme.

Greta Gerwig, cujo Barbie fez mais de 1,4 mil milhões de dólares globalmente em 2023 e a transformou na realizadora viva com maior bilheteira de sempre, negoceou a janela de exibição como condição do projecto. A lógica é simples e irrefutável: um filme desta escala, com este nome por detrás das câmaras, tem um valor em sala que não se justifica desperdiçar. O Netflix, que nos últimos anos tem alternado entre a estratégia de streaming directo e a concessão de janelas teatrais para os projectos de maior prestígio, cedeu — e a decisão é um sinal de que a plataforma reconhece que há filmes que precisam do ritual da sala para existirem plenamente.

O projecto adapta as sete obras do ciclo de Lewis, com um universo narrativo que Gerwig quer construir de forma coerente ao longo de vários filmes. O elenco não foi ainda confirmado oficialmente, mas o mercado de Cannes — que arranca a 12 de Maio — deverá trazer as primeiras informações concretas sobre o projecto. O que já é certo é que a chegada de As Crónicas de Nárnia às salas portuguesas em 2027 será um dos eventos cinematográficos do ano. E que Greta Gerwig voltará a ser o centro de tudo.

O elenco confirmado é de peso considerável. Emma Mackey — que trabalhou com Gerwig em Barbie — interpreta Jadis, a Feiticeira Branca, numa versão mais jovem da personagem que Tilda Swinton imortalizou em 2005. Daniel Craig é o Tio André, o excêntrico familiar de Digory Kirke. Meryl Streep empresta a voz a Aslan. Carey Mulligan é Mabel Kirke, a mãe de Digory. Os dois protagonistas infantis — Digory e Polly — são interpretados pelos jovens actores David McKenna e Beatrice Campbell. Completam o elenco Ciarán Hinds, Denise Gough, Kobna Holdbrook-Smith e Susan Wokoma. A partitura original é de Mark Ronson e Andrew Wyatt, que já tinham colaborado com Gerwig em Barbie, com figurinos de Jacqueline Durran — dois Óscares no currículo.

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A bilheteira americana de 2026 vai 14% acima do ano passado: o verão pode ser o melhor da última década

Os números são suficientemente bons para que a indústria os diga em voz alta. Entre Janeiro e Abril de 2026, a bilheteira norte-americana acumulou 2,57 mil milhões de dólares — um crescimento de 14% face ao mesmo período de 2025, segundo dados da ComScore. O contexto importa: 2025 foi já um ano de recuperação sólida, e crescer 14% sobre essa base não é trivial.

Os catalisadores são conhecidos: O Super Mario Galaxy Movie tornou-se o primeiro filme de 2026 a superar os 400 milhões de dólares nas salas americanas, com uma carreira global que já vai em 832 milhões; Project Hail Mary, a adaptação do romance de Andy Weir com Matt Damon, aproxima-se dos 319 milhões domésticos na sétima semana de exibição — um feito notável para um filme de ficção científica original sem franchise por detrás; e Michael, o biopic de Michael Jackson, abriu o fim-de-semana passado com 97 milhões nos EUA e mantém-se forte na segunda semana.

O Diabo Veste Prada 2, que estreou ontem em Portugal, insere-se neste contexto como o catalisador da temporada de verão americana — a primeira vez que um filme liderado por mulheres inaugura a temporada que vai de Maio a Setembro. Se os números do fim-de-semana nos EUA confirmarem as projecções mais optimistas, o verão de 2026 poderá rivalizar com os melhores anos do pré-pandemia.

Quanto ao impacto em Portugal, não há ainda dados que permitam traçar um paralelo directo com o mercado nacional. O que se pode dizer é que uma bilheteira americana saudável tende a traduzir-se num calendário de estreias mais robusto em toda a Europa: distribuidores mais confiantes, janelas de lançamento mais curtas entre os EUA e Portugal, e — em última análise — mais filmes a chegar às salas portuguesas com a urgência que merecem.

A Verdadeira Dor — Kieran Culkin e o Óscar que ninguém esquece
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“Hokum”: o filme de terror com 91% no Rotten Tomatoes que ficou na sombra do “Diabo Veste Prada”

Há semanas em que o cinema de grande escala engole tudo o que está ao lado. Esta foi uma delas. Enquanto O Diabo Veste Prada 2 ocupava todos os ecrãs e toda a atenção mediática, Hokum — o novo horror de Damian McCarthy, realizador irlandês que já tinha mostrado o que era capaz em Caveat (2020), premiado no SXSW e com distribuição em 2.000 salas nos EUA — estreou praticamente invisível no ruído da semana.

Os números dizem outra coisa: 91% no Rotten Tomatoes e 78 no Metascore. Este segundo valor é particularmente revelador — o Metascore, que agrega críticas de publicações de referência com uma ponderação editorial, é habitualmente mais exigente e mais difícil de comprazer do que o agregador de críticas de audiência. Um 78 no Metascore em horror é um resultado que poucos filmes do género alguma vez atingem.

Adam Scott — melhor conhecido pelo seu papel em Severance, onde a sua capacidade de habitar uma normalidade progressivamente perturbadora se revelou completamente — protagoniza um filme descrito pela crítica como horror de construção lenta e psicológica, que usa a suburbia americana como pano de fundo para algo que se vai tornando cada vez mais difícil de nomear. McCarthy confirma com Hokum o que Caveat apenas prometia: um domínio do terror de atmosfera que é raro e que deve ser seguido de perto.

Hokum estreia em Portugal a 25 de Junho. É tempo suficiente para marcar a data — e para confiar que Damian McCarthy vai fazer exactamente o que McCarthy faz: chegar devagar, instalar-se, e não sair facilmente.

A Verdadeira Dor — Kieran Culkin e o Óscar que ninguém esquece
Dune: Parte Um — O épico que o cinema merecia
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A Verdadeira Dor — Kieran Culkin e o Óscar que ninguém esquece

Existe cinema para entretenimento puro e depois existem aqueles filmes para perguntar algo e nos fazerem refletir e sentir. Não tenho pejo em admitir que gosto de ambos. E A Verdadeira Dor, de Jesse Eisenberg, pertence claramente ao segundo grupo — e fá-lo com uma elegância e uma honestidade que raramente se encontram juntas no mesmo ecrã. Estes valem sempre mais do que o contracto a prazo de cerca das 2 horas de que vale qualquer bilhete…

A premissa é simples até ao ponto em que deixa de o ser: dois primos, David e Benji, viajam pela Polónia para honrar a memória da avó recentemente falecida. Percorrem os lugares da herança judaica da família, incluindo o campo de concentração de Majdanek, e deixam que essa viagem faça aquilo que as viagens difíceis sempre fazem — expor o que estava enterrado.

O que Eisenberg percebeu, com uma maturidade invulgar para um realizador no seu segundo filme, é que a tensão entre os dois primos é tão rica quanto o peso da história que carregam. David (o próprio Eisenberg) é ansioso, metódico, controlado. Benji (Kieran Culkin) é impulsivo, expansivo, impossível de ignorar. São o tipo de opostos que só a família consegue unir — e que só uma viagem suficientemente intensa consegue obrigar a olhar um para o outro. A Polónia não é apenas cenário: é o catalisador que transforma um tributo numa ajuste de contas íntimo e, por isso mesmo, num filme sobre a vida.

Culkin é simplesmente extraordinário. Há uma qualidade na sua performance que é difícil de descrever sem recorrer a clichés — diremos apenas que ele faz parecer fácil o que é tecnicamente muito difícil: ser simultaneamente o elemento cómico, o mais vulnerável e o mais perturbador de qualquer cena em que aparece. O Óscar de Melhor Ator Secundário que recebeu este ano não foi uma surpresa para quem o viu — foi uma confirmação. Os BAFTA e os Critics Choice Awards disseram o mesmo antes.

Eisenberg, por seu lado, recebeu uma nomeação ao Óscar de Melhor Argumento Original que diz muito sobre o tipo de realizador que está a tornar-se. Depois de Quando Acabares de Salvar o Mundo (2022), confirmou que tem algo a dizer — e que sabe encontrar a forma certa de o dizer sem gritar. A Verdadeira Dor estreou no Festival de Sundance em 2024 com aclamação generalizada, e a temporada de prémios que se seguiu transformou o que poderia ter sido um filme pequeno num dos títulos mais falados do ano.

O que fica, no final, não é a história do Holocausto — que é tratada com o respeito e a seriedade que merece, sem nunca ser instrumentalizada — mas a história de duas pessoas que precisavam de se ver de verdade e só conseguiram fazê-lo no lugar mais improvável. Há humor, desconforto, silêncios que pesam e momentos de uma ternura inesperada. É o tipo de cinema que não resolve nada e, por isso mesmo, ressoa durante dias.

A Verdadeira Dor estreia esta noite, domingo, 3 de maio, às 22h05 no TVCine Top, ficando também disponível no TVCine+.

Dune: Parte Um — O épico que o cinema merecia

Há filmes que chegam com o peso de décadas de expectativas e saem sem as defraudar. Dune: Parte Um, de Denis Villeneuve, é um desses raros casos — uma adaptação que tantos consideravam impossível e que o realizador canadiano transformou numa das experiências cinematográficas mais imponentes dos últimos anos.

A história é conhecida de quem leu Frank Herbert: Paul Atreides (Timothée Chalamet), filho de uma nobre casa galáctica, é arrastado para Arrakis, um planeta desértico e hostil que é, simultaneamente, o lugar mais valioso do universo. É lá que se extrai a especiaria, a substância que o poder quer controlar e que os Fremen — o povo do deserto — protegem com a sua vida. Numa outra mão, está Zendaya como Chani, figura misteriosa que Paul vê em sonhos antes de a encontrar na realidade. É a promessa de algo que, astutamente, Villeneuve guarda para a segunda parte.

Mas Dune: Parte Um não é apenas argumento. É, acima de tudo, uma obra de construção de mundo com uma generosidade visual raramente vista. A direcção de fotografia de Greig Fraser — que valeu um dos seis Óscares que o filme arrecadou — transforma Arrakis numa paisagem quase espiritual, onde a areia não é fundo mas personagem. A pontuação de Hans Zimmer, que escolheu este projecto em detrimento de Tenet de Christopher Nolan (uma escolha que diz muito sobre o estatuto do romance de Herbert no mundo da cultura), usa vozes e texturas para criar algo que soa simultaneamente antigo e alienígena.

O elenco é extraordinário na sua diversidade e no seu compromisso. Oscar Isaac como o Duque Leto transmite uma nobreza trágica em poucos planos. Rebecca Ferguson como a Senhora Jessica navega entre o amor maternal e os segredos de uma ordem quase religiosa. Jason Momoa como Duncan Idaho rouba todas as cenas em que aparece, com uma energia que o torna o elemento mais carismático do filme. E Josh Brolin, Stellan Skarsgård e Dave Bautista compõem os antagonistas com uma presença física que dispensa grandes falas.

O filme tem a coragem de ser lento quando a história pede lentidão, e esmagador quando os momentos de grandiosidade chegam. A sequência dos vermes das areias — os Shai-Hulud — não é apenas espectáculo: é uma declaração de filosofia visual. Villeneuve quer que o espectador sinta a escala, não que a processe. E consegue-o.

Há quem aponte que o filme termina abruptamente, em suspenso — e é verdade. Mas isso é também uma honestidade: Dune: Parte Um é, literalmente, metade de uma história, e Villeneuve nunca fingiu o contrário. Com a segunda parte disponível no mesmo lugar (e igualmente à altura), o argumento perde força.

Para quem ainda não viu, ou para quem quer rever antes do terceiro capítulo que está em produção, Dune: Parte Um está disponível para os subscritores do Netflix e do HBO. Não há desculpa para adiar mais.

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— corrigido um erro de edição no primeiro filme dia 2 de Maio de 2026 às 00:49–

“Não Fales do Mal” — Quando a hospitalidade se torna uma armadilha

Há um tipo de horror que não precisa de monstros. Precisa apenas de um jantar em que ninguém diz o que pensa, de um sorriso que dura tempo a mais, de uma piada que não é bem uma piada. É exatamente esse o terreno de Não Fales do Mal, o thriller psicológico realizado por James Watkins que chega esta noite ao TVCine Top e que transforma a mais banal das situações sociais — o fim de semana em casa de novos amigos — num exercício de inquietação crescente.

Ben e Louise Dalton (Scoot McNairy e Mackenzie Davis) são um casal americano que, em férias na Europa, conhece um par de britânicos aparentemente encantadores. O convite para um fim de semana na sua casa de campo parece o gesto simpático de quem quer continuar uma amizade que nasceu bem. É claro que não é.

A partir daí, Watkins constrói a tensão com precisão cirúrgica, sem recorrer aos atalhos habituais do género. Não há sustos fáceis nem gore gratuito — há algo pior: a acumulação de pequenos desconfortos que qualquer pessoa reconhece. O comentário que passa do limite. A atitude que é invasiva mas não o suficiente para justificar uma saída de cena. A sensação de que algo está errado, mas a educação não deixa dizê-lo em voz alta. O filme explora com inteligência esse espaço incómodo entre a cordialidade social e o instinto de sobrevivência — e faz-o com uma eficácia que deixa o espectador a torcer para que os protagonistas abandonem de uma vez a boa educação.

James McAvoy é a revelação do elenco, num papel que oscila com desconcertante fluidez entre o charme genuíno e a intimidação velada. É o tipo de personagem que o espectador não consegue classificar — e é exactamente essa ambiguidade que o torna tão perturbadora. Ao seu lado, Aisling Franciosi completa um duo de anfitriões que ficará na memória por razões que seria criminoso revelar.

O filme é uma reinterpretação do original dinamarquês de 2022, de Christoffer Borgli, e Watkins — realizador de A Mulher de Negro — amplifica a tensão da premissa original sem a trair. Há aqui uma tese sobre os limites da tolerância e sobre o preço que pagamos por sermos agradáveis que torna Não Fales do Mal algo mais do que um thriller de entretenimento. É um filme que fica.

Não Fales do Mal estreia esta noite, 2 de maio, às 21h30 no TVCine Top, ficando igualmente disponível no TVCine+.

As Estreias de 30 de Abril: IndieLisboa a começar … e um regresso que esperou vinte anos

Há semanas em que o calendário cinematográfico parece ter sido desenhado para testar a paciência de quem só tem tempo — e dinheiro — para um bilhete. Esta quinta-feira, 30 de abril, é claramente uma delas. Lisboa acorda com o IndieLisboa a abrir a sua 23.ª edição logo à noite, as salas comerciais recebem onze novos títulos, e o fim de semana encolhe de repente perante tanta escolha.

O festival arranca às 19h00 no Cinema São Jorge com The Loneliest Man in Town, de Tizza Covi e Rainer Frimmel — uma das sensações da última Berlinale. A história segue um bluesman à beira do despejo e reflecte sobre aquilo que uma casa guarda de nós quando já não temos mais nada. É uma escolha que diz muito sobre o ADN do IndieLisboa: cinema de pessoas reais, captado com uma atenção que a ficção raramente consegue replicar. A dupla austríaca já conhece bem o festival — venceu o Prémio de Distribuição em 2010 com La Pivellina — e este regresso parece mais do que natural.

Nos onze dias que se seguem, até 10 de maio, o IndieLisboa espalha 241 filmes por várias salas da cidade — do São Jorge à Culturgest, passando pela Cinemateca Portuguesa, o Cinema Ideal e o Cinema Fernando Lopes. Há 16 estreias mundiais na Competição Nacional, uma Competição Internacional verdadeiramente global e uma retrospectiva dedicada ao mockumentary. O encerramento, a 10 de maio na Culturgest, fica a cargo de The History of Concrete, primeira longa de John Wilson — o criador de How To with John Wilson — uma premissa tão absurda quanto irresistível: um documentário sobre betão em que Wilson tenta aplicar a fórmula que aprendeu num workshop da Hallmark. Mais do que um programa, o IndieLisboa continua a ser uma experiência para viver.

Para quem prefere as salas comerciais — ou simplesmente não tem onze dias disponíveis — a semana não perde força. A estreia mais aguardada é O Diabo Veste Prada 2 (NOS Audiovisuais), que reúne Meryl Streep, Anne Hathaway, Emily Blunt e Stanley Tucci vinte anos depois do original. E não é apenas o elenco que regressa: o realizador David Frankel e a argumentista Aline Brosh McKenna voltam a assumir o controlo.

Andy Sachs regressa à Runway, agora como editora de features, num momento em que Miranda Priestly enfrenta a crise da imprensa tradicional e uma antiga assistente surge do outro lado da barricada — como executiva de topo numa marca de luxo. As primeiras reacções são claramente positivas: o filme reencontra o tom do original, evita transformar-se numa lição sobre media contemporâneos e aposta naquilo que sempre funcionou — personagens fortes, diálogos afiados e um mundo onde a elegância nunca é inocente. Pelo meio, há ainda música nova de Lady Gaga e Doechii. Raramente uma sequela com duas décadas de intervalo chega com este nível de segurança.

Fuze — Explosão Iminente (Cinemundo) assume-se como o exercício de tensão mais elegante da semana. David Mackenzie, realizador de Hell or High Water, constrói tudo a partir de uma ideia simples e eficaz: uma bomba não detonada da Segunda Guerra Mundial é descoberta no centro de Londres, forçando a evacuação da cidade. O detalhe crucial? Era exactamente isso que alguém queria. Enquanto Aaron Taylor-Johnson tenta desactivar o engenho, Theo James coordena um assalto a um cofre de diamantes nas ruas desertas. Estreado em Toronto com 73% no Rotten Tomatoes, é um thriller que não reinventa o género — mas executa-o com precisão.

Já Besta (NOS Audiovisuais) entra no território do drama desportivo com Russell Crowe — também co-argumentista — no papel de treinador de um antigo campeão de MMA que regressa à jaula para ajudar o irmão. Filmado em Bangkok com a ONE Championship, segue a fórmula clássica do género com competência, evocando comparações com Warrior (2011) que a crítica tem apontado sem as considerar um problema.

No campo do cinema mais autoral, Sonhos (Films4You) marca a segunda colaboração entre Michel Franco e Jessica Chastain, depois de Memória (2023). A actriz interpreta uma mecenas abastada de São Francisco envolvida numa relação obsessiva com Fernando (Isaac Hernández), um jovem mexicano indocumentado. Estreado na Berlinale 2025, o filme volta a dividir opiniões — como é habitual em Franco — entre quem vê um retrato impiedoso de poder e hipocrisia liberal e quem o considera emocionalmente distante. Há, no entanto, consenso em torno da prestação de Chastain, apontada como uma das mais desconfortáveis da sua carreira.

Quentin Dupieux regressa com O Acidente com o Piano, uma comédia negra que mantém o seu gosto pelo absurdo, mas com um lado mais mordaz do que habitual. Adèle Exarchopoulos interpreta uma influencer rica que se refugia numa chalet alpina após um incidente misterioso envolvendo um piano. A chegada de uma jornalista com intenções duvidosas complica ainda mais a situação. Não é o Dupieux mais surreal — mas pode ser o mais incisivo na forma como observa a cultura digital contemporânea.

Divina Comédia (Nitrato) é, provavelmente, o destaque mais cinéfilo da semana nas salas comerciais. Ali Asgari, realizador de Versos Terrestres, apresenta a história de Bahram, um cineasta que nunca conseguiu autorização para exibir os seus filmes no Irão. Acompanhado por uma produtora numa Vespa cor-de-rosa, percorre Teerão à procura de um espaço para uma exibição clandestina. O resultado é uma sátira política subtil, onde o absurdo convive com uma realidade demasiado concreta.

Em As Correntes (Leopardo Filmes), Milagros Mumenthaler — vencedora do Leopardo de Ouro em Locarno — constrói um drama intimista sobre identidade e trauma. Lina, uma estilista argentina, atira-se ao rio Ródano durante uma viagem à Suíça. De regresso a Buenos Aires, desenvolve uma fobia à água que começa a contaminar todos os aspectos da sua vida. Um filme sobre o que o corpo retém quando a mente se recusa a falar.

A programação completa-se com três documentários portugueses — Caronte, de Tânia Gomes Teixeira; Damas, de Cláudia Alves; e Soco a Soco, de Diogo Varela Silva — e ainda o anime That Time I Got Reincarnated as a Slime — O Filme: Lágrimas do Mar Azul-Celeste (Big Picture), dirigido aos fãs do género.

No fim de contas, é uma semana para todos os gostos — e uma daquelas em que escolher vai ser, inevitavelmente, deixar coisas de fora.

Sam Neill venceu uma batalha silenciosa — e já está a preparar o regresso ao cinema

Há histórias que parecem saídas de um argumento de Hollywood… e depois há aquelas que são ainda mais improváveis. Sam Neill revelou esta semana que está livre de cancro, depois de uma longa batalha de cinco anos contra uma forma rara da doença — e graças a um tratamento experimental que está a dar que falar no mundo da medicina.

Conhecido por milhões como o icónico Dr. Alan Grant na saga Jurassic Park, o actor neozelandês tinha anunciado em 2023 que lutava contra um linfoma angioimunoblástico de células T, um tipo agressivo e raro de cancro. Agora, numa entrevista recente, confirmou aquilo que muitos esperavam mas poucos ousavam garantir: não há sinais da doença no seu corpo.

Uma luta longa… e nem sempre optimista

Durante anos, Sam Neill submeteu-se a tratamentos de quimioterapia que, apesar de eficazes durante algum tempo, estavam longe de ser uma solução definitiva. O próprio actor descreveu esse período como “miserável”, ainda que essencial para se manter vivo.

Com o passar do tempo, a quimioterapia deixou de resultar. O cenário começou a mudar — e não para melhor. Neill chegou mesmo a admitir publicamente que se preparava para o pior, mantendo, no entanto, uma serenidade quase desarmante perante a possibilidade da morte.

Mais do que medo, havia frustração. Frustração por tudo o que ainda queria viver: os anos que desejava passar com a família, os projectos por concretizar, os pequenos prazeres quotidianos que ganham outro peso quando parecem estar em risco.

O tratamento que mudou tudo

Foi então que surgiu uma alternativa inesperada: a chamada terapia CAR-T, um tratamento inovador que ainda se encontra em fase experimental. Este método utiliza o próprio sistema imunitário do paciente para combater o cancro, transformando células T em verdadeiras “armas vivas” capazes de identificar e destruir células malignas.

O processo é complexo, mas fascinante: as células são recolhidas do sangue do paciente, modificadas em laboratório para se tornarem mais eficazes, e depois reintroduzidas no organismo, onde continuam a multiplicar-se e a combater a doença.

No caso de Sam Neill, os resultados foram extraordinários.

“Fiz recentemente um exame e não há cancro no meu corpo”, revelou o actor, visivelmente emocionado. Uma frase simples — mas que encerra anos de luta, incerteza e resistência.

Um regresso que já está a caminho 🎬

Livre da doença, Sam Neill não perdeu tempo a olhar para o futuro. E esse futuro passa, naturalmente, pelo cinema.

“It’s time I did another movie”, afirmou, com a leveza de quem acabou de vencer uma batalha gigante e está pronto para voltar ao que mais gosta de fazer.

Para os fãs, a notícia não podia ser melhor. Não apenas pelo regresso de um actor querido, mas pelo simbolismo que carrega: uma história de resistência, ciência e esperança que ultrapassa o ecrã.

Quando a realidade supera a ficção

Num mundo onde tantas histórias de Hollywood são construídas à volta de heróis improváveis, a jornada de Sam Neill lembra-nos que, por vezes, os maiores “plot twists” acontecem fora do cinema.

E se há algo que esta história prova, é que a combinação entre avanço científico e determinação humana pode, de facto, reescrever finais que pareciam inevitáveis.

Agora, resta esperar pelo próximo papel. Porque depois disto, qualquer regresso ao grande ecrã terá sempre um peso diferente.

“A Casa dos Espíritos” no Prime Video: Isabel Allende tem finalmente a adaptação que merecia

“O Diabo Veste Prada 2” abre o verão de Hollywood amanhã com projecção de 180 milhões globais

Há um realizador português a tomar conta das noites de sábado — e não é por acaso

Ted Lasso regressa a 5 de Agosto: o treinador mais optimista da televisão vai agora gerir uma equipa feminina

A última vez que Ted Lasso apareceu no ecrã foi em Maio de 2023. Deixou Richmond, voltou para Kansas City para estar com o filho Henry, e muita gente achou — incluindo os próprios criadores, que tinham descrito a terceira temporada como o fim da história que queriam contar — que era o fim. Não era. A Apple TV+ confirmou ontem a data de regresso: 5 de Agosto de 2026, com episódios semanais às quartas-feiras até 7 de Outubro.

O teaser divulgado esta semana deixa tudo claro em pouco mais de um minuto: Ted (Jason Sudeikis) está de volta a Richmond, mas desta vez não é para gerir os homens do AFC. O seu novo desafio é a equipa feminina de segunda divisão do clube — uma premissa que foi sendo construída ao longo da terceira temporada, quando Keeley Jones propôs a Rebecca Welton a criação de uma equipa feminina. A cena sempre pareceu um fio deixado em aberto. Agora é o argumento central de toda uma temporada.

O regresso do elenco principal é confirmado: Hannah Waddingham como Rebecca, Brett Goldstein como Roy Kent, Juno Temple como Keeley, Brendan Hunt como Coach Beard e Jeremy Swift como Higgins. A estes juntam-se novos nomes, com Tanya Reynolds a assumir o papel de nova treinadora assistente. Phil Dunster, que interpretava Jamie Tartt, não regressa como regular devido a incompatibilidades de agenda — uma ausência notável, embora esperada. O papel de Henry Lasso, o filho de Ted, passa de Gus Turner para Grant Feely.

O teaser abre com Ted a cruzar uma rua de Richmond e a ser interpelado por um adepto que, num gesto de boas-vindas genuinamente britânico, comenta: “Que pena estares a treinar um bando de raparigas.” É um segundo de imagem, mas define o tom da temporada: a luta contra o sexismo casual no desporto, tratada com o humor e a humanidade que tornaram Ted Lasso na série mais improvável da última década — uma comédia sobre futebol que ganhou Emmys falando de saúde mental, amizade e como ser uma pessoa melhor. A quarta temporada promete adicionar o futebol feminino ao seu vocabulário. Para um país onde o futebol feminino tem crescido em visibilidade, isso não é detalhe menor.

Pode ver o Trailer aqui

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“A Casa dos Espíritos” no Prime Video: Isabel Allende tem finalmente a adaptação que merecia

Havia algo de errado na adaptação de 1993. Não nas intenções — o filme de Bille August era tecnicamente competente, respeitoso até — mas no elenco. Meryl Streep como Clara del Valle, Glenn Close como Férula, Winona Ryder como Blanca, Jeremy Irons como Esteban Trueba: actores excelentes, escolhas desastrosas. O romance de Isabel Allende, publicado em 1982 e há décadas considerado um dos pilares da literatura latino-americana, merecia vozes e rostos do seu próprio mundo. Trinta e três anos depois, o Prime Video entregou exactamente isso.

A Casa dos Espíritos estreia hoje na plataforma da Amazon com os três primeiros episódios, disponíveis em simultâneo em mais de 240 países e territórios. Os restantes cinco episódios serão lançados semanalmente às quartas-feiras, com o episódio final previsto para 13 de Maio. A série de oito partes é a primeira adaptação televisiva em língua espanhola do romance, filmada no Chile — exigência que as realizadoras Francisca Alegría e Fernanda Urrejola impuseram desde o início das negociações com o Prime Video e a FilmNation Entertainment, a produtora por detrás de Anora e Conclave.

A história é conhecida de quem leu o livro ou viu o filme: a saga da família Trueba ao longo de meio século numa nação sul-americana sem nome, mas inconfundivelmente Chile, onde três gerações de mulheres — Clara, Blanca e Alba — navegam entre o amor, o poder, a violência política e o realismo mágico que Allende ajudou a definir enquanto género literário. Nicole Wallace e Dolores Fonzi partilham o papel de Clara em diferentes fases da vida; Alfonso Herrera interpreta Esteban Trueba. A própria Isabel Allende é produtora executiva, ao lado de Eva Longoria e Courtney Saladino.

A recepção crítica tem sido calorosa. A Variety descreve a série como “espectacular e de partir o coração”, enaltecendo a autenticidade que vem de ser rodada em castelhano e nas paisagens que Allende descreveu. O RogerEbert.com fala de uma das adaptações literárias mais ambiciosas que o streaming prometeu e finalmente cumpriu. A série não esquiva o lado mais sombrio do romance — violência sexual, tortura, abuso doméstico — mas faz-o com a mesma seriedade com que Allende os abordou na página.

Em Portugal, onde o romance de Allende tem uma base de leitores consolidada, a chegada desta série preenche uma lacuna há muito sentida. É o tipo de produção que justifica a existência das plataformas de streaming enquanto veículo para histórias que o cinema de estúdio raramente tem paciência — e orçamento — para contar com rigor.

“O Diabo Veste Prada 2” abre o verão de Hollywood amanhã com projecção de 180 milhões globais

Vinte anos são muito tempo no cinema. São suficientes para uma geração crescer com um filme, para os seus diálogos se tornarem citações e para Miranda Priestly se instalar definitivamente no panteão dos vilões mais fascinantes da história recente. São também suficientes para que uma sequela passe de improvável a inevitável — e para que O Diabo Veste Prada 2 se transforme num dos lançamentos mais aguardados de 2026. O filme estreia amanhã nos Estados Unidos e a 30 de Abril em Portugal, mas as expectativas da indústria já estão definidas: entre 80 e 100 milhões de dólares só na América do Norte no fim-de-semana de abertura, e perto de 180 milhões a nível global — números que colocariam este regresso à Runway entre os maiores arranques do ano.

A produção da 20th Century Studios ocupa um slot de peso máximo: o primeiro fim-de-semana de Maio estava originalmente reservado a Vingadores: Juízo Final, antes de a Marvel recuar na data. Que um filme sem super-heróis nem efeitos especiais explosivos tenha tomado esse lugar diz muito sobre a confiança do estúdio. As previsões do Deadline e do Box Office Theory baseiam-se em pré-vendas que, segundo fontes do sector, duplicam as de produções comparáveis recentes — e o mercado europeu é visto como particularmente sólido, dado o desempenho histórico do primeiro filme no continente: 26 milhões de dólares no Reino Unido, 23 milhões na Alemanha, 19 milhões em Itália.

David Frankel regressa à realização, Aline Brosh McKenna ao argumento, e Meryl Streep, Anne Hathaway, Emily Blunt e Stanley Tucci regressam às suas personagens com toda a bagagem de duas décadas entretanto vividas. A história, baseada no romance A Vingança Veste Prada de Lauren Weisberger (2013), coloca Miranda Priestly a braços com o declínio da imprensa tradicional e com uma rival inesperada: Emily Charlton, a antiga assistente interpretada por Blunt, agora à frente de uma poderosa marca de luxo cujo financiamento pode salvar — ou destruir — a Runway. Incorporam o elenco pela primeira vez Justin Theroux, Kenneth Branagh e Lucy Liu. Lady Gaga e Doechii assinam em conjunto a canção original “Runway”, cuja prévia no segundo trailer reuniu mais de 185 milhões de visualizações nas primeiras 24 horas.

O primeiro filme, recorde-se, foi um fenómeno que o tempo só fez crescer. Orçado em 35 milhões de dólares, faturou mais de 326 milhões globalmente em 2006. O regresso à Runway chega curiosamente na semana do Met Gala, a grande noite da moda nova-iorquina, numa coincidência de calendário que não parece acidental. Nenhum franchise Marvel poderia ter marcado melhor o início do verão cinematográfico de 2026.

Em Portugal o filme pode ser visto a partir de amanhã ( 30 de Abril) nas salas portuguesas.

Há um realizador português a tomar conta das noites de sábado — e não é por acaso

TVCine presta homenagem a João Botelho com um ciclo obrigatório

Há nomes que não precisam de apresentação… mas merecem sempre ser revisitados. Em Maio, o TVCine Edition faz precisamente isso ao dedicar as noites de sábado a um dos realizadores mais singulares do cinema nacional: João Botelho.

O especial Celebrar João Botelho arranca a 2 de Maio e prolonga-se até ao final do mês, sempre às 22h00, reunindo cinco obras fundamentais de uma filmografia que nunca seguiu caminhos fáceis — nem quis. Mais do que uma simples retrospetiva, este ciclo é um convite a mergulhar num universo onde o cinema dialoga com a literatura, a história e a própria identidade portuguesa.

Um cinema que não se limita a contar histórias

Falar de João Botelho é falar de um autor que construiu um percurso profundamente coerente — e, ao mesmo tempo, constantemente desafiante para o espectador. O seu cinema distingue-se por uma abordagem estética rigorosa, muitas vezes próxima do teatro, onde a palavra tem tanto peso quanto a imagem.

Não há aqui concessões fáceis. Há ritmo próprio, composição cuidada e uma atenção quase obsessiva à forma. E é precisamente isso que torna este ciclo tão relevante: ver (ou rever) estes filmes hoje é perceber como Botelho continua a ocupar um lugar único no panorama cinematográfico português.

Cinco filmes, cinco portas de entrada

O ciclo abre com Tráfico (1998), um retrato duro e fragmentado da sociedade portuguesa dos anos 90, frequentemente apontado como um filme de culto. Segue-se A Mulher Que Acreditava Ser Presidente dos EUA (2003), uma obra satírica e absurda que explora a fronteira entre realidade e delírio político.

No dia 16, chega O Fatalista (2005), talvez um dos exercícios mais exigentes do realizador — uma reflexão filosófica sobre destino e livre-arbítrio, inspirada em Diderot.

A 23 de Maio, o destaque vai para O Ano da Morte de Ricardo Reis (2020), adaptação da obra de José Saramago, onde o universo literário se cruza de forma directa com o olhar cinematográfico de Botelho, num filme que respira poesia e melancolia.

O ciclo encerra com Um Filme em Forma de Assim (2022), uma proposta mais livre e ensaística, que funciona quase como uma reflexão sobre o próprio acto de fazer cinema — e sobre a memória cultural que o alimenta.

Mais do que uma homenagem — uma oportunidade rara

Num tempo em que o consumo rápido domina, este ciclo surge quase como um acto de resistência. Obriga-nos a parar, a escutar, a olhar com mais atenção. E isso, por si só, já é valioso.

Mas há mais: para quem conhece pouco a obra de João Botelho, esta é uma oportunidade perfeita para descobrir um dos autores mais consistentes do cinema português. Para quem já conhece, é um regresso que promete novas leituras.

Sábados com cinema português — como deve ser

Durante todo o mês de Maio, há um ritual que merece ser criado: sábado à noite, televisão ligada, e tempo para um cinema que não se esquece facilmente.

O especial Celebrar João Botelho está disponível no TVCine Edition e também no TVCine+.

E no meio de tantas estreias e novidades, talvez seja mesmo isto que mais importa: voltar a olhar para o que é nosso — e perceber porque continua a fazer tanto sentido.

Um amor separado pelo destino… e reunido pelo impossível

Uma conspiração global, um dilema impossível: o thriller que promete prender os espectadores ao ecrã

Como 16 Minutos Foram Suficientes Para Criar Um Monstro Imortal no Cinema

O Predador Dominante e a arte do thriller de sobrevivência sem complicações: porquê Charlize Theron é a escolha certa

Um amor separado pelo destino… e reunido pelo impossível

Um romance intenso chega aos cinemas portugueses em Maio

Há histórias de amor que seguem caminhos previsíveis… e depois há aquelas que parecem ser guiadas por algo maior. Amor em Quatro Letras promete pertencer claramente à segunda categoria, com uma narrativa que mistura paixão, fé e destino numa experiência emocional pensada para tocar o público.

O filme estreia nas salas portuguesas a 7 de Maio, com um elenco de luxo liderado por Pierce Brosnan, Helena Bonham Carter e Gabriel Byrne. Realizado por Polly Steele e baseado na obra do escritor Niall Williams, o filme aposta num tom sensível e intemporal, onde o amor não é apenas um sentimento — é uma força que resiste ao tempo e à adversidade.

Quando o amor não segue o caminho mais fácil

No centro da história estão Nicholas e Isabel, duas almas que parecem destinadas uma à outra… mas que são constantemente separadas pelas circunstâncias da vida.

Tudo começa com uma decisão inesperada: William, o pai de Nicholas (interpretado por Pierce Brosnan), abandona a família após uma alegada revelação divina que o leva a dedicar-se à pintura. Este momento transforma por completo o equilíbrio familiar e marca profundamente o percurso do jovem protagonista.

Do outro lado, Isabel cresce numa pequena ilha, envolta num ambiente familiar rico em música e poesia. No entanto, a harmonia é quebrada por uma tragédia devastadora que obriga a sua família a tomar uma decisão difícil: enviá-la para o continente, afastando-a de tudo o que conhece.

Separados pelo destino, Nicholas e Isabel seguem caminhos marcados por perda, desencontros e amores falhados… até que, como em todas as grandes histórias, o destino decide intervir novamente.

Fé, família e destino: os pilares de uma história emocional

Amor em Quatro Letras não é apenas mais um romance — é um filme que explora temas profundos e universais. A fé surge como elemento central, não apenas no gesto radical do pai de Nicholas, mas também na forma como as personagens lidam com a dor, a perda e a esperança.

A família, por sua vez, é apresentada como uma força simultaneamente estruturante e imprevisível, capaz de unir… mas também de separar. E no meio de tudo isto, o destino surge quase como uma entidade invisível, a puxar os fios de uma história que parece sempre à beira de se desencontrar.

Um elenco que dá corpo à emoção

Com nomes como Pierce Brosnan, Helena Bonham Carter e Gabriel Byrne, o filme ganha uma dimensão adicional. São actores com carreiras sólidas, habituados a navegar entre o drama e a intensidade emocional — e aqui colocam essa experiência ao serviço de uma narrativa delicada, mas poderosa.

A realização de Polly Steele aposta numa abordagem mais contemplativa, privilegiando os momentos de silêncio, os olhares e os pequenos gestos que dizem mais do que qualquer diálogo.

Um encontro marcado com o destino

Com estreia marcada para 7 de Maio e distribuição da NOS Audiovisuais, Amor em Quatro Letras apresenta-se como uma proposta ideal para quem procura um romance com substância, longe dos clichés mais previsíveis.

Mais do que uma história de amor, este é um filme sobre o tempo, as escolhas e aquilo que nos liga — mesmo quando tudo parece empurrar-nos em direcções opostas.

E no final, fica a pergunta inevitável: será que o amor verdadeiro encontra sempre o caminho de volta?

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Uma conspiração global, um dilema impossível: o thriller que promete prender os espectadores ao ecrã

Uma estreia carregada de tensão chega ao pequeno ecrã

Há filmes que se limitam a entreter… e depois há aqueles que nos colocam perante escolhas impossíveis. Canary Blackparece querer pertencer claramente ao segundo grupo. O novo thriller de ação protagonizado por Kate Beckinsale estreia no dia 1 de Maio, às 21h30, no TVCine Top, com promessa de uma noite intensa e cheia de adrenalina.

No centro da narrativa está Avery Graves, uma agente de elite da CIA que vê a sua vida pessoal colapsar quando o marido é sequestrado por um grupo terrorista. A partir desse momento, o que parecia ser mais uma missão transforma-se num jogo perigoso onde confiança é uma palavra praticamente inexistente. Para salvar quem ama, Avery é forçada a entrar no submundo do crime e a recuperar um misterioso ficheiro conhecido como “Canary Black” — um elemento que poderá ter consequências devastadoras à escala global.

Entre o amor e o dever: quando cada decisão pode custar milhões de vidas

A força de Canary Black reside precisamente no seu dilema central: até onde estamos dispostos a ir por quem amamos? E qual é o preço disso quando o destino de milhões de pessoas está em jogo?

Avery encontra-se isolada, traída e constantemente manipulada por forças que parecem sempre um passo à frente. À medida que a conspiração se desenrola, a protagonista percebe que não é apenas uma peça no jogo — é o próprio epicentro de algo muito maior. Esta constante sensação de desconfiança e urgência transforma o filme numa corrida contra o tempo, onde cada escolha pode ser fatal.

Este tipo de construção narrativa, que mistura espionagem com drama pessoal, tem sido uma das fórmulas mais eficazes do género — e aqui surge reforçada pela intensidade física e emocional exigida à protagonista.

Um realizador habituado à ação e um elenco de peso

Por trás das câmaras está Pierre Morel, um nome bem conhecido dos fãs de cinema de ação. Responsável por títulos como Taken (Busca Implacável) e From Paris with Love, Morel traz consigo uma assinatura marcada por ritmo acelerado, sequências explosivas e uma narrativa directa, sem grandes desvios.

Ao lado de Kate Beckinsale, o elenco inclui Rupert Friend, Ray Stevenson e Ben Miles, reforçando a solidez de um projecto que aposta tanto na acção como na densidade dramática.

Beckinsale, habituada a papéis fisicamente exigentes (basta lembrar a saga Underworld), assume aqui novamente o papel de mulher resiliente e determinada, numa performance que promete combinar vulnerabilidade emocional com força implacável.

Um serão de pura adrenalina

Com cenários internacionais, perseguições intensas e uma narrativa cheia de reviravoltas, Canary Black apresenta-se como uma escolha certeira para quem procura um thriller sólido, sem perder o lado humano da história.

Mais do que uma simples missão, o filme constrói um retrato de sobrevivência num mundo onde as fronteiras entre o certo e o errado são cada vez mais difusas. E é precisamente nesse território ambíguo que o filme parece encontrar a sua maior força.

A estreia acontece já a 1 de Maio, não só no TVCine Top, mas também na plataforma TVCine+, garantindo acesso imediato a um dos thrillers mais promissores desta temporada televisiva.

Como 16 Minutos Foram Suficientes Para Criar Um Monstro Imortal no Cinema
O Predador Dominante e a arte do thriller de sobrevivência sem complicações: porquê Charlize Theron é a escolha certa
CANNESERIES encerra hoje a 9.ª edição: o festival de séries da Croisette que merecia mais atenção

Carla Simón preside ao júri de curtas de Cannes 2026: a realizadora de “Alcarràs” no coração do festival

Faltam duas semanas para o arranque do 79.º Festival de Cannes, marcado para 12 de Maio, e as peças vão tomando o seu lugar. Hoje, o festival confirmou que Carla Simón presidirá ao júri das curtas-metragens e da secção La Cinef — a mais jovem das suas competições, dedicada a filmes de escolas de cinema de todo o mundo. É uma escolha com uma lógica impecável: Simón ganhou o Urso de Ouro em Berlim por Alcarràs em 2022, esteve em Competição em Cannes no ano passado com Romería, e é uma das vozes mais reconhecidas do cinema ibérico contemporâneo. O júri inclui ainda a actriz sul-coreana Park Ji-Min, o realizador iraniano Ali Asgari, o actor francês Salim Kechiouche e o realizador sueco Magnus von Horn.

Em paralelo, a Promoção Europeia de Cinema (EFP) revelou os 20 produtores seleccionados para a 27.ª edição do programa Producers on the Move, que decorre durante o festival. O grupo inclui dois produtores ligados a títulos da Selecção Oficial: a austríaca Lixi Frank, produtora de Everytime de Sandra Wollner — em Un Certain Regard — e co-produtora de The Dreamed Adventure de Valeska Grisebach, em Competição; e o italiano Stefano Centini, na equipa de Death Has No Master de Jorge Thielen Armand, nas Jornadas dos Cineastas. O programa é um dos mais respeitados instrumentos de networking da indústria europeia, e a selecção de 2026 reflecte, segundo o próprio EFP, “um foco assinalável na narrativa conduzida por mulheres”.

A Selecção Oficial deste ano, anunciada a 9 de Abril, tem Park Chan-wook como presidente do júri da Competição — o realizador de Oldboy e Decisão de Partir na mais alta função que Cannes atribui a um cineasta convidado. O festival abre com The Electric Kiss de Pierre Salvadori e inclui a atribuição de duas Palmas de Ouro honoríficas: a Peter Jackson e a Barbra Streisand. O poster oficial desta edição reproduz Geena Davis e Susan Sarandon no set de Thelma & Louise(1991), trinta e cinco anos depois de o filme de Ridley Scott ter estreado precisamente em Cannes.

Para o cinema português e ibérico, Cannes 2026 chega num momento de visibilidade crescente, com a presença de Carla Simón num papel de destaque a confirmar que o cinema da Península mantém um lugar sólido no mapa do festival mais influente do mundo.

“O Diabo Veste Prada 2” abre o verão de Hollywood amanhã com projecção de 180 milhões globais
Há um realizador português a tomar conta das noites de sábado — e não é por acaso
“A Casa dos Espíritos” no Prime Video: Isabel Allende tem finalmente a adaptação que merecia

Como 16 Minutos Foram Suficientes Para Criar Um Monstro Imortal no Cinema

Há um dado que continua a surpreender, mesmo para quem já viu The Silence of the Lambs dezenas de vezes: Anthony Hopkins aparece em cena durante pouco mais de 16 minutos. Não é uma figura omnipresente, não domina o tempo de ecrã, nem sequer conduz a narrativa no sentido clássico. E, no entanto, quando pensamos no filme, tudo converge inevitavelmente para ele. O Dr. Hannibal Lecter não é apenas uma personagem marcante — é a presença que contamina o filme inteiro, mesmo quando não está lá.

O que torna isto verdadeiramente fascinante é que essa intensidade não nasce de um processo pesado ou de uma construção académica da personagem. Hopkins nunca escondeu que abordou o papel de forma quase desarmantemente simples. Em vez de mergulhar durante meses em estudos sobre psicopatia ou de adoptar um método de imersão total, fez algo muito mais directo: decorou o texto de forma obsessiva e apareceu preparado para o dizer com precisão. O resto aconteceu no momento.

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Há detalhes que ajudam a perceber essa construção aparentemente espontânea. A imobilidade quase absoluta de Lecter — aquele corpo que parece nunca desperdiçar energia — nasceu da observação de répteis. Hopkins viu lagartos num jardim zoológico e ficou impressionado com a forma como permaneciam quietos, atentos, prontos para agir. Transportou essa qualidade para a personagem, criando uma presença que inquieta precisamente porque não reage como um ser humano comum. Ao mesmo tempo, procurou uma referência vocal inesperada: HAL 9000, o computador de 2001: A Space Odyssey. A voz calma, controlada, quase mecânica, serviu de base para aquele tom educado e assustador que nunca precisa de subir para se impor.

E depois há o pormenor que se tornou lendário: o som sibilante na fala dos “fava beans”. Não estava no guião, não foi planeado com antecedência, não resultou de qualquer método elaborado. Surgiu ali, no momento, como um impulso. Esse instante — que podia facilmente ter sido descartado — acabou por se transformar num dos gestos mais reconhecíveis da história do cinema.

Talvez seja aqui que reside o verdadeiro enigma de Anthony Hopkins. Numa indústria que tantas vezes valoriza o sofrimento, o excesso de preparação e a ideia de que grandes desempenhos exigem grandes sacrifícios, ele segue uma lógica quase oposta. Não há romantização do processo, nem a necessidade de transformar cada papel numa prova de resistência emocional. Há, isso sim, uma confiança absoluta na técnica — saber o texto, compreender o ritmo — e depois uma disponibilidade total para o que surgir no momento da filmagem.

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Essa abordagem não é fruto de desleixo, como por vezes se poderia pensar, mas sim de uma disciplina muito particular. Hopkins sempre falou da importância da memorização como base do seu trabalho. Saber as falas ao detalhe permite-lhe libertar-se durante a performance, reagir, ajustar, encontrar nuances que não estavam planeadas. É uma espécie de paradoxo: quanto mais controlada é a preparação, mais livre se torna a execução.

O contraste com o chamado method acting é inevitável. Enquanto muitos actores procuram desaparecer dentro da personagem através de processos longos e, por vezes, extenuantes, Hopkins faz quase o contrário: mantém uma distância clara, não tenta “ser” a personagem fora de cena e evita prolongar o trabalho para além do necessário. Para ele, a interpretação acontece ali, naquele espaço delimitado, entre o “acção” e o “corta”. E é precisamente essa leveza que dá às suas performances uma naturalidade difícil de replicar.

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Nada disto significa que o percurso tenha sido simples. Antes de alcançar o estatuto que hoje lhe é reconhecido, Hopkins passou por um período profundamente instável, marcado pelo alcoolismo e por uma sensação constante de descontrolo. Nos anos 70, quando a carreira começava a ganhar forma, essa luta pessoal ameaçou deitar tudo a perder. O ponto de viragem surgiu em 1975, quando acordou num quarto de hotel no Arizona sem qualquer memória de como lá tinha chegado. Esse episódio tornou-se decisivo: abandonou o álcool de forma definitiva e passou a encarar tudo o que veio depois como uma segunda vida.

É nessa segunda fase que surgem alguns dos seus trabalhos mais marcantes. De The Remains of the Day a The Father, onde interpreta um homem a perder-se na própria mente, há uma consistência impressionante na forma como constrói personagens profundamente humanas sem nunca parecer que está a “mostrar serviço”. Há sempre contenção, precisão, uma economia de gestos que torna cada olhar ou cada pausa mais significativa.

No caso de Hannibal Lecter, essa economia atinge um nível quase desconcertante. Não há explosões emocionais, não há grandes discursos inflamados. Há silêncio, controlo e uma sensação permanente de que tudo está a ser calculado. E talvez seja precisamente por isso que a personagem continua a ser tão perturbadora: porque nunca nos oferece o alívio de uma explicação ou de uma emoção evidente.

No fim, o impacto daqueles 16 minutos não se explica apenas pelo talento de Anthony Hopkins, mas pela forma como ele encara o próprio acto de representar. Sem excessos, sem mitologias desnecessárias, sem transformar o trabalho num ritual pesado. Apenas preparação, atenção e a capacidade rara de confiar no momento.

E, pelos vistos, isso chega — e sobra — para entrar na história do cinema.

Silêncio dos Inocentes pode ser visto ou revisto no Prime Video.

O Predador Dominante e a arte do thriller de sobrevivência sem complicações: porquê Charlize Theron é a escolha certa

Há um tipo de cinema que Hollywood tem vindo a esquecer com alguma consistência: o thriller de aventura que não precisa de ser um evento cultural para justificar a sua existência. Um filme que sabe exactamente o que é, que respeita a inteligência do espectador sem o sobrecarregar de explicações, e que confia no poder das localizações e dos actores para fazer o trabalho pesado. Apex, o novo filme de Baltasar Kormákur agora disponível na Netflix, pertence a essa tradição — e é melhor do que provavelmente merecia ser.

A sequência de abertura estabelece o tom com uma precisão que o resto do filme vai honrar. Sasha (Charlize Theron) e Tommy (Eric Bana) acordam numa tenda afixada a noventa graus numa parede rochosa, com apenas o vazio por baixo. É uma imagem que diz tudo sobre estas duas personagens sem precisar de uma linha de diálogo: são pessoas que normalizaram o risco como condição de vida. Kormákur — que fez Everest e Adrift e conhece bem este território — filma a cena com a sobriedade de quem sabe que a grandiosidade já está lá, não precisa de ser forçada. O argumento de estreia de Jeremy Robbins pulsa com um respeito genuíno pela natureza que raramente se vê neste género, e é isso que distingue a abertura de Apex de tantos outros thrillers de sobrevivência que tentam a mesma coisa.

Quando a história se transfere para a Austrália e Sasha, em luto e em busca de solidão, embarca numa travessia solitária de kayak pelo interior, o filme muda de registo mas mantém a disciplina. A apresentação de Ben (Taron Egerton) é deliberadamente ambígua — um habitante local que conhece a zona como a palma da mão, simpático, prestável, ligeiramente inquietante. Egerton, conhecido de Kingsman e Carry-On, encontra aqui um papel que lhe permite trabalhar contra o seu charme natural de formas interessantes: os olhos vivamente loucos e o grito maníaco que vai emergindo à medida que o filme avança são a marca de uma construção de personagem cuidada, não de excesso.

Theron, por sua vez, está no seu elemento. A actriz sul-africana tem construído ao longo de uma carreira a reputação de alguém que não finge fazer coisas fisicamente exigentes — faz-as mesmo. Em Apex, isso nota-se em cada plano: há uma qualidade de esforço real nas cenas de escalada e de água que nenhuma pós-produção consegue simular completamente. Quando Sasha se move através das ravinas e rápidos do interior da Nova Gales do Sul, a câmara acompanha-a com a consciência de que está a filmar alguém que treinou genuinamente para isto, e não uma estrela a pousar em frente a um fundo verde.

O filme tem as suas limitações, e é honesto assumi-las. A história dos dois protagonistas existe apenas em linhas largas — sabe-se o suficiente para investir emocionalmente, mas não muito mais. Em certos momentos, a estrutura de perseguição acusa alguma repetição. Estas são as concessões que Apex faz para manter o ritmo e a temperatura — e são concessões que fazem sentido. Kormákur está mais interessado em adrenalina branca do que em psicologia elaborada, e o resultado é um filme que se vê de uma assentada com o coração ligeiramente acelerado, o que é, afinal, exactamente o que promete.

Na tradição dos grandes thrillers de aventura ao ar livre — de Cliffhanger a The River Wild, de Free Solo à obra do próprio Kormákur — Apex lembra que às vezes basta confiar no terreno, nos actores e na câmara. A Netflix tem aqui um dos títulos mais satisfatórios do seu catálogo de acção em 2026. Simples, eficaz, bem executado. Às vezes isso é tudo o que um fim de semana precisa.

CANNESERIES encerra hoje a 9.ª edição: o festival de séries da Croisette que merecia mais atenção

Cannes 2026: Park Chan-wook preside ao júri, Almodóvar e James Gray na corrida à Palma de Ouro
Jason Statham e David Ayer Voltam a Juntar-se em John Doe — Um Homem Sem Memória e Sem Nome Para o Mercado de Cannes
Jackass: Último Shot de Loucura Já Tem Trailer — e Johnny Knoxville Promete uma Despedida à Altura

CANNESERIES encerra hoje a 9.ª edição: o festival de séries da Croisette que merecia mais atenção

Hoje fecha as portas a nona edição do CANNESERIES, o Festival Internacional de Séries de Cannes que desde 2018 ocupa a Croisette uma semana antes da Palma de Ouro entrar em cena. De 23 a 28 de abril, o Palais des Festivals acolheu profissionais da indústria e público geral numa programação que incluiu longas-séries, curtas-séries e documentários serializados em competição, com cerimónias de abertura e encerramento separadas.

A edição arrancou com uma nota de prestígio: Jisoo, membro dos BLACKPINK e atriz em crescendo com séries como SnowdropNewtopia e o mais recente Boyfriend on Demand da Netflix, recebeu o prémio Madame Figaro Rising Star Award na cerimónia de abertura. Foi um momento de euforia no auditório — a estrela K-pop agradeceu “em inglês e com um merci” ao público presente — e um sinal da internacionalização crescente do evento. Adam Scott, por sua vez, recebeu o Canal+ Icon Award durante o festival, marcando presença acompanhado pela mulher Naomi.

A Air France estreou este ano o seu próprio prémio no festival — o Air France Travelers’ Choice Award — dedicado à série da edição anterior com melhor performance a bordo dos seus voos, medida por dados reais de visualização dos passageiros. É uma novidade que diz muito sobre como os festivais de séries procuram novas formas de medir impacto e relevância cultural para além dos júris tradicionais.

O CANNESERIES tem uma posição curiosa no calendário da indústria: não tem a visibilidade dos Emmy nem o prestígio artístico da competição principal de Cannes, mas posiciona-se como um espaço de descoberta de produções internacionais que de outra forma dificilmente chegariam ao radar do público europeu. O formato competitivo distribui prémios em categorias como Melhor Série, Melhor Argumento, Melhor Interpretação e Prémio do Público, com um júri renovado a cada edição.

Para o leitor português, o CANNESERIES é também um barómetro útil: as séries aqui distinguidas costumam aparecer em plataformas europeias nos meses seguintes. A edição de hoje termina com a cerimónia de encerramento e a revelação do palmarès completo, ainda a aguardar divulgação pública no momento desta publicação. O Festival de Cannes Cinema arranca a 12 de maio, a poucos quilómetros e numa outra escala de atenção mediática — mas o mês de Cannes começa, afinal, hoje.

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Faltam duas semanas para a abertura da 79.ª edição do Festival de Cannes e o entusiasmo já se sente na Croisette. A seleção oficial foi anunciada a 9 de abril por Thierry Frémaux e pela presidente Iris Knobloch, mas nas últimas semanas continuaram a cair confirmações importantes — a mais aguardada das quais foi a de Paper Tiger, de James Gray, que entra na competição oficial depois de semanas de suspense público. Frémaux havia deixado a dica em conferência de imprensa: “Há um filme de que vão dizer ‘ah, não está cá!’ Mas vai estar, eu garanto.” Estava. O thriller nova-iorquino, com Adam Driver, Scarlett Johansson e Miles Teller, será a sexta vez de Gray em competição em Cannes.

A seleção deste ano é assumidamente dominada por autores internacionais: Asghar Farhadi, Pedro Almodóvar, Hirokazu Kore-eda, Paweł Pawlikowski, László Nemes e Ryusuke Hamaguchi estão todos em competição, representando um regresso às origens cinéfilas do festival depois de uma edição 2025 marcada por uma forte presença de Hollywood. Ira Sachs é o único realizador americano em competição com The Man I Love, musical fantástico com Rami Malek centrado na crise de VIH nos anos 80 em Nova Iorque. Almodóvar apresenta Bitter Christmas, o único filme da seleção que já teve estreia mundial antes do festival.

A cerimónia de abertura, a 12 de maio, acontece com La Vénus Électrique de Pierre Salvadori — uma comédia romântica burlesca passada no início do século XX em Paris, com Pio Marmai e Gilles Lellouche. A mesma noite, o filme exibe-se simultaneamente em cinemas de toda a França. O cartaz oficial desta edição é uma homenagem a Thelma & Louise, trinta e cinco anos depois de a dupla ter estreado na Croisette — em 1991, com Ridley Scott — antes de chegar aos cinemas de todo o mundo.

Do lado do júri, a escolha de Park Chan-wook como presidente é um sinal claro da orientação artística desta edição. O realizador coreano, cujo trabalho mais recente — No Other Choice — chegou ao Hulu poucas semanas atrás, está a preparar simultaneamente o seu próximo projeto no mercado do festival, o que torna a sua presença em Cannes ainda mais movimentada do que o habitual.

O mercado, que decorre de 12 a 20 de maio em paralelo com a competição, já deu sinais de efervescência, com projetos ambiciosos a surgir antes da abertura oficial. Para além do western de Park Chan-wook, chega ao mercado Margot & Rudi, sobre o romance e a parceria artística entre Margot Fonteyn e Rudolf Nureyev, com Naomi Watts e o bailarino ucraniano Alexandr Trush. O festival e o mercado juntos fazem de Cannes, como sempre, o momento mais intenso do calendário cinematográfico europeu. Para o público português, a presença de Almodóvar — cujo cinema nunca precisou de legenda emocional por estas bandas — é razão suficiente para acompanhar o que se passa na Croisette nas próximas semanas.

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