Portugal, 1979. Quatro raparigas. Uma banda. E um país que nunca mais foi o mesmo.
Se cresceste em Portugal ou se simplesmente já ouviste falar das Doce — e é difícil não ter ouvido —, então Bem Bom é o filme que estavas à espera de ver na televisão. E chega este domingo, dia 19 de Abril, às 20h35, no Canal Cinemundo.
Realizado por Patrícia Sequeira, o filme conta a história de como quatro jovens foram recrutadas para formar uma girl band numa época em que esse conceito nem sequer existia em Portugal. Elas sabiam cantar, dançavam como ninguém e — atenção — escandalizavam o país. Em 1979. Com tudo o que isso significava.
O resultado? Tornaram-se num fenómeno de popularidade sem precedentes na música portuguesa. As Doce foram, antes de existir essa expressão, as primeiras verdadeiras estrelas pop portuguesas.
No ecrã, a história ganha vida com um elenco de luxo nacional: Bárbara Branco, Lia Carvalho, Carolina Carvalho e Ana Marta Ferreira entram na pele das quatro raparigas com uma energia contagiante que faz jus ao legado do grupo. É o tipo de filme que te faz querer ligar a seguir ao pai ou à mãe e perguntar “tu lembravas-te delas?”
Numa época em que toda a gente fala de biopics americanos sobre bandas lendárias, é bom — é muito bom — lembrar que Portugal também tem as suas histórias para contar. E esta merece ser vista em família, no sofá, com o volume bem alto.
Domingo, 19 de Abril, 20h35, Canal Cinemundo. Prepara a nostalgia.
Lisboa prepara-se novamente para mergulhar numa das celebrações cinematográficas mais vibrantes da Europa. A 23.ª edição do IndieLisboa promete não apenas uma programação robusta, mas uma verdadeira experiência cultural que ultrapassa as salas de cinema e invade a cidade com propostas ousadas, íntimas e profundamente contemporâneas.
A abrir o festival, no dia 30 de Abril no Cinema São Jorge, estará The Loneliest Man in Town, o mais recente trabalho de Tizza Covi e Rainer Frimmel, dupla que já deixou marca no festival ao vencer o Prémio de Distribuição em 2010. Este filme coloca-nos perante um bluesman à beira de perder tudo — incluindo a casa onde vivem as suas memórias — e levanta uma questão simples, mas devastadora: o que resta quando tudo desaparece?
No encerramento, a 10 de Maio, o festival vira-se para um registo completamente distinto com The History of Concrete, estreia em longa-metragem de John Wilson. A premissa, à partida improvável, revela a identidade do IndieLisboa: um documentário sobre betão inspirado em workshops de comédias românticas. É nesta liberdade criativa que o festival encontra a sua essência.
Mas é na Competição Nacional que o pulso do cinema português se sente com maior intensidade. Com 29 filmes em competição, esta secção apresenta um panorama plural, onde novas vozes convivem com realizadores já consolidados. Obras como Cochena, de Diogo Allen, ou Fordlândia Panacea, de Susana de Sousa Dias, exploram territórios íntimos e históricos, enquanto títulos como Fractais Tropicais ou Kiss And Be Friends revelam um cinema inquieto, atento ao presente e às suas tensões.
Também nas curtas-metragens se nota uma vitalidade impressionante, com a maior selecção de sempre nesta categoria. São 21 obras que percorrem diferentes estilos e sensibilidades, desde o ambiente tenso de um spa salino em A Solidão dos Lagartos até reflexões sobre memória, identidade e culpa.
A Competição Internacional não fica atrás e apresenta uma selecção marcada por conflitos íntimos e universos interiores complexos. Filmes como Dry Leaf ou Blue Heron exploram relações familiares e deslocações emocionais, enquanto Barrio Triste mergulha na marginalidade urbana com uma energia quase documental. Há aqui uma clara aposta em narrativas que recusam soluções fáceis e que colocam o espectador num espaço de desconforto produtivo.
Outras secções reforçam a diversidade do festival. A Silvestre continua a apostar na irreverência estética e narrativa, com propostas que desafiam as convenções do cinema tradicional, enquanto o Rizoma se assume como um espaço de encontro entre cinema, actualidade e figuras incontornáveis do panorama internacional — incluindo nomes como Isabelle Huppert ou Sandra Hüller.
Já a secção Novíssimos volta a dar palco a novos talentos, revelando o futuro do cinema português através de olhares frescos e experimentais. É aqui que nascem muitas das vozes que irão marcar o cinema nos próximos anos.
Mas o IndieLisboa nunca foi apenas sobre filmes. A edição de 2026 reforça essa identidade com iniciativas como o Cinema na Piscina — uma experiência única que junta cinema e água — e eventos nocturnos como o IndieByNight, que transformam Lisboa num verdadeiro epicentro cultural.
A acessibilidade também ganha um papel central este ano, com um reforço significativo de recursos através da parceria com a Fundação MEO. Legendagem descritiva, audiodescrição e interpretação em Língua Gestual Portuguesa passam a fazer parte integrante da experiência, tornando o festival mais inclusivo do que nunca.
No fundo, o IndieLisboa continua a afirmar-se como muito mais do que um festival: é um espaço de descoberta, de confronto e de celebração do cinema enquanto arte viva. Um evento que não tem medo de arriscar — e que convida o público a fazer o mesmo.
Estreou a 12 de Fevereiro… e rapidamente desapareceu das salas
O documentário La Vie de Maria Manuela estreou nas salas portuguesas a 12 de Fevereiro, mas a sua passagem pelo grande ecrã foi tudo menos longa. Apenas uma semana depois, o filme já tinha saído de praticamente todos os cinemas onde estava em exibição, mantendo-se apenas no Cinema City de Alvalade, em Lisboa.
A produção centra-se na influencer portuguesa conhecida como La Vie de Marie — nome artístico de Maria Manuela — que soma cerca de 209 mil seguidores no Instagram e que também participou no Big Brother Famosos em 2022.
O projecto contou com um apoio estatal de 40 mil euros, atribuído pelo Instituto do Cinema e Audiovisual, o que desde logo colocou o filme sob maior escrutínio público.
Retirada não partiu da produtora
Segundo informações avançadas pelo jornal Correio da Manhã, a retirada do documentário dos cartazes não foi uma decisão da produtora Promenade, mas sim dos próprios exibidores.
Em declarações ao jornal, a produtora explicou que gostaria que o filme tivesse permanecido mais tempo em exibição e salientou que os números não foram negligenciáveis: em nove salas, registou 1.148 espectadores na primeira semana.
Em termos de receita bruta, o documentário arrecadou cerca de cinco mil euros na semana de estreia — um valor modesto, sobretudo tendo em conta o investimento público envolvido, mas que a produtora considera interessante dentro do contexto de exibição limitada.
A empresa acrescentou ainda que, com a forte concorrência de estreias semanais e a aproximação da temporada dos Óscares, compreende que os exibidores tenham optado por dar prioridade a outros títulos.
Sessões especiais e futuro em VOD
Apesar da saída das salas comerciais, La Vie de Maria Manuela não desaparece por completo. Estão previstas sessões especiais em várias cidades, incluindo o Cinema Fernando Lopes (21 de Fevereiro), Castelo Branco (24 de Fevereiro) e Póvoa do Varzim — terra natal da influencer — a 8 de Março, entre outras exibições pontuais ao longo dos próximos meses.
O objectivo passa também por levar o filme a cineclubes e, posteriormente, às plataformas de vídeo on demand (VOD), onde poderá encontrar um público diferente do das salas tradicionais.
Um retrato íntimo de autodescoberta
Filmado ao longo de quatro anos por uma amiga próxima, o documentário acompanha Maria Manuela na sua jornada de autodescoberta, criatividade e afirmação pessoal. A sinopse descreve-a como uma jovem artista destemida que recusa conformar-se, mostrando os altos e baixos da procura pelo seu lugar no mundo.
Para além da protagonista, o filme inclui participações de figuras conhecidas do público português, como Cristina Ferreira, Miguel Azevedo, Tanya, Carla Belchior e Marta Gomes.
A curta permanência em cartaz reacende o debate sobre a sustentabilidade do cinema documental em Portugal, a eficácia dos apoios públicos e a dificuldade de competir num mercado saturado de estreias semanais.
Entre polémicas, números modestos e sessões especiais, uma coisa é certa: mesmo fora das salas comerciais, La Vie de Maria Manuela ainda não disse a última palavra.
Uma semana, sete filmes e um compromisso claro com o futuro do cinema nacional
Há decisões que não são apenas simbólicas — são estruturais. A inauguração da Sala de Cinema Português nos Cinemas NOS Amoreiras, marcada para 12 de Fevereiro, é uma dessas decisões. Pela primeira vez, um grande complexo comercial em Lisboa passa a ter uma sala dedicada de forma permanente ao cinema português, afirmando-se como casa regular da produção nacional e não apenas como palco ocasional de excepções .
Para assinalar este momento, a NOS preparou um ciclo inaugural com um conceito simples e eficaz: “7 dias, 7 filmes”, de 12 a 18 de Fevereiro, apresentando sete obras portuguesas que vão estrear comercialmente ao longo de 2026. Não se trata de um olhar para o passado, mas de uma aposta clara no presente e no futuro do cinema feito em Portugal.
Um ciclo que mostra a diversidade do cinema português contemporâneo
O alinhamento escolhido para esta semana inaugural funciona quase como um retrato em miniatura do cinema nacional actual: diferentes géneros, diferentes sensibilidades e diferentes gerações de realizadores, reunidos num mesmo espaço e com o mesmo objectivo — chegar ao público.
Os filmes que integram o ciclo são:
O Entroncamento, de Pedro Cabeleira
O Barqueiro, de Simão Cayatte
Projecto Global, de Ivo M. Ferreira
Pai Nosso – Os Últimos Dias de Salazar, de José Filipe Costa
Maria Vitória, de Mário Patrocínio
Match, de Duarte Neves
Terra Vil, de Luís Campos
Sete filmes, sete olhares, sete propostas distintas que demonstram como o cinema português contemporâneo está longe de ser monolítico — e como merece espaço regular nas salas comerciais.
Cinema português… com criadores presentes
Outro dos aspectos mais relevantes desta iniciativa é a presença de realizadores e membros do elenco nas sessões, promovendo conversas com o público após as exibições. Estes momentos de proximidade são fundamentais para criar uma relação mais directa entre quem faz os filmes e quem os vê, algo que o cinema português raramente consegue em contexto de exibição comercial regular.
Mais do que eventos pontuais, estas sessões reforçam a ideia de que esta sala não é um gesto decorativo, mas um espaço vivo, pensado para fomentar diálogo, curiosidade e fidelização de público.
Uma aposta que não fica por aqui
O ciclo inaugural é apenas o começo. A partir de agora, os Cinemas NOS Amoreiras passam a integrar uma rede de salas com programação diária de cinema português, juntando-se aos Cinemas NOS Alameda Shopping e ao Cinemas NOS Alma Shopping.
Segundo Nuno Aguiar, director da NOS Cinemas, esta iniciativa sublinha o papel activo da empresa na criação de um ecossistema cultural mais forte, diverso e sustentável, onde o cinema nacional deixa de ser uma nota de rodapé e passa a ter visibilidade contínua.
Um passo necessário — e há muito esperado
Durante décadas, falou-se da dificuldade do cinema português em encontrar espaço nas salas. Esta iniciativa não resolve todos os problemas, mas ataca um dos mais antigos: a falta de continuidade. Uma sala permanente muda hábitos, cria rotinas e permite que os filmes encontrem o seu público com tempo — algo essencial para qualquer cinematografia.
De 12 a 18 de Fevereiro, o ciclo 7 dias, 7 filmes inaugura oficialmente esta nova fase. A partir daí, o cinema português passa a ter, nas Amoreiras, algo que sempre lhe faltou: uma casa fixa.
Uma maratona inédita revisita a obra de um dos maiores cineastas portugueses
No domingo, 8 de Fevereiro, o TVCine Edition dedica mais de 24 horas consecutivas à obra de João Canijo, numa maratona cinematográfica sem precedentes na televisão portuguesa. Intitulada Maratona João Canijo: Quatro Décadas de Cinema, esta retrospetiva surge como uma homenagem sentida a um realizador que marcou de forma indelével o cinema nacional e que faleceu a 29 de Janeiro, aos 68 anos.
Ao longo de um dia inteiro — da madrugada de domingo até às primeiras horas de segunda-feira — serão exibidos 13 filmes que percorrem praticamente toda a filmografia de Canijo. Em paralelo, os títulos estarão igualmente disponíveis no TVCine+, permitindo aos espectadores reverem — ou descobrirem pela primeira vez — uma obra exigente, incómoda e profundamente ligada à realidade social portuguesa.
Um cinema de realismo, conflito e identidade
Com uma carreira iniciada no final dos anos 80, João Canijo afirmou-se como uma das vozes mais consistentes e rigorosas do cinema português contemporâneo. O seu cinema nunca procurou o conforto nem a evasão fácil. Pelo contrário, construiu-se a partir de um olhar atento sobre as tensões familiares, os conflitos de classe, a precariedade económica e os silêncios morais que atravessam a sociedade portuguesa.
A retrospetiva do TVCine destaca precisamente essa coerência artística. Desde Três Menos Eu (1988), o primeiro filme exibido na maratona, até ao díptico Mal Viver e Viver Mal (2023), vencedor do Urso de Prata – Prémio do Júri no Festival de Berlim, a obra de Canijo revela um cineasta que nunca virou o rosto aos lados mais desconfortáveis do país que filmou.
Cópias restauradas e a versão definitiva de
Noite Escura
Um dos aspectos mais relevantes desta maratona é a exibição de cópias restauradas pela Cinemateca Portuguesa, garantindo uma experiência visual fiel à intenção original do realizador. No caso de Noite Escura (2004), será apresentada a versão longa, correspondente à versão final desejada por Canijo aquando do processo de restauro — um detalhe particularmente significativo para cinéfilos e estudiosos da sua obra.
Filmes como Sapatos Pretos, Ganhar a Vida, Sangue do Meu Sangue ou Fátima regressam assim ao pequeno ecrã com uma nova vida, reforçando a actualidade de um cinema que continua a dialogar com o presente.
As mulheres no centro do olhar de Canijo
Outro traço fundamental da filmografia de João Canijo, amplamente representado nesta maratona, é a centralidade das personagens femininas. Ao longo de décadas, o realizador construiu retratos densos e complexos de mulheres confrontadas com estruturas de poder, sobrevivência e identidade, recusando estereótipos e simplificações.
Essa abordagem atingiu um dos seus pontos mais altos com Mal Viver e Viver Mal, dois filmes que se complementam e se confrontam, oferecendo diferentes pontos de vista sobre as mesmas dinâmicas familiares e sociais. Uma espécie de síntese madura de um cinema que sempre se construiu a partir do conflito e da observação crítica.
Uma homenagem que é também um convite
Mais do que uma programação especial, Maratona João Canijo: Quatro Décadas de Cinema funciona como um convite à redescoberta de um autor essencial. Um cineasta que, como escreveu Tiago Rodrigues, “travou um combate poético com o país que somos”, mostrando-nos um espelho onde convivem violência e ternura, dureza e humanidade.
No dia 8 de Fevereiro, o TVCine transforma-se, durante 24 horas, numa verdadeira sala de cinema dedicada a um dos seus maiores criadores. Uma oportunidade rara — e necessária — para voltar a olhar para o cinema português sem filtros.
Um cineasta que filmou o país sem filtros nem concessões
Morreu João Canijo, um dos realizadores mais importantes, coerentes e exigentes do cinema português das últimas décadas. Tinha 68 anos e faleceu esta quinta-feira, dia 29 de Janeiro, perto de Vila Viçosa, distrito de Évora, onde repartia residência com Lisboa. A notícia foi confirmada à agência Lusa por fonte da produtora Midas Filmes. Segundo informações avançadas pela CNN Portugal e pelo jornal Público, o cineasta terá sofrido um ataque cardíaco fulminante durante a noite, tendo o corpo sido encontrado pela empregada de limpeza.
Distinguido com o Urso de Prata no Festival de Berlim em 2023, João Canijo deixa uma obra marcada por uma visão implacável da sociedade portuguesa, quase sempre observada a partir do interior das famílias, dos conflitos domésticos e das tensões invisíveis que atravessam gerações. O seu cinema nunca foi confortável — e talvez por isso tenha sido tão necessário.
Do assistente ao autor: um percurso sólido e singular
Natural de Vinhais, no distrito de Bragança, João Canijo iniciou a sua carreira nos anos 1980 como assistente de realização, trabalhando com nomes fundamentais do cinema europeu como Manoel de Oliveira, Paulo Rocha e Wim Wenders. Em 1990 estreia-se na realização de longas-metragens com Filha da Mãe, assinando também a série televisiva Alentejo Sem Lei.
A partir daí construiu uma filmografia profundamente autoral, reconhecível pela forma como expõe feridas sociais raramente tratadas com complacência: machismo, imigração, prostituição, corrupção, marginalidade e dificuldades socioeconómicas. Como escreveu o investigador Daniel Ribas, trata-se de uma verdadeira “dramaturgia da violência”, onde o conflito é estrutural e raramente encontra redenção.
Filmes que ficaram — e que ficam
Entre os títulos mais marcantes da sua carreira contam-se Sapatos Pretos (1998), Ganhar a Vida (2001), Mal Nascida(2007) e, sobretudo, Sangue do Meu Sangue (2011), frequentemente apontado como uma das grandes obras do cinema português contemporâneo.
Em 2023, Canijo atinge um novo patamar de reconhecimento internacional com Mal Viver, vencedor do Urso de Prata em Berlim e candidato português aos Óscares. O filme acompanha uma família de mulheres que gere um hotel, vivendo num ambiente corroído por ressentimento e rancor, abalado pela chegada inesperada de uma neta. A obra dialoga directamente com Viver Mal, que observa a mesma realidade a partir do ponto de vista dos hóspedes.
Em 2024, esta dupla cinematográfica ganha uma nova dimensão com a série Hotel do Rio, exibida na RTP, apresentada como a “visão total” deste universo narrativo.
Um cinema feito de mulheres, tensão e verdade
Grande parte da força do cinema de João Canijo reside nas personagens femininas, complexas, contraditórias e centrais. Atrizes como Rita Blanco, Anabela Moreira, Beatriz Batarda, Madalena Almeida ou Cleia Almeida tornaram-se presenças recorrentes na sua obra, num trabalho continuado de cumplicidade artística raro no cinema português.
Outro momento relevante da sua carreira foi Fátima (2017), um filme rodado com 11 atrizes portuguesas numa peregrinação ao santuário, onde Canijo explorou não a fé, mas as dinâmicas de grupo entre mulheres. “As relações de grupo entre mulheres parecem-me muito mais interessantes do que com homens à mistura”, afirmou então à Lusa.
Projetos por concluir e um legado difícil de substituir
À data da sua morte, João Canijo encontrava-se a finalizar Encenação, longa-metragem protagonizada por Miguel Guilherme, centrada num encenador de teatro confrontado com a idade e com a relação com as suas atrizes. Deixa ainda por estrear o filme As Ucranianas.
Nas redes sociais, a Medeia Filmes recordou o cineasta com uma frase que resume bem a sua visão artística: “A verdade é a interpretação que cada um faz da realidade. E é uma escolha que cada um faz da realidade.” João Canijo fez essa escolha com frontalidade, rigor e uma recusa sistemática do facilitismo. O cinema português fica mais pobre sem ele — mas a sua obra permanece, incómoda, viva e indispensável.
On FallingUma primeira longa-metragem que confirma um novo talento a seguir de perto
O cinema português voltou a merecer atenção internacional este fim-de-semana com a distinção de Laura Carreira, vencedora do Prémio Descoberta atribuído pela Academia Europeia de Cinema. O galardão foi entregue ao filme On Falling, a primeira longa-metragem da realizadora, que tem vindo a construir um percurso sólido e coerente entre Portugal e o Reino Unido.
Produzido numa parceria luso-britânica entre a BRO Cinema e a Sixteen Films, On Falling confirma Laura Carreira como uma das vozes mais interessantes do cinema europeu emergente, apostando num registo intimista, socialmente atento e profundamente contemporâneo.
Precariedade, solidão e emigração no centro da narrativa
O filme acompanha Aurora, uma jovem portuguesa emigrada na Escócia, cuja vida é marcada por empregos precários, rotinas extenuantes e uma solidão silenciosa que se vai instalando de forma quase invisível. Longe de discursos fáceis ou dramatizações excessivas, On Falling observa o quotidiano da personagem com uma câmara contida, quase documental, deixando que os pequenos gestos e silêncios falem por si.
É precisamente nesta abordagem discreta, mas emocionalmente incisiva, que reside a força do filme. Laura Carreira constrói um retrato honesto da experiência migrante contemporânea, tocando em temas como a alienação laboral, a fragilidade das redes de apoio e o desgaste psicológico de quem vive permanentemente “em queda”, num equilíbrio instável entre sobrevivência e identidade.
Um percurso de prémios que não pára de crescer
A distinção agora atribuída pela Academia Europeia de Cinema junta-se a um impressionante conjunto de prémios conquistados por On Falling ao longo do último ano. Em 2024, Laura Carreira venceu um prémio de realização no Festival de San Sebastián, um dos mais prestigiados eventos cinematográficos da Europa. O filme foi também distinguido no Festival de Cinema de Londres com o Prémio de Primeira Longa-Metragem.
Na Escócia, onde a realizadora vive e trabalha há mais de uma década, On Falling recebeu ainda dois prémios BAFTA Scotland — Melhor Argumento e Melhor Filme de Ficção — consolidando a recepção entusiasta da crítica britânica.
Joana Santos também em evidência
O reconhecimento internacional estende-se igualmente ao elenco. A actriz Joana Santos, protagonista do filme, foi distinguida no Festival Internacional de Cinema de Salónica, na Grécia, graças a uma interpretação contida, sensível e profundamente humana, que evita qualquer tentação de exagero dramático.
A sua composição de Aurora é fundamental para o impacto do filme, funcionando como âncora emocional de uma história onde o não-dito é tão importante quanto o que é verbalizado.
Um nome a fixar no novo cinema europeu
Depois das curtas-metragens Red Hill (2018) e The Shift (2020), On Falling marca um passo decisivo na carreira de Laura Carreira. A distinção da Academia Europeia de Cinema não só valida o percurso já feito, como projeta a realizadora portuguesa para um futuro onde o seu nome deverá continuar a surgir associado ao melhor cinema de autor europeu.
Sem ruído, sem pressa e sem concessões fáceis, On Falling prova que, por vezes, é nos gestos mais simples que se escondem os filmes mais duradouros.
Um filme que nasce do conflito real e se transforma em gesto colectivo
A comunidade de Covas do Barroso, no norte de Portugal, viveu um choque que mudou para sempre a sua relação com a terra. A descoberta de que a empresa britânica Savannah Resources planeava ali instalar a maior mina de lítio a céu aberto da Europa, praticamente à porta de casa, gerou um sobressalto que rapidamente se transformou em resistência. É dessa tensão, profundamente enraizada na realidade, que nasce A Savana e a Montanha, o mais recente filme de Paulo Carneiro, que abre a secção “O Melhor de Portugal” da 12.ª edição do Montanha Pico Festival.
A sessão de abertura acontece na quinta-feira, 15 de Janeiro, às 21h00, no Auditório Municipal das Lajes do Pico, e promete ser um dos momentos mais marcantes desta edição do festival açoriano dedicado à cultura montanhosa.
Um documentário híbrido entre o real, o mítico e o cinematográfico
Paulo Carneiro define o filme como uma “reconstituição, reinvenção ou reinterpretação” dos acontecimentos vividos pela comunidade. Mas A Savana e a Montanha vai muito além do documentário clássico. Entre canções populares, encenações colectivas e referências visuais ao western, são os próprios habitantes que representam a sua luta, transformando a resistência num acto artístico e político ao mesmo tempo.
Este cruzamento entre cinema, teatro popular e memória colectiva confere ao filme uma identidade singular, onde o gesto cinematográfico não observa à distância, mas participa. O povo não é objecto do olhar da câmara: é autor, intérprete e força motriz da narrativa.
Um percurso internacional impressionante
Depois da estreia na Quinzena dos Realizadores de 2024, em França, A Savana e a Montanha iniciou um percurso internacional notável. O filme passou por dezenas de festivais e acumulou distinções em vários continentes, incluindo Menções Especiais em Melgaço e Valladolid, bem como prémios de público e de júri na Índia, Coreia do Sul, Timor-Leste e Turquia. Um reconhecimento que confirma a força universal de uma história profundamente local.
Este sucesso consolida a trajectória de Paulo Carneiro, que se estreou na longa-metragem com Bostofrio (2018), também exibido no Montanha Pico Festival, numa ligação afectiva que agora se renova.
“O Melhor de Portugal”: um retrato do cinema nacional recente
A secção “O Melhor de Portugal” é o grande foco desta edição do festival e reúne cinco obras estreadas nos últimos dois anos, escolhidas pelo director artístico Terry Costa com base no mérito criativo e impacto cultural. Além de A Savana e a Montanha, o público poderá ver Banzo de Margarida Cardoso, Grand Tour, O Teu Rosto Será o Último e Hanami.
Até 29 de Janeiro, o Montanha Pico Festival espalha-se por três ecrãs da ilha do Pico, apresentando 35 obras — de curtas a longas-metragens — num programa que confirma o festival como um espaço singular de encontro entre cinema, território e identidade.
A 12.ª edição do Montanha Pico Festival tem início esta quinta-feira, 8 de Janeiro, às 21h, no Auditório Municipal das Lajes do Pico, com uma sessão de abertura inteiramente dedicada a obras produzidas nos Açores. A iniciativa, promovida pela associação MiratecArts, volta a afirmar o festival como um dos principais espaços de exibição e reflexão cinematográfica no arquipélago.
Segundo Terry Costa, director artístico da MiratecArts, esta edição reforça a ligação entre o cinema e o território. “São dez noites de cinema em três grandes ecrãs da nossa ilha”, sublinha, explicando que, para além das habituais sessões em cenários montanhosos ou ligadas à cultura da montanha, o festival passa também a destacar longas-metragens portuguesas de relevo. Ainda assim, a abertura mantém-se fiel ao espírito local, com um programa dedicado exclusivamente aos Açores.
A sessão inaugural reúne um conjunto diversificado de curtas-metragens que levam ao grande ecrã paisagens e histórias das ilhas do Pico, Faial, Corvo e São Miguel. O público poderá assistir a First Date, de Luís Filipe Borges, Calhau, de Paulo Abreu, ilhoa, de Margarida Saramago, Reviralha, de Sara Massa, e Reflexos, de Francisco Rosas.
O programa inclui ainda ainda (não) em casa, de Kateryna Kondratieva, um filme que aborda a experiência de mulheres ucranianas que, devido à guerra, encontraram nos Açores um novo lugar para viver. A noite fica completa com a exibição da média-longa Alice: Mulher Moderna, de Tiago Rosas, produzida pela Palco Ilusões.
Alice: Mulher Moderna é um documentário dedicado à vida e ao legado de Alice Moderno, uma das personalidades mais marcantes da história açoriana. O filme constrói-se como uma visita guiada pelos locais onde viveu e trabalhou, conduzida pelo Professor Teófilo Braga, e enriquecida pelos comentários das investigadoras Cristina Pimentel e Isolina Medeiros. A actriz Margarida Benevides dá voz aos textos e pensamentos de Alice Moderno, revelando uma mulher escritora, jornalista, empresária, feminista e republicana, num contexto histórico profundamente conservador.
A sessão de abertura é aberta ao público e de entrada livre. O Montanha Pico Festival prossegue ao longo do mês, com sessões às quintas-feiras no Auditório Municipal das Lajes do Pico até 29 de Janeiro. Às terças-feiras, o festival passa pelo Auditório do Museu dos Baleeiros e, entre 23 e 25 de Janeiro, ocupa também o Auditório da Madalena. Mais informações estão disponíveis em www.picofestival.com e nas redes sociais da MiratecArts.
Os Infanticidas e A Vida Luminosa inauguram o ano no TVCine Edition
Começar o ano com cinema português é mais do que uma boa resolução — é quase um acto de resistência cultural. No dia 1 de Janeiro, o TVCine Edition aposta forte no novo cinema nacional com a exibição de dois filmes portugueses recentes, assinados por dois realizadores que se estreiam na longa-metragem. Os Infanticidas e A Vida Luminosa formam a dupla Ano Novo, Filmes Novos, uma proposta que convida o espectador a reflectir sobre crescimento, identidade e o momento delicado em que deixamos de ser jovens… mesmo que ainda não saibamos bem o que é ser adulto.
A sessão arranca às 18h30, prolongando-se pela noite dentro, numa programação que dá palco a duas obras muito diferentes no tom, mas unidas por um olhar atento às inquietações de uma geração em suspenso.
Os Infanticidas: crescer assusta mais do que parece
Primeira longa-metragem de Manuel Pureza, Os Infanticidas parte de uma promessa tão absurda quanto reveladora: dois amigos juram que, se um dia crescerem, acabam com a própria vida. A frase pode soar a bravata juvenil, mas funciona como ponto de partida para um retrato honesto, irónico e por vezes cruel sobre o fim da juventude.
Entre o pacto feito na adolescência e a chegada inevitável aos 30 anos, surgem os medos, as expectativas falhadas, os sonhos adiados e a constante sensação de que ninguém nos explicou realmente como se faz para ser adulto. O filme observa essa travessia com humor seco e uma melancolia muito portuguesa, lembrando que “somos todos heróis à meia-noite, mas cobardes às 9 da manhã”.
Sem respostas fáceis, Os Infanticidas questiona se crescer é sinónimo de compromisso ou apenas a continuação de um jogo em que fingimos saber o que estamos a fazer. Uma estreia segura e surpreendentemente madura para um realizador vindo do universo da comédia televisiva.
A Vida Luminosa: quando a vida começa a andar para a frente
Exibido às 19h55, A Vida Luminosa acompanha Nicolau, um jovem de 24 anos preso entre o passado e um futuro que não consegue imaginar. Vive em casa dos pais, sonha ser músico, sobrevive com biscates e mantém-se emocionalmente refém de uma relação que terminou. Lisboa surge aqui não como postal turístico, mas como cenário íntimo de uma deriva silenciosa.
A mudança acontece quando Nicolau percebe que não está sozinho na insatisfação: também a mãe carrega frustrações e sonhos adiados. Esse choque não o paralisa — empurra-o para a frente. Um emprego numa papelaria, uma casa partilhada e novos encontros fazem com que a vida, lentamente, volte a mover-se.
Com um tom delicado e observacional, o filme constrói um retrato sensível sobre amadurecer sem dramatismos excessivos, mostrando que crescer nem sempre é cair — às vezes é simplesmente avançar, mesmo sem saber bem para onde.
Duas estreias, um mesmo retrato geracional
Apesar das diferenças de estilo, Os Infanticidas e A Vida Luminosa dialogam entre si. Ambos olham para personagens em transição, suspensas entre aquilo que imaginaram ser e aquilo que a vida lhes permite ser. São filmes sobre o medo de falhar, sobre a dificuldade em largar versões antigas de nós próprios e sobre o lento — e por vezes doloroso — processo de assumir escolhas.
Para quem procura começar o ano longe dos blockbusters previsíveis, esta dupla é um excelente convite a pensar, sentir e reconhecer no ecrã pedaços muito familiares da vida real.
A revista francesa colocou a obra de Pedro Pinho no top 5 de 2025, celebrando um triunfo raro e histórico para o cinema português.
O cinema português volta a fazer história — e desta vez com estrondo internacional. A Cahiers du Cinéma, considerada por muitos a mais influente revista de crítica cinematográfica do mundo, divulgou o seu top 10 dos melhores filmes de 2025, e O Riso e a Faca, de Pedro Pinho, surge numa honrosa e surpreendente 5.ª posição. Num ranking onde figuram nomes gigantes como Paul Thomas Anderson, Albert Serra, Richard Linklater ou Christian Petzold, a presença de um filme português não é apenas motivo de orgulho: é uma validação artística de dimensão global.
A lista é liderada por Tardes de Solidão, documentário de Albert Serra dedicado ao toureiro Andrés Roca Rey, seguido de Batalha Atrás de Batalha, o novo épico de Paul Thomas Anderson, e de Yes!, de Navad Lapid. Logo depois surge O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, e, em 5.º lugar, a obra de Pedro Pinho — o único filme português distinguido este ano e um dos poucos na história a alcançar semelhante destaque.
O Riso e a Faca é uma co-produção entre Portugal, Brasil, França e Roménia e apresenta a história de Sérgio, um engenheiro ambiental português que viaja até à Guiné-Bissau para avaliar os impactos ambientais da construção de uma estrada. O que começa como uma missão aparentemente técnica transforma-se num retrato incisivo sobre neocolonialismo, desigualdade e fracturas sociais ainda vivas entre o deserto e a selva. É cinema político, sensorial e profundamente inquietante — características que certamente conquistaram os críticos franceses.
Esta é apenas a segunda longa de ficção de Pedro Pinho, depois de A Fábrica do Nada (2017), também apresentado em Cannes. E foi justamente no festival francês, em maio, que O Riso e a Faca se estreou, garantindo um feito inédito para Portugal: Cleo Diára venceu o prémio de Melhor Interpretação no Un Certain Regard. Um marco histórico para o cinema nacional, que raramente encontra espaço de destaque neste tipo de selecções.
O filme estreou nas salas portuguesas no final de Outubro, tendo já saído de exibição, mas a consagração internacional reacende o interesse e confirma a força do olhar de Pedro Pinho sobre a herança pós-colonial portuguesa. Num ano cinematográfico especialmente competitivo, com obras de autores consagrados e estreias muito aguardadas, O Riso e a Faca conseguiu impor-se como uma das experiências mais marcantes e politicamente relevantes de 2025.
Para muitos, este reconhecimento pode trazer uma nova vida à obra, futura redescoberta em ciclos de cinema, retrospectivas e plataformas de streaming. Para o cinema português, porém, fica já gravado: em 2025, um dos melhores filmes do ano falava português.
Está fechado o último take: Santo António, o Casamenteiro de Lisboa, a nova comédia realizada por Ruben Alves, concluiu oficialmente a rodagem esta segunda-feira, em Lisboa. A notícia foi revelada pela agência Lusa e pelo diário espanhol La Razón, confirmando que o sucessor de A Gaiola Dourada já entrou na fase de pós-produção e promete ser um dos títulos nacionais mais comentados dos próximos anos — e não apenas pelo elenco de luxo.
A produção, uma coprodução luso-espanhola da Bla Bla Media, mergulha numa questão que tem marcado várias cidades europeias: a luta entre a preservação das tradições e a ameaça de homogeneização causada pelas grandes multinacionais. Segundo Ruben Alves, a história usa o imaginário de Santo António — padroeiro dos apaixonados e símbolo inconfundível de Lisboa — para falar da identidade das cidades e do risco de se tornarem versões indistintas umas das outras.
Estufa Fria: o cenário da despedida
O último dia de filmagens decorreu na Estufa Fria, onde quase todo o elenco se reuniu para gravar duas cenas finais e protagonizar uma despedida carregada de emoção. Foi o encerramento simbólico de semanas de trabalho que passaram por vários pontos da capital, explorando o seu ambiente humano e as suas tradições populares.
Um elenco que junta Portugal e Espanha
A comédia conta com alguns dos nomes mais queridos do público português:
Rita Blanco,
Joaquim Monchique,
Maria Rueff,
Ana Bola,
Inês Aires Pereira,
Albano Jerónimo.
A este grupo junta-se ainda o actor espanhol Paco León, que interpreta um “betinho” madrileno que chega a Lisboa e enfrenta dificuldades de adaptação, até acabar integrado numa família portuguesa. A sua presença representa não apenas o tom humorístico do filme, mas também a ponte cultural entre os dois países ibéricos. Os responsáveis pela produção sublinham que projectos deste tipo podem abrir portas para novas colaborações transfronteiriças.
O argumento é assinado pelo espanhol Fernando Pérez, reforçando o carácter internacional da narrativa, que pretende celebrar aquilo que aproxima Portugal e Espanha sem perder de vista as particularidades culturais de cada lado.
A caminho das salas — e depois, Disney+
Santo António, o Casamenteiro de Lisboa tem estreia marcada para o verão de 2026 em Portugal, Espanha e França. Depois da passagem pelos cinemas, o filme fará história ao tornar-se a primeira longa-metragem portuguesa a chegar exclusivamente à plataforma Disney+, um marco significativo para o cinema nacional e um sinal de que as grandes plataformas começam a olhar com mais atenção para a produção portuguesa.
A combinação entre tradição lisboeta, humor afiado e uma reflexão sobre o futuro das cidades europeias faz deste filme uma aposta que promete conquistar tanto o público nacional como internacional. E, com Ruben Alves ao leme, a expectativa só cresce: afinal, poucos realizadores conhecem tão bem o coração sentimental e multicultural de Lisboa.
«18 Buracos para o Paraíso», de João Nuno Pinto, estreia em dois festivais internacionais e torna-se o primeiro filme português distinguido com o selo Green Film.
Há filmes que nascem de uma paisagem. Outros, de uma inquietação profunda. 18 Buracos para o Paraíso nasce dos dois. A nova longa-metragem de João Nuno Pinto, inspirada no território alentejano, está a dar que falar muito para lá das fronteiras portuguesas. Ontem estreou na 29.ª edição do Tallinn Black Nights Film Festival, na Estónia, e hoje chega ao prestigiado Mar del Plata Film Festival, na Argentina — o único festival de classe A na América Latina, ao lado de gigantes como Berlim, Cannes ou Veneza.
A obra, com 108 minutos, percorre a ruralidade alentejana através de uma narrativa fragmentada, construída a partir de três olhares femininos. No elenco encontramos nomes como Margarida Marinho, Beatriz Batarda, Rita Cabaço e Jorge Andrade, acompanhados por membros da comunidade local onde decorreu a rodagem. A história passa-se numa herdade assolada pela seca, onde proprietários e trabalhadores relatam os mesmos acontecimentos, cada um segundo a sua visão, como se cada perspetiva fosse um raio de sol a bater de forma diferente na mesma terra.
Além da presença internacional, o filme já conquistou um marco importante: tornou-se o primeiro filme português a receber a certificação Green Film. Este selo reconhece práticas ambientais responsáveis no processo de produção audiovisual — um detalhe particularmente simbólico, tendo em conta o tema central da obra. Afinal, 18 Buracos para o Paraíso é tão sobre o que vemos no ecrã como sobre o modo como o próprio cinema impacta o mundo que retrata.
A produção é da Wonder Maria Filmes, liderada por Andreia Nunes, em co-produção com a italiana Albolina Film e a argentina Aurora Cine. A distribuição internacional cabe à Alpha Violet. Em Portugal, o público terá de esperar mais um pouco: a estreia comercial está prevista apenas para 2026.
As sessões no Mar del Plata decorrem no Auditorium e voltam a repetir-se a 15 de Novembro, às 14h30, no Colon — apresentando a história alentejana a públicos de dois continentes diferentes no espaço de 24 horas.
Uma reflexão nascida da terra
João Nuno Pinto revela que o filme nasceu da urgência de retratar uma realidade que conhece de perto. A viver no Alentejo desde 2020, o realizador tem observado “a seca, a desertificação e as pressões do turismo e da especulação imobiliária”. O filme, explica, procura olhar para a crise ambiental não como um alerta distante, mas como uma presença quotidiana, que molda a vida das pessoas e o futuro da região.
A estrutura tripartida — três mulheres, três narrativas, três formas de interpretar os mesmos factos — reorganiza constantemente a perceção do público, criando uma teia emocional onde cada revelação altera o significado da anterior. Para o realizador, esta abordagem coloca o espectador “dentro dos mundos inquietos e frágeis destas mulheres”, tornando a história simultaneamente íntima e universal.
No fundo, como sublinha João Nuno Pinto, o filme é “uma reflexão sobre fragilidade: da terra, da sociedade e da conexão humana”. Um tema local que ecoa uma realidade partilhada em todo o mundo — e que agora encontra voz em palcos internacionais, onde o Alentejo se revela não apenas cenário, mas personagem viva.
O cinema português ganhou, este ano, um novo campeão de bilheteira — e fê-lo com uma velocidade impressionante. Bastou um único fim de semana para O Pátio da Saudade se tornar o filme português mais visto de 2025, ultrapassando os 15 mil espectadores logo após a estreia, a 14 de agosto. Os números oficiais do ICA ainda não foram actualizados, mas o impacto já é incontornável: este é o título nacional do ano.
gora, o filme entra numa nova fase da sua vida. Desde 14 de novembro, O Pátio da Saudade está disponível na Prime Video, permitindo que o público que não pôde ir ao cinema descubra — ou revisite — a mais recente obra de Leonel Vieira, quase uma década depois do seu êxito com O Pátio das Cantigas.
Uma herança inesperada. Um teatro em ruínas. E o renascimento de uma arte.
A história segue Vanessa, interpretada por Sara Matos, uma actriz de televisão que se vê confrontada com uma herança tão inesperada quanto simbólica: um antigo teatro no Porto, deixado por uma tia com quem tinha perdido o contacto. O edifício está longe dos seus dias gloriosos, mas mantém intacta a memória dos tempos de ouro da Revista à Portuguesa — um género onde humor, música e sátira se misturavam numa celebração muito nossa.
A tentação de vender o espaço é grande — pressionada pelo agente, Tozé Leal — mas Vanessa sente uma ligação profunda àquele lugar. Decide então juntar dois amigos, Joana e Ribeiro, para montar um espectáculo que devolva alma ao teatro e tente recuperar a sua glória perdida. É um plano feito de entusiasmo, sonho… e uma boa dose de ingenuidade.
Mas cada renascimento tem os seus antagonistas. E aqui, o obstáculo atende pelo nome de Armando, dono de um teatro rival que fará tudo para impedir a recuperação daquele espaço histórico. O conflito transforma-se numa batalha pela memória cultural, pela relevância e pelo direito de sonhar num país onde, tantas vezes, o teatro vive entre a paixão e o sufoco financeiro.
Um elenco que une gerações do humor e da ficção portuguesa
Sara Matos lidera o elenco com a determinação de uma protagonista que tenta equilibrar humor, emoção e fragilidade. À sua volta, um verdadeiro desfile de rostos conhecidos garante que cada cena tem vida própria: Ana Guiomar, Manuel Marques, José Pedro Vasconcelos, José Raposo, Gilmário Vemba, José Martins, Alexandra Lencastre, José Pedro Gomes e Aldo Lima dão corpo a personagens que oscilam entre o exagero cómico e a humanidade mais terna.
As filmagens passaram por Lisboa, com destaque para o Jardim do Torel, e recriam uma estética visual que combina modernidade com aquela saudade luminosa que o título promete.
Uma homenagem à nossa memória — e um sucesso merecido
O Pátio da Saudade não tenta reinventar a roda. Faz outra coisa: olha para o teatro português com carinho, humor e alguma melancolia. E talvez seja por isso que o público respondeu tão rapidamente. É uma história sobre a vontade de reerguer o que caiu, de celebrar o que foi nosso, de acreditar que os velhos palcos ainda têm futuro.
Agora, com a chegada ao streaming, o filme pode finalmente encontrar o resto do seu público — aquele que, como Vanessa, sabe que certos lugares só voltam a viver quando alguém acredita neles.
Sérgio Graciano leva ao cinema o génio que pôs Portugal a cantar
Já começaram as filmagens de Playback, o aguardado biopic sobre Carlos Paião, o músico e compositor que marcou a cultura pop portuguesa com temas como Pó de Arroz e, claro, Playback. Realizado por Sérgio Graciano, o filme promete ser uma celebração vibrante da criatividade, humor e ousadia de um artista que partiu demasiado cedo, mas que deixou uma marca indelével na música portuguesa.
As rodagens arrancaram a 3 de novembro na Grande Lisboa e seguem agora para Ílhavo, a cidade natal de Paião — um local simbólico que será também um dos eixos centrais da narrativa. A estreia está prevista para o verão de 2026, com posterior exibição na RTP em formato de minissérie, ampliando o alcance deste retrato íntimo e inspirador.
Com argumento de Mário Cenicante, Playback acompanha o percurso de um jovem estudante de Medicina que, movido pela paixão pela música, decide trocar a estabilidade da bata branca pelo risco do palco. É o retrato de um criador autodidata, espirituoso e cheio de curiosidade — alguém que ousou seguir o coração numa época em que o país começava, ele próprio, a descobrir o seu novo ritmo.
O filme mistura comédia, drama e nostalgia, captando o espírito transformador das décadas de 70 e 80 — um período de contrastes, entre o moralismo herdado e o entusiasmo de uma geração que se abria ao mundo.
“Queremos mostrar o homem por detrás do artista — o estudante sonhador que acreditava que a música podia mudar tudo. Este filme é uma celebração da sua coragem e da sua autenticidade”, explica o realizador Sérgio Graciano.
Rafael Ferreira é Carlos Paião
O papel principal cabe a Rafael Ferreira, jovem actor descoberto através de um casting nacional que contou com mais de duzentos candidatos e que terminou, simbolicamente, em Ílhavo. Ao lado de Ferreira, o elenco inclui Laura Dutra, Rita Durão, António Mortágua, Anabela Moreira e Albano Jerónimo, entre outros nomes de peso do cinema e da televisão portuguesa.
Com este elenco e a direcção de Graciano — conhecido pela sua sensibilidade na construção de personagens e pela capacidade de equilibrar emoção com ritmo narrativo —, Playback promete ser muito mais do que um retrato biográfico: será uma viagem emocional, musical e cultural ao coração de uma época.
Produção com selo português
O filme é uma produção da Caos Calmo Filmes, com produção executiva de José Amaral, e conta com distribuição da NOS Audiovisuais, apoio da RTP, PIC Portugal, Câmara Municipal de Ílhavo e Câmara Municipal de Oeiras.
Tal como a música de Paião, a produção pretende manter um espírito irreverente e apaixonado, cruzando o humor com a ternura e a melancolia de quem viveu intensamente, sempre entre o génio e o improviso.
Um tributo ao artista e ao homem
Mais do que um biopic, Playback quer ser um retrato humano e familiar, que devolve a Carlos Paião a dimensão que o público sempre pressentiu — a de um criador que via a vida como um palco e a música como uma forma de liberdade.
Ao revisitarmos o seu percurso — do estudante que compunha entre exames ao músico que enchia palcos e corações —, Playback recorda-nos porque é que a música de Carlos Paião continua viva: porque tinha alma, alegria e uma vontade genuína de fazer Portugal sorrir.
🎬 Playback
📅 Estreia: Verão de 2026
🎥 Realização: Sérgio Graciano
✍️ Argumento: Mário Cenicante
⭐ Elenco: Rafael Ferreira, Laura Dutra, Rita Durão, António Mortágua, Anabela Moreira, Albano Jerónimo
De comédias românticas a dramas políticos e clássicos reinventados, as salas de cinema portuguesas enchem-se de estreias imperdíveis — com Dakota Johnson, Wagner Moura, Costa-Gavras e até o eterno Bambi.
Esta semana, o cinema português recebe um conjunto de estreias que promete agradar a todos os públicos: há amor e ironia com Dakota Johnson, suspense político com Wagner Moura, nostalgia pura com Bambi, e ainda dramas intimistas, animação divertida e até uma nova incursão na saga Predador.
🦌 “Bambi, Uma Vida nos Bosques” — um regresso com lágrimas à mistura
Poucos filmes marcaram tantas infâncias como Bambi. O pequeno veado órfão que emocionou gerações volta agora em formato live action, sob o olhar sensível de Michel Fessler. A novidade? Não é um filme da Disney, mas sim uma produção francesa da Gébéka Films, que aposta num tom mais naturalista e melancólico.
A história acompanha o nascimento, crescimento e amadurecimento de Bambi — um corço que aprende sobre amor, perda e sobrevivência na floresta. As vozes de Mylène Farmer e Senta Berger dão vida a esta recriação que promete arrancar lágrimas e memórias.
🇧🇷 “O Agente Secreto” — Wagner Moura em modo espionagem
Depois de Ainda Estou Aqui ter feito história nos Óscares, o Brasil apresenta um novo candidato: O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, autor de Bacurau e Aquarius. A ação decorre em 1977, durante a ditadura militar, e segue Marcelo, um professor que tenta começar de novo em Recife — até se ver enredado num perigoso jogo de espionagem e paranoia política.
Com Wagner Moura no papel principal, o filme alia crítica social a suspense clássico e está a ser apontado como um dos grandes favoritos à corrida pelos prémios internacionais. O elenco inclui ainda Gabriel Leone, Alice Carvalho e Carlos Francisco, numa obra que combina tensão, memória histórica e estética meticulosa.
💔 “Splitsville – Amor em Maus Lençóis” — Dakota Johnson em modo feel-good
Depois de uma sequência de filmes menos felizes, Dakota Johnson regressa em grande forma com Splitsville – Amor em Maus Lençóis, de Michael Angelo Covino, que soma 85% de aprovação no Rotten Tomatoes.
A história centra-se em Carey, que vê o casamento ruir e decide procurar apoio entre amigos, acabando por explorar o conceito de um relacionamento aberto. O que começa como uma experiência libertadora transforma-se num caos emocional — com muito humor e ironia à mistura.
Com Adria Arjona, Nicholas Braun (Succession) e O-T Fagbenle, esta é uma comédia romântica moderna, divertida e surpreendentemente inteligente, apontada por muitos como “a melhor do ano”.
🇵🇹 “A Memória do Cheiro das Coisas” — o peso da guerra e a ternura da memória
Do realizador António Ferreira, chega uma das produções portuguesas mais sensíveis do ano. A Memória do Cheiro das Coisas é uma coprodução luso-brasileira que acompanha António, um ex-soldado da Guerra Colonial obrigado a viver num lar, onde é confrontado com as memórias do passado e com uma inesperada amizade com a sua cuidadora.
Com interpretações poderosas de Mina Andala e José Martins, o filme fala sobre trauma, envelhecimento e reconciliação — temas universais tratados com poesia e delicadeza.
🐺 “200% Lobo” — diversão para os mais novos
Nesta sequela da animação australiana 100% Lobo, o jovem Freddy Lupin sonha ser mais lobo do que cão. Mas um desejo mal formulado transforma-o num lobisomem desastrado, e, para piorar, acaba por libertar um duende da Lua na Terra.
Com vozes de Samara Weaving, Jennifer Saunders e Ilai Swindells, esta é uma aventura leve e colorida que mistura ação, comédia e amizade — ideal para sessões em família.
🎭 “55” — crime, redenção e humanidade nas ruas de Bombaim
Depois de um longo percurso em festivais, o filme “55”, de Shyam Madiraju, chega finalmente às salas portuguesas. Produzido entre a Índia e os Estados Unidos, acompanha 55, um jovem órfão que sobrevive como carteirista nas ruas de Bombaim.
Quando se cruza com a filha de uma das suas vítimas, inicia uma jornada de redenção e descoberta pessoal. O elenco é liderado por Emraan Hashmi e Rizwan Shaikh, num drama intenso que combina realismo social e emoção.
💨 “O Último Suspiro” — Costa-Gavras reflete sobre a vida e a morte
O mestre grego Costa-Gavras regressa com O Último Suspiro, uma meditação sobre a mortalidade, o luto e o sentido da vida. O filme acompanha Fabrice, um escritor que, ao visitar um hospital parisiense, conhece um médico de cuidados paliativos e confronta-se com o sofrimento e a dignidade dos pacientes.
Com Denis Podalydès, Charlotte Rampling e Kad Merad, esta é uma obra profunda e humanista, fiel ao estilo político e existencial de Costa-Gavras, que aqui troca a denúncia pela contemplação.
👽 “Predador: Badlands” — o regresso de um ícone da ficção científica
Da mente de Dan Trachtenberg (Prey), chega Predador: Badlands, um novo capítulo na saga iniciada em 1987 com Arnold Schwarzenegger.
Desta vez, a protagonista é Elle Fanning, que interpreta Thia, uma jovem humana num planeta remoto onde um Predador exilado busca o seu adversário final. O filme aposta numa abordagem mais intimista e visualmente impressionante, reinventando o conceito do caçador alienígena através de uma história de sobrevivência e empatia improvável.
De clássicos renascidos a dramas premiáveis e aventuras espaciais, as estreias desta semana em Portugal oferecem de tudo um pouco — o difícil será escolher apenas um bilhete.
De 6 a 27 de novembro, o TVCine Edition dedica as noites de quinta-feira ao melhor do cinema português contemporâneo, com obras de Edgar Pêra, André Gil Mata, Sebastião Varela e Sérgio Graciano.
O mês de novembro será especialmente português no TVCine Edition. O canal dedica as noites de quinta-feira (de 6 a 27 de novembro) a um ciclo inteiramente nacional: “Quintas à Portuguesa”, um especial que celebra o novo cinema feito cá, com quatro filmes que exploram temas tão diversos como a inteligência artificial, a memória familiar, a música e a biografia política.
São quatro obras distintas, mas unidas por um mesmo propósito — pensar o país através do cinema.
📅 6 de novembro — “Cartas Telepáticas”, de Edgar Pêra
20h30 | TVCine Edition e TVCine+
O sempre experimental Edgar Pêra regressa com uma proposta visionária: uma correspondência imaginária entre Fernando Pessoa e H. P. Lovecraft.
Num filme criado inteiramente com imagens geradas por inteligência artificial, Cartas Telepáticas funde o sensacionismo pessoano com o terror cósmico de Lovecraft, criando um diálogo literário e visual sobre identidade, medo e criação.
Com vozes de Keith Esher Davis, Bárbara Lagido, Iris Cayatte e Victoria Guerra, esta produção da Nitrato Filmespromete ser uma das experiências mais singulares do ano.
📅 13 de novembro — “Sob a Chama da Candeia”, de André Gil Mata
19h40 | TVCine Edition e TVCine+
Um retrato íntimo e sensorial do Norte de Portugal.
Entre azulejos, jardins e memórias, Sob a Chama da Candeia segue Alzira, uma mulher à beira do fim da vida que, após décadas de silêncio, toma finalmente uma decisão só sua.
Com interpretações de Eva Ras, Márcia Breia, Catarina Carvalho Gomes e Gina Macedo, o filme é uma meditação poética sobre o tempo, a solidão e o direito à liberdade interior.
📅 20 de novembro — “Ressaca Bailada”, de Sebastião Varela
20h40 | TVCine Edition e TVCine+
Um filme-concerto como raramente se vê no cinema português.
Sebastião Varela junta música, dança e poesia numa homenagem aos Expresso Transatlântico, transformando o ecrã numa experiência sensorial e coletiva.
Com João Cachola, Rita Blanco, Laura Dutra, Vicente Wallenstein, Inês Pires Tavares, Conan Osíris e Gaspar Varela, o filme explora as fronteiras entre tradição e vanguarda.
📅 27 de novembro — “Camarada Cunhal”, de Sérgio Graciano
20h15 | TVCine Edition e TVCine+
O ciclo termina com um mergulho na história recente de Portugal.
Camarada Cunhal, de Sérgio Graciano, revisita a prisão de Álvaro Cunhal no Forte de Peniche, em 1956, e o plano de fuga que desafiou o regime.
Entre o drama humano e a reconstrução histórica, o filme é uma homenagem à resistência e à coragem política.
Com Romeu Vala, Filipa Nascimento, Frederico Barata, Helena Caldeira e Maya Booth.
🎬 Quatro filmes, quatro formas de olhar Portugal
De Lovecraft a Álvaro Cunhal, de AI a Expresso Transatlântico, o especial Quintas à Portuguesa é um convite a redescobrir a criatividade e diversidade do cinema nacional.
De 2 a 30 de novembro, o canal dedica as noites de domingo a histórias reais que atravessam fronteiras, culturas e consciências
Em novembro, o TVCine Edition convida os espectadores a viajar por diferentes visões do mundo através do ciclo “Documentários: Olhares Sobre o Mundo”, uma seleção de obras premiadas que exploram temas como identidade, liberdade, migração e arte. A iniciativa decorre de 2 a 30 de novembro, sempre aos domingos, às 22h00, com estreia exclusiva também no TVCine+.
Do interior de Portugal aos Alpes franceses, das arenas de Espanha ao Luxemburgo multicultural, este especial reúne cinco filmes que nos recordam o poder transformador do olhar documental — e a importância de ouvir as histórias que raramente chegam ao grande ecrã.
2 de novembro — Lucefece, de Pedro Leite
Filmado ao longo de mais de 20 anos, em película e revelado à mão, Lucefece é um ensaio autobiográfico que mistura política, mitologia e memórias familiares. O realizador regressa às suas origens e às conversas com o pai, ex-combatente da guerra colonial, para refletir sobre o país, a herança e o tempo. Vencedor do Melhor Filme da Competição Cinema Falado no Porto/Post/Doc 2023.
9 de novembro — Tardes de Solidão, de Albert Serra
O provocador realizador catalão Albert Serra regressa com um retrato cru e íntimo do toureiro Andrés Roca Rey, explorando a dor, a devoção e o sentido trágico da tauromaquia. O filme, filmado com o rigor quase litúrgico de Serra, venceu a Concha de Ouro no Festival de San Sebastián 2024 e desafia o público a decidir: arte ou barbárie?
16 de novembro — As Melusinas à Margem do Rio, de Melanie Pereira
Filha de emigrantes portugueses no Luxemburgo, Melanie Pereira dá voz a cinco mulheres que vivem entre dois mundos — o da memória e o da pertença. O documentário, premiado no DocLisboa e no Porto Femme, cruza mitologia e experiência pessoal numa viagem poética sobre identidade e fragmentação.
23 de novembro — Peaches Goes Bananas, de Marie Losier
Durante 17 anos, Marie Losier filmou a artista Peaches, ícone queer e pioneira do electroclash. O resultado é um retrato vibrante de uma mulher em permanente reinvenção — um hino à liberdade artística e corporal. O documentário estreou no Festival de Veneza 2024, entre elogios da crítica e aplausos de pé.
30 de novembro — O Vale, de Nuno Escudeiro
Nos Alpes franceses, migrantes arriscam a vida para cruzar a fronteira entre Itália e França. O Vale acompanha o trabalho das comunidades locais que os acolhem, mesmo sob ameaça de prisão. Um olhar comovente sobre a solidariedade em tempos de crise humanitária, realizado por Nuno Escudeiro, distinguido como Realizador Internacional Emergenteno festival canadiano Hot Docs.
Cinco domingos, cinco viagens — todas diferentes, todas necessárias.
De 2 a 30 de novembro, o TVCine Edition convida-nos a olhar o mundo, e talvez a nós próprios, com um pouco mais de empatia.
Treze anos depois de A Gaiola Dourada, o realizador filma em Lisboa uma nova comédia romântica protagonizada por Rita Blanco e Joaquim Monchique.
Lisboa volta a ser o palco principal de uma grande história de amor. Santo António, o Casamenteiro de Lisboa é o novo filme de Ruben Alves, o realizador de A Gaiola Dourada, e já está em rodagem nas ruas da capital. A comédia romântica promete misturar tradição, humor e ternura, celebrando o espírito lisboeta com o charme e a leveza que o cineasta tão bem domina.
Nos papéis principais, Rita Blanco e Joaquim Monchique interpretam os guardiões dos Casamentos de Santo António, determinados a manter viva uma tradição secular que ameaça desaparecer — até que o improvável amor volta a mostrar o seu poder de transformar tudo. O elenco completo, que incluirá nomes do cinema português e internacional, será anunciado em breve.
O argumento foi co-escrito por Ruben Alves e pelo argumentista espanhol Fer Pérez (Kiki, o Amor Faz-se; Arde Madrid), numa colaboração que promete combinar o humor ibérico com o romantismo de Lisboa. Segundo Alves, esta nova comédia é “uma celebração da cidade em constante mudança, onde o caricato se entrelaça com a ternura, e o amor surge nos lugares mais inesperados”.
O regresso de Ruben Alves à comédia
Treze anos após o fenómeno de bilheteira que foi A Gaiola Dourada, o realizador regressa ao género que o tornou um nome incontornável do cinema português contemporâneo. Produzido pela Blablabla Media e Comba Films, o filme conta com o apoio do Disney+, Turismo de Lisboa, ICA, Europa Criativa – Programa MEDIA, Fundo de Apoio ao Turismo e ao Cinema, Câmara Municipal de Lisboa e NOS Audiovisuais.
A estreia nos cinemas nacionais está prevista para o verão de 2026, com distribuição pela NOS Audiovisuais, e será o primeiro filme português a estrear em exclusivo no Disney+ após a exibição no grande ecrã — um marco importante na relação entre o cinema português e as grandes plataformas internacionais.
Entre santos, casamentos e uma cidade que nunca perde o encanto, Santo António, o Casamenteiro de Lisboa promete ser uma comédia romântica feita com o coração — e uma homenagem luminosa a Lisboa, ao amor e à tradição que continua a unir os lisboetas.
O premiado filme de Paolo Marinou-Blanco estreia a 26 de outubro no TVCine Top
Prepare-se para rir, emocionar-se e pensar sobre o que significa viver — e morrer — com dignidade. Sonhar com Leões, de Paolo Marinou-Blanco (Goodnight Irene), estreia em exclusivo na televisão portuguesa no dia 26 de outubro, às 21h20, no TVCine Top e TVCine+.
A história segue Gilda (interpretada pela aclamada actriz Denise Fraga), uma professora reformada, imigrante brasileira em Lisboa, cuja vida sarcástica e solitária é abalada pela notícia de que lhe resta apenas um ano de vida devido a um cancro na medula espinal.
E se morrer fosse também um ato de liberdade?
Em Portugal, onde a eutanásia continua a ser tema controverso, Gilda conhece Amadeu, outro doente terminal, através de uma empresa clandestina que promete uma “morte sem dor” — mediante pagamento. Quando percebem que foram enganados, os dois decidem tomar o controlo do próprio destino e embarcam numa última viagem até à ilha de Maiorca, onde planeiam morrer nos seus próprios termos.
Entre o grotesco e o comovente, Sonhar com Leões transforma um tema delicado num filme sobre coragem, humanidade e escolha pessoal.
Humor e emoção em doses iguais
Misturando humor negro e sensibilidade emocional, Paolo Marinou-Blanco constrói uma narrativa que alterna entre o absurdo e a ternura, desafiando o espectador a rir — mesmo diante da morte.
Além de Denise Fraga, o elenco conta com João Nunes Monteiro, Joana Ribeiro, Sandra Faleiro e Victoria Guerra, numa coprodução entre Portugal, Brasil e Espanha.
Reconhecimento internacional
Sonhar com Leões tem sido aplaudido em vários festivais de cinema internacionais, conquistando o Prémio de Melhor Filme no Festival Atlàntida Mallorca e o de Melhor Realização no European Film Festival de Palić, na Sérvia.