“The Night Agent” termina na quarta temporada — e o Netflix avisou logo no primeiro dia de rodagens

Há uma crueldade particular na forma como o Netflix geriu este anúncio. No dia 4 de Maio, as rodagens da quarta temporada de The Night Agent arrancaram em Los Angeles. No mesmo dia, a plataforma confirmou que seria a última. Para os fãs que aguardavam notícias da renovação com esperança, foi um presente envenenado: há mais uma temporada, mas é a última, e já começou a ser filmada hoje.

A série criada por Shawn Ryan — baseada no romance de Matthew Quirk — foi um dos maiores fenómenos do Netflix em 2023. A primeira temporada passou 17 semanas no top 10 global da plataforma e sete nas tabelas Nielsen nos Estados Unidos, números que poucos títulos do catálogo conseguiram igualar. As temporadas seguintes foram decrescendo em audiência: a segunda teve seis semanas no top 10 mundial, a terceira — estreada em Fevereiro de 2026 — quatro semanas, embora ainda sólida o suficiente para justificar a renovação em Março. Dois meses depois, o Netflix decidiu que era altura de fechar o ciclo.

A decisão foi fraseada com cuidado pela plataforma e pelo criador. Ryan insistiu que a quarta temporada foi concebida como conclusão desde o início da renovação — não é um cancelamento abrupto mas uma escolha criativa — e que Peter Sutherland terá um final digno da trajectória da série. O elenco da última temporada reforça essa ambição: Titus Welliver, que passou décadas a interpretar personagens de autoridade moral ambígua em Bosch e Lost, assume o papel de procurador especial do Ministério da Justiça; Trevante Rhodes — o actor de Moonlight e The Gray Man — é Dom, o novo parceiro de Peter; Li Jun Li regressa como a mulher de Dom; e Elizabeth Lail repete o papel de Zoe, a antiga noiva de Sutherland, num regresso que os fãs da primeira temporada vão certamente apreciar.

A temporada final abandona também a fórmula geográfica das anteriores: depois de Washington, Istambul e outras localizações internacionais, a acção concentra-se inteiramente em Los Angeles — uma escolha que Ryan descreveu como narrativamente necessária, sem adiantar pormenores. A estreia está prevista para 2027. As temporadas 1 a 3 estão disponíveis no Netflix.

“A Complete Unknown” estreia esta sexta no TVCine Top: Timothée Chalamet é Bob Dylan e é impossível não acreditar

Disney+ em Maio: o Justiceiro regressa, Stanley Tucci volta a Itália e os anos 80 de “Rivals” chegam a Portugal

“Mission: Impossible — The Final Reckoning” está no Prime Video e Tom Cruise merece uma despedida em condições

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A Complete Unknown não é bem um biopic. É uma questão — sobre de onde vem o génio, sobre o que uma pessoa está disposta a sacrificar para o seguir, e sobre o que acontece quando um artista cresce mais depressa do que o mundo que o descobriu. James Mangold concentra-se em quatro anos decisivos da vida de Bob Dylan — a chegada a Nova Iorque em 1961, a ascensão fulminante na cena folk do Greenwich Village e a polémica transição para o som eléctrico no Festival de Newport de 1965 — e faz um filme que, para quem não sabe nada sobre Dylan, funciona como revelação, e para quem sabe muito, funciona como argumento.

O filme recusa a cronologia ordenada e o tom reverencial que aflige tantos filmes sobre artistas icónicos. Em vez disso, Mangold — o realizador de Walk the Line e Logan, dois filmes que percebem exactamente como o género funciona quando não capitula ao hagiográfico — concentra-se num período específico e decisivo: a chegada de Bob Dylan a Nova Iorque em 1961, a sua ascensão fulminante na cena folk do Greenwich Village, e a polémica transição para o som eléctrico no Festival de Newport de 1965, um dos momentos mais divisivos e mais estudados da história da música contemporânea. É em quatro anos que o filme conta tudo o que importa — e conta-o com uma urgência que os biopics de dois anos raramente conseguem.

Timothée Chalamet não imita Dylan. Habita-o. É uma distinção que parece óbvia mas que, na prática, muito poucos actores conseguem manter durante dois horas e dezassete minutos — especialmente quando o território inclui tocar guitarra e harmónica em palco e cantar cerca de quarenta canções do próprio Dylan. O trabalho de preparação foi de mais de um ano, e vê-se: não há o distanciamento artificial do actor consciente de que está a fazer uma caracterização. Há uma presença. O resultado valeu-lhe oito nomeações aos Óscares, incluindo Melhor Actor, e uma das críticas mais consistentemente positivas da temporada de prémios de 2024-25.

O elenco de apoio está à altura. Edward Norton como Pete Seeger — mentores raramente são interpretados com esta ternura — e Monica Barbaro como Joan Baez numa performance que mereceu mais atenção do que recebeu. Elle Fanning completa o quarteto principal como Sylvie Russo, a namorada de Dylan inspirada em Suze Rotolo, a jovem que está na capa de The Freewheelin’ Bob Dylan.

Para quem não sabe nada sobre Dylan, o filme funciona como introdução sem nunca parecer uma aula. Para quem sabe muito, há pormenores, escolhas e contradições suficientes para alimentar discussão durante horas. É exactamente o que um biopic deve ser — esta sexta-feira, no TVCine Top, às 21h30.

Disney+ em Maio: o Justiceiro regressa, Stanley Tucci volta a Itália e os anos 80 de “Rivals” chegam a Portugal
“Mission: Impossible — The Final Reckoning” está no Prime Video e Tom Cruise merece uma despedida em condições
Cinemundo em Maio: Ewan McGregor às terças, Palmas de Ouro às quartas e Anne Hathaway numa noite de cinema

Disney+ em Maio: o Justiceiro regressa, Stanley Tucci volta a Itália e os anos 80 de “Rivals” chegam a Portugal

Maio no Disney+ é um mês generoso para gostos muito diferentes — o que, na prática, é a melhor notícia possível para quem partilha uma conta com pessoas que não concordam em nada à hora de escolher o que ver.

O destaque mais inesperado é O Justiceiro: Uma Última Morte, disponível a 13 de Maio. Depois de anos de silêncio sobre o futuro de Frank Castle no universo Marvel, a plataforma lança uma apresentação especial da Marvel Television que recoloca Jon Bernthal no papel que definiu a sua versão do anti-herói: enquanto Castle procura um sentido para além da vingança, uma força inesperada traz-o de volta à luta. A formulação é deliberadamente vaga — a Marvel aprendeu a guardar os seus segredos — mas para os fãs de Bernthal neste papel, é suficiente para marcar a data.

A 15 de Maio chega a segunda temporada de Rivals, a adaptação do romance de Jilly Cooper que conquistou uma base de fãs considerável com a primeira temporada. A batalha pela concessão televisiva da região Central South West atinge novos níveis de brutalidade: Tony Baddingham está mais implacável do que nunca, casamentos desmoronam-se sob o peso da ambição e segredos há muito enterrados voltam à superfície com consequências explosivas. É o tipo de drama de época dos anos 80 — excessivo, glamouroso e completamente sem remorsos — que raramente é feito com esta qualidade.

A 12 de Maio, Stanley Tucci regressa a Itália para uma segunda temporada de Tucci em Itália. Desta vez visita cinco novas regiões, incluindo As Marcas — uma das menos turistificadas do país — e mergulha na controvérsia sobre as origens do tiramisu no Véneto, celebra uma casta de uva esquecida na Campânia e explora a relação entre gastronomia e longevidade na Sardenha. É exactamente o programa que parece feito para ser visto ao jantar de domingo, com algo italiano no prato.

Para completar o mês, a 28 de Maio estreia a segunda temporada de Deli Boys — a comédia de crime sobre dois irmãos que herdaram um império do crime sem saber como geri-lo, agora afogados em dinheiro sujo com os criminosos mais suspeitos da Filadélfia à espreita. E a 1 de Maio chega ao catálogo A Melhor Despedida de Solteira — o clássico de 2011 com Kristen Wiig, Melissa McCarthy e Maya Rudolph, que quinze anos depois continua a ser uma das comédias mais bem escritas da sua geração.

Uma nota para os mais novos da casa: a 20 de Maio chegam novos episódios de Bluey Curtas, a colecção de curtas de um a três minutos com Bluey e Bingo que os pais de crianças pequenas conhecem muito bem — e que os próprios miúdos pedem com uma insistência que desafia qualquer argumento.

E já que o mês começa no Dia de Star Wars — 4 de Maio, May the 4th be with you — o Disney+ aproveita para lembrar que todos os filmes da saga estão disponíveis na plataforma, com o último episódio da primeira temporada de Star Wars: Maul — Senhor da Sombra a estrear exactamente nesse dia.

“Mission: Impossible — The Final Reckoning” está no Prime Video e Tom Cruise merece uma despedida em condições
“Paper Tiger” de James Gray completa Cannes 2026: Adam Driver, Scarlett Johansson e Miles Teller na mafia russa e no sonho americano

“Mission: Impossible — The Final Reckoning” está no Prime Video e Tom Cruise merece uma despedida em condições

Há filmes que chegam ao streaming de forma silenciosa e merecem mais do que isso. Mission: Impossible — The Final Reckoning, o oitavo e último filme da saga de Ethan Hunt, estreou nos cinemas em Maio de 2025, chegou ao Prime Video a 3 de Abril e está disponível em Portugal desde então — sem grandes anúncios, sem campanha de regresso, apenas ali, à espera.

O filme divide a crítica de forma invulgar para um blockbuster desta escala. Com 78% no Rotten Tomatoes, há quem o considere uma conclusão digna de trinta anos de missões impossíveis — o Guardian deu-lhe cinco estrelas, a Rolling Stone chamou-lhe “o fim de uma era” — e quem o ache demasiado longo, demasiado expositivo e estruturalmente inferior a Fallout, o ponto alto da série. O que ninguém contesta é Tom Cruise: aos 62 anos, o actor continua a fazer as suas próprias acrobacias, desta vez incluindo uma sequência subaquática que exigiu meses de preparação e uma cena num avião que redefine o que se entende por “filmado em condições reais”.

O elenco de regresso inclui Ving Rhames, Simon Pegg, Hayley Atwell e Pom Klementieff. Angela Bassett interpreta a Presidente dos Estados Unidos. Henry Czerny regressa do filme original de 1996 numa função crucial para o segundo acto. A premissa continua a partir de Dead Reckoning: a Entidade — uma inteligência artificial rogue com capacidade de controlar sistemas nucleares globais — ameaça a sobrevivência da civilização, e Ethan Hunt é, uma vez mais, a única pessoa disposta a fazer o que é necessário.

É um filme imperfeito. É também, muito provavelmente, o último de um tipo de blockbuster que deixará de existir quando Cruise decidir parar — cinema de acção filmado em localizações reais, com stunts reais, por um actor que recusa o greenscreen por princípio. Por essa razão, e independentemente das suas imperfeições, The Final Reckoning merece ser visto. Está no Prime Video. Não há desculpa.

“Paper Tiger” de James Gray completa Cannes 2026: Adam Driver, Scarlett Johansson e Miles Teller na mafia russa e no sonho americano
“Victorian Psycho”: Maika Monroe é uma governanta perturbadora numa mansão gótica — e é um dos filmes mais aguardados de Cannes
Na Hong-jin regressa com “Hope” dez anos depois — e desta vez entra pela primeira vez em Competição em Cannes

“Paper Tiger” de James Gray completa Cannes 2026: Adam Driver, Scarlett Johansson e Miles Teller na mafia russa e no sonho americano

James Gray tem uma relação de décadas com Cannes — We Own the NightTwo LoversThe ImmigrantArmageddon Time passaram todos pela Croisette em Competição — mas nunca ganhou a Palma de Ouro. Paper Tiger, o seu novo filme, completa os 22 títulos da Competição Oficial de 2026 e é, à partida, uma das candidaturas mais sólidas ao prémio principal. E chegou a Cannes de forma tortuosa: Thierry Frémaux admitiu publicamente que estava à sua espera quando anunciou a selecção a 9 de Abril, e o filme só entrou na lista oficial duas semanas depois, após a resolução de questões contratuais.

A história centra-se em dois irmãos — interpretados por Adam Driver e Miles Teller — que tentam alcançar o sonho americano e acabam enredados num esquema demasiado bom para ser verdade, terrorizado pela máfia russa. Scarlett Johansson completa o trio principal num papel ainda não revelado. A premissa é um regresso claro ao Gray mais genre — o realizador de The Yards e We Own the Night, que começou a carreira no thriller urbano antes de se tornar num autor de prestígio com The Immigrant e Ad Astra. Frémaux descreveu-o como “um filme muito James Gray, muito indie” — formulação que os fãs do realizador reconhecerão imediatamente como um elogio.

O elenco tem uma história própria que vale contar: Anne Hathaway e Jeremy Strong estavam originalmente ligados ao projecto e saíram por incompatibilidades de agenda. A substituição por Johansson e Teller não foi um recuo — foi uma reconfiguração que reuniu Driver e Johansson pela primeira vez desde Marriage Story de Noah Baumbach (2019), o filme que valeu a ambos nomeações ao Óscar. Gray nunca tinha trabalhado com nenhum dos três actores, o que torna este Paper Tiger num filme de primeiras vezes em vários sentidos.

A Neon — a distribuidora por detrás dos últimos seis vencedores da Palma de Ouro, incluindo Parasita e Anatomia de uma Queda — adquiriu os direitos norte-americanos, o que é o sinal mais claro possível de que o filme chega a Cannes com expectativas sérias. Gray será um dos dois realizadores americanos em Competição este ano, ao lado de Ira Sachs com The Man I Love. A Palma de Ouro está em aberto — e Paper Tiger é uma das razões pelas quais.

“Victorian Psycho”: Maika Monroe é uma governanta perturbadora numa mansão gótica — e é um dos filmes mais aguardados de Cannes
Na Hong-jin regressa com “Hope” dez anos depois — e desta vez entra pela primeira vez em Competição em Cannes

“Que a Força esteja contigo”: como o cinema colonizou o calendário, a linguagem e a vida quotidiana

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O título joga com American Psycho mas o filme tem vida própria. Victorian Psycho, seleccionado para Un Certain Regard no 79.º Festival de Cannes, é a adaptação do romance de Virginia Feito — a própria autora assina o argumento — rodada na Irlanda e protagonizada por Maika Monroe numa das personagens mais prometedoras da temporada de festivais.

A história passa-se em 1858: Winifred Notty, uma jovem governanta excêntrica, chega à remota mansão gótica de Ensor House. À medida que se instala na vida da casa, funcionários começam a desaparecer inexplicavelmente — e os donos começam a suspeitar que há algo de errado com a nova governanta. É horror gótico vitoriano com Monroe do outro lado da equação: a actriz de It Follows e Longlegs, habituada a ser perseguida, é aqui a ameaça. O realizador é Zachary Wigon, cujo Sanctuary (2022) revelou um talento invulgar para dissecar relações de poder em espaços fechados.

O elenco inclui Thomasin McKenzie como a criada de quarto que cria laços com Winifred, Jason Isaacs como o dono da mansão, Ruth Wilson e o jovem Jacobi Jupe, revelação de Hamnet. Monroe substituiu Margaret Qualley, que saiu do projecto por incompatibilidades de agenda — uma substituição que, à luz das primeiras imagens divulgadas, parece ter sido uma mais-valia. A distribuidora americana é a Bleecker Street, que confirma estreia em sala a 25 de Setembro nos EUA.

Na Hong-jin regressa com “Hope” dez anos depois — e desta vez entra pela primeira vez em Competição em Cannes
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John Travolta estreia-se como realizador com um filme escrito para o filho Jett

Na Hong-jin regressa com “Hope” dez anos depois — e desta vez entra pela primeira vez em Competição em Cannes

Em 2016, The Wailing de Na Hong-jin passou por Cannes fora de competição e ficou na memória de toda a gente que o viu: um thriller sobrenatural ambientado numa aldeia rural coreana que começa como um procedimento policial e se transforma em algo muito mais difícil de classificar. Dez anos depois, Na Hong-jin regressa — e desta vez está em Competição pela primeira vez, com Hope, um thriller de ficção científica com um dos elencos mais ambiciosos da sua carreira.

A premissa é reconhecivelmente Na: em Hope Harbor, uma aldeia remota perto da Zona Desmilitarizada coreana, o chefe de polícia Bum-seok recebe notícias alarmantes de jovens locais — foi avistado um tigre. À medida que o pânico se instala na aldeia, Bum-seok é forçado a confrontar uma realidade que vai muito além de um animal selvagem. É o ponto de partida de um filme que o director artístico de Cannes, Thierry Frémaux, descreveu como algo que “muda constantemente de género” e conta “uma história que nunca foi contada antes”. O orçamento supera os 50 milhões de dólares — um dos maiores de sempre no cinema coreano — e o director de fotografia é Hong Kyung-pyo, o mesmo de Parasite e Burning.

O elenco é o mais internacional da carreira de Na: Hwang Jung-min e Zo In-sung nos papéis principais coreanos, com Hoyeon (Squid Game), Alicia Vikander e Michael Fassbender — casados na vida real — Taylor Russell (Bones and All) e Cameron Britton (Mindhunter) a completar um ensemble que cruza o cinema coreano de autor com o star system ocidental de uma forma sem precedentes. É também o quarto filme de Na Hong-jin a estrear em Cannes, depois de The Chaser (2008), The Yellow Sea (2011) e The Wailing (2016) — uma consistência de presença no festival que muito poucos realizadores conseguem.

Há ainda um dado que acrescenta pressão ao momento: o presidente do júri de Cannes 2026 é Park Chan-wook — o realizador coreano de Oldboy e Decisão de Partir, que será um dos juízes do filme do seu compatriota. A Palma de Ouro seria a primeira para o cinema coreano desde Parasita em 2019.

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“The Mandalorian and Grogu” estreia a 22 de Maio — Star Wars regressa aos cinemas pela primeira vez em sete anos

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Hoje é 4 de Maio. Em qualquer outro contexto, seria apenas uma segunda-feira de início de mês. Mas há décadas que esta data pertence a Star Wars — e ao trocadilho tão mau que só podia ter nascido na internet: May the 4th be with you. O que começou como uma piada de fãs tornou-se num feriado global não oficial, celebrado com maratonas de filmes, promoções em merchandising, posts nas redes sociais e, este ano, com a confirmação de que The Mandalorian and Grogu chega às salas a 22 de Maio. George Lucas criou uma saga. A saga criou um dia no calendário. É difícil pensar noutro exemplo de ficção que tenha conseguido isso.

Mas Star Wars não está sozinho. O cinema tem uma capacidade única — diferente da literatura, diferente da música, diferente de qualquer outra forma de arte — de invadir a cultura de formas que os seus criadores raramente anteciparam. Não são apenas as frases que ficam. É a forma como certas imagens, certos personagens e certas histórias se tornam em referências partilhadas que funcionam como linguagem comum entre pessoas que nunca se conheceram.

“Frankly, my dear, I don’t give a damn.” “Here’s looking at you, kid.” “You can’t handle the truth.” “I’m going to make him an offer he can’t refuse.” Estas frases saíram dos ecrãs há décadas e continuam a circular na conversa quotidiana de pessoas que nunca viram os filmes de onde vêm. O cinema criou um repertório de citações que funciona como código cultural — uma forma de sinalizar pertença, humor, cumplicidade. Quando alguém diz “Eu sou o teu pai” num contexto completamente diferente, toda a gente percebe. Isso é extraordinário.

Há também os gestos. O polegar levantado de Fonzie em Happy Days veio da televisão, mas foi o cinema que universalizou a linguagem corporal como código — de Marlon Brando a ajustar o chapéu em O Padrinho ao salto de Tom Cruise numa mota em qualquer um dos seus filmes. O cinema ensinou-nos a ler corpos de uma forma que o teatro nunca conseguiu, porque a câmara vai a lugares que o palco não alcança.

E depois há as datas. O 4 de Maio é de Star Wars, mas não é o único dia que o cinema tomou de assalto. O Dia de Groundhog — 2 de Fevereiro — é inseparável do filme de Harold Ramis com Bill Murray desde 1993; o conceito de repetição cíclica e aprendizagem forçada entrou na linguagem comum com o nome do feriado americano, mas é o filme que toda a gente cita. O Dia de São Valentim foi sempre uma data comercial, mas foram décadas de comédias românticas que lhe deram a forma que tem hoje — as expectativas, o vocabulário, a iconografia das flores e do jantar à luz de velas. O Halloween, nos países onde não tinha tradição, chegou através do cinema de terror antes de chegar através dos supermercados.

Os super-heróis são o capítulo mais recente desta história. A Marvel construiu em quinze anos um universo narrativo que gerou uma comunidade de referências partilhadas de dimensão global — não apenas frases e imagens, mas uma cronologia, uma mitologia, uma forma de organizar o tempo (“antes do Snap”, “depois de Endgame“) que os fãs usam como coordenadas. É a primeira vez na história que uma franchise cinematográfica funcionou como um texto sagrado partilhado por centenas de milhões de pessoas em simultâneo.

O que torna tudo isto possível é algo que o cinema tem e que nenhuma outra forma de arte combina da mesma forma: a escala e a simultaneidade. Um livro é lido por uma pessoa de cada vez, em ritmos diferentes, em solidão. Um filme é visto por milhões de pessoas ao mesmo tempo — nas mesmas salas, com o mesmo som, com a mesma luz — e essa experiência partilhada cria uma memória colectiva que a leitura nunca consegue replicar. Quando toda a gente viu o mesmo filme no mesmo fim-de-semana, a conversa de segunda-feira tem um ponto de partida comum.

George Lucas disse uma vez que não esperava que Star Wars durasse mais do que algumas semanas em cartaz. Hoje, 4 de Maio, o mundo inteiro sabe o que isso significa. Que a Força esteja com todos nós — e com The Mandalorian and Grogu, que chega às salas daqui a dezoito dias.

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John Travolta estreia-se como realizador com um filme escrito para o filho Jett

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John Travolta estreia-se como realizador com um filme escrito para o filho Jett

Há histórias que só fazem sentido quando se conhece o contexto. Propeller One-Way Night Coach — o título completo do filme que John Travolta vai apresentar em Cannes na secção Cannes Première — é, na superfície, uma história de aviação sobre um rapaz de oito anos e a sua mãe numa viagem de avião para Hollywood. Na realidade, é um acto de amor de um pai ao filho que perdeu.

Travolta escreveu e ilustrou o livro original em 1997, baseando-se nas suas memórias de infância a observar aviões a descolar do aeroporto de La Guardia, perto de casa. O livro foi escrito para Jett, o seu filho, que morreu em Janeiro de 2009, aos dezasseis anos, vítima de uma convulsão durante umas férias nas Bahamas. O livro existia há quase trinta anos quando Travolta decidiu adaptá-lo para o ecrã — e esta semana, aos 72 anos, fará a sua estreia como realizador no festival que, em 1994, o relançou como actor com Pulp Fiction.

O filme é uma produção Apple Original Films de média-metragem, rodada parcialmente em Kansas City, com a participação da filha Ella Bleu Travolta como assistente de bordo — o mesmo papel que a própria mãe, Kelly Preston, falecida em 2020, poderia ter facilmente interpretado. O protagonista é o jovem actor desconhecido Clark Shotwell; a mãe no filme é Kelly Eviston-Quinnett. A história é deliberadamente simples: uma viagem de avião que se transforma numa aventura de formação. O que lhe dá peso é tudo o que está por baixo — a paixão de Travolta pela aviação, o filho a quem o livro foi dedicado, a filha que está no ecrã, a mulher que já não está.

Travolta tem mais de 9.000 horas de voo no currículo, é certificado para pilotar Boeing 707, 737 e 747 e foi o primeiro piloto privado a voar um Airbus A380. Voou em dois dos seus filmes — Look Who’s Talking e Broken Arrow. É, portanto, alguém que conhece o assunto do outro lado da câmara também. Propeller One-Way Night Coach estreia no Apple TV+ a 29 de Maio. Em Cannes, será apresentado no Teatro Debussy, com Travolta em sala. A quarta vez na Croisette — a primeira vez por detrás das câmaras.

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Cinemundo em Maio: Ewan McGregor às terças, Palmas de Ouro às quartas e Anne Hathaway numa noite de cinema

Há canais que enchem a grelha. E há canais que a constroem com critério. O Canal Cinemundo entra em Maio com uma programação que merece atenção — não pelo volume, mas pela coerência das escolhas.

O destaque mais substancioso do mês é o ciclo dedicado a Ewan McGregor, que ocupa as terças-feiras às 22h30 ao longo de todo o mês. A selecção percorre quatro filmes que, juntos, mostram exactamente por que McGregor continua a ser uma das presenças mais imprevisíveis do cinema contemporâneo: O Sonho de Cassandra (5 de Maio), o thriller moral de Woody Allen que ficou injustamente na sombra da carreira do realizador; Um Traidor dos Nossos (12 de Maio), o spy thriller de John le Carré onde McGregor é um professor universitário arrastado para um esquema de lavagem de dinheiro da máfia russa; Homens que Matam Cabras Só com o Olhar (19 de Maio), a comédia absurdista sobre soldados americanos com poderes paranormais que continua a ser um dos filmes mais estranhos e divertidos da sua geração; e Uma História Americana (26 de Maio), drama de formação passado nos anos 70 com a textura e o ritmo dos melhores filmes independentes americanos. Quatro filmes, quatro géneros, um actor — é exactamente o tipo de ciclo que um canal de cinema deve fazer.

Ewan McGregor em America Pastoral

Nas quartas-feiras, a partir das 22h30, o Cinemundo propõe algo mais exigente: três Palmas de Ouro em três semanas. O Quadrado de Ruben Östlund (13 de Maio), a sátira ao mundo da arte contemporânea que ganhou em Cannes em 2017; Parasitas de Bong Joon-ho (20 de Maio), o filme que em 2019 fez o que muitos julgavam impossível — ganhar a Palma de Ouro e o Óscar de Melhor Filme no mesmo ano; e Triângulo da Tristeza (27 de Maio), o regresso de Östlund a Cannes com uma comédia negra sobre riqueza, poder e naufrágio que dividiu a crítica e encantou o público. São três filmes que passaram por Cannes e ficaram — e que o Cinemundo tem o bom gosto de programar em sequência, como se fossem uma conversa sobre o estado do mundo.

A 22 de Maio, a partir das 21h00, o canal dedica uma noite inteira a Anne Hathaway — e as escolhas são felizes. Um Dia, a adaptação do romance de David Nicholls onde dois amigos se reencontram exactamente no mesmo dia durante décadas, é um dos filmes mais emocionalmente devastadores da actriz. Serenidade, logo a seguir às 22h50, é o seu oposto completo: um neo-noir perturbador que subverte todas as expectativas do género. É uma noite que serve tanto para quem ainda não conhece estes filmes como para quem os quer rever — e que, na semana em que O Diabo Veste Prada 2 domina a conversa cinematográfica, tem um timing perfeito.

Para os domingos, o Cinemundo preparou um ciclo temático em torno do Dia da Mãe que se estende por todo o mês, com dez filmes a partir das 12h00 — da comédia ao drama, com Fátima (24 de Maio) como o título mais inesperado e mais interessante da selecção.

O Canal Cinemundo está disponível na MEO (posição 60 HD), Vodafone (posição 77 HD) e NOS (posição 40 HD).

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“The Mandalorian and Grogu” estreia a 22 de Maio — Star Wars regressa aos cinemas pela primeira vez em sete anos

A última vez que Star Wars esteve nos cinemas foi em Dezembro de 2019, com A Ascensão de Skywalker. Sete anos é muito tempo numa franchise que durante décadas definiu o que significava um evento cinematográfico. A 22 de Maio, Din Djarin e Grogu chegam ao grande ecrã — e com eles regressa uma questão que a Disney tem evitado responder directamente: ainda há público para Star Wars em sala?

O filme, realizado por Jon Favreau a partir de um argumento seu com Dave Filoni e Noah Kloor, é uma continuação directa da terceira temporada da série The Mandalorian do Disney+, mas foi concebido para funcionar como ponto de entrada para quem nunca viu um único episódio. “É como a primeira temporada, episódio um”, disse Favreau ao io9. “Queremos sempre ter uma mão estendida a alguém que nunca viu Star Wars antes.” A premissa é suficientemente simples: o Império caiu, mas os seus almirantes dispersos continuam a ameaçar a galáxia, e a Nova República recrutou o caçador de recompensas mandaloriano Din Djarin — Pedro Pascal, que desta vez aparece sem máscara por tempo considerável — e o seu aprendiz Grogu para uma missão que os colocará frente a frente com os Gêmeos Hutt.

O elenco de apoio é a grande novidade. Sigourney Weaver interpreta a Coronel Ward, uma veterana da Rebelião agora em posição de liderança na República — e a sua presença no trailer final, divulgado na semana passada na CinemaCon de Las Vegas, foi o momento mais comentado da apresentação Disney. Jeremy Allen White, o actor de The Bear que se tornou num dos rostos mais procurados de Hollywood, aparece num papel ainda não revelado. A partitura é de Ludwig Göransson, Óscar por Oppenheimer e responsável pelo som inconfundível da série.

As projecções de bilheteira situam-se nos 80 milhões de dólares para o fim-de-semana de quatro dias do Memorial Day americano — um número sólido mas abaixo dos grandes arranques do universo Star Wars. Filoni, que co-escreveu o filme e substituiu Kathleen Kennedy como co-CEO da Lucasfilm, foi directo sobre as expectativas: “Não temos a pressão de O Despertar da Força. Isto não é o início de uma nova trilogia. É uma celebração destes dois personagens.” Em Portugal, o filme estreia a 22 de Maio nos Cinemas NOS e UCI, em versão normal e IMAX.

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“Good Omens” termina a 13 de Maio com um único episódio de 90 minutos — e chegou aqui por um caminho muito difícil

Há finais de séries que chegam como foram planeados. E há finais que chegam apesar de tudo. Good Omens pertence à segunda categoria — e isso torna a sua chegada ao Prime Video a 13 de Maio num evento que vai muito além de uma última temporada.

A história começa em Julho de 2024, quando o Tortoise Media publicou acusações de agressão sexual contra Neil Gaiman, o criador e showrunner da série. As acusações, expandidas pelo Vulture em Janeiro de 2025, levaram a Amazon a suspender a produção em Setembro de 2024 e a anunciar, em Outubro, que Gaiman saía do projecto. A terceira temporada, que estava planeada como uma temporada completa de seis episódios, foi reformulada num único episódio especial de 90 minutos. As filmagens, em Dezembro, tinham começado na Escócia em Janeiro de 2025 como planeado — mas com um projecto completamente diferente do original. Gaiman é creditado na escrita do episódio final, mas não participou enquanto showrunner nem produtor executivo. A realização ficou a cargo de Rachel Talalay.

É neste contexto que Michael Sheen e David Tennant regressam como Aziraphale e Crowley para o que foi descrito pelo próprio Sheen ao The Times como “sombrio mas satisfatório” — uma formulação que, vinda de alguém que claramente pesou cada palavra, diz bastante sobre o que esperar. A história retoma exactamente onde a segunda temporada terminou: Aziraphale aceitou o cargo de Arcanjo Supremo e deixou Crowley para trás — o momento que deixou os fãs em choque há quase três anos. Agora, como Arcanjo Supremo encarregado de supervisionar a Segunda Vinda, Aziraphale vê-se forçado a pedir ajuda a Crowley. O elenco de apoio inclui Jon Hamm como Gabriel, Derek Jacobi como o Metatron, Quelin Sepulveda como Muriel e Bilal Hasna numa estreia como Jesus — uma escolha que, num contexto de fim do mundo, faz todo o sentido narrativo.

Terry Pratchett, que morreu em Março de 2015, deixou expresso o desejo de que Gaiman adaptasse o romance que escreveram juntos e o levasse até ao fim. O que chegou a 13 de Maio não é o final que qualquer um deles imaginou. Mas é um final — e isso, dadas as circunstâncias, é mais do que era garantido.

Meryl Streep disse o que muitos pensam: “Tendemos a Marvel-izar os filmes — é muito aborrecido”

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Ralph Fiennes, Colin Farrell e Wagner Moura num filme sobre um quadro branco — Fernando Meirelles realiza

A premissa é deliberadamente absurda: três amigos de longa data entram em colapso relacional porque um deles gastou 200 mil euros num quadro praticamente em branco. Yasmina Reza escreveu Art em 1994, a peça estreou em Paris, passou pelo West End e pela Broadway, ganhou o Tony de Melhor Peça em 1998, e nunca deixou de estar em cartaz em algum palco do mundo desde então. Agora vai finalmente ao cinema — e o elenco anunciado ontem é exactamente tão bom quanto a peça merece.

Ralph Fiennes, Colin Farrell e Wagner Moura são os três amigos — Marc, Serge e Yvan — nesta adaptação dirigida por Fernando Meirelles e com argumento de Christopher Hampton, o mesmo que adaptou As Ligações Perigosas e O Pai. Hampton traduziu originalmente a peça do francês para inglês há trinta anos, tornando este regresso ao material uma espécie de reunião pessoal. O projecto é apresentado ao mercado de Cannes esta semana pela produtora 193, de Patrick Wachsberger.

As ligações entre o realizador e o elenco são múltiplas e relevantes. Meirelles trabalhou com Fiennes em O Jardineiro Fiel (2005), o filme que valeu o Óscar a Rachel Weisz; com Farrell na série Sugar da Apple TV+; e produziu vários projectos com Moura ao longo dos anos. Não é um ensemble reunido por conveniência — é um grupo com história em comum, o que numa comédia sobre amizade masculina e comunicação falhada é um dado que importa. Moura vem de ganhar o Prémio de Melhor Actor em Cannes pelo The Secret Agent; Fiennes foi nomeado ao Óscar por Conclave; Farrell continua a ser uma das presenças mais imprevisíveis e fiáveis do cinema contemporâneo desde Os Espíritos de Inisherin.

Meirelles tem ainda em pós-produção Here Comes the Flood, um projecto Netflix com Robert Pattinson e Denzel Washington. Art chega a seguir — e com este elenco, a questão não é se vale a pena prestar atenção. É quando começa a rodar.

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Meryl Streep disse o que muitos pensam: “Tendemos a Marvel-izar os filmes — é muito aborrecido”

Há declarações que circulam durante um dia e morrem. E há declarações de Meryl Streep. Esta vai ficar algum tempo.

A propósito da estreia de O Diabo Veste Prada 2, a actriz deu uma entrevista ao Deadline em que foi directa sobre o estado do cinema mainstream: “Tendemos a Marvel-izar os filmes agora. Achatamos as personagens em tropos. É muito aborrecido.” A frase está a circular há dois dias em todos os cantos da internet e continua a gerar reacções — de quem concorda entusiasticamente, de quem defende o cinema de super-heróis e de quem simplesmente aprecia ver alguém com o currículo de Streep a dizer o que pensa sem filtro.

O timing é perfeito — ou perfeitamente calculado. O Diabo Veste Prada 2 abriu num slot que estava originalmente reservado aos Vingadores: Juízo Final, depois de a Marvel ter recuado na data. Um filme sem efeitos especiais, sem trajes de combate e sem universo expandido tomou o lugar do franchise mais lucrativo da história do cinema — e fez 233 milhões globais no primeiro fim-de-semana. A declaração de Streep é também uma leitura do momento: o público respondeu a personagens complexas, a diálogos afiados e a actrizes com décadas de ofício. Isso diz qualquer coisa.

Streep não é a primeira a usar o termo “Marvel-izar” — Martin Scorsese abriu caminho em 2019 com a sua declaração sobre o cinema de super-heróis não ser “verdadeiro cinema”, e a polémica que se seguiu alimentou debates durante meses. Mas há uma diferença: Scorsese falou de fora. Streep falou de dentro de um fim-de-semana em que provou, com bilhetes vendidos, que há outra forma de abrir o verão de Hollywood. É mais difícil contra-argumentar assim.

“O Diabo Veste Prada 2” fez 233 milhões globais no fim-de-semana de estreia: o público deu o seu veredicto
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Olivia Rodrigo estreou-se como apresentadora do SNL — e trouxe uma canção inédita e Connor Storrie

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Olivia Rodrigo fez ontem à noite aquilo que poucos artistas conseguem: apresentar o Saturday Night Live e actuar como convidada musical no mesmo episódio, com a mesma energia nos dois papéis. Foi a sua terceira aparição no programa — esteve como convidada musical em 2021 e 2023 — mas a primeira vez a apresentar. E aproveitou bem a dupla função.

A monóloga arrancou com uma revisitação às suas origens no Disney Channel em Bizaardvark e uma piada sobre Jake Paul — o antigo colega que, segundo Rodrigo, lhe disse em tempos que queria “um dia bater em velhos no Netflix”. A seguir veio uma paródia musical de drivers license, reescrita como uma história de luta com o cartão de cidadão no balcão da conservatória. O público no estúdio 8H respondeu como se fosse um concerto.

Para as actuações musicais, os convidados estiveram à altura do momento. Debbie Harry — líder dos Blondie, 80 anos, presença inconfundível — entrou em palco para apresentar Drop Dead, o primeiro single do terceiro álbum, lançado a 17 de Abril e já no número um do Billboard Hot 100. Foi o quarto número um consecutivo de Rodrigo nessa tabela. Para a segunda actuação, Connor Storrie — o actor canadiano de Heated Rivalry que se tornou num dos rostos mais reconhecidos do momento — apresentou Begged, uma balada melancólica inédita que Rodrigo cantou sentada num baloiço, numa imagem que replica directamente a capa do álbum. A canção, centrada na incerteza e na contenção emocional, é o contraponto perfeito à energia de Drop Dead.

O álbum You Seem Pretty Sad for a Girl So in Love sai a 12 de Junho. Com dois temas apresentados ao vivo e uma digressão europeia marcada para o outono — a Unraveled Tour passa por várias cidades europeias —, o verão de Olivia Rodrigo está a tomar forma antes de o verão sequer começar.

Hollywood não vai ter greve: SAG-AFTRA fechou acordo de quatro anos com os estúdios — e a IA foi a batalha central

Ninguém em Hollywood queria repetir 2023. As greves simultâneas da WGA e da SAG-AFTRA que paralisaram a indústria durante meses deixaram marcas que ainda se sentem — séries atrasadas, filmes reconfigurados, carreiras interrompidas. Essa memória colectiva esteve presente em todas as reuniões dos últimos meses e ajuda a explicar a velocidade com que o acordo chegou: ontem, 2 de Maio, a SAG-AFTRA e a Alliance of Motion Picture and Television Producers confirmaram um acordo provisório que garante paz laboral até 2030.

É um contrato de quatro anos — um ano a mais do que o habitual, à semelhança do que a WGA aceitou em Abril — com reforço significativo do fundo de pensões do sindicato e um conjunto de protecções específicas contra o uso da inteligência artificial. Estes últimos foram a pedra angular das negociações: Duncan Crabtree-Ireland, director executivo da SAG-AFTRA, deixou claro desde o início que não aceitaria um contrato mais longo sem garantias concretas sobre IA. Os detalhes exactos só serão divulgados após a aprovação pelo conselho nacional do sindicato, que se reúne nos próximos dias — mas as fontes próximas das negociações descrevem um acordo que vai além das protecções de 2023 em matéria de réplicas digitais e uso de imagem sem consentimento.

O contexto é relevante: as negociações começaram a 9 de Fevereiro, foram interrompidas em Março para dar prioridade à WGA, e retomadas a 27 de Abril. Cinco dias depois, estava feito. A diferença em relação a 2023, segundo os próprios negociadores, foi a postura da AMPTP: “As empresas vieram prontas para negociar desde o primeiro dia”, disse um dos envolvidos ao Deadline. “Em ciclos anteriores havia semanas em que não se avançava nada.”

Fica por resolver o acordo com a Directors Guild of America, cujas negociações arrancam a 11 de Maio, lideradas por Christopher Nolan enquanto presidente da DGA. A guild dos realizadores tem um historial de negociações mais tranquilas — só foi a greve uma vez, em 1987, durante três horas — mas o facto de os três grandes contratos expirarem em simultâneo dá a Nolan uma alavancagem que os seus antecessores raramente tiveram.

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“O Diabo Veste Prada 2” fez 233 milhões globais no fim-de-semana de estreia: o público deu o seu veredicto

“O Diabo Veste Prada 2” fez 233 milhões globais no fim-de-semana de estreia: o público deu o seu veredicto

Os números finais chegaram esta manhã e são inequívocos. O Diabo Veste Prada 2 fez 77 milhões de dólares nos Estados Unidos e 233 milhões a nível global no fim-de-semana de estreia — o maior arranque de sempre para um filme não-animado liderado por mulheres, e o segundo melhor início de ano a nível global em 2026, apenas atrás de O Super Mario Galaxy Movie. Em Portugal, onde estreou na quinta-feira, as salas registaram sessões esgotadas durante todo o fim-de-semana.

O número que mais importa não é o doméstico nem o global — é o internacional: 156 milhões fora dos Estados Unidos, com o Reino Unido, França, Austrália, Espanha e Coreia do Sul a liderarem um desempenho que confirma que Miranda Priestly é uma personagem verdadeiramente sem fronteiras. A China, onde o filme abriu na quinta-feira, já acumula 4,9 milhões com uma quota de mercado de 62% — o maior arranque do ano no mercado chinês para um título ocidental. Em França, onde o primeiro filme tem estatuto de culto, os 4,6 milhões do fim-de-semana representam a terceira maior abertura do ano.

Para quem ainda não foi — e os números sugerem que há muita gente que foi — o veredicto do público é claro: 89% de aprovação nas audiências do Rotten Tomatoes, bem acima dos 78% da crítica. A diferença entre os dois números diz alguma coisa sobre o filme: os críticos encontraram fragilidades no argumento e na sub-personagem de origem asiática, mas o público simplesmente não se importou. Meryl Streep como Miranda Priestly em modo de fim de carreira, Anne Hathaway a equilibrar nostalgia e presente, Emily Blunt do outro lado da barricada — é uma equação que vinte anos de espera tornaram irresistível.

David Frankel, o realizador, disse esta semana que não havia planos para uma terceira parte. Com 233 milhões globais num fim-de-semana, alguém na 20th Century Studios vai certamente ter uma opinião diferente nos próximos dias.

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Há argumentistas que uma série transforma em nomes. Jack Thorne era já muito respeitado na indústria britânica — His Dark MaterialsEnola HolmesPatrick Melrose — mas foi Adolescence, o thriller sobre radicalização online que se tornou num fenómeno global no início de 2026, que o colocou no topo de todas as listas de desejos. A sua próxima série chega ao Netflix em Maio e a matéria-prima é das mais exigentes que o cânone literário pode oferecer: O Senhor das Moscas de William Golding.

O romance de 1954 — obrigatório em inúmeros curricula escolares europeus e portugueses — é a história de um grupo de rapazes evacuados durante uma guerra que ficam sozinhos numa ilha deserta e constroem uma sociedade que rapidamente colapsa na barbárie. É uma alegoria sobre civilização, poder e a natureza humana que resistiu a décadas de adaptações porque nunca parece ter sido totalmente esgotada. A versão de Thorne, produzida pela BBC e co-produzida pelo Netflix, actualizou o contexto mas preservou o núcleo moral da obra — segundo as primeiras críticas britânicas, com resultados que superaram as expectativas mais cautelosas.

A série estreou no Reino Unido com críticas que descrevem uma obra “perturbadora e inevitável”, que usa a estrutura da televisão contemporânea — episódios mais longos, ritmo mais deliberado — para explorar dimensões do romance que as adaptações cinematográficas anteriores (a de Peter Brook em 1963 e a americana de 1990) não tiveram tempo de desenvolver. A chegada ao Netflix a 4 de Maio significa que o público português, que conhece o livro em grande parte pelo programa escolar, tem agora a versão mais ambiciosa da história do romance disponível em casa.

Num mês já generoso em adaptações literárias — O Monte dos Vendavais chega ao Max, Remarkably Bright Creatures ao Netflix — O Senhor das Moscas é provavelmente a aposta com mais peso cultural. E com Jack Thorne no comando, há todas as razões para confiar.

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Poucos filmes de 2026 geraram tanto debate por tantas razões diferentes. O Monte dos Vendavais — título português da adaptação de Wuthering Heights de Emily Brontë realizada por Emerald Fennell — estreou nos cinemas portugueses em Fevereiro, fez 82 milhões de dólares no fim-de-semana de abertura global, foi simultaneamente elogiado e detestado pelos fãs do romance original, e chegou agora ao Max no dia 1 Maio para uma segunda vida em streaming que promete reacender o debate.

O filme de Fennell — realizadora de Promising Young Woman e argumentista de Saltburn — não é uma adaptação fiel. É deliberadamente uma reinterpretação, que privilegia o subtexto erótico e a violência emocional do romance de Brontë em detrimento da narrativa mais convencional. Margot Robbie é Cathy e Jacob Elordi é Heathcliff, numa dinâmica que as críticas mais entusiastas descreveram como “arrebatadora” e as mais cépticas como “esteticamente soberba mas emocionalmente vazia”. O Rotten Tomatoes situa-se nos 60% — número que reflecte exactamente essa divisão — mas o filme teve um desempenho de público muito acima do que a recepção crítica sugeria.

O elenco de apoio inclui Hong Chau, Shazad Latif, Alison Oliver, Martin Clunes e Ewan Mitchell. A fotografia é de Linus Sandgren, que ganhou o Óscar por La La Land, e a banda sonora inclui temas originais de Charli XCX — uma escolha que diz muito sobre a intenção de Fennell de fazer um filme de época com uma sensibilidade decididamente contemporânea. Os figurinos são de Jacqueline Durran, dois Óscares no currículo.

Para quem não o viu em sala — ou para quem quer revisitá-lo com mais distância do ruído do lançamento — a chegada ao Max é a oportunidade. O Monte dos Vendavais é exasperante para muitos, mas raramente indiferente. E no streaming, a indiferença é o único defeito verdadeiramente fatal.

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A NBC fez as primeiras decisões de cancelamento para a temporada 2026-27 e os nomes são dois: Brilliant Minds, drama médico com Zachary Quinto na segunda temporada, e Stumble, comédia de estreia com Jenn Lyon. Sobrevivem em suspenso Law & Order — a série mais longeva da televisão americana, agora na 24.ª temporada — e Hunting Party, que aguardam decisão.

Brilliant Minds, baseada livremente na obra do neurologista Oliver Sacks, tinha ganho uma segunda temporada após uma primeira que dividiu a crítica mas conquistou uma base de espectadores fiel, em particular entre quem apreciou a abordagem de Quinto a um personagem brilhante e socialmente inabilitado. O cancelamento na segunda temporada é um resultado frequente na televisão americana — raramente um drama médico sem o orçamento de um Grey’s Anatomysobrevive mais de dois anos — mas não deixa de decepcionar. Stumble, por sua vez, não teve tempo de afirmar a sua identidade.

O dado mais interessante desta ronda de decisões da NBC não é quem saiu, mas como a cadeia pensa a programação. Este ano, a NBC encomendou apenas oito pilotos — cinco dramas e três comédias — o número mais baixo em décadas. A explicação é simples: as cadeias generalistas americanas, confrontadas com a migração massiva de audiências para o streaming, perceberam que é mais eficiente apostar num número reduzido de títulos com maior probabilidade de sucesso do que encher a grelha com apostas arriscadas. O resultado prático é que os cancelamentos chegam mais cedo e com menor cerimónia — e que cada decisão pesa mais do que antes.

Para o mercado português, onde Brilliant Minds chegou através de plataformas de streaming, o cancelamento significa que a segunda temporada será também a última — e que quem a estiver a ver não terá continuação.

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