Há uma ironia deliciosa no facto de Thierry Frémaux — o homem que cada ano em abril anuncia ao mundo quais os filmes que merecem existir em Cannes — ser também o guardião mais apaixonado dos filmes que tornaram possível que existisse um Cannes. Como diretor do Institut Lumière em Lyon, Frémaux passou anos a debruçar-se sobre um acervo de mais de 1400 títulos filmados pelos irmãos Auguste e Louis Lumière no final do século XIX. Desta imersão nasceu Lumière, a Aventura Continua!, um documentário que chega ao TVCine Edition e TVCine+ na sexta-feira, 1 de maio, às 22h00.
O trabalho de Frémaux foi o de curador rigoroso: de um acervo vasto e tecnicamente frágil, selecionou 114 filmes, entretanto restaurados em 4K, e construiu com eles um retrato composto do mundo no dealbar do século XX. Não se trata de arqueologia nem de museologia passiva. O argumento central do documentário é provocatório: estes filmes não envelheceram. Ou melhor — nunca foram apenas históricos.
Entre os títulos reunidos estão aquelas que qualquer estudante de cinema conhece de cor: La Sortie de l’Usine Lumière à Lyon, a saída dos operários da fábrica, filmada em 1895 e frequentemente citada como o primeiro filme da história do cinema; L’Arrivée d’un train en gare de La Ciotat, cuja projeção terá, segundo a lenda, provocado o pânico nos primeiros espectadores que viram uma locomotiva avançar sobre eles — lenda amplificada pelo tempo, mas sintomática do choque que aquelas imagens representaram; e Le Repas de bébé, registo doméstico e íntimo que antecipa o gesto do cinema contemporâneo de encontrar o extraordinário no banal. Frémaux não se limita a projetá-los em sequência: contextualiza, interroga, aproxima os espectadores de 2025 do espanto dos de 1895.
O que o documentário propõe, no fundo, é que o cinema nunca se afastou muito dos seus primeiros instintos. O enquadramento cuidado, a atenção ao movimento, a tensão entre o documentado e o encenado — tudo isso está já nos Lumière, com uma clareza que os 130 anos entretanto passados não obscureceram. Para Frémaux, que todos os anos seleciona o que de melhor o cinema mundial tem para oferecer na Croisette, esta foi também uma forma de regressar às origens da sua própria paixão.
A estreia no TVCine Edition é uma proposta de televisão de qualidade num horário nobre: sexta-feira à noite, às 22h00, com o fim de semana pela frente — tempo suficiente para deixar o documentário fazer o seu efeito e, quem sabe, revisitar alguns dos títulos que inspirou.
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