Há argumentistas que uma série transforma em nomes. Jack Thorne era já muito respeitado na indústria britânica — His Dark Materials, Enola Holmes, Patrick Melrose — mas foi Adolescence, o thriller sobre radicalização online que se tornou num fenómeno global no início de 2026, que o colocou no topo de todas as listas de desejos. A sua próxima série chega ao Netflix em Maio e a matéria-prima é das mais exigentes que o cânone literário pode oferecer: O Senhor das Moscas de William Golding.
O romance de 1954 — obrigatório em inúmeros curricula escolares europeus e portugueses — é a história de um grupo de rapazes evacuados durante uma guerra que ficam sozinhos numa ilha deserta e constroem uma sociedade que rapidamente colapsa na barbárie. É uma alegoria sobre civilização, poder e a natureza humana que resistiu a décadas de adaptações porque nunca parece ter sido totalmente esgotada. A versão de Thorne, produzida pela BBC e co-produzida pelo Netflix, actualizou o contexto mas preservou o núcleo moral da obra — segundo as primeiras críticas britânicas, com resultados que superaram as expectativas mais cautelosas.
A série estreou no Reino Unido com críticas que descrevem uma obra “perturbadora e inevitável”, que usa a estrutura da televisão contemporânea — episódios mais longos, ritmo mais deliberado — para explorar dimensões do romance que as adaptações cinematográficas anteriores (a de Peter Brook em 1963 e a americana de 1990) não tiveram tempo de desenvolver. A chegada ao Netflix a 4 de Maio significa que o público português, que conhece o livro em grande parte pelo programa escolar, tem agora a versão mais ambiciosa da história do romance disponível em casa.
Num mês já generoso em adaptações literárias — O Monte dos Vendavais chega ao Max, Remarkably Bright Creatures ao Netflix — O Senhor das Moscas é provavelmente a aposta com mais peso cultural. E com Jack Thorne no comando, há todas as razões para confiar.
NBC cancela “Brilliant Minds” e “Stumble”: Zachary Quinto perde a série na segunda temporada
Os Óscares proibiram a IA: actores e argumentistas têm de ser humanos para serem nomeados
