Hoje é 4 de Maio. Em qualquer outro contexto, seria apenas uma segunda-feira de início de mês. Mas há décadas que esta data pertence a Star Wars — e ao trocadilho tão mau que só podia ter nascido na internet: May the 4th be with you. O que começou como uma piada de fãs tornou-se num feriado global não oficial, celebrado com maratonas de filmes, promoções em merchandising, posts nas redes sociais e, este ano, com a confirmação de que The Mandalorian and Grogu chega às salas a 22 de Maio. George Lucas criou uma saga. A saga criou um dia no calendário. É difícil pensar noutro exemplo de ficção que tenha conseguido isso.
Mas Star Wars não está sozinho. O cinema tem uma capacidade única — diferente da literatura, diferente da música, diferente de qualquer outra forma de arte — de invadir a cultura de formas que os seus criadores raramente anteciparam. Não são apenas as frases que ficam. É a forma como certas imagens, certos personagens e certas histórias se tornam em referências partilhadas que funcionam como linguagem comum entre pessoas que nunca se conheceram.
“Frankly, my dear, I don’t give a damn.” “Here’s looking at you, kid.” “You can’t handle the truth.” “I’m going to make him an offer he can’t refuse.” Estas frases saíram dos ecrãs há décadas e continuam a circular na conversa quotidiana de pessoas que nunca viram os filmes de onde vêm. O cinema criou um repertório de citações que funciona como código cultural — uma forma de sinalizar pertença, humor, cumplicidade. Quando alguém diz “Eu sou o teu pai” num contexto completamente diferente, toda a gente percebe. Isso é extraordinário.
Há também os gestos. O polegar levantado de Fonzie em Happy Days veio da televisão, mas foi o cinema que universalizou a linguagem corporal como código — de Marlon Brando a ajustar o chapéu em O Padrinho ao salto de Tom Cruise numa mota em qualquer um dos seus filmes. O cinema ensinou-nos a ler corpos de uma forma que o teatro nunca conseguiu, porque a câmara vai a lugares que o palco não alcança.
E depois há as datas. O 4 de Maio é de Star Wars, mas não é o único dia que o cinema tomou de assalto. O Dia de Groundhog — 2 de Fevereiro — é inseparável do filme de Harold Ramis com Bill Murray desde 1993; o conceito de repetição cíclica e aprendizagem forçada entrou na linguagem comum com o nome do feriado americano, mas é o filme que toda a gente cita. O Dia de São Valentim foi sempre uma data comercial, mas foram décadas de comédias românticas que lhe deram a forma que tem hoje — as expectativas, o vocabulário, a iconografia das flores e do jantar à luz de velas. O Halloween, nos países onde não tinha tradição, chegou através do cinema de terror antes de chegar através dos supermercados.
Os super-heróis são o capítulo mais recente desta história. A Marvel construiu em quinze anos um universo narrativo que gerou uma comunidade de referências partilhadas de dimensão global — não apenas frases e imagens, mas uma cronologia, uma mitologia, uma forma de organizar o tempo (“antes do Snap”, “depois de Endgame“) que os fãs usam como coordenadas. É a primeira vez na história que uma franchise cinematográfica funcionou como um texto sagrado partilhado por centenas de milhões de pessoas em simultâneo.
O que torna tudo isto possível é algo que o cinema tem e que nenhuma outra forma de arte combina da mesma forma: a escala e a simultaneidade. Um livro é lido por uma pessoa de cada vez, em ritmos diferentes, em solidão. Um filme é visto por milhões de pessoas ao mesmo tempo — nas mesmas salas, com o mesmo som, com a mesma luz — e essa experiência partilhada cria uma memória colectiva que a leitura nunca consegue replicar. Quando toda a gente viu o mesmo filme no mesmo fim-de-semana, a conversa de segunda-feira tem um ponto de partida comum.
George Lucas disse uma vez que não esperava que Star Wars durasse mais do que algumas semanas em cartaz. Hoje, 4 de Maio, o mundo inteiro sabe o que isso significa. Que a Força esteja com todos nós — e com The Mandalorian and Grogu, que chega às salas daqui a dezoito dias.
John Travolta estreia-se como realizador com um filme escrito para o filho Jett
Meryl Streep disse o que muitos pensam: “Tendemos a Marvel-izar os filmes — é muito aborrecido”
