Romain Gavras, o realizador francês que já tinha conquistado Veneza com “Athena” e o Festival de Cannes com “Le Monde Est à Toi”, estreia-se agora na realização em língua inglesa com “Sacrifício”, filme que chega aos cinemas portugueses a 1 de outubro.
A história acompanha Joan, interpretada por Anya Taylor-Joy, que depois da morte da mãe num incêndio, e movida por uma profecia vulcânica, se convence de que ela e o seu grupo radical têm o dever sagrado de purificar a Terra. Numa noite de gala beneficente glamorosa, o grupo toma reféns três figuras improváveis para um ritual de sacrifício: o astro de cinema em decadência Mike Tyler, interpretado por Chris Evans, o multimilionário implacável Ben Bracken, interpretado por Vincent Cassel, e uma artista com azar crónico chamada Katie, interpretada por Ambika Mod. À medida que a noite mergulha no caos, o filme promete esbater a fronteira entre representação e crença, entre salvação e sacrifício, um território temático que já é praticamente uma assinatura do cinema de Gavras.
Filho do lendário realizador greco-francês Costa-Gavras e da produtora e jornalista Michèle Ray-Gavras, Romain Gavras construiu a sua reputação inicial através de videoclipes provocadores para nomes como M.I.A. e Justice, antes de se afirmar no cinema com “Le Monde Est à Toi”, exibido na Quinzena dos Realizadores em Cannes em 2018, e sobretudo com “Athena”, o thriller de revolta social financiado pela Netflix e filmado numa única sequência ininterrupta de 39 minutos, que estreou em Veneza em 2022 e recebeu cinco nomeações aos César, incluindo Melhor Realizador. “Sacrifício” surge assim como a sua primeira incursão no cinema americano de estrelas, coescrito com Will Arbery, argumentista de “Succession”, e com um elenco que inclui ainda Salma Hayek Pinault, além de participações do rapper sueco Yung Lean e da cantora Charli XCX.
Convém, no entanto, gerir expectativas com alguma cautela: “Sacrifício” já tinha estreado mundialmente na secção Special Presentations do Festival de Toronto, em setembro de 2025, onde recebeu uma recepção brutalmente negativa por parte de vários críticos especializados, chegando a ser apontado por alguns meios como um dos filmes pior avaliados de toda a edição do festival. As críticas destacaram consistentemente a interpretação magnética de Anya Taylor-Joy como o único ponto verdadeiramente alto de uma sátira pop que, segundo vários críticos, acaba por ficar surpreendentemente morna apesar da sua ambição visual e da extravagância do elenco reunido. O próprio percurso comercial do filme reflete essa receção difícil: passaram-se nove meses entre a estreia arrasada em Toronto e o anúncio, em maio deste ano, de que a Netflix tinha finalmente adquirido os direitos de distribuição nos Estados Unidos, um intervalo de tempo pouco habitual para um filme com um elenco desta dimensão, que normalmente indicia dificuldades em encontrar comprador disposto a apostar no projeto.
A estratégia de lançamento acabou por ser híbrida: depois de uma passagem pelos cinemas italianos em agosto, e agora pela distribuição em Portugal através da NOS Lusomundo Audiovisuais a partir de 1 de outubro, o filme chega finalmente à Netflix em França e nos Estados Unidos a 16 de outubro, seguindo o modelo cada vez mais comum de conceder uma curta janela de exibição em sala antes do lançamento em streaming. Resta aos espectadores portugueses decidir se preferem arriscar nos cinemas ou aguardar pela chegada à plataforma, mas para os fãs de Anya Taylor-Joy, pelo menos, a promessa de uma interpretação memorável parece ser consensual entre quem já viu o filme.




















