“Good Omens” termina a 13 de Maio com um único episódio de 90 minutos — e chegou aqui por um caminho muito difícil

Há finais de séries que chegam como foram planeados. E há finais que chegam apesar de tudo. Good Omens pertence à segunda categoria — e isso torna a sua chegada ao Prime Video a 13 de Maio num evento que vai muito além de uma última temporada.

A história começa em Julho de 2024, quando o Tortoise Media publicou acusações de agressão sexual contra Neil Gaiman, o criador e showrunner da série. As acusações, expandidas pelo Vulture em Janeiro de 2025, levaram a Amazon a suspender a produção em Setembro de 2024 e a anunciar, em Outubro, que Gaiman saía do projecto. A terceira temporada, que estava planeada como uma temporada completa de seis episódios, foi reformulada num único episódio especial de 90 minutos. As filmagens, em Dezembro, tinham começado na Escócia em Janeiro de 2025 como planeado — mas com um projecto completamente diferente do original. Gaiman é creditado na escrita do episódio final, mas não participou enquanto showrunner nem produtor executivo. A realização ficou a cargo de Rachel Talalay.

É neste contexto que Michael Sheen e David Tennant regressam como Aziraphale e Crowley para o que foi descrito pelo próprio Sheen ao The Times como “sombrio mas satisfatório” — uma formulação que, vinda de alguém que claramente pesou cada palavra, diz bastante sobre o que esperar. A história retoma exactamente onde a segunda temporada terminou: Aziraphale aceitou o cargo de Arcanjo Supremo e deixou Crowley para trás — o momento que deixou os fãs em choque há quase três anos. Agora, como Arcanjo Supremo encarregado de supervisionar a Segunda Vinda, Aziraphale vê-se forçado a pedir ajuda a Crowley. O elenco de apoio inclui Jon Hamm como Gabriel, Derek Jacobi como o Metatron, Quelin Sepulveda como Muriel e Bilal Hasna numa estreia como Jesus — uma escolha que, num contexto de fim do mundo, faz todo o sentido narrativo.

Terry Pratchett, que morreu em Março de 2015, deixou expresso o desejo de que Gaiman adaptasse o romance que escreveram juntos e o levasse até ao fim. O que chegou a 13 de Maio não é o final que qualquer um deles imaginou. Mas é um final — e isso, dadas as circunstâncias, é mais do que era garantido.

Meryl Streep disse o que muitos pensam: “Tendemos a Marvel-izar os filmes — é muito aborrecido”

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Ralph Fiennes, Colin Farrell e Wagner Moura num filme sobre um quadro branco — Fernando Meirelles realiza

A premissa é deliberadamente absurda: três amigos de longa data entram em colapso relacional porque um deles gastou 200 mil euros num quadro praticamente em branco. Yasmina Reza escreveu Art em 1994, a peça estreou em Paris, passou pelo West End e pela Broadway, ganhou o Tony de Melhor Peça em 1998, e nunca deixou de estar em cartaz em algum palco do mundo desde então. Agora vai finalmente ao cinema — e o elenco anunciado ontem é exactamente tão bom quanto a peça merece.

Ralph Fiennes, Colin Farrell e Wagner Moura são os três amigos — Marc, Serge e Yvan — nesta adaptação dirigida por Fernando Meirelles e com argumento de Christopher Hampton, o mesmo que adaptou As Ligações Perigosas e O Pai. Hampton traduziu originalmente a peça do francês para inglês há trinta anos, tornando este regresso ao material uma espécie de reunião pessoal. O projecto é apresentado ao mercado de Cannes esta semana pela produtora 193, de Patrick Wachsberger.

As ligações entre o realizador e o elenco são múltiplas e relevantes. Meirelles trabalhou com Fiennes em O Jardineiro Fiel (2005), o filme que valeu o Óscar a Rachel Weisz; com Farrell na série Sugar da Apple TV+; e produziu vários projectos com Moura ao longo dos anos. Não é um ensemble reunido por conveniência — é um grupo com história em comum, o que numa comédia sobre amizade masculina e comunicação falhada é um dado que importa. Moura vem de ganhar o Prémio de Melhor Actor em Cannes pelo The Secret Agent; Fiennes foi nomeado ao Óscar por Conclave; Farrell continua a ser uma das presenças mais imprevisíveis e fiáveis do cinema contemporâneo desde Os Espíritos de Inisherin.

Meirelles tem ainda em pós-produção Here Comes the Flood, um projecto Netflix com Robert Pattinson e Denzel Washington. Art chega a seguir — e com este elenco, a questão não é se vale a pena prestar atenção. É quando começa a rodar.

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Meryl Streep disse o que muitos pensam: “Tendemos a Marvel-izar os filmes — é muito aborrecido”

Há declarações que circulam durante um dia e morrem. E há declarações de Meryl Streep. Esta vai ficar algum tempo.

A propósito da estreia de O Diabo Veste Prada 2, a actriz deu uma entrevista ao Deadline em que foi directa sobre o estado do cinema mainstream: “Tendemos a Marvel-izar os filmes agora. Achatamos as personagens em tropos. É muito aborrecido.” A frase está a circular há dois dias em todos os cantos da internet e continua a gerar reacções — de quem concorda entusiasticamente, de quem defende o cinema de super-heróis e de quem simplesmente aprecia ver alguém com o currículo de Streep a dizer o que pensa sem filtro.

O timing é perfeito — ou perfeitamente calculado. O Diabo Veste Prada 2 abriu num slot que estava originalmente reservado aos Vingadores: Juízo Final, depois de a Marvel ter recuado na data. Um filme sem efeitos especiais, sem trajes de combate e sem universo expandido tomou o lugar do franchise mais lucrativo da história do cinema — e fez 233 milhões globais no primeiro fim-de-semana. A declaração de Streep é também uma leitura do momento: o público respondeu a personagens complexas, a diálogos afiados e a actrizes com décadas de ofício. Isso diz qualquer coisa.

Streep não é a primeira a usar o termo “Marvel-izar” — Martin Scorsese abriu caminho em 2019 com a sua declaração sobre o cinema de super-heróis não ser “verdadeiro cinema”, e a polémica que se seguiu alimentou debates durante meses. Mas há uma diferença: Scorsese falou de fora. Streep falou de dentro de um fim-de-semana em que provou, com bilhetes vendidos, que há outra forma de abrir o verão de Hollywood. É mais difícil contra-argumentar assim.

“O Diabo Veste Prada 2” fez 233 milhões globais no fim-de-semana de estreia: o público deu o seu veredicto
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Olivia Rodrigo estreou-se como apresentadora do SNL — e trouxe uma canção inédita e Connor Storrie

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Olivia Rodrigo fez ontem à noite aquilo que poucos artistas conseguem: apresentar o Saturday Night Live e actuar como convidada musical no mesmo episódio, com a mesma energia nos dois papéis. Foi a sua terceira aparição no programa — esteve como convidada musical em 2021 e 2023 — mas a primeira vez a apresentar. E aproveitou bem a dupla função.

A monóloga arrancou com uma revisitação às suas origens no Disney Channel em Bizaardvark e uma piada sobre Jake Paul — o antigo colega que, segundo Rodrigo, lhe disse em tempos que queria “um dia bater em velhos no Netflix”. A seguir veio uma paródia musical de drivers license, reescrita como uma história de luta com o cartão de cidadão no balcão da conservatória. O público no estúdio 8H respondeu como se fosse um concerto.

Para as actuações musicais, os convidados estiveram à altura do momento. Debbie Harry — líder dos Blondie, 80 anos, presença inconfundível — entrou em palco para apresentar Drop Dead, o primeiro single do terceiro álbum, lançado a 17 de Abril e já no número um do Billboard Hot 100. Foi o quarto número um consecutivo de Rodrigo nessa tabela. Para a segunda actuação, Connor Storrie — o actor canadiano de Heated Rivalry que se tornou num dos rostos mais reconhecidos do momento — apresentou Begged, uma balada melancólica inédita que Rodrigo cantou sentada num baloiço, numa imagem que replica directamente a capa do álbum. A canção, centrada na incerteza e na contenção emocional, é o contraponto perfeito à energia de Drop Dead.

O álbum You Seem Pretty Sad for a Girl So in Love sai a 12 de Junho. Com dois temas apresentados ao vivo e uma digressão europeia marcada para o outono — a Unraveled Tour passa por várias cidades europeias —, o verão de Olivia Rodrigo está a tomar forma antes de o verão sequer começar.

Hollywood não vai ter greve: SAG-AFTRA fechou acordo de quatro anos com os estúdios — e a IA foi a batalha central

Ninguém em Hollywood queria repetir 2023. As greves simultâneas da WGA e da SAG-AFTRA que paralisaram a indústria durante meses deixaram marcas que ainda se sentem — séries atrasadas, filmes reconfigurados, carreiras interrompidas. Essa memória colectiva esteve presente em todas as reuniões dos últimos meses e ajuda a explicar a velocidade com que o acordo chegou: ontem, 2 de Maio, a SAG-AFTRA e a Alliance of Motion Picture and Television Producers confirmaram um acordo provisório que garante paz laboral até 2030.

É um contrato de quatro anos — um ano a mais do que o habitual, à semelhança do que a WGA aceitou em Abril — com reforço significativo do fundo de pensões do sindicato e um conjunto de protecções específicas contra o uso da inteligência artificial. Estes últimos foram a pedra angular das negociações: Duncan Crabtree-Ireland, director executivo da SAG-AFTRA, deixou claro desde o início que não aceitaria um contrato mais longo sem garantias concretas sobre IA. Os detalhes exactos só serão divulgados após a aprovação pelo conselho nacional do sindicato, que se reúne nos próximos dias — mas as fontes próximas das negociações descrevem um acordo que vai além das protecções de 2023 em matéria de réplicas digitais e uso de imagem sem consentimento.

O contexto é relevante: as negociações começaram a 9 de Fevereiro, foram interrompidas em Março para dar prioridade à WGA, e retomadas a 27 de Abril. Cinco dias depois, estava feito. A diferença em relação a 2023, segundo os próprios negociadores, foi a postura da AMPTP: “As empresas vieram prontas para negociar desde o primeiro dia”, disse um dos envolvidos ao Deadline. “Em ciclos anteriores havia semanas em que não se avançava nada.”

Fica por resolver o acordo com a Directors Guild of America, cujas negociações arrancam a 11 de Maio, lideradas por Christopher Nolan enquanto presidente da DGA. A guild dos realizadores tem um historial de negociações mais tranquilas — só foi a greve uma vez, em 1987, durante três horas — mas o facto de os três grandes contratos expirarem em simultâneo dá a Nolan uma alavancagem que os seus antecessores raramente tiveram.

“O Monte dos Vendavais” chega ao Max em Maio: Emerald Fennell, Margot Robbie e a adaptação que dividiu toda a gente

“O Senhor das Moscas” em série: Jack Thorne adapta Golding para o Netflix depois do fenómeno “Adolescence”

“O Diabo Veste Prada 2” fez 233 milhões globais no fim-de-semana de estreia: o público deu o seu veredicto

“O Diabo Veste Prada 2” fez 233 milhões globais no fim-de-semana de estreia: o público deu o seu veredicto

Os números finais chegaram esta manhã e são inequívocos. O Diabo Veste Prada 2 fez 77 milhões de dólares nos Estados Unidos e 233 milhões a nível global no fim-de-semana de estreia — o maior arranque de sempre para um filme não-animado liderado por mulheres, e o segundo melhor início de ano a nível global em 2026, apenas atrás de O Super Mario Galaxy Movie. Em Portugal, onde estreou na quinta-feira, as salas registaram sessões esgotadas durante todo o fim-de-semana.

O número que mais importa não é o doméstico nem o global — é o internacional: 156 milhões fora dos Estados Unidos, com o Reino Unido, França, Austrália, Espanha e Coreia do Sul a liderarem um desempenho que confirma que Miranda Priestly é uma personagem verdadeiramente sem fronteiras. A China, onde o filme abriu na quinta-feira, já acumula 4,9 milhões com uma quota de mercado de 62% — o maior arranque do ano no mercado chinês para um título ocidental. Em França, onde o primeiro filme tem estatuto de culto, os 4,6 milhões do fim-de-semana representam a terceira maior abertura do ano.

Para quem ainda não foi — e os números sugerem que há muita gente que foi — o veredicto do público é claro: 89% de aprovação nas audiências do Rotten Tomatoes, bem acima dos 78% da crítica. A diferença entre os dois números diz alguma coisa sobre o filme: os críticos encontraram fragilidades no argumento e na sub-personagem de origem asiática, mas o público simplesmente não se importou. Meryl Streep como Miranda Priestly em modo de fim de carreira, Anne Hathaway a equilibrar nostalgia e presente, Emily Blunt do outro lado da barricada — é uma equação que vinte anos de espera tornaram irresistível.

David Frankel, o realizador, disse esta semana que não havia planos para uma terceira parte. Com 233 milhões globais num fim-de-semana, alguém na 20th Century Studios vai certamente ter uma opinião diferente nos próximos dias.

“O Senhor das Moscas” em série: Jack Thorne adapta Golding para o Netflix depois do fenómeno “Adolescence”
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Os Óscares proibiram a IA: actores e argumentistas têm de ser humanos para serem nomeados

“O Senhor das Moscas” em série: Jack Thorne adapta Golding para o Netflix depois do fenómeno “Adolescence”

Há argumentistas que uma série transforma em nomes. Jack Thorne era já muito respeitado na indústria britânica — His Dark MaterialsEnola HolmesPatrick Melrose — mas foi Adolescence, o thriller sobre radicalização online que se tornou num fenómeno global no início de 2026, que o colocou no topo de todas as listas de desejos. A sua próxima série chega ao Netflix em Maio e a matéria-prima é das mais exigentes que o cânone literário pode oferecer: O Senhor das Moscas de William Golding.

O romance de 1954 — obrigatório em inúmeros curricula escolares europeus e portugueses — é a história de um grupo de rapazes evacuados durante uma guerra que ficam sozinhos numa ilha deserta e constroem uma sociedade que rapidamente colapsa na barbárie. É uma alegoria sobre civilização, poder e a natureza humana que resistiu a décadas de adaptações porque nunca parece ter sido totalmente esgotada. A versão de Thorne, produzida pela BBC e co-produzida pelo Netflix, actualizou o contexto mas preservou o núcleo moral da obra — segundo as primeiras críticas britânicas, com resultados que superaram as expectativas mais cautelosas.

A série estreou no Reino Unido com críticas que descrevem uma obra “perturbadora e inevitável”, que usa a estrutura da televisão contemporânea — episódios mais longos, ritmo mais deliberado — para explorar dimensões do romance que as adaptações cinematográficas anteriores (a de Peter Brook em 1963 e a americana de 1990) não tiveram tempo de desenvolver. A chegada ao Netflix a 4 de Maio significa que o público português, que conhece o livro em grande parte pelo programa escolar, tem agora a versão mais ambiciosa da história do romance disponível em casa.

Num mês já generoso em adaptações literárias — O Monte dos Vendavais chega ao Max, Remarkably Bright Creatures ao Netflix — O Senhor das Moscas é provavelmente a aposta com mais peso cultural. E com Jack Thorne no comando, há todas as razões para confiar.

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Poucos filmes de 2026 geraram tanto debate por tantas razões diferentes. O Monte dos Vendavais — título português da adaptação de Wuthering Heights de Emily Brontë realizada por Emerald Fennell — estreou nos cinemas portugueses em Fevereiro, fez 82 milhões de dólares no fim-de-semana de abertura global, foi simultaneamente elogiado e detestado pelos fãs do romance original, e chegou agora ao Max no dia 1 Maio para uma segunda vida em streaming que promete reacender o debate.

O filme de Fennell — realizadora de Promising Young Woman e argumentista de Saltburn — não é uma adaptação fiel. É deliberadamente uma reinterpretação, que privilegia o subtexto erótico e a violência emocional do romance de Brontë em detrimento da narrativa mais convencional. Margot Robbie é Cathy e Jacob Elordi é Heathcliff, numa dinâmica que as críticas mais entusiastas descreveram como “arrebatadora” e as mais cépticas como “esteticamente soberba mas emocionalmente vazia”. O Rotten Tomatoes situa-se nos 60% — número que reflecte exactamente essa divisão — mas o filme teve um desempenho de público muito acima do que a recepção crítica sugeria.

O elenco de apoio inclui Hong Chau, Shazad Latif, Alison Oliver, Martin Clunes e Ewan Mitchell. A fotografia é de Linus Sandgren, que ganhou o Óscar por La La Land, e a banda sonora inclui temas originais de Charli XCX — uma escolha que diz muito sobre a intenção de Fennell de fazer um filme de época com uma sensibilidade decididamente contemporânea. Os figurinos são de Jacqueline Durran, dois Óscares no currículo.

Para quem não o viu em sala — ou para quem quer revisitá-lo com mais distância do ruído do lançamento — a chegada ao Max é a oportunidade. O Monte dos Vendavais é exasperante para muitos, mas raramente indiferente. E no streaming, a indiferença é o único defeito verdadeiramente fatal.

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A NBC fez as primeiras decisões de cancelamento para a temporada 2026-27 e os nomes são dois: Brilliant Minds, drama médico com Zachary Quinto na segunda temporada, e Stumble, comédia de estreia com Jenn Lyon. Sobrevivem em suspenso Law & Order — a série mais longeva da televisão americana, agora na 24.ª temporada — e Hunting Party, que aguardam decisão.

Brilliant Minds, baseada livremente na obra do neurologista Oliver Sacks, tinha ganho uma segunda temporada após uma primeira que dividiu a crítica mas conquistou uma base de espectadores fiel, em particular entre quem apreciou a abordagem de Quinto a um personagem brilhante e socialmente inabilitado. O cancelamento na segunda temporada é um resultado frequente na televisão americana — raramente um drama médico sem o orçamento de um Grey’s Anatomysobrevive mais de dois anos — mas não deixa de decepcionar. Stumble, por sua vez, não teve tempo de afirmar a sua identidade.

O dado mais interessante desta ronda de decisões da NBC não é quem saiu, mas como a cadeia pensa a programação. Este ano, a NBC encomendou apenas oito pilotos — cinco dramas e três comédias — o número mais baixo em décadas. A explicação é simples: as cadeias generalistas americanas, confrontadas com a migração massiva de audiências para o streaming, perceberam que é mais eficiente apostar num número reduzido de títulos com maior probabilidade de sucesso do que encher a grelha com apostas arriscadas. O resultado prático é que os cancelamentos chegam mais cedo e com menor cerimónia — e que cada decisão pesa mais do que antes.

Para o mercado português, onde Brilliant Minds chegou através de plataformas de streaming, o cancelamento significa que a segunda temporada será também a última — e que quem a estiver a ver não terá continuação.

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Os Óscares proibiram a IA: actores e argumentistas têm de ser humanos para serem nomeados

Há muito que a indústria esperava que a Academia tomasse uma posição clara. Na sexta-feira, finalmente tomou. O conselho de governadores da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas aprovou as regras para a 99.ª cerimónia dos Óscares, marcada para 14 de Março de 2027, e as mudanças são as mais significativas em várias décadas. Três alterações redesenham o mapa dos prémios mais influentes do mundo.

A primeira é a mais simbólica: nas categorias de representação, apenas interpretações “demonstravelmente realizadas por humanos com o seu consentimento” são elegíveis para nomeação. A formulação surgiu directamente do debate gerado pela utilização da imagem de Val Kilmer, falecido em 2025, no filme As Deep as the Grave — uma produção em que a família do actor aprovou o uso da sua likeness através de IA, sem que Kilmer tivesse filmado uma única cena antes de morrer. Essa situação tornou urgente a necessidade de uma regra explícita. Nas categorias de argumento, a mesma lógica: os guiões têm de ser “de autoria humana” para poderem concorrer. A Academia reserva-se ainda o direito de solicitar informação adicional sobre o grau de envolvimento da IA em qualquer filme submetido.

A segunda mudança é a que terá maior impacto a longo prazo. A categoria de Melhor Filme Internacional — aquela que Portugal submete anualmente através do Instituto do Cinema e Audiovisual — deixa de exigir que cada país apresente apenas um título. A partir de agora, um filme em língua não inglesa pode qualificar-se de duas formas: pela via tradicional da submissão nacional, ou ganhando um dos prémios principais de seis festivais internacionais reconhecidos — Berlim (Urso de Ouro), Cannes (Palma de Ouro), Sundance (World Cinema Grand Jury Prize), Toronto (Platform Award), Veneza (Leão de Ouro) e Busan. Isto significa que um filme iraniano de Jafar Panahi ou Mohammad Rasoulof — cujos governos nunca os submeteriam — pode agora entrar na corrida se ganhar em Cannes ou Berlim. A academia muda ainda a titularidade do prémio: passa a ser atribuído ao filme, não ao país.

A terceira alteração diz respeito às categorias de representação: um actor pode agora ser nomeado por duas interpretações distintas na mesma categoria no mesmo ano, desde que ambas se encontrem entre as cinco mais votadas. Acabou o chamado “category fraud” — a prática de deslocar estrategicamente uma performance para a categoria de apoio para evitar que dois filmes do mesmo actor se canibalizem mutuamente.

Para o cinema português e europeu, as novas regras para o Melhor Filme Internacional são particularmente relevantes. Filmes como Anatomia de uma Queda de Justine Triet foram prejudicados no passado por escolhas de submissão nacional que os preteriam em favor de outros títulos. Com a nova regra, uma Palma de Ouro em Cannes pode valer uma entrada directa na corrida aos Óscares — independentemente do que o governo de cada país decida.

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Greta Gerwig leva “As Crónicas de Nárnia” aos cinemas antes do Netflix: a plataforma recua na estratégia de streaming directo

É uma inversão de percurso que diz muito sobre o estado do cinema em 2026. O Netflix confirmou que As Crónicas de Nárnia — a adaptação realizada por Greta Gerwig da obra de C.S. Lewis, um dos projectos mais aguardados da plataforma — terá uma estreia teatral completa antes de chegar ao streaming, estreia nos cinemas a 12 de Fevereiro de 2027 e chegada ao Netflix a 2 de Abril do mesmo ano”. O título oficial é Narnia: The Magician’s Nephew, e o anúncio da data foi feito precisamente ontem pelo Netflix — o que torna este artigo ainda mais oportuno.. A decisão abandona o modelo de lançamento directo para plataforma que o Netflix tinha originalmente delineado para o filme.

Greta Gerwig, cujo Barbie fez mais de 1,4 mil milhões de dólares globalmente em 2023 e a transformou na realizadora viva com maior bilheteira de sempre, negoceou a janela de exibição como condição do projecto. A lógica é simples e irrefutável: um filme desta escala, com este nome por detrás das câmaras, tem um valor em sala que não se justifica desperdiçar. O Netflix, que nos últimos anos tem alternado entre a estratégia de streaming directo e a concessão de janelas teatrais para os projectos de maior prestígio, cedeu — e a decisão é um sinal de que a plataforma reconhece que há filmes que precisam do ritual da sala para existirem plenamente.

O projecto adapta as sete obras do ciclo de Lewis, com um universo narrativo que Gerwig quer construir de forma coerente ao longo de vários filmes. O elenco não foi ainda confirmado oficialmente, mas o mercado de Cannes — que arranca a 12 de Maio — deverá trazer as primeiras informações concretas sobre o projecto. O que já é certo é que a chegada de As Crónicas de Nárnia às salas portuguesas em 2027 será um dos eventos cinematográficos do ano. E que Greta Gerwig voltará a ser o centro de tudo.

O elenco confirmado é de peso considerável. Emma Mackey — que trabalhou com Gerwig em Barbie — interpreta Jadis, a Feiticeira Branca, numa versão mais jovem da personagem que Tilda Swinton imortalizou em 2005. Daniel Craig é o Tio André, o excêntrico familiar de Digory Kirke. Meryl Streep empresta a voz a Aslan. Carey Mulligan é Mabel Kirke, a mãe de Digory. Os dois protagonistas infantis — Digory e Polly — são interpretados pelos jovens actores David McKenna e Beatrice Campbell. Completam o elenco Ciarán Hinds, Denise Gough, Kobna Holdbrook-Smith e Susan Wokoma. A partitura original é de Mark Ronson e Andrew Wyatt, que já tinham colaborado com Gerwig em Barbie, com figurinos de Jacqueline Durran — dois Óscares no currículo.

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A bilheteira americana de 2026 vai 14% acima do ano passado: o verão pode ser o melhor da última década

Os números são suficientemente bons para que a indústria os diga em voz alta. Entre Janeiro e Abril de 2026, a bilheteira norte-americana acumulou 2,57 mil milhões de dólares — um crescimento de 14% face ao mesmo período de 2025, segundo dados da ComScore. O contexto importa: 2025 foi já um ano de recuperação sólida, e crescer 14% sobre essa base não é trivial.

Os catalisadores são conhecidos: O Super Mario Galaxy Movie tornou-se o primeiro filme de 2026 a superar os 400 milhões de dólares nas salas americanas, com uma carreira global que já vai em 832 milhões; Project Hail Mary, a adaptação do romance de Andy Weir com Matt Damon, aproxima-se dos 319 milhões domésticos na sétima semana de exibição — um feito notável para um filme de ficção científica original sem franchise por detrás; e Michael, o biopic de Michael Jackson, abriu o fim-de-semana passado com 97 milhões nos EUA e mantém-se forte na segunda semana.

O Diabo Veste Prada 2, que estreou ontem em Portugal, insere-se neste contexto como o catalisador da temporada de verão americana — a primeira vez que um filme liderado por mulheres inaugura a temporada que vai de Maio a Setembro. Se os números do fim-de-semana nos EUA confirmarem as projecções mais optimistas, o verão de 2026 poderá rivalizar com os melhores anos do pré-pandemia.

Quanto ao impacto em Portugal, não há ainda dados que permitam traçar um paralelo directo com o mercado nacional. O que se pode dizer é que uma bilheteira americana saudável tende a traduzir-se num calendário de estreias mais robusto em toda a Europa: distribuidores mais confiantes, janelas de lançamento mais curtas entre os EUA e Portugal, e — em última análise — mais filmes a chegar às salas portuguesas com a urgência que merecem.

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Há semanas em que o cinema de grande escala engole tudo o que está ao lado. Esta foi uma delas. Enquanto O Diabo Veste Prada 2 ocupava todos os ecrãs e toda a atenção mediática, Hokum — o novo horror de Damian McCarthy, realizador irlandês que já tinha mostrado o que era capaz em Caveat (2020), premiado no SXSW e com distribuição em 2.000 salas nos EUA — estreou praticamente invisível no ruído da semana.

Os números dizem outra coisa: 91% no Rotten Tomatoes e 78 no Metascore. Este segundo valor é particularmente revelador — o Metascore, que agrega críticas de publicações de referência com uma ponderação editorial, é habitualmente mais exigente e mais difícil de comprazer do que o agregador de críticas de audiência. Um 78 no Metascore em horror é um resultado que poucos filmes do género alguma vez atingem.

Adam Scott — melhor conhecido pelo seu papel em Severance, onde a sua capacidade de habitar uma normalidade progressivamente perturbadora se revelou completamente — protagoniza um filme descrito pela crítica como horror de construção lenta e psicológica, que usa a suburbia americana como pano de fundo para algo que se vai tornando cada vez mais difícil de nomear. McCarthy confirma com Hokum o que Caveat apenas prometia: um domínio do terror de atmosfera que é raro e que deve ser seguido de perto.

Hokum estreia em Portugal a 25 de Junho. É tempo suficiente para marcar a data — e para confiar que Damian McCarthy vai fazer exactamente o que McCarthy faz: chegar devagar, instalar-se, e não sair facilmente.

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Existe cinema para entretenimento puro e depois existem aqueles filmes para perguntar algo e nos fazerem refletir e sentir. Não tenho pejo em admitir que gosto de ambos. E A Verdadeira Dor, de Jesse Eisenberg, pertence claramente ao segundo grupo — e fá-lo com uma elegância e uma honestidade que raramente se encontram juntas no mesmo ecrã. Estes valem sempre mais do que o contracto a prazo de cerca das 2 horas de que vale qualquer bilhete…

A premissa é simples até ao ponto em que deixa de o ser: dois primos, David e Benji, viajam pela Polónia para honrar a memória da avó recentemente falecida. Percorrem os lugares da herança judaica da família, incluindo o campo de concentração de Majdanek, e deixam que essa viagem faça aquilo que as viagens difíceis sempre fazem — expor o que estava enterrado.

O que Eisenberg percebeu, com uma maturidade invulgar para um realizador no seu segundo filme, é que a tensão entre os dois primos é tão rica quanto o peso da história que carregam. David (o próprio Eisenberg) é ansioso, metódico, controlado. Benji (Kieran Culkin) é impulsivo, expansivo, impossível de ignorar. São o tipo de opostos que só a família consegue unir — e que só uma viagem suficientemente intensa consegue obrigar a olhar um para o outro. A Polónia não é apenas cenário: é o catalisador que transforma um tributo numa ajuste de contas íntimo e, por isso mesmo, num filme sobre a vida.

Culkin é simplesmente extraordinário. Há uma qualidade na sua performance que é difícil de descrever sem recorrer a clichés — diremos apenas que ele faz parecer fácil o que é tecnicamente muito difícil: ser simultaneamente o elemento cómico, o mais vulnerável e o mais perturbador de qualquer cena em que aparece. O Óscar de Melhor Ator Secundário que recebeu este ano não foi uma surpresa para quem o viu — foi uma confirmação. Os BAFTA e os Critics Choice Awards disseram o mesmo antes.

Eisenberg, por seu lado, recebeu uma nomeação ao Óscar de Melhor Argumento Original que diz muito sobre o tipo de realizador que está a tornar-se. Depois de Quando Acabares de Salvar o Mundo (2022), confirmou que tem algo a dizer — e que sabe encontrar a forma certa de o dizer sem gritar. A Verdadeira Dor estreou no Festival de Sundance em 2024 com aclamação generalizada, e a temporada de prémios que se seguiu transformou o que poderia ter sido um filme pequeno num dos títulos mais falados do ano.

O que fica, no final, não é a história do Holocausto — que é tratada com o respeito e a seriedade que merece, sem nunca ser instrumentalizada — mas a história de duas pessoas que precisavam de se ver de verdade e só conseguiram fazê-lo no lugar mais improvável. Há humor, desconforto, silêncios que pesam e momentos de uma ternura inesperada. É o tipo de cinema que não resolve nada e, por isso mesmo, ressoa durante dias.

A Verdadeira Dor estreia esta noite, domingo, 3 de maio, às 22h05 no TVCine Top, ficando também disponível no TVCine+.

Dune: Parte Um — O épico que o cinema merecia

Há filmes que chegam com o peso de décadas de expectativas e saem sem as defraudar. Dune: Parte Um, de Denis Villeneuve, é um desses raros casos — uma adaptação que tantos consideravam impossível e que o realizador canadiano transformou numa das experiências cinematográficas mais imponentes dos últimos anos.

A história é conhecida de quem leu Frank Herbert: Paul Atreides (Timothée Chalamet), filho de uma nobre casa galáctica, é arrastado para Arrakis, um planeta desértico e hostil que é, simultaneamente, o lugar mais valioso do universo. É lá que se extrai a especiaria, a substância que o poder quer controlar e que os Fremen — o povo do deserto — protegem com a sua vida. Numa outra mão, está Zendaya como Chani, figura misteriosa que Paul vê em sonhos antes de a encontrar na realidade. É a promessa de algo que, astutamente, Villeneuve guarda para a segunda parte.

Mas Dune: Parte Um não é apenas argumento. É, acima de tudo, uma obra de construção de mundo com uma generosidade visual raramente vista. A direcção de fotografia de Greig Fraser — que valeu um dos seis Óscares que o filme arrecadou — transforma Arrakis numa paisagem quase espiritual, onde a areia não é fundo mas personagem. A pontuação de Hans Zimmer, que escolheu este projecto em detrimento de Tenet de Christopher Nolan (uma escolha que diz muito sobre o estatuto do romance de Herbert no mundo da cultura), usa vozes e texturas para criar algo que soa simultaneamente antigo e alienígena.

O elenco é extraordinário na sua diversidade e no seu compromisso. Oscar Isaac como o Duque Leto transmite uma nobreza trágica em poucos planos. Rebecca Ferguson como a Senhora Jessica navega entre o amor maternal e os segredos de uma ordem quase religiosa. Jason Momoa como Duncan Idaho rouba todas as cenas em que aparece, com uma energia que o torna o elemento mais carismático do filme. E Josh Brolin, Stellan Skarsgård e Dave Bautista compõem os antagonistas com uma presença física que dispensa grandes falas.

O filme tem a coragem de ser lento quando a história pede lentidão, e esmagador quando os momentos de grandiosidade chegam. A sequência dos vermes das areias — os Shai-Hulud — não é apenas espectáculo: é uma declaração de filosofia visual. Villeneuve quer que o espectador sinta a escala, não que a processe. E consegue-o.

Há quem aponte que o filme termina abruptamente, em suspenso — e é verdade. Mas isso é também uma honestidade: Dune: Parte Um é, literalmente, metade de uma história, e Villeneuve nunca fingiu o contrário. Com a segunda parte disponível no mesmo lugar (e igualmente à altura), o argumento perde força.

Para quem ainda não viu, ou para quem quer rever antes do terceiro capítulo que está em produção, Dune: Parte Um está disponível para os subscritores do Netflix e do HBO. Não há desculpa para adiar mais.

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— corrigido um erro de edição no primeiro filme dia 2 de Maio de 2026 às 00:49–

“Não Fales do Mal” — Quando a hospitalidade se torna uma armadilha

Há um tipo de horror que não precisa de monstros. Precisa apenas de um jantar em que ninguém diz o que pensa, de um sorriso que dura tempo a mais, de uma piada que não é bem uma piada. É exatamente esse o terreno de Não Fales do Mal, o thriller psicológico realizado por James Watkins que chega esta noite ao TVCine Top e que transforma a mais banal das situações sociais — o fim de semana em casa de novos amigos — num exercício de inquietação crescente.

Ben e Louise Dalton (Scoot McNairy e Mackenzie Davis) são um casal americano que, em férias na Europa, conhece um par de britânicos aparentemente encantadores. O convite para um fim de semana na sua casa de campo parece o gesto simpático de quem quer continuar uma amizade que nasceu bem. É claro que não é.

A partir daí, Watkins constrói a tensão com precisão cirúrgica, sem recorrer aos atalhos habituais do género. Não há sustos fáceis nem gore gratuito — há algo pior: a acumulação de pequenos desconfortos que qualquer pessoa reconhece. O comentário que passa do limite. A atitude que é invasiva mas não o suficiente para justificar uma saída de cena. A sensação de que algo está errado, mas a educação não deixa dizê-lo em voz alta. O filme explora com inteligência esse espaço incómodo entre a cordialidade social e o instinto de sobrevivência — e faz-o com uma eficácia que deixa o espectador a torcer para que os protagonistas abandonem de uma vez a boa educação.

James McAvoy é a revelação do elenco, num papel que oscila com desconcertante fluidez entre o charme genuíno e a intimidação velada. É o tipo de personagem que o espectador não consegue classificar — e é exactamente essa ambiguidade que o torna tão perturbadora. Ao seu lado, Aisling Franciosi completa um duo de anfitriões que ficará na memória por razões que seria criminoso revelar.

O filme é uma reinterpretação do original dinamarquês de 2022, de Christoffer Borgli, e Watkins — realizador de A Mulher de Negro — amplifica a tensão da premissa original sem a trair. Há aqui uma tese sobre os limites da tolerância e sobre o preço que pagamos por sermos agradáveis que torna Não Fales do Mal algo mais do que um thriller de entretenimento. É um filme que fica.

Não Fales do Mal estreia esta noite, 2 de maio, às 21h30 no TVCine Top, ficando igualmente disponível no TVCine+.