Nascida na ilha do Faial em 1953, filha de mãe natural do Pico, Teresa Madruga construiu ao longo de quase cinco décadas uma das carreiras mais consistentes e menos ruidosas do cinema português, sempre discreta apesar de ter trabalhado com praticamente todos os grandes nomes da realização nacional das últimas gerações. Essa trajetória vai agora ser celebrada em casa, nos Açores: a MiratecArts anunciou que Teresa Madruga é a grande homenageada da gala dos PAA – Prémios Audiovisuais Açorianos, marcada para 9 de janeiro de 2027, às 16h, no Auditório da Madalena, na ilha do Pico.
Desde a estreia em 1977, Teresa Madruga participou em mais de uma centena de filmes e séries de televisão, além de ter emprestado a voz a mais de 80 personagens de animação, um lado da sua carreira frequentemente menos conhecido do grande público mas bem documentado entre os fãs de dobragem portuguesa. No cinema de autor português, o seu percurso cruza-se com nomes incontornáveis: colaborou pelo menos cinco vezes com Manoel de Oliveira, entre “Francisca” (1981), “Visita ou Memórias e Confissões” (1982) e “Dia do Desespero” (1992), e trabalhou também com António Pedro Vasconcelos, João Botelho, João Canijo, João César Monteiro, João Mário Grilo, João Pedro Rodrigues, José Álvaro de Morais, Fernando Vendrell, Fernando Matos Silva, Fernando Lopes, António da Cunha Telles e Miguel Gomes, um mapa que atravessa praticamente toda a história do cinema português contemporâneo através de uma única atriz.

O reconhecimento internacional chegou cedo, em 1983, quando protagonizou “Dans la Ville Blanche” (“Na Cidade Branca”), do realizador suíço Alain Tanner, apresentado nesse ano no Festival de Berlim. O papel valeu-lhe o prémio Sete de Cinema de Melhor Interpretação Feminina e abriu-lhe portas para produções em Espanha, França e Itália, incluindo um dos momentos mais marcantes da sua carreira: contracenar com Marcello Mastroianni em “Afirma Pereira” (“Sostiene Pereira”, 1995), de Roberto Faenza, adaptação do romance de Antonio Tabucchi ambientada na Lisboa de Salazar, num elenco que incluía ainda Joaquim de Almeida, Daniel Auteuil e Nicoletta Braschi. Entre os prémios internacionais destaca-se ainda o de Melhor Atriz no Festival du Court Métrage de Clermont-Ferrand, um dos festivais de curtas-metragens mais prestigiados do mundo, pela sua interpretação em “D’Après Maria”, de Jean-Claude Robert, filme que chegou também a ser considerado para os BAFTA e para os Prémios César do cinema francês.
Já em 2025, Teresa Madruga venceu o Prémio Sophia de Melhor Atriz Secundária pelo filme “O Teu Rosto Será o Último”, de Luís Filipe Rocha, uma longa-metragem que a MiratecArts já tinha apresentado no ano anterior como um dos melhores filmes portugueses do ano. E, ainda este ano, a sua carreira ganhou uma dimensão inesperadamente jovem: integrou o elenco de “Algumas Coisas que Acontecem ao Lado de um Rio”, curta-metragem de Daniel Soares que competeu pela Palma de Ouro de curtas-metragens no Festival de Cannes de 2026, no papel de Rosa.
Foi precisamente esse Prémio Sophia de 2025 que motivou Terry Costa, diretor artístico da MiratecArts, a organizar esta homenagem. “A primeira vez que vi a Teresa no grande ecrã foi nos anos 80, nos filmes de Manoel de Oliveira. Em 2025, quando recebeu o Prémio Sophia, senti um orgulho como se fôssemos grandes amigos, família até. Desde esse dia tenho trabalhado numa desculpa para nos conhecermos. Finalmente vai acontecer”, explicou Costa, que vai conduzir uma conversa com a atriz durante a gala, seguida da apresentação da curta-metragem “Judite, ou A Primeira Revolta”, de Pedro Carneiro.
A homenagem a Teresa Madruga integra-se num programa mais alargado que junta, na mesma semana no Pico, o 15º aniversário da associação MiratecArts, a abertura da 13ª edição do Montanha Pico Festival, o Encontro Audiovisual Açoriano e a segunda edição dos próprios PAA, que distinguem produções que vão de videoclipes a séries, filmes de ficção e documentários. Produtores açorianos com obras produzidas entre 2025 e 2026 podem ainda candidatar-se até 1 de outubro. A organização recomenda também que quem pretenda assistir ao evento reserve viagem com antecedência, já que os voos para o Pico costumam esgotar rapidamente nesta época do ano.



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