Começou com uma lista. A minha filha entregou-ma um dia destes, escrita à pressa no telemóvel, cheia de expressões que eu reconhecia vagamente de ouvir ao longe, “aura a carregar”, “slay”, “main character”, “six seven”, o vocabulário completo de uma geração que comunica em código. Em vez de perguntar o que significava cada uma, decidi fazer o óbvio para quem escreve canções, transformar a lista numa letra.
O resultado chama-se “Aura a Carregar”, e é provavelmente a coisa mais afastada do que costumo escrever. As minhas músicas tendem para o registo grave, confessional, de desabafo, voz séria a dizer coisas absurdas com naturalidade total e frequentemente afastadas da sonoridade Pop. Esta é o oposto, uma sátira bem-disposta ao dia de um adolescente entre scrolls, provas adiadas para o ChatGPT e dramas de grupo resolvidos em segundos. A letra é dela tanto quanto é minha, cada expressão veio da lista, eu só dei forma e melodia. Para desenvolver a música usei ferramentas de inteligência artificial ao longo de todo o processo, da composição ao arranjo, o que por si só já mudou a forma como abordo uma canção nova.
Mas a música era só metade do plano. A minha filha é fã de manga, e vi ali uma oportunidade óbvia que eu não teria pensado sozinho, fazer o teledisco inteiro nesse registo. Desenhei as imagens com recurso a inteligência artificial, imagem a imagem, animação a animação, mas mantendo tudo o que faz o género reconhecível, os traços, a expressividade exagerada, os momentos de pausa que se sente antes de um golpe.
A paisagem por trás da acção é onde a coisa fica mais interessante, com personagens claramente manga, colei imagens quase realistas com pinceladas de Lisboa.
Não escondo que o resultado final me surpreendeu a mim primeiro. Não é todos os dias que se vê uma ideia nascida de uma lista de gírias de adolescente chegar a vídeo acabado, com imagens e animações geradas inteiramente por inteligência artificial, sem perder o que fazia a piada funcionar no papel. Fica aqui como prova de que a tecnologia, bem usada, não substitui a ideia, só lhe dá forma mais depressa.
Deixem um comentário a dizer o que acharam, e se ainda não seguem o meu canal pessoal no YouTube, aproveitem para o fazer, é lá que estes projectos vão continuar a aparecer primeiro.



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