Setenta e três anos depois de Edmund Hillary e Tenzing Norgay se terem tornado os primeiros seres humanos a pisar o cume do Monte Evereste, a Apple TV apresenta “Tenzing”, um drama de época que promete corrigir décadas de desequilíbrio histórico ao devolver a Norgay, o sherpa nepalês-indiano cuja contribuição foi durante muito tempo ofuscada pela fama do alpinista neozelandês, o lugar central que sempre lhe pertenceu na narrativa desta façanha. O filme abre a 22ª edição do Festival de Zurique, a 24 de setembro, depois de já ter passado pelo Festival de Telluride.
Realizado por Jennifer Peedom, documentarista australiana especializada em cinema de montanha, com trabalhos aclamados como “Sherpa” e “Mountain”, “Tenzing” acompanha a jornada de Tenzing Norgay, interpretado pelo ator nepalês Genden Phuntsok, desde os obstáculos de classe e etnia que enfrentava tanto entre a sua própria equipa de sherpas como entre os alpinistas ocidentais, até ao momento em que o coronel John Hunt, líder da expedição britânica interpretado por Willem Dafoe, lhe concede finalmente o estatuto de membro de pleno direito da equipa de escalada. É nesse contexto que nasce a amizade entre Norgay e o neozelandês Edmund Hillary, interpretado por Tom Hiddleston, uma relação que o filme apresenta como o verdadeiro motor emocional por trás de uma das maiores conquistas do século XX, com os dois homens a decidirem, juntos, mudar a história do alpinismo.
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O elenco inclui ainda Caitríona Balfe no papel de Jill Henderson, secretária da expedição, uma personagem que permite ao filme explorar também a logística e a burocracia britânica por trás de uma operação que, à época, mobilizou recursos e atenção internacional consideráveis. A escolha de Jennifer Peedom para dirigir não é acidental: a realizadora construiu praticamente toda a sua carreira a filmar montanhas e as pessoas que as escalam, com um respeito e um conhecimento técnico do género que raramente se encontra em produções de ficção sobre o tema, e que deverá traduzir-se numa reconstituição visualmente rigorosa das condições extremas enfrentadas pela expedição de 1953.
O verdadeiro valor histórico de “Tenzing” reside, no entanto, na sua ambição de reequilibrar uma narrativa que, durante décadas, tratou a conquista do Evereste quase exclusivamente como um feito britânico e ocidental, relegando Tenzing Norgay a um papel secundário apesar de ter sido, tecnicamente, tão responsável pelo sucesso da expedição como o próprio Hillary. Etnia e classe social, tal como o próprio filme sublinha na sua sinopse, foram obstáculos reais que Norgay teve de ultrapassar tanto dentro da hierarquia rígida das expedições coloniais britânicas como nas expectativas limitadas que a sua própria comunidade lhe impunha, uma tensão que “Tenzing” promete não diluir em favor de uma narrativa mais confortável de amizade improvável entre dois homens de mundos diferentes.
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Com estreias já marcadas em festivais de prestígio como Telluride e agora Zurique, e distribuição assegurada pela Apple TV, “Tenzing” surge como mais uma aposta do serviço de streaming em cinema de género histórico e de aventura com ambições claras de reconhecimento crítico, seguindo uma estratégia que já rendeu à Apple resultados notáveis noutras frentes do prestígio cinematográfico nos últimos anos.



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