“The Paper” regressa para a 2ª temporada e finalmente sai da sombra de “The Office”

O spin-off mais recente do universo de “The Office” acaba de dar um salto de qualidade que a crítica já não esperava tão cedo. A segunda temporada de “The Paper” estreou a 9 de setembro no Peacock, com os dez episódios disponíveis de uma só vez, e as primeiras críticas sugerem que a série, finalmente, começou a encontrar identidade própria em vez de continuar refém das comparações inevitáveis com a sitcom que lhe deu origem.

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Criada por Greg Daniels, o mesmo responsável pela adaptação americana de “The Office”, e Michael Koman, “The Paper” segue Ned Sampson, interpretado por Domhnall Gleeson, um editor improvável tentando salvar um pequeno jornal local em Toledo, no Ohio. A série não é uma sequela direta, mas partilha universo com “The Office” através da mesma equipa de documentaristas fictícios que acompanha agora esta nova redação, com Oscar Nuñez a reprisar o seu papel de Oscar Martinez, um dos raros elos diretos entre as duas produções. Na segunda temporada, o fio condutor passa pela procura incessante da próxima grande história por parte de Ned e da sua equipa de jornalistas, obrigando-os a confrontar as consequências reais, por vezes incómodas, de perseguir reportagens de impacto, com subtramas paralelas, incluindo um tornado que atinge a cidade, a gerarem efeitos inesperados ao longo da temporada.

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Talvez o dado mais relevante para os fãs mais céticos de “The Office” seja precisamente a evolução crítica que esta segunda temporada representa. Depois de uma primeira temporada recebida com reservas consideráveis, acusada de tentar demasiado imitar o ritmo e o humor de outras sitcoms de sucesso como “Parks and Recreation”, as primeiras análises à segunda temporada descrevem um afastamento claro e bem-sucedido dessa sombra, com uma escrita mais afiada, um elenco secundário mais confiante e um ritmo consideravelmente mais rápido e seguro daquilo que a série quer ser. Não há unanimidade, longe disso: alguns críticos continuam a apontar um excesso de reviravoltas dramáticas que por vezes soam a esforço excessivo, mas o consenso geral aponta para uma série que, pela primeira vez, consegue ser vista ao lado de “The Office” em vez de ser constantemente comparada, de forma desfavorável, a ela.

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Vale lembrar que a Peacock já tinha renovado “The Paper” para esta segunda temporada ainda antes da estreia da primeira, um voto de confiança pouco habitual que reflete a aposta clara da plataforma em construir, a partir do legado de “The Office”, uma segunda geração de comédias de formato documental ambientadas em espaços de trabalho. Falta agora saber se este salto de qualidade na segunda temporada será suficiente para garantir uma terceira, uma decisão que, ao contrário da anterior, a Peacock e a NBC ainda não confirmaram publicamente, preferindo provavelmente esperar pela reação do público a este novo capítulo antes de comprometerem recursos adicionais a uma série que, até agora, tem vivido sobretudo da paciência e da expectativa dos fãs da sitcom original.

“Fauda” termina com a quinta e mais pesada temporada, dois anos depois do 7 de outubro

Depois de mais de uma década a acompanhar as operações secretas de uma unidade israelita infiltrada em território palestiniano, “Fauda” chegou ao fim. A quinta e última temporada estreou a 8 de setembro na Netflix, com os 11 episódios disponíveis de uma só vez, e representa também o primeiro capítulo da série a lidar diretamente com o ataque liderado pelo Hamas a 7 de outubro de 2023, um acontecimento que os próprios criadores, Lior Raz e Avi Issacharoff, sabiam que teriam de enfrentar sem meias medidas.

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A ação retoma dois anos depois desse ataque, com Doron Kavillio, personagem interpretada pelo próprio Lior Raz desde a primeira temporada, a lidar com um stress pós-traumático que o próprio ator descreve como o retrato mais cru já feito da personagem. É esse estado emocional debilitado que o arrasta para uma missão de vingança não autorizada, promovida por um velho amigo, levando-o a uma operação secreta de infiltração em Marselha, França, numa mudança de cenário pouco habitual para uma série que sempre esteve firmemente ancorada no território israelo-palestiniano. Ao elenco habitual, que inclui Itzik Cohen, Doron Ben-David e Yaakov Zada Daniel, juntam-se agora a atriz francesa Melanie Laurent e o ator Hakim Djaziri, um sinal claro da expansão geográfica da narrativa nesta reta final. A realização ficou a cargo de Omri Givon, também responsável por “Hostages”, com argumento de Omri Shenhar, criador de “Tehran”.

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O mais interessante nesta última temporada é a forma como se recusa a oferecer ao público o desfecho triunfalista que uma série de ação sobre contraterrorismo poderia facilmente ter escolhido. Segundo as primeiras críticas publicadas, “Fauda” fecha não com uma vitória, mas com luto, memória e uma oração pela paz, depois de uma temporada inteira construída à volta do impulso de vingança, uma escolha temática que parece querer responder a uma pergunta incómoda que os próprios criadores admitem ter querido colocar: será que a vingança muda alguma coisa, ou apenas mantém o ciclo de violência em movimento? É uma nota final marcadamente mais sóbria e reflexiva do que a tensão puramente física que sempre foi a marca registada da série, um tom que a crítica tem recebido de forma dividida, com alguns a elogiar a maturidade da abordagem e outros a considerar o resultado emocionalmente pesado até para os padrões já de si intensos de “Fauda”.

Criada em 2015, “Fauda” tornou-se um fenómeno global pouco habitual para uma produção israelita, conquistando audiências bem para além do mercado local graças à sua abordagem pouco convencional para o género: em vez de retratar o conflito israelo-palestiniano através de uma lente estritamente heroica ou propagandística, a série sempre fez questão de humanizar também os seus antagonistas palestinianos, uma escolha narrativa que lhe valeu tanto elogios pela complexidade moral como críticas de diferentes lados do espectro político ao longo dos seus dez anos de existência. Que a série tenha decidido encerrar a sua história precisamente através do acontecimento mais traumático e mais divisivo da história recente da região sublinha até que ponto os seus criadores sempre encararam “Fauda” como um espelho, ainda que dramatizado, da realidade política e humana que procurava retratar.

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Com este final, a Netflix perde uma das suas produções internacionais mais duradouras e mais consistentemente premiadas, mas os próprios criadores parecem ter escolhido terminar no momento certo, antes que a série arriscasse tornar-se repetitiva, optando por um fecho que privilegia a reflexão em detrimento do espetáculo fácil.


“North of North” regressa para uma segunda temporada “mais louca”, depois de conquistar a crítica com um retrato inédito da vida inuk

Uma das séries mais surpreendentes e mais elogiadas da Netflix na última temporada está de regresso. “North of North” estreou a segunda temporada esta semana no Canadá, disponível na APTN+ desde 1 de setembro e agora também na CBC Gem, CBC TV e APTN TV a partir de 8 de setembro, com a estreia internacional na Netflix prevista ainda para este outono, embora sem data exata confirmada.

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Ambientada na vila fictícia ártica de Ice Cove, no Nunavut, a série acompanha Siaja, uma jovem inuk de 26 anos interpretada por Anna Lambe, que decide publicamente afastar-se do casamento com um marido bem-intencionado mas desligado da realidade, procurando reconstruir a sua própria identidade sem deixar de permanecer enraizada na comunidade onde cresceu. Como organizadora de eventos no centro comunitário local, Siaja lida com tudo, desde noites dedicadas aos mais idosos até eventos mais peculiares e culturalmente específicos, enquanto tenta, ao longo da primeira temporada, convencer a vila a acolher um novo centro de investigação, um fio narrativo que serve de pretexto para explorar as tensões entre tradição, modernidade e ambição pessoal numa comunidade pequena e isolada.

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O verdadeiro trunfo de “North of North” é aquilo que a tornou, desde a estreia em 2025, um caso raro de representação genuína na televisão de streaming: a série é a primeira produção original canadiana da Netflix, co-encomendada pela CBC em associação com a Aboriginal Peoples Television Network, e foi criada por Alethea Arnaquq-Baril e Stacey Aglok MacDonald, ambas inuk e residentes no Ártico, para quem contar esta história significava também dar visibilidade autêntica à sua própria comunidade e cultura. Esse compromisso com a autenticidade estendeu-se muito para além da sala de argumentistas: para um dos episódios da primeira temporada, a designer inuk Victoria Kakuktinniq viajou três horas de moto de neve para entregar pessoalmente o atigi, o casaco tradicional inuktitut, usado no casamento da personagem principal, um nível de detalhe cultural que a crítica destacou repetidamente como um dos pontos fortes da produção.

Esse cuidado traduziu-se em reconhecimento imediato: a primeira temporada arrecadou uma pontuação de 100% no Rotten Tomatoes e venceu cinco prémios nos Directors Guild of Canada Awards de 2025, incluindo Melhor Realização em Série de Comédia para Danis Goulet, além de outros reconhecimentos que a colocaram entre as estreias mais bem recebidas da televisão canadiana dos últimos anos. Para a segunda temporada, Anna Lambe já avisou que a história promete ficar “mais louca” e mais intensa do que a primeira, ao mesmo tempo que permite ao público conhecer as personagens secundárias com muito mais profundidade, com nomes convidados como o comediante canadiano Bruce McCulloch, dos lendários Kids in the Hall, e a cantora inuk Elisapie a juntarem-se ao elenco.

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Numa paisagem televisiva ainda dominada por representações limitadas ou estereotipadas de comunidades indígenas árticas, “North of North” continua a destacar-se precisamente por recusar tanto o exotismo como o vitimismo fácil, optando antes por uma comédia calorosa, específica e genuinamente enraizada na vida quotidiana de uma comunidade raramente vista com este grau de nuance no ecrã.

TIFF revela a programação “Primetime”, com “Carrie” de Mike Flanagan e um prelúdio de “Sexta-Feira 13” entre os destaques

Na véspera da abertura oficial da 51ª edição do Festival Internacional de Cinema de Toronto, marcada para amanhã, dia 10 de setembro, a organização revelou a programação completa da secção “Primetime”, dedicada a narrativa episódica de autor, com um alinhamento que junta nomes consagrados da televisão a vozes emergentes canadianas, refletindo a aposta declarada do festival em dar particular destaque a talento nacional nesta edição.

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O grande nome da secção é, sem dúvida, Mike Flanagan, o realizador responsável por êxitos de terror televisivo como “A Maldição da Residência Hill” e “O Andar do Meio”, que apresenta em Toronto a sua nova adaptação de “Carrie”, o romance de Stephen King, escolhida para encerrar a programação Primetime deste ano. A abrir a secção está “Below”, uma produção canadiana realizada por Jesse McKeown, escolhida precisamente para abrir a programação com uma voz nacional, uma decisão simbólica que sublinha a intenção do TIFF de dar palco de honra ao seu próprio país num ano particularmente significativo para o festival. Entre os títulos mais aguardados está ainda “Crystal Lake”, a esperada série que funciona como prelúdio à mitologia de “Sexta-Feira 13”, assinada por Brad Caleb Kane e Michael Lennox, um projeto que os fãs do género de terror slasher têm vindo a acompanhar de perto desde o anúncio.

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O lado canadiano da programação inclui ainda “Yaga”, de Kat Sandler, Rachel Talalay e David Frazee, com Hudson Williams no elenco, e “Alice”, uma coprodução franco-canadiana realizada por Virginie Verrier e Guillaume Lonergan, protagonizada por François Arnaud. Do lado internacional, a secção reserva ainda espaço para “American Hostage”, criada por Shawn Ryan com a colaboração de Eileen Myers e Adam Arkin, “Blindspot Berlin”, do realizador alemão David Nawrath, “2.6 Seconds: Death in the Outback”, documentário australiano de Darren Dale, e “Oxygen Masks Will (Not) Drop Automatically”, produção brasileira de Marcelo Gomes e Carol Minêm, um sinal de como o TIFF continua a fazer questão de equilibrar a sua seleção entre diferentes continentes e tradições televisivas. A sexta temporada de “Slow Horses”, já estreada este mês na Apple TV+, integra também a seleção, uma escolha que confirma o estatuto da série de espionagem britânica como uma das apostas mais seguras e mais consistentemente aclamadas da televisão de prestígio atual.

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Elencos de peso completam o quadro: nomes como Bérénice Bejo, Linda Cardellini, Jon Hamm, Carrie-Anne Moss e Gary Oldman surgem associados a diferentes projetos da secção, um indicador claro de que a fasquia de estrelas dispostas a trabalhar em formato televisivo de prestígio continua a subir ano após ano, um fenómeno que já não surpreende ninguém na indústria mas que continua a alimentar a relevância crescente destas secções televisivas dentro de festivais historicamente pensados apenas para cinema.

A escolha de destacar tão fortemente vozes canadianas nesta edição, tanto na programação Primetime como no resto do festival, não é acidental: numa altura em que a indústria audiovisual canadiana tem procurado ativamente maior visibilidade internacional face à hegemonia de produções americanas, o TIFF parece disposto a usar o seu peso simbólico como um dos maiores festivais do mundo para reforçar precisamente essa causa, sem por isso abdicar de continuar a atrair os maiores nomes internacionais da televisão de autor.

“A Ilha Esquecida”: a DreamWorks faz história com a primeira animação de um grande estúdio de Hollywood inspirada na mitologia filipina

A DreamWorks está prestes a assinalar um momento inédito na história da animação de grande orçamento: “A Ilha Esquecida” (“Forgotten Island”, no título original), com estreia marcada em Portugal para 1 de outubro através da Cinemundo e da Universal Pictures, é a primeira longa-metragem de animação de um grande estúdio de Hollywood construída inteiramente à volta da mitologia e do folclore filipinos, um marco de representação que os próprios realizadores fazem questão de sublinhar sempre que têm oportunidade.

A história acompanha Jo e Raissa, duas melhores amigas de infância nas Filipinas dos anos 90, que prometem uma à outra permanecer unidas para sempre na noite em que celebram o final do liceu. Nessa mesma noite, as duas descobrem um portal misterioso que as transporta para Nakali, uma ilha mágica que se alimenta gradualmente das memórias de quem nela entra. Quando percebem que o preço a pagar para regressar a casa é esquecerem-se de toda a amizade que construíram ao longo da vida, Jo e Raissa têm de correr contra o tempo para encontrar uma forma de escapar antes de se esquecerem uma da outra para sempre, um conceito que consegue transformar uma premissa de aventura fantástica num retrato genuinamente comovente sobre a fragilidade e o valor da memória partilhada.

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As vozes originais de Jo e Raissa ficam a cargo de H.E.R. e Liza Soberano, ambas de ascendência filipina, uma escolha de casting deliberada por parte dos realizadores Joel Crawford e Januel Mercado, que quiseram garantir autenticidade cultural em cada etapa da produção. O elenco inclui ainda Dave Franco no papel de Raww, um lobisomem bem-intencionado mas desajeitado, Jenny Slate como Batiba, personagem inspirada na Batibat, uma criatura da mitologia filipina, e Lea Salonga, lendária voz de Disney conhecida por “Mulan” e “Aladdin”, no papel da temida Manananggal, uma das criaturas mais assustadoras do panteão de monstros filipinos.

O compromisso da equipa criativa com a autenticidade cultural não se ficou pelas escolhas de elenco. Segundo revelaram os próprios realizadores, Crawford e Mercado passaram seis anos a desenvolver a história e viajaram até às Filipinas na primavera de 2025 numa investigação de dez dias que os levou por várias ilhas do arquipélago e por Manila, trabalhando lado a lado com centenas de artistas filipinos e americanos ao longo da produção. Mercado é filipino-americano, enquanto Crawford, realizador também de “O Gato das Botas 2”, tem uma família filipina própria, e chegou a dedicar publicamente o filme à mulher, uma escolha pessoal que ajuda a explicar o cuidado extremo com que a mitologia local é tratada ao longo da narrativa, evitando a apropriação superficial que por vezes tem marcado tentativas anteriores de Hollywood em retratar culturas menos representadas no ecrã.

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A receção crítica antes da estreia tem sido descrita como um verdadeiro “cartão de amor” à cultura filipina, com vários meios especializados em representação a destacarem como o filme consegue fazer com que espectadores de ascendência filipina se sintam genuinamente vistos, um objetivo que raramente é alcançado com este nível de fidelidade em produções de animação de grande orçamento destinadas ao mercado global.

Vale notar que a data de estreia em Portugal, 1 de outubro, surge uma semana depois da estreia norte-americana, marcada para 25 de setembro, e um dia depois da estreia brasileira, a 24 de setembro, seguindo o padrão habitual de desfasamento entre mercados que a Universal costuma aplicar aos seus lançamentos de animação internacionais.

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“A História de Michael Jackson”: a BBC tenta contar a história definitiva do rei da pop, sem esconder as suas zonas mais sombrias

Poucas figuras da cultura popular do século XX resistem tão bem, e ao mesmo tempo tão mal, a uma tentativa de biografia definitiva como Michael Jackson. É precisamente essa ambição, difícil e inevitavelmente incompleta, que a BBC assume em “A História de Michael Jackson” (“Michael Jackson: An American Tragedy”, no título original), minissérie documental que estreia em Portugal no sábado, dia 12 de setembro, às 19h45, em exclusivo no TVCine Edition e no TVCine+.

Realizada por Sophie Fuller e produzida pela 72 Films, a série percorre a vida de Jackson desde a ascensão à fama ainda criança, num contexto de segregação racial na América dos anos 60, até à queda pública marcada por décadas de escândalo mediático e judicial. Estruturada originalmente pela BBC em três episódios, intitulados “Fame”, “The Reckoning” e “Resurrection”, a produção combina material de arquivo raro com testemunhos de pessoas que conviveram de perto com o artista: a irmã La Toya Jackson, a cantora Dionne Warwick, o antigo agente Dieter Wiesner, o guarda-costas Bill Whitfield, o advogado da família Brian Oxman e o procurador Ron Zonen, uma escolha de entrevistados que abrange tanto vozes próximas do círculo familiar como figuras do sistema judicial que acompanharam de perto os processos que marcaram a segunda metade da carreira de Jackson.

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O documentário não evita aquele que continua a ser o capítulo mais controverso e mais difícil da história de Jackson: as alegações de abuso sexual de menores que o perseguiram ao longo de mais de uma década, culminando no julgamento criminal de 2005, do qual saiu absolvido de todas as acusações. É importante notar, para contextualizar devidamente o momento em que esta série chega às televisões portuguesas, que o tema está longe de ser meramente histórico: Wade Robson e James Safechuck, os dois homens cujos testemunhos sustentaram o documentário “Leaving Neverland” em 2019 e que acusam Jackson de abuso sexual durante a infância, continuam com processos civis a decorrer contra o espólio do artista, reclamando 400 milhões de dólares em indemnizações, com um julgamento agendado para o final de 2026. O espólio de Jackson mantém a posição de que “as acusações não têm fundamento e Michael é inocente”, uma disputa legal que, segundo a própria série, é abordada como parte de um legado que continua ativamente a gerar tanto receitas milionárias como controvérsia.

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Essa tensão entre o valor comercial persistente da obra de Jackson e a sombra das acusações que a acompanham é, aliás, um dos eixos centrais da abordagem da série: o espólio do artista, gerido desde a sua morte em 2009, transformou uma herança inicialmente mergulhada em quase meio milhão de dólares de dívidas numa operação avaliada atualmente em milhares de milhões de dólares, um sucesso financeiro que a própria série procura confrontar com a pergunta incómoda sobre até que ponto é possível, ou desejável, separar a obra artística da pessoa e das alegações que a rodeiam.

Vale notar, para efeitos de rigor informativo, que o comunicado que acompanha esta estreia em Portugal refere a série como estando dividida em quatro episódios exibidos numa só sessão, uma diferença face à estrutura original de três episódios anunciada pela própria BBC, possivelmente resultante de um reformato específico para o mercado português; de qualquer forma, o conteúdo e a abordagem mantêm-se fiéis à produção original.

Santo António Ganha Filme, os Oasis Reencontram-se, e Mais 3 Estreias Esta Semana

Mais do que uma simples cronologia de sucessos musicais, “A História de Michael Jackson” posiciona-se como um estudo sobre a dificuldade de reconciliar genialidade artística inquestionável com um legado pessoal profundamente contestado, uma tensão que, quase duas décadas depois da morte do artista, continua longe de estar resolvida tanto nos tribunais como na opinião pública.

Santo António Ganha Filme, os Oasis Reencontram-se, e Mais 3 Estreias Esta Semana

Chegam esta quinta-feira aos cinemas portugueses cinco novas estreias, lideradas pela sequela “Magia e Sedução: Segredos de Família”, com Sandra Bullock e Nicole Kidman a reencontrarem-se vinte e cinco anos depois do filme original. A semana traz também “Santo António, O Casamenteiro de Lisboa”, de Ruben Alves, que depois da passagem pelas salas se torna o primeiro filme português a chegar ao Disney+, e o documentário “Oasis: Don’t Look Back in Anger”, com os irmãos Gallagher a falarem juntos pela primeira vez em quinze anos.

Magia e Sedução: Segredos de Família (Practical Magic 2)

Comédia fantástica romântica realizada por Susanne Bier, com Sandra Bullock e Nicole Kidman a reprisarem os papéis das irmãs bruxas Sally e Gillian Owens, vinte e cinco anos depois do filme original. O elenco inclui ainda Joey King, Lee Pace, Maisie Williams e Xolo Maridueña. A história, passada duas décadas e meia depois, segue a família Owens na descoberta de novos segredos sobre a origem da sua magia. Argumento de Akiva Goldsman, coguionista do primeiro filme. Distribuído pela Cinemundo.

Santo António, O Casamenteiro de Lisboa

Comédia romântica realizada por Ruben Alves, com Rita Blanco, Joaquim Monchique e Maria Rueff, sobre dois funcionários da Câmara de Lisboa que arriscam o emprego para reinventar os tradicionais Casamentos de Santo António. Estreia nas salas a 10 de setembro e, depois da passagem pelo circuito de cinemas, torna-se o primeiro filme português a chegar à plataforma Disney+. Guião coescrito pelo próprio Ruben Alves e pelo argumentista espanhol Fer Pérez. Distribuído pela NOS Audiovisuais.

Oasis: Don’t Look Back in Anger

Documentário realizado por Will Lovelace e Dylan Southern, com argumento de Steven Knight, sobre a digressão de reunião dos Oasis. Reúne imagens de ensaios, bastidores e concertos, e a primeira entrevista conjunta de Liam e Noel Gallagher em mais de quinze anos de afastamento. Estreou fora de competição no Festival de Veneza a 5 de setembro, com críticas favoráveis. Distribuído pela NOS Audiovisuais.

Hope (Ho-peu)

Thriller de ficção científica e ação realizado por Na Hong-jin, com Hwang Jung-min, Zo In-sung e Hoyeon. Segue o chefe da polícia de uma aldeia isolada e o seu jovem adjunto na defesa da comunidade contra uma criatura misteriosa, depois de incêndios florestais cortarem todas as comunicações. Produção sul-coreana orçada em 46 milhões de dólares, com 156 minutos de duração. Distribuído pela Big Picture.

Filho de Ninguém (Fils de personne)

Drama realizado por Safy Nebbou, com Romain Duris, Cristiana Capotondi e Vithaya Pansringarm, remake do filme norueguês “Hjertestart” (2017). Um pai vê-se viúvo pouco depois de adotar uma criança tailandesa de quatro anos, sem ainda ter criado com ela qualquer laço, e decide regressar à Tailândia para tentar encontrar a família biológica do filho. Distribuído pela Outsider Films.