Poucas figuras da cultura popular do século XX resistem tão bem, e ao mesmo tempo tão mal, a uma tentativa de biografia definitiva como Michael Jackson. É precisamente essa ambição, difícil e inevitavelmente incompleta, que a BBC assume em “A História de Michael Jackson” (“Michael Jackson: An American Tragedy”, no título original), minissérie documental que estreia em Portugal no sábado, dia 12 de setembro, às 19h45, em exclusivo no TVCine Edition e no TVCine+.
Realizada por Sophie Fuller e produzida pela 72 Films, a série percorre a vida de Jackson desde a ascensão à fama ainda criança, num contexto de segregação racial na América dos anos 60, até à queda pública marcada por décadas de escândalo mediático e judicial. Estruturada originalmente pela BBC em três episódios, intitulados “Fame”, “The Reckoning” e “Resurrection”, a produção combina material de arquivo raro com testemunhos de pessoas que conviveram de perto com o artista: a irmã La Toya Jackson, a cantora Dionne Warwick, o antigo agente Dieter Wiesner, o guarda-costas Bill Whitfield, o advogado da família Brian Oxman e o procurador Ron Zonen, uma escolha de entrevistados que abrange tanto vozes próximas do círculo familiar como figuras do sistema judicial que acompanharam de perto os processos que marcaram a segunda metade da carreira de Jackson.
O documentário não evita aquele que continua a ser o capítulo mais controverso e mais difícil da história de Jackson: as alegações de abuso sexual de menores que o perseguiram ao longo de mais de uma década, culminando no julgamento criminal de 2005, do qual saiu absolvido de todas as acusações. É importante notar, para contextualizar devidamente o momento em que esta série chega às televisões portuguesas, que o tema está longe de ser meramente histórico: Wade Robson e James Safechuck, os dois homens cujos testemunhos sustentaram o documentário “Leaving Neverland” em 2019 e que acusam Jackson de abuso sexual durante a infância, continuam com processos civis a decorrer contra o espólio do artista, reclamando 400 milhões de dólares em indemnizações, com um julgamento agendado para o final de 2026. O espólio de Jackson mantém a posição de que “as acusações não têm fundamento e Michael é inocente”, uma disputa legal que, segundo a própria série, é abordada como parte de um legado que continua ativamente a gerar tanto receitas milionárias como controvérsia.
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Essa tensão entre o valor comercial persistente da obra de Jackson e a sombra das acusações que a acompanham é, aliás, um dos eixos centrais da abordagem da série: o espólio do artista, gerido desde a sua morte em 2009, transformou uma herança inicialmente mergulhada em quase meio milhão de dólares de dívidas numa operação avaliada atualmente em milhares de milhões de dólares, um sucesso financeiro que a própria série procura confrontar com a pergunta incómoda sobre até que ponto é possível, ou desejável, separar a obra artística da pessoa e das alegações que a rodeiam.
Vale notar, para efeitos de rigor informativo, que o comunicado que acompanha esta estreia em Portugal refere a série como estando dividida em quatro episódios exibidos numa só sessão, uma diferença face à estrutura original de três episódios anunciada pela própria BBC, possivelmente resultante de um reformato específico para o mercado português; de qualquer forma, o conteúdo e a abordagem mantêm-se fiéis à produção original.
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Mais do que uma simples cronologia de sucessos musicais, “A História de Michael Jackson” posiciona-se como um estudo sobre a dificuldade de reconciliar genialidade artística inquestionável com um legado pessoal profundamente contestado, uma tensão que, quase duas décadas depois da morte do artista, continua longe de estar resolvida tanto nos tribunais como na opinião pública.
