Jackass: Último Shot de Loucura Já Tem Trailer — e Johnny Knoxville Promete uma Despedida à Altura

Vinte e cinco anos. Isso é quanto tempo Johnny Knoxville, Steve-O, Chris Pontius, Wee Man e companhia levam a atirar-se contra o mundo com o entusiasmo suicida de quem nunca ninguém disse que não. Jackass começou como um programa de televisão na MTV em 2000, tornou-se fenómeno cinematográfico com quatro filmes — o último, Jackass Forever, em 2022 —, sobreviveu a lesões graves, mortes, polémicas e à própria MTV, e agora chega ao fim. Ou pelo menos é o que dizem: o trailer de Jackass: Último Shot de Loucura, revelado esta segunda-feira, apresenta-se explicitamente como a despedida definitiva da saga, com estreia marcada para 25 de Junho nos cinemas portugueses, com distribuição da NOS Audiovisuais.

O trailer — disponível no YouTube e à altura de tudo o que os fãs esperam — mistura novas acrobacias com momentos que revisitam o melhor de 25 anos de caos organizado. É simultaneamente um greatest hits e uma última volta à pista, com o grupo a garantir que vai sair pela porta grande, ou seja, provavelmente a voar pela janela com algo a arder.

É legítimo perguntar se Jackass merece atenção como fenómeno cultural. A resposta é sim, e não apenas porque os números sempre o justificaram. A saga teve um impacto genuíno na forma como a comédia física foi entendida nas últimas duas décadas, influenciou incontáveis criadores de conteúdo — para o melhor e para o pior —, e construiu em torno de si uma mitologia de camaradagem masculina disfuncional que encontrou eco em gerações inteiras. O académico pode franzer o sobrolho. O espectador que cresceu a ver Steve-O a fazer coisas que não vamos descrever aqui já comprou o bilhete.

A escolha do subtítulo em português — Último Shot de Loucura — é também uma declaração de intenções: este é um evento social tanto quanto cinematográfico. O PR é directo: “Reúna os amigos, levante o copo e prepare-se para um evento cinematográfico único.” Difícil imaginar uma sinopse mais honesta. Não há pretensões, não há arcos de redenção, não há mensagens. Há Johnny Knoxville a sofrer de formas que continuam, inexplicavelmente, a ser muito engraçadas.

Para quem nunca entrou neste universo — e que, admitamos, provavelmente não vai começar aqui —, Jackass é o tipo de coisa que se explica mal em palavras mas que funciona em sala com o público certo. Para quem cresceu com a saga, este quinto e alegadamente último filme é uma despedida que merece ser vista onde sempre fez mais sentido: numa sala cheia, às gargalhadas, com alguém ao lado que também não consegue acreditar que aquilo aconteceu mesmo.

Jackass: Último Shot de Loucura estreia a 25 de Junho nos cinemas em Portugal.

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O que começou como mais uma escaramuça entre a Casa Branca e o late-night americano ganhou uma dimensão muito mais perturbante nos últimos dias. Jimmy Kimmel fez uma piada. Dois dias depois, houve um tiroteio. E a Primeira-Dama dos Estados Unidos aproveitou o momento para pedir à ABC que tomasse uma posição contra o apresentador do seu próprio canal.

A cronologia importa. Na quinta-feira, 23 de Abril, Kimmel gravou para o seu programa na ABC uma paródia do Jantar dos Correspondentes da Casa Branca — a gala anual que junta jornalistas, políticos e celebridades em Washington. O apresentador fez a paródia porque o jantar de 2026, ao contrário do habitual, não tinha um comediante como anfitrião, tendo optado pelo mentalista Oz Pearlman. No seu monólogo alternativo, Kimmel dirigiu-se a Melania Trump: “A nossa Primeira-Dama está aqui. Olhem para a Melania, tão bela. Sra. Trump, tem o brilho de uma viúva expectante.” No sábado seguinte, um atirador abriu fogo num ponto de controlo do Hotel Washington Hilton, onde decorria o jantar oficial. O Presidente, a Primeira-Dama e vários membros do governo foram rapidamente evacuados pelo Serviço Secreto. O agente atingido sobreviveu graças ao colete balístico.

Melania Trump reagiu publicamente esta segunda-feira, afirmando que as palavras de Kimmel são “corrosivas” e “aprofundam a doença política da América”, e exigindo que a ABC “tome uma posição”. Chamou-lhe “cobarde” e disse que as suas palavras eram “retórica violenta e odiosa”. A ABC e o próprio Kimmel não comentaram publicamente.

O pedido de Melania não existe no vácuo. Em Setembro de 2025, a ABC retirou temporariamente Kimmel do ar após comentários que fez na sequência do assassinato de Charlie Kirk. Quando regressou a 23 de Setembro, um visivelmente abalado Kimmel afirmou que nunca foi sua intenção fazer troça da morte de um jovem. A Casa Branca e os seus aliados mediáticos aproveitaram esse precedente para reforçar agora a pressão sobre a ABC.

O elefante na sala chama-se Stephen Colbert. Em Julho de 2025, a CBS cancelou The Late Show With Stephen Colbert — o programa mais visto do seu horário — dois dias depois de Colbert ter criticado publicamente um acordo de 16 milhões de dólares entre a Paramount e Trump, destinado a resolver um processo judicial sobre uma entrevista do 60 Minutes. A CBS insistiu que a decisão foi “puramente financeira”. Trump celebrou-a na Truth Social: “Adoro absolutamente que Colbert tenha sido despedido.” O próprio Colbert, já em modo de despedida, respondeu ao presidente em directo com uma frase que ficou célebre e que aqui não reproduzimos por razões óbvias, mas que a audiência recebeu de pé.

Colbert disse mais tarde à GQ que considera “razoável” que as pessoas associem o cancelamento à pressão política, sublinhando que a CBS pagou 16 milhões de dólares ao presidente num processo que os próprios advogados da Paramount consideravam sem mérito. O programa encerrou em Maio de 2026 — há poucas semanas. E Trump já tinha avisado: “Ouço que o Kimmel é o próximo.”

O que está em causa é uma questão que transcende a política americana e toca no coração do que o jornalismo e a sátira representam numa democracia. Os apresentadores de late-night — Kimmel, Colbert, Seth Meyers — têm sido, nos últimos anos, uma das últimas trincheiras de crítica directa à administração Trump num formato de grande audiência. A questão de saber se as redes de televisão vão continuar a proteger esse espaço, ou se o vão sacrificar à lógica de fusões empresariais e pressão governamental, é uma das mais importantes do panorama mediático actual. É também um teste precoce para o novo CEO da Disney, Josh D’Amaro, que sucedeu a Bob Iger no mês passado e que terá agora de decidir como responde à exigência da Casa Branca sobre um dos apresentadores mais populares da ABC.

Em Portugal e na Europa, onde a figura de Trump é observada com uma mistura de incredulidade e preocupação transversal a todo o espectro político, a pergunta não é se Kimmel foi longe demais com a piada. A pergunta é se uma Primeira-Dama pedir publicamente o despedimento de um apresentador de televisão — e a história recente sugerir que isso pode funcionar — é compatível com a democracia que os Estados Unidos dizem representar.

O Que Ver em Maio no Streaming: O Guia de Fim de Abril para Netflix, Prime Video, SkyShowtime, Max e Filmin
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Abril está a acabar e com ele um dos meses mais intensos do ano em termos de streaming. Antes de virar a página para Maio — que também não vem de mãos a abanar —, vale a pena fazer o ponto da situação: o que ainda está por ver, o que chegou nos últimos dias, e o que merece atenção já a partir de esta semana.

Na Netflix, o destaque de fim de mês é a estreia hoje de Straight to Hell, nova série dramática, que se junta a um Abril já considerável. O mês trouxe a Stranger Things: Tales from ’85 — o spin-off que expande o universo de Hawkins para os anos 80 com um elenco novo —, a segunda temporada de Beef, agora uma antologia com Oscar Isaac e Carey Mulligan, e a terceira temporada de Euphoria, um dos regresos mais aguardados da televisão dos últimos dois anos. Quem ainda não arrancou com nenhum destes títulos tem material suficiente para semanas. Para os próximos dias, o calendário de Maio indica ainda o regresso de Berlim — o spin-off de A Casa de Papel — com segunda temporada a 15 de Maio, e a estreia de A Good Girl’s Guide to Murder, segunda temporada, a 27 de Abril.

Na Prime Video, a semana que começa traz um título que não passa despercebido: Spider-Noir, com Nicolas Cage como detetive e super-herói nos anos 30 de Nova Iorque, chega globalmente a 27 de Maio — mas a Prime Video já confirmou que Portugal está incluído nos mais de 240 territórios do lançamento simultâneo. É o título de streaming mais aguardado de Maio. Antes disso, quem ainda não terminou a quinta e última temporada de The Boys tem um bom motivo para o fazer: o episódio final está marcado para 20 de Maio, encerrando uma das séries mais celebradas da plataforma.

Na Max, The White Lotus continua a ser o elefante na sala — ou melhor, no quarto de hotel. A temporada 4 está em rodagem em França e não deve chegar ao serviço antes do final do ano. Enquanto isso, quem ficou com a quinta temporada de House of the Dragon no horizonte pode confirmar: ainda sem data, mas com produção confirmada. O que está disponível e merece atenção nestas semanas é a segunda temporada de Criminal Record, a série britânica com Peter Capaldi e Cush Jumbo, que estreou a 22 de Abril.

Na SkyShowtime, Abril foi um mês de apostas europeias. Gomorrah: The Origins, a prequela que recua às origens de Don Pietro Savastano, está disponível na íntegra desde 1 de Abril — para os fãs do universo napolitano de Roberto Saviano, é leitura obrigatória. O thriller galês Under Salt Marsh, que acompanha uma ex-detetive a investigar a morte suspeita de um aluno numa comunidade costeira, está a ser emitido em episódios semanais. E já em Maio, a plataforma prepara Dutton Ranch, mais uma extensão do universo Yellowstone de Taylor Sheridan, que chega a 22 de Maio. Para quem segue as séries do criador de Yellowstone com regularidade, é o próximo capítulo de uma saga televisiva que não dá sinais de abrandar.

No Filmin, o mês de Abril trouxe cinema de autor de qualidade assinalável. A adaptação de François Ozon para O Estrangeiro, de Albert Camus — vencedora do César de Melhor Actor Secundário — chegou a 10 de Abril, assim como Franz Kafka, o biopic do escritor realizado por Agnieszka Holland (três vezes nomeada ao Óscar), que passou pelos festivais de Toronto e San Sebastián. Para Maio, a plataforma prepara Nouvelle Vague de Richard Linklater, a grande triunfadora dos prémios César, que chega a 1 de Maio; e A Cronologia da Água, a estreia de Kristen Stewart na realização, adaptando as memórias de Lidia Yuknavitch, prevista para 8 de Maio. O Filmin continua a ser, para o cinéfilo português, a melhor porta de entrada para o cinema de festival que não chega facilmente às salas.

Helena Bonham Carter Sai de The White Lotus Dias Depois de Começarem as Filmagens
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Há séries que chegam ao streaming e ficam. E há séries que chegam ao cabo e merecem a atenção que, por vezes, lhes foi negada no momento da estreia original. O Senhor dos Anéis: Os Anéis do Poder, a produção da Amazon Prime Video que em 2022 se tornou simultaneamente o espectáculo televisivo mais caro de sempre e um dos mais debatidos da última década, chega agora à televisão portuguesa: o TVCine Edition estreia a primeira temporada a 29 de Abril, às 22h10, com novos episódios todas as quartas-feiras.

Para quem ainda não viu — e são mais do que se pensa, porque o Prime Video não é universal e a série passou rapidamente de fenómeno cultural para objecto de divisão fanática —, esta é uma boa oportunidade para a descobrir com algum distanciamento do ruído inicial. Situada na Segunda Era da Terra Média, milhares de anos antes dos acontecimentos narrados por Tolkien em O Senhor dos Anéis e O Hobbit, a série parte dos Apêndices do livro para construir uma narrativa original que acompanha várias linhas em simultâneo: Galadriel perturbada pelos sinais do regresso de uma antiga força maligna, o elfo Arondir às voltas com uma descoberta que pode alterar o equilíbrio do mundo, Elrond confrontado com um projecto ambicioso, e Nori, uma jovem dos pés-cabeludos, a quebrar uma regra da sua comunidade com consequências que ninguém previu.

A série foi criada por J. D. Payne e Patrick McKay, que já afirmaram ter concebido um arco narrativo de cinco temporadas. O elenco inclui Morfydd Clark como Galadriel numa versão mais jovem e guerreira do que a figura etérea de Cate Blanchett na trilogia de Peter Jackson, Charlie Vickers como Halbrand, Charles Edwards como Celebrimbor — o ferreiro élfico central na mitologia dos Anéis — Ismael Cruz Córdova como Arondir e Robert Aramayo como o jovem Elrond. A escala de produção foi, na altura da estreia, invocada com alguma insistência: mais de mil milhões de dólares para as cinco temporadas, filmagens na Nova Zelândia e no Reino Unido, efeitos visuais de cinema. O que ficou da série, passado o fumo, foi uma primeira temporada visualmente deslumbrante, narrativamente generosa no ritmo — talvez demasiado, para os impacientes —, e com um final que dividiu opiniões precisamente porque subverteu expectativas que muitos fãs tinham como certas.

Vale a pena vê-la sem as guerras de Reddit a acompanhar. A série tem, nos seus melhores momentos, uma ambição genuína que a distingue do streaming de conforto. E a pergunta sobre quem é realmente Sauron — que estruturou toda a temporada — ainda funciona como motor dramático na primeira visualização.

A estreia é a 29 de Abril, às 22h10, no TVCine Edition e no TVCine+.

Helena Bonham Carter Sai de The White Lotus Dias Depois de Começarem as Filmagens

A quarta temporada de The White Lotus mal tinha saído do papel — as filmagens arrancaram a 15 de Abril na Riviera Francesa — quando a HBO confirmou uma saída tão inesperada quanto diplomaticamente formulada: Helena Bonham Carter abandona a produção, o papel será reescrito e recastado.

O comunicado oficial da HBO não deixa muito espaço para dúvidas sobre o que aconteceu, mesmo que as palavras escolhidas sejam de uma cortesia impecável. “Ao iniciar as filmagens da quarta temporada de The White Lotus, tornou-se evidente que a personagem que Mike White criou para Helena Bonham Carter não se revelou adequada uma vez em rodagem”, disse a HBO. “O papel foi repensado, está a ser reescrito e será recastado nas próximas semanas.” A declaração termina a garantir que o realizador e a plataforma “permanecem fãs ardentes” da actriz e “esperam muito trabalhar com ela em breve”. Diplomacia de estúdio no seu estado mais puro.

Bonham Carter tinha sido anunciada como parte do elenco em Janeiro, numa lista que inclui nomes como Vincent Cassel, Steve Coogan, Kumail Nanjiani, Heather Graham, Rosie Perez e a francesa Nadia Tereszkiewicz. A actriz chega a esta temporada com um currículo que dispensa apresentações: duas nomeações para o Óscar, cinco para os Emmy (incluindo duas por The Crown), décadas de trabalho que vão de Fight Club à saga Harry Potter. Não é o tipo de casting que se anuncia em Janeiro e se descarta em Abril sem que algo tenha corrido genuinamente mal.

O que torna esta saída particularmente interessante é o contexto da temporada. The White Lotus 4 passa-se durante o Festival de Cannes — um cenário que Mike White escolheu precisamente porque o tema desta edição é a fama, a arte e o custo de ser artista. A produção divide-se entre dois hotéis de luxo transformados em localizações ficcionais: o Airelles Château de la Messardière em Saint-Tropez (que passa a ser o White Lotus du Cap) e o Hôtel Martinez em Cannes (o White Lotus Cannes). Os actores deverão inclusivamente estar presentes no tapete vermelho real durante a segunda semana do festival, em Maio. É um contexto suficientemente exigente para que qualquer desalinhamento criativo se torne rapidamente insustentável.

O produtor David Bernad, que falou publicamente sobre a temporada sem abordar directamente a saída de Bonham Carter, descreveu a experiência de trabalhar com o elenco francês — Cassel e Tereszkiewicz em particular — como “a parte mais excitante até agora”. A actriz Laura Smet, filha da saudosa Nathalie Baye, também faz parte do elenco. Há, portanto, uma aposta considerável na integração com o tecido cultural francês, o que pode ter acentuado as tensões criativas em torno de uma personagem que, ao que parece, não sobreviveu ao contacto com a realidade do set.

Para os fãs da série, a notícia é desconcertante mas não é necessariamente má. The White Lotus tem um historial de elencos que se revelam melhores do que o esperado — e de ausências que, em retrospectiva, parecem ter servido a história. A pergunta que fica é quem assumirá o papel reescrito, e se a reescrita altera de forma significativa o equilíbrio dramático da temporada. As filmagens decorrem até Outubro, o que dá tempo suficiente para resolver a questão sem comprometer a estreia prevista.

James Safechuck quebra o silêncio com a estreia do biopico de Michael Jackson: “Os nossos abusadores são por vezes elogiados”

Michael faz 206 milhões de dólares na abertura mundial e torna-se o maior biopico musical de sempre nas bilheteiras

Michael B. Jordan e Christopher McQuarrie querem levar Battlefield ao cinema — e desta vez pode mesmo acontecer

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A estreia do biopico Michael, realizado por Antoine Fuqua e protagonizado por Jaafar Jackson no papel do tio, trouxe consigo bilboards, campanhas promocionais e cobertura mediática intensa. Trouxe também, inevitavelmente, a reabertura de uma ferida que a indústria do entretenimento tem sistematicamente preferido deixar por tratar. James Safechuck, cujas alegações de abuso sexual na infância estiveram no centro do documentário Leaving Neverland (2019, HBO), partilhou um comunicado com a Rolling Stone precisamente neste contexto — não para falar do filme, mas para falar com as pessoas que o filme pode estar a afectar.

“O filme do Michael está a ser lançado e está a receber muita promoção — há bilboards, anúncios, pessoas a elogiar o Michael”, começa Safechuck no comunicado. A partir daí, o tom muda de registo. Safechuck dirige-se directamente a sobreviventes de abuso sexual na infância, recordando que a glorificação pública de uma figura acusada pode ser profundamente perturbadora para quem viveu experiências semelhantes: “Pode ser despoletador para sobreviventes que têm o seu próprio Michael nas suas vidas, seja o padre próximo de Deus, o treinador desportivo que está apenas a ajudar as crianças, ou o padrasto que apoia a família.” A mensagem termina com um apelo à proximidade e ao apoio mútuo: “Não estão sozinhos.”

Leaving Neverland, realizado por Dan Reed, centrou-se em entrevistas com Safechuck e Wade Robson, que alegaram ter sido abusados sexualmente por Jackson quando eram crianças, após terem sido acolhidos na Neverland Ranch, em diferentes momentos, entre os sete e os dez anos de idade. O documentário provocou um sismo considerável em 2019 — algumas rádios e plataformas retiraram temporariamente música de Jackson dos seus catálogos, e a discussão sobre como a indústria cultural lida com legados de figuras acusadas de crimes graves não terminou desde então.

O biopico de Fuqua optou por não referenciar qualquer um dos escândalos que definiram os últimos anos de vida de Jackson — e essa decisão não passou sem contestação. O filme foi parcialmente refilmado depois de nova informação ter surgido no contexto de um processo judicial envolvendo Evan Chandler, o dentista de Los Angeles que em 1993 acusou Jackson de ter abusado sexualmente do seu filho de 13 anos. O realizador do Leaving Neverland, Dan Reed, criticou publicamente o biopico nos últimos dias, numa declaração que foi amplamente citada na imprensa internacional.

Escrever sobre este artigo implica reconhecer a sua natureza delicada. O comunicado de Safechuck não é um ataque ao filme nem uma tentativa de impedir a sua distribuição — é um gesto de solidariedade dirigido a pessoas vulneráveis num momento em que a cobertura mediática em torno de uma figura controversa pode reactivar memórias e traumas. Essa distinção importa, e merece ser preservada na forma como o texto é lido.

Para o leitor português: Michael estreou internacionalmente na semana de 20 de Abril e está a chegar gradualmente aos cinemas europeus. O debate em torno do filme — sobre o que um biopico deve ou não incluir, sobre como a indústria do entretenimento lida com o legado de figuras acusadas de crimes graves, e sobre o impacto que essa glorificação pode ter em sobreviventes — é um debate que não se limita aos Estados Unidos e que vale a pena acompanhar com atenção.

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Michael faz 206 milhões de dólares na abertura mundial e torna-se o maior biopico musical de sempre nas bilheteiras

Não há forma subtil de dizer isto: Michael chegou às bilheteiras e fez história. O biopico de Michael Jackson, realizado por Antoine Fuqua e produzido pela Lionsgate, registou uma abertura de aproximadamente 95 milhões de dólares nos Estados Unidos e no Canadá no fim-de-semana de estreia — com uma possibilidade real de cruzar a barreira dos 100 milhões quando os números finais de domingo forem apurados. No plano mundial, somando os resultados de 82 territórios internacionais reportados pela Universal, o total aproxima-se dos 206 milhões de dólares, o melhor arranque do ano para um filme de acção real e o maior de sempre para um biopico musical, ultrapassando largamente o anterior recorde de Straight Outta Compton (60,2 milhões de dólares).

Os números têm contexto suficiente para perceber a dimensão do feito. Para a Lionsgate, é a melhor abertura desde Hunger Games: A Revolta — Parte 2, em 2015, que registou 45,5 milhões de dólares no primeiro dia. É também o melhor resultado pós-pandemia do estúdio, superando John Wick: Capítulo 4 (73,8 milhões de dólares de abertura). Para o realizador Antoine Fuqua, é a maior estreia da carreira, à frente de The Equalizer 2 (36 milhões de dólares). Para o produtor Graham King — que já havia produzido Bohemian Rhapsody e World War Z — é igualmente um recorde pessoal.

As antestreias de quinta-feira, que incluíram sessões especiais em IMAX e formatos premium a partir das 18h, geraram 12,6 milhões de dólares só nos EUA, o melhor resultado de sempre para um biopico musical nessa fase do lançamento — superando os 12 milhões de Project Hail Mary e os 8,9 milhões de John Wick: Capítulo 4. As salas premium e IMAX estão a representar 48% das vendas totais de bilhetes nos EUA, com o IMAX isolado a corresponder a 16% — números que reflectem o apetite do público por ver este tipo de espectáculo no maior ecrã possível.

A recepção do público é entusiasmante para a Lionsgate. No PostTrak da Screen Engine e Comscore, o índice de recomendação definitiva subiu para 84%, com 90% de avaliações positivas. Os espectadores com menos de 12 anos avaliaram o filme com 88% de positivo e 62% de “tenho de ver já”. O CinemaScore actual é A-. As redes sociais chegaram ao fim-de-semana com 417,9 milhões de seguidores combinados associados ao filme nas principais plataformas digitais — 2,2 vezes acima da média do género. No plano internacional, Michael é número um em 64 territórios e estabeleceu recordes de abertura para um biopico musical em 63 deles. Os mercados mais fortes são o Reino Unido (13,8 milhões de dólares), França (10,3 milhões), México (9,3 milhões), Itália (8,1 milhões) e Alemanha (6,9 milhões). O Japão, historicamente um dos mercados mais fortes para o catálogo de Jackson, recebe o filme apenas em Junho.

O percurso do projecto até à bilheteira foi, por todas as razões, acidentado. O filme foi parcialmente refilmado depois de nova informação surgir no contexto de um processo judicial, e a decisão de não incluir qualquer referência às acusações que marcaram os últimos anos de vida de Jackson gerou — e continua a gerar — debate público significativo, incluindo o comunicado de James Safechuck publicado esta semana. Do lado da crítica especializada, Michael está em 40% no Rotten Tomatoes, enquanto o público lhe atribui 96%. É uma das maiores divergências entre crítica e audiência da temporada.

Para Portugal, a estreia do filme está a decorrer gradualmente nos circuitos europeus. A Lionsgate já sinalizou que os resultados justificam pensar numa segunda parte — e com mais de 200 milhões de dólares em dois dias, é difícil argumentar o contrário.

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Michael B. Jordan e Christopher McQuarrie querem levar Battlefield ao cinema — e desta vez pode mesmo acontecer

Há adaptações de videojogos que demoram décadas a chegar ao ecrã. O Battlefield é, neste momento, um dos exemplos mais persistentes dessa frustração: a Fox tentou transformá-lo numa série de televisão em 2012, a Paramount voltou a tentar em 2016, e nenhum dos projectos saiu do papel. Agora, Michael B. Jordan e Christopher McQuarrie estão a fazer uma nova tentativa — e os nomes envolvidos sugerem que desta vez as probabilidades são diferentes.

Segundo o Hollywood Reporter, Jordan está em negociações para produzir uma adaptação cinematográfica da série de guerra da Electronic Arts, com McQuarrie a escrever e a realizar. Os dois têm estado a fazer pitches do projecto junto de grandes estúdios e plataformas, incluindo a Apple e a Sony, com preferência declarada por uma estreia nos cinemas em vez de uma estreia em streaming. A participação de Jordan à frente das câmaras — e não apenas na produção — ainda não está confirmada, dependendo, segundo as fontes, de vários factores que deverão ficar definidos à medida que o projecto avança.

O momento não é casual. Jordan acaba de receber o Óscar de Melhor Actor pela sua dupla interpretação em Sinners, de Ryan Coogler, o que o coloca no topo da lista de nomes mais apetecíveis de Hollywood neste momento. McQuarrie, por sua vez, é um velho conhecido dos filmes de acção de grande escala: ganhou o Óscar de Melhor Argumento Original por Os Suspeitos do Costume em 1996 e é o colaborador criativo de longa data de Tom Cruise, responsável por Mission: Impossible — Rogue NationFallout e Dead Reckoning, entre outros. Se há alguém em Hollywood com o curriculum para transformar uma franchise de acção militar em cinema de qualidade, McQuarrie está entre os primeiros candidatos.

A franchise Battlefield tem história suficiente para justificar a aposta. Lançada pela Electronic Arts em 2002, chegou já à 18.ª edição — Battlefield 6, lançado em 2025, foi o jogo mais vendido do ano a nível mundial. O apelo da série assenta num modelo de combate em larga escala, com cenários que atravessam conflitos históricos e contemporâneos, e uma componente multijogador que gerou comunidades de milhões de jogadores ao longo de mais de duas décadas. É exactamente o tipo de universo com potencial para uma saga cinematográfica — desde que alguém saiba o que fazer com ele.

O contexto da indústria também favorece o projecto. As adaptações de videojogos deixaram de ser um território de risco e tornaram-se uma das apostas mais seguras do cinema comercial. The Last of Us redefiniu o que uma série baseada num jogo pode ser. A Queda da Casa Usher mostrou o apetite do público por narrativas de género com produção de qualidade. Em 2026, o calendário de estreias inclui Mortal Kombat IIStreet FighterResident Evil — realizado por Zach Cregger — e The Angry Birds Movie 3, sinal claro de que o género está em plena expansão. Uma adaptação de Battlefield, com Jordan e McQuarrie na liderança criativa e uma estreia nos cinemas, teria condições para ser um dos títulos mais aguardados de 2027 ou 2028.

Para o público português, Jordan é um nome bem estabelecido, desde os tempos de Fruitvale Station e Creed até à recente consagração com Sinners. McQuarrie, se o nome não é imediatamente reconhecível para o grande público, o trabalho é: é o homem que pôs Tom Cruise a saltar de aviões e a correr por meio mundo durante uma década. Juntos, têm perfil suficiente para fazer o que a Fox e a Paramount não conseguiram. O Battlefield pode finalmente sair do papel — a questão é apenas saber para onde é que McQuarrie decide apontar as câmaras.

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Thierry Frémaux gosta de dizer que Cannes depende apenas dos filmes. A edição deste ano, a 79.ª do Festival de Cannes, que decorre de 12 a 23 de Maio na Croisette, parece confirmar exactamente isso: uma competição dominada por cineastas de autor internacionais, poucos blockbusters americanos à vista, e um júri presidido pelo realizador sul-coreano Park Chan-wook. Se 2025 foi o ano em que Hollywood voltou a Cannes com estrondo — Tom Cruise e Spike Lee incluídos —, 2026 é a correcção de rumo.

A selecção oficial foi anunciada a 9 de Abril em Paris. Em Competição pela Palme d’Or, os nomes mais esperados são Pedro Almodóvar, Asghar Farhadi, Hirokazu Kore-eda, Paweł Pawlikowski e Ryusuke Hamaguchi. Farhadi, Nemes e Hamaguchi apresentam todos filmes em língua francesa — uma presença quase sem precedentes de realizadores estrangeiros a filmar em francês na mesma edição. O único realizador americano em Competição é Ira Sachs, com The Man I Love, um musical de fantasia passado na Nova Iorque dos anos 80 durante a crise da SIDA, com Rami Malek, Tom Sturridge e Rebecca Hall. Rodrigo Sorogoyen representa Espanha com El Ser Querido, com Javier Bardem como um realizador que roda no deserto do Sahara e reencontra a filha.

A surpresa mais comentada da selecção é Coward, do realizador belga Lukas Dhont, que explora o conceito de heroísmo e cobardia a partir da perspectiva de jovens soldados na Primeira Guerra Mundial. O filme foi rodado parcialmente nos campos de batalha reais perto de Ypres, na Bélgica — o mesmo território onde morreram centenas de milhares de combatentes entre 1914 e 1918. Frémaux admitiu que os programadores do festival só viram o filme no dia anterior ao anúncio. Os dois filmes anteriores de Dhont estrearam ambos em Cannes — Girl (2018) em Un Certain Regard e Close(2022) em Competição, este último nomeado para o Óscar de Melhor Filme Internacional. Coward é produzido e vendido internacionalmente pela The Match Factory, e a expectativa é considerável.

O realizador russo em exílio Andrei Zvyagintsev regressa com Minotaur, o seu primeiro filme desde 2017. O filme rodou na Letónia e é descrito como uma fábula política sobre um empresário russo confrontado com crise e trauma. O MUBI já assegurou os direitos para a América do Norte, Reino Unido, Alemanha e América Latina — sinal de que as expectativas no mercado são altas.

Cannes dedica esta edição a dois nomes históricos com Palmas de Ouro honorárias: Peter Jackson e Barbra Streisand. O festival abre a 12 de Maio com La Venus Électrique, de Pierre Salvadori, uma comédia passada nos anos 20. O cartaz oficial da 79.ª edição homenageia Thelma & Louise de Ridley Scott, com uma imagem das suas protagonistas retirada das rodagens de 1991 — 35 anos depois, Geena Davis e Susan Sarandon regressam à Croisette como ícones do festival.

Para o leitor português, há pelo menos um ponto de interesse directo: o IndieLisboa, que arranca a 30 de Abril, apresenta já este ano vários filmes que passarão por Cannes no mês seguinte, numa circulação que demonstra como os dois festivais funcionam em vasos comunicantes dentro do circuito europeu de cinema independente. Os primeiros filmes do mercado de Cannes — que decorre de 12 a 20 de Maio — estão já a ser anunciados, com projectos como The Brigands of Rattlecreek, um western de Park Chan-wook com Matthew McConaughey, Pedro Pascal e Austin Butler, a confirmar que o festival continua a ser o maior palco de negócios do cinema mundial.

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IndieLisboa 2026: guia para os onze dias de cinema independente que arrancam já na quinta-feira

Daqui a quatro dias, o Cinema São Jorge enche-se para a sessão de abertura da 23.ª edição do IndieLisboa — Festival Internacional de Cinema, e é difícil não sentir que esta é uma das edições mais ambiciosas de sempre. São 241 filmes entre curtas e longas-metragens, dezasseis estreias mundiais só na Competição Nacional, e uma programação que atravessa continentes, linguagens e formatos com a irreverência que tornou o festival numa referência do circuito europeu de cinema independente. O festival decorre de 30 de Abril a 10 de Maio nas principais salas da capital: Cinema São Jorge, Culturgest, Cinemateca Portuguesa, Cinema Ideal e Cinema Fernando Lopes.

A sessão de abertura, marcada para 30 de Abril às 19h no São Jorge, é The Loneliest Man in Town, de Tizza Covi e Rainer Frimmel — dupla que já havia vencido o Prémio de Distribuição no IndieLisboa em 2010 com La Pivellina. O filme acompanha um bluesman em risco de ser despejado, confrontado com a perda iminente de toda uma vida acumulada em discos e livros. Para o encerramento, a 10 de Maio às 21h30 na Culturgest, John Wilson — o criador da série documental How To with John Wilson — estreia-se nas longas-metragens com The History of Concrete, um documentário que começa num workshop do Hallmark sobre como escrever comédias românticas e termina, de alguma forma, a falar de betão. É exatamente o tipo de premissa que define o espírito do festival.

A Competição Nacional, uma das secções mais importantes do IndieLisboa, reúne 29 filmes — incluindo a maior selecção de curtas da história do festival, com 21 obras. Entre os destaques, A Providência e a Guitarra, de João Nicolau, que chegou ao IndieLisboa depois de abrir o Festival de Roterdão. O filme conta com Salvador Sobral no elenco e apresenta-se como uma deambulação divertida entre tempos. Susana de Sousa Dias regressa com Fordlândia Panacea, sobre o complexo industrial da Ford na Amazónia brasileira. E a Competição Nacional acolhe também uma homenagem a Patrícia Saramago, relevante nome da montagem do cinema português, falecida em Outubro passado, com a exibição da sua primeira obra, Dois e Um Gato.

A secção IndieMusic é outro dos pontos fortes desta edição, com dez longas-metragens e três curtas, seis das quais em estreia mundial. Entre os títulos a não perder, Sun Ra: Do the Impossible, de Christine Turner, recupera a figura do músico de free jazz através de imagens de arquivo e testemunhos dos membros da sua Arkestra. E estreia em Portugal Quem tem medo de Zurita de Oliveira?, documentário de Francisca Marvão sobre a primeira mulher portuguesa a escrever, cantar e gravar uma música rock — o EP O Bonitão do Rock, de 1960 — e sobre a invisibilidade histórica das mulheres na cena artística nacional. Uma estreia mundial com um ângulo particularmente necessário.

Fora das salas, o IndieLisboa continua a ser também uma festa. O Cinema na Piscina regressa a 2 e 3 de Maio, em parceria com a Piscina Municipal da Penha de França, com clássicos para adultos à noite e curtas para famílias durante o dia. O IndieByNight prolonga o programa pelos bares oficiais da edição — a Casa do Comum e as Damas. E para quem prefira resistência cinematográfica sem saída, há a Maratona Boca do Inferno no Cinema Ideal: seis horas de sessões contínuas.

Os bilhetes estão disponíveis no site do festival. Para os que estão em Lisboa nos próximos onze dias e ainda não sabem como passar o tempo — aqui está a resposta.

Spider-Noir: Nicolas Cage é um Homem-Aranha de fedora e o trailer final já veio provar tudo

Netflix mais cara nos EUA — e Portugal pode ser o próximo. O que sabe sobre os novos preços

Spider-Noir: Nicolas Cage é um Homem-Aranha de fedora e o trailer final já veio provar tudo

Há um momento no novo trailer de Spider-Noir em que Nicolas Cage, envolto na penumbra da Nova Iorque dos anos 30, murmura qualquer coisa sobre os impulsos que tenta suprimir — na maior parte do tempo. O que se segue é uma pancadaria num bar, uma teia disparada entre arranha-céus e a confirmação de que este pode ser o projecto mais estranho e mais interessante do universo Marvel em anos. O trailer foi lançado ontem, 25 de Abril, durante um painel da CCXP México, em duas versões — a preto-e-branco e a cores completas — e o efeito imediato é difícil de ignorar.

Spider-Noir estreia a 27 de Maio na Prime Video, em todo o mundo incluindo Portugal, com os oito episódios disponíveis de uma só vez. Nos Estados Unidos, o primeiro episódio é lançado dois dias antes, a 25 de Maio, no canal linear MGM+. A série é produzida pela Sony Pictures Television exclusivamente para as duas plataformas.

O que o trailer deixa finalmente claro é a lógica narrativa da série: Ben Reilly — e não Peter Parker, por razões que os criadores prometem explicar — é um detetive particular envelhecido e com dinheiros contados na Nova Iorque de 1930, que foi outrora o único super-herói da cidade antes de uma tragédia pessoal o afastar do papel. Quando Cat Hardy, interpretada por Li Jun Li, lhe bate à porta à procura de um amigo desaparecido, Reilly é forçado a regressar ao que foi. Os vilões em cena incluem Silvermane (Brendan Gleeson), Sandman (Jack Huston) e Tombstone (Abraham Popoola), e o trailer mostra-os em dose suficiente para perceber que a série não vai ser leve em termos de ameaças.

A equipa criativa é tudo menos aleatória. Os realizadores Phil Lord e Christopher Miller — os mesmos por trás de Spider-Man: Into the Spider-Verse — estão na produção executiva, ao lado de Amy Pascal. Os showrunners são Oren Uziel e Steve Lightfoot, conhecido do universo Marvel pela série The Punisher. Os dois primeiros episódios foram dirigidos por Harry Bradbeer, o realizador responsável por Fleabag e Killing Eve, o que explica a atenção evidente ao detalhe visual e à textura emocional do que se viu até agora. Lord e Miller descreveram Ben Reilly como alguém com o seu “momento de Chinatown já consumado”, um detetive que perdeu as ilusões antes de a série começar — o que, no fundo, é a premissa perfeita para o noir clássico.

A dupla de versões — preto-e-branco “autêntico” e cores saturadas ao estilo Technicolor — é uma das apostas mais ousadas da série. Cage comparou a versão colorida ao quadro Nighthawks de Edward Hopper; do lado da crítica especializada, a Esquire já sugeriu que cada versão oferece uma experiência distinta, com a versão a cores mais próxima de Dick Tracy e a preto-e-branco mais sombria, à Raymond Chandler. A ideia de um único produto disponível em dois registos visuais completamente diferentes não tem precedentes em televisão mainstream — e pode ser precisamente o tipo de conversa que Spider-Noir precisa de gerar antes de chegar às plataformas.

Cage, que emprestou a voz ao personagem no Into the Spider-Verse de 2018, assume aqui o primeiro papel principal numa série de televisão de toda a sua carreira. O showrunner Uziel revelou que o actor assistiu à temporada completa e reagiu com entusiasmo às suas próprias falas — o que, conhecendo Cage, provavelmente quer dizer exactamente o que parece. Spider-Noir chega a 27 de Maio. Um mês é pouco tempo para uma espera tão longa.

Hulk Hogan: Real American — A Netflix Fez um Documentário sobre Hulk Hogan sem Coragem para Contar a História de Hulk Hogan

Gen V Cancelada — A Spinoff de The Boys Fecha com Dois Alunos a Menos e uma Promessa de Regresso

Netflix mais cara nos EUA — e Portugal pode ser o próximo. O que sabe sobre os novos preços

Netflix mais cara nos EUA — e Portugal pode ser o próximo. O que sabe sobre os novos preços

A 26 de Março de 2026, a Netflix actualizou silenciosamente a sua página de planos e preços nos Estados Unidos. Sem conferência de imprensa, sem campanha de comunicação — apenas os novos valores já em vigor para novos subscritores, e um e-mail prometido aos actuais clientes antes de a mudança chegar à sua próxima fatura. É o segundo aumento de preços em menos de um ano e o padrão é suficientemente conhecido para merecer atenção de qualquer pessoa que pague uma subscrição mensal, em Portugal ou em qualquer outro país.

Nos EUA, os novos valores são estes: o plano com publicidade passou de 7,99 para 8,99 dólares por mês; o plano Standard subiu de 17,99 para 19,99 dólares; e o plano Premium passou de 24,99 para 26,99 dólares mensais. A justificação da empresa é invariavelmente a mesma — investir em conteúdos de qualidade e melhorar a experiência dos utilizadores — e as reacções nas redes sociais são, também elas, invariavelmente as mesmas: irritação, ameaças de cancelamento e memes sobre o que mais se podia comprar com esse dinheiro.

Para Portugal, a boa notícia imediata é que a Netflix confirmou ao Notícias ao Minuto que estes aumentos dizem respeito apenas ao mercado norte-americano, sem impacto por enquanto no nosso país. Os preços em Portugal mantêm-se desde a última actualização de Janeiro de 2025: 8,99 euros no plano Básico, 12,99 euros no Standard e 17,99 euros no Premium. A má notícia é que o “por enquanto” pesa. O histórico da plataforma é claro: os aumentos nos EUA costumam atravessar o Atlântico em ondas, com a Europa a seguir nos meses subsequentes. Analistas estimam que a subida norte-americana gere cerca de 6% mais receita por subscritor nos EUA e Canadá ao longo do ano — o tipo de resultado que incentiva a replicação noutras geografias.

O contexto é importante. Em Janeiro de 2025, a Netflix já tinha subido os preços em Portugal — o plano Base de 7,99 para 8,99 euros, o Standard de 11,99 para 12,99 euros, e o Premium de 15,99 para 17,99 euros, com o custo de membro adicional a passar de 3,99 para 4,99 euros por mês. Não foi o primeiro aumento e quase certamente não será o último. A empresa fechou 2024 com 302 milhões de subscritores a nível mundial e prevê que as receitas publicitárias quase dupliquem em 2026 face ao ano anterior — o plano com publicidade tornou-se peça central da estratégia, e não apenas uma opção de entrada.

A questão para o subscritor português é menos “vai subir?” e mais “quando?”. O que o padrão histórico sugere é que qualquer ajuste em Portugal tende a ser gradual e comunicado com alguma antecedência. Neste momento, os preços estão estáveis. Mas vale a pena avaliar o que realmente se vê: se forem duas ou três séries por mês, um ou dois serviços alternados por temporada podem ser suficientes. O plano com publicidade, que em Portugal custa 8,99 euros, permite manter acesso ao catálogo com um custo controlado — sobretudo se a alternativa for pagar o dobro para ver a mesma quantidade de conteúdo. A Prime Video, a Max e a Apple TV+ seguiram tendências semelhantes nos últimos meses, e o Spotify iniciou o ano com um ajuste de tarifas. O streaming em 2026 é mais caro do que era, e essa trajectória não parece estar prestes a inverter-se.

O Filho de Rob Reiner Fala pela Primeira Vez sobre o Assassínio dos Pais: “O Meu Mundo Colapsou”

Rob Reiner realizou Quando Harry Conheceu SallyA Princesa PrometidaFicções e AfectosConta-me Tudo. Ao longo de cinco décadas, construiu uma obra que entrou na memória colectiva de gerações de espectadores. Em Dezembro de 2025, foi assassinado em casa, em Los Angeles, juntamente com a mulher Michele. O filho mais novo, Nick Reiner, foi acusado dos crimes e declarou-se não culpado. Uma audiência preliminar está marcada para esta semana no tribunal de Los Angeles.

Na sexta-feira passada, Jake Reiner — o filho mais velho, de 34 anos — publicou no Substack um texto em que fala pela primeira vez, em detalhe, sobre o dia em que soube da morte dos pais e sobre o que perdeu.

“Na tarde de 14 de Dezembro”, escreve Jake, “estava na Union Station numa celebração da vida de um dos meus melhores amigos, Christian Anderson, que morreu em Outubro. Foi nesse momento que recebi uma chamada da minha irmã Romy a dizer-me que o nosso pai tinha morrido. Minutos depois, ela voltou a ligar a dizer-me que a nossa mãe também tinha morrido.”

A viagem de Lyft de 45 minutos do centro para o lado oeste da cidade foi, nas suas palavras, “insuportável”. “O meu mundo, tal como o conhecia, tinha colapsado. Estava em transe. A única coisa em que me conseguia concentrar era que precisava de chegar à minha casa de infância. Precisava de chegar à minha irmã. Precisava de perceber o que tinha acontecido.”

Jake não usa o nome do irmão no texto — refere-se a ele apenas como “o meu irmão”. A contenção é deliberada e diz tudo sobre a dimensão do que a família está a atravessar: não apenas a perda dos pais, mas a perda em circunstâncias que envolvem outro membro da família, e a impossibilidade de separar o luto privado do processo judicial público.

O texto é, acima de tudo, um acto de memória. Jake descreve a mãe, Michele Reiner, como “o motor, a espinha dorsal e o coração de toda a nossa família” — a pessoa a quem recorria em momentos difíceis, pela “perspectiva brilhante” que ela oferecia. O pai é descrito com uma simplicidade que é, em si mesma, um retrato: “A forma como o meu pai se apresentava em público era exactamente a bela pessoa que era em casa. Era autêntico, apaixonado, e o sentido de humor dele sempre foi o meu sentido de humor.”

Pai e filho partilhavam o amor pelo basebol, especialmente pelos Dodgers. “Levou-me em viagens de basebol todos os verões a partir dos meus 11 ou 12 anos, e eventualmente visitámos todos os estádios das majors.” São os detalhes concretos — as viagens de verão, os estádios visitados, o basebol como linguagem entre pai e filho — que tornam o texto irresistível na sua honestidade.

“Fui roubado de tantas coisas naquele dia”, escreve Jake. “Os meus pais não vão estar no meu casamento, não vão poder pegar no futuro neto ao colo, não vão poder ver-me ter a carreira de sucesso que ainda estou a construir. Isso ao mesmo tempo parte-me o coração e enraivece-me.”

E mais adiante: “Nada pode preparar-te para o que é perder os dois pais instantaneamente ao mesmo tempo. É devastador demais para compreender. Ainda acordo todas as manhãs tendo de me convencer de que não, não é um sonho. Este é genuinamente o meu pesadelo em vida.”

Jake termina com um pedido que é também uma declaração sobre quem eram os seus pais: “Peço apenas amor e compaixão — os mesmos princípios pelos quais os meus pais viveram.”

Rob Reiner tinha 78 anos. A audiência preliminar do processo que envolve Nick Reiner realiza-se esta semana em Los Angeles.

Hulk Hogan: Real American — A Netflix Fez um Documentário sobre Hulk Hogan sem Coragem para Contar a História de Hulk Hogan

Werner Herzog aparece no quarto episódio de Hulk Hogan: Real American para dizer, com a gravidade que só Herzog consegue: “Na vida de Hulk Hogan, o que é a realidade? Qual é a verdade real? Estranhamente, as emoções são sempre verdadeiras, por mais loucas e implausíveis que as histórias possam ser. E a procura da verdade dá-nos dignidade, dá-nos sentido.” É uma introdução perfeita para um documentário muito melhor do que o que a Netflix fez. Pena que seja o documentário que Herzog devia ter feito — e não o que estamos a ver.

A série de quatro episódios dirigida por Bryan Storkel acompanha a ascensão de Terry Bollea — o homem por baixo das bandanas e dos calções amarelos — ao estatuto de Hulk Hogan, um dos fenómenos culturais mais reconhecíveis da América dos anos 80. Tem acesso considerável: horas de material de arquivo, filmagens caseiras, entrevistas com contemporâneos como Jesse Ventura, Bret Hart, Jimmy Hart e Ted DiBiase, e as últimas entrevistas que Hogan concedeu antes de morrer em Julho de 2025. Tem, portanto, todos os ingredientes para ser um retrato definitivo. Escolhe não o ser.

O problema começa na primeira frase da sinopse oficial: “Antes de ser Hulk Hogan, era Terry Bollea.” A promessa implícita é a de que vamos descobrir o homem por baixo da máscara. O que o documentário entrega é Hulk Hogan com o volume baixado quinze por cento. Terry Bollea gosta de bandanas também. É, como revelações vão, anticlimática. A distinção entre o homem e a personagem — que podia ser o coração de toda a série — dissolve-se rapidamente numa celebração da marca.

O contexto de produção explica muito. Hulk Hogan: Real American foi produzido “em associação” com a WWE Entertainment, que tem uma parceria lucrativa com a Netflix. Vince McMahon não participa — aparece apenas em áudio não atribuído, com o suficiente para quem não presta atenção ficar com a impressão de que participou. Brooke Hogan, filha do lutador, não aparece de todo. A acusação de agressão sexual de 1996 não é mencionada. O processo Gawker — um dos episódios mais reveladores da vida de Hogan, que envolveu financiamento secreto de Peter Thiel e levou à falência de um meio de comunicação social — é tratado de forma superficial e unilateral, sem vozes do outro lado e sem o nome de Thiel. Os insultos raciais da sex tape são reconhecidos mas nunca citados. Um casamento inteiro de dez anos é praticamente ignorado.

O que sobra é a parte fácil da história: a ascensão extraordinária de um músico de baixo da Florida à maior estrela do wrestling mundial, a Hulkamania, os anúncios, o programa de animação de sábado de manhã, os cameos. Para quem cresceu nos anos 80 com aquela cultura — e são muitos —, é uma viagem nostálgica genuinamente eficaz. Andre the Giant, Randy Savage, Roddy Piper passam pelo ecrã, e é impossível não sentir o peso da quantidade de nomes grandes que morreram prematuramente naquele mundo.

Mas há um documentário mais importante algures neste material que a Netflix não quis fazer. Um documentário sobre o custo físico do wrestling profissional no corpo de homens explorados durante décadas sem sindicato — porque Hogan terá sido um dos que se opuseram à sindicalização nos anos 80. Um documentário sobre a forma como a América fabrica heróis e o que acontece quando esses heróis revelam as suas contradições. Um documentário sobre como Donald Trump — que aparece aqui como talking head monossilábico e é tratado com uma deferência que a série não questiona — e Hulk Hogan partilharam exactamente o mesmo espaço cultural e o mesmo tipo de masculinidade performativa durante décadas.

Esse documentário não existe. Existe este — hagiografia corporativa bem filmada, com arquivo generoso e sem espinha dorsal. O público-alvo ficará satisfeito. Os outros ficam com a sensação de que alguém, em algum momento do processo, decidiu que a verdade era demasiado cara.

Gen V Cancelada — A Spinoff de The Boys Fecha com Dois Alunos a Menos e uma Promessa de Regresso

A Universidade de Godolkin está a fechar as portas. A Prime Video confirmou que Gen V — a spinoff de The Boyscentrada nos estudantes com superpoderes da universidade mais perigosa do mundo — foi cancelada após duas temporadas. A segunda e agora última temporada tinha concluído em Outubro de 2025, sem que na altura houvesse qualquer indicação de que seria a final.

O cancelamento não é propriamente uma surpresa para quem acompanhou os números da série. A primeira temporada beneficiou do halo de The Boys e de uma recepção crítica sólida — 82% no Rotten Tomatoes —, mas a segunda temporada registou uma quebra de audiências considerável e críticas mais divididas. A Prime Video nunca divulgou números concretos de visualizações para a série, mas a ausência de renovação rápida após o final da segunda temporada já era um sinal de que a decisão estava a ser ponderada.

Eric Kripke e Evan Goldberg, produtores executivos da série, fizeram questão de enquadrar o cancelamento com uma promessa de continuidade. “Enquanto gostaríamos de poder continuar a festa mais uma temporada em Godolkin, estamos comprometidos em continuar as histórias dos personagens de Gen V em The Boys temporada cinco e noutros projectos do universo VCU no horizonte. Vão vê-los de novo”, disseram em comunicado conjunto. A promessa tem substância: o final da segunda temporada de Gen V mostrava os personagens principais a serem recrutados para a resistência contra a Vought e o Homelander — uma saída narrativa que foi deliberadamente construída para uma fusão com a série-mãe.

O timing do cancelamento é sintomático do estado actual do universo de The Boys na Prime Video. A série principal está em curso com a sua quinta e última temporada, o que significa que a plataforma está a concentrar recursos e atenção no encerramento da história central. Em paralelo, há dois novos projectos em desenvolvimento: Vought Rising, uma série prequel prevista para 2027, e The Boys: Mexico, ainda nas fases iniciais. É um universo que a Amazon quer manter activo — mas com uma estrutura diferente da que Gen V representava.

Jaz Sinclair, Lizze Broadway, Maddie Phillips e London Thor — os rostos centrais de Gen V — devem aparecer nos episódios finais de The Boys, o que torna o cancelamento menos um fim do que uma absorção. Para os fãs que investiram nas duas temporadas da spinoff, é uma consolação parcial: os personagens continuam, mesmo que a série não. Para a Prime Video, é uma racionalização de um universo que cresceu rapidamente e precisa agora de uma arquitectura mais sustentável.

Gen V era, no fundo, a versão universitária de uma pergunta que The Boys faz desde o início: o que acontece quando o poder não tem supervisão, quando os heróis são produtos de uma corporação, quando a admiração é fabricada? A resposta da spinoff era mais desordenada e menos afiada do que a da série original — mas tinha momentos de genuína coragem criativa, especialmente na forma como explorava a cumplicidade institucional e a toxicidade dos sistemas de poder sobre os mais novos. Fecha com dignidade suficiente.

Jack Nicholson Aparece numa Foto Rara ao Lado de Joni Mitchell — e Faz 89 Anos

Jack Nicholson fez ontem 89 anos. A filha Lorraine Nicholson assinalou a data da única forma possível para um homem que há anos recusou o escrutínio público: com uma fotografia rara, publicada nos Instagram Stories, onde o pai aparece a aplaudir e a sorrir ao lado de Joni Mitchell — que está exactamente na mesma posição. Lorraine não indicou quando a foto foi tirada. Escreveu apenas “¡¡ 89 !!” por cima da imagem, depois de ter publicado outra fotografia de um Jack mais jovem numa t-shirt da Coca-Cola com a pergunta “89?”. É exactamente o tipo de celebração discreta que combina com um homem que decidiu, em determinado momento, simplesmente desaparecer.

A última aparição pública de Nicholson foi em Fevereiro de 2025, ao lado da própria Lorraine, durante o especial televisivo do 50.º aniversário do Saturday Night Live na NBC. Entrou em palco para apresentar uma actuação musical de Adam Sandler e recebeu uma ovação prolongada. Antes disso, a última aparição nos Óscares tinha sido em 2013, quando subiu ao palco com a então First Lady Michelle Obama para apresentar o prémio de Melhor Filme. Entre uma coisa e outra, passou uma década. Nicholson sempre soube como fazer uma saída — e como fazer uma entrada.

A carreira que ficou para trás é de uma dimensão que poucos actores de qualquer geração conseguiram aproximar. Três Óscares — Um Estranho no Ninho (1975), Laços de Ternura (1983) e Melhor é Impossível (1997) —, seis Globos de Ouro, três BAFTAs e até um Grammy. A estreia foi em 1958 num filme de Roger Corman chamado Cry Baby Killer. O último papel foi uma participação em Como Sabes de James L. Brooks, em 2010, com Reese Witherspoon, Paul Rudd e Owen Wilson — um fim de carreira tão discreto quanto o retiro que se seguiu.

A última nomeação ao Óscar foi em 2003, por A Propósito de Schmidt. Vinte e três anos depois, Nicholson continua a ser uma das presenças mais imediatas e inconfundíveis da história do cinema americano — uma daquelas raras figuras em que basta uma imagem, um sorriso, um par de óculos escuros, para que tudo o resto venha atrás. A foto com Joni Mitchell — dois veteranos do século XX a aplaudir algo que não sabemos o quê — é, sem querer ser, o retrato perfeito de duas pessoas que fizeram tudo o que tinham a fazer e agora simplesmente estão.

Lorraine é uma das seis filhas de Nicholson. A mãe é a actriz Rebecca Broussard, com quem o actor tem também um filho, Ray Nicholson, recentemente visto em Smile 2. A família mantém uma presença pública mínima — exactamente como o pai parece preferir.

Manuel Luís Goucha Perde Disputa de 1,17 Milhões com o Fisco — e Ainda Pode Recorrer

Há uma prática comum entre figuras públicas de alto rendimento — actores, apresentadores, desportistas — que consiste em criar uma empresa para canalizar os rendimentos profissionais, beneficiando da tributação em IRC em vez do IRS, geralmente mais pesado para rendimentos elevados. É uma estratégia que os advogados fiscalistas conhecem bem, que o Fisco conhece igualmente bem, e que quando ultrapassa determinados limites activa instrumentos específicos de combate à evasão fiscal. Manuel Luís Goucha ficou do lado errado dessa linha — e o tribunal arbitral acaba de o confirmar.

O Centro de Arbitragem Administrativa (CAAD) deu razão à Autoridade Tributária e Aduaneira num processo que envolve o apresentador da TVI. De acordo com o Jornal de Negócios, Goucha criou uma empresa à qual cedeu, a título gratuito, os seus direitos de imagem e o direito à sua exploração. A partir daí, era a empresa — e não o apresentador a título pessoal — que prestava serviços às entidades que o contratavam, e os rendimentos correspondentes eram tributados em IRC. A vantagem fiscal em relação ao IRS era considerável.

Uma inspecção do Fisco concluiu que a sociedade tinha sido criada exclusivamente com o objectivo de ali parquear esses rendimentos — sem actividade autónoma, sem razão de ser além da vantagem fiscal. A Autoridade Tributária activou a Cláusula Geral Antiabuso, o instrumento legal que permite desconsiderar estruturas criadas artificialmente para obter benefícios fiscais que não seriam possíveis de outra forma. O raciocínio do Fisco era simples: os rendimentos derivavam do trabalho pessoal de Goucha — da sua imagem, da sua voz, da sua presença física — e como tal deviam ser tributados em IRS, independentemente da estrutura societária criada para os receber.

O tribunal arbitral considerou “correcta” a aplicação da cláusula, sublinhando que a empresa recebeu gratuitamente “o direito à exploração da imagem e voz” do apresentador, e que as entidades contratantes “deixaram de contratar e pagar ao requerente os serviços por ele prestados, passando a fazê-lo com a sociedade.” Em linguagem mais directa: Goucha prestava o serviço, a empresa recebia o dinheiro, e o Fisco considerou que isso era, na prática, uma ficção.

A fatura final ficou fixada em 1,17 milhões de euros — 670 mil relativos a imposto e 500 mil a juros compensatórios — referentes apenas aos rendimentos de 2019. O valor já reflecte um acerto de contas com o IRC anteriormente pago pela empresa, pelo que não é o montante bruto da divergência fiscal mas o saldo final a liquidar.

Goucha não fica, no entanto, sem saída. Um dos três árbitros do CAAD votou vencido, o que significa que a decisão não foi unânime — e essa divergência abre-lhe a porta para recurso judicial. Se avançar, o processo pode ainda arrastar-se por mais alguns anos. A TVI não comentou o caso.

O processo de Goucha não é único nem surpreendente para quem acompanha a fiscalidade das figuras públicas em Portugal. A Autoridade Tributária tem intensificado nos últimos anos a inspecção a estruturas societárias criadas por personalidades de alta visibilidade — apresentadores, influenciadores, desportistas —, e a Cláusula Geral Antiabuso tem sido cada vez mais invocada com sucesso nos tribunais arbitrais. A linha entre planeamento fiscal legítimo e abuso é muitas vezes ténue, mas o critério dos tribunais tem sido consistente: quando a empresa não tem substância própria além de receber rendimentos que derivam directamente do trabalho pessoal do seu sócio, a ficção não se sustenta.

Cristina Ferreira, a TVI e o Limite do que se Pode Dizer sobre Violação em Directo

Há frases que, uma vez ditas em público, não têm retorno. “Mesmo que ela tenha dito para parar, quando são quatro que estão naquela adrenalina de estar a fazer sexo com uma rapariga, alguém ouve — claro que têm de ouvir —, alguém entende aquele: ‘não quero mais?'” Estas palavras, ditas por Cristina Ferreira no passado dia 14 de Abril em directo na TVI, durante a rubrica “Crónica Criminal” do programa “Dois às 10”, instalaram em Portugal um debate que dura há mais de uma semana e que não dá sinais de se esgotar.

O caso discutido era real e grave: uma rapariga de 16 anos terá sido violada em fevereiro do ano passado em Santo António dos Cavaleiros, num encontro que começou consentido e que continuou numa garagem próxima, onde a adolescente pediu que fosse parado. O Ministério Público acusa quatro influenciadores digitais — três com 19 a 20 anos à data, um com 17 — de mais de 30 crimes, entre violação, pornografia de menores e ofensa à integridade física. O julgamento decorre à porta fechada no Tribunal de Loures.

O que Cristina Ferreira disse — ou perguntou, como ela própria insiste na distinção — não foi recebido como uma questão jornalística. Foi recebido como uma naturalização. A reacção foi imediata e crescente: mais de 140 personalidades assinaram uma Carta Aberta de condenação, incluindo colegas de profissão. Mais de 4.400 queixas chegaram à Entidade Reguladora para a Comunicação Social. As redes sociais transformaram o clip numa prova de acusação. A TVI respondeu falando em “manipulação grosseira” e prometeu recurso judicial para “repor a justiça”.

Dez dias depois, Cristina Ferreira foi ao Jornal Nacional do seu próprio canal falar sobre o assunto. Não pediu desculpa. Lamentou as proporções que o caso tomou. Distinguiu entre uma pergunta e uma opinião. Disse que “não é não, ponto.” Disse que quis perceber “o que se passou na cabeça de quatro jovens que não respeitaram aquela rapariga.” Perguntou, confrontada com as acusações de machismo: “Por que é que sou machista em querer perceber o comportamento de um violador?” O Jornal Nacional bateu 9,3% de rating e 19,1% de share nessa noite. O pico — 1,3 milhões de espectadores — coincidiu com a entrevista.

Maria João Faustino, doutorada em psicologia e primeira subscritora da Carta Aberta, não tem dúvidas sobre o que aconteceu. “Aquela pergunta não é uma pergunta neutra. É enviesada e problemática. Só a formulação já admite a possibilidade. A linguagem usada, ‘fazer sexo com’, é um eufemismo. O retrato ali quase nos transportaria para uma orgia. Não foi uma orgia. Aquilo foi uma violação em grupo.” A especialista aponta ainda a intervenção da psicóloga comentadora do programa como reveladora de “uma falta de preparação absoluta” — porque, no contexto de interacção sexual, “as pessoas são perfeitamente capazes de ler os sinais de recusa, e essa recusa não tem de ser verbal.”

Para Faustino, o que está em causa vai além das palavras de Cristina Ferreira. É o modelo de como os média em Portugal tratam a violência sexual — em “tom quase de tertúlia”, como conversa de café. “Os discursos amplificados pelos média têm um impacto tremendo na percepção das pessoas sobre a violência sexual. E muitas vezes são palco de profusão de mitos e de desinformação.” Em 2025, os crimes de violação em Portugal atingiram o valor mais elevado da última década, com um quinto dos arguidos entre os 16 e os 20 anos. “O problema é estrutural”, sublinha.

A presença de Cristina Ferreira no Jornal Nacional para responder à polémica foi, para a investigadora, mais um problema do que uma solução. “Foi uma espetacularização da violência. A resposta institucional responsável seria pedir desculpa às pessoas que se sentiram magoadas e indignadas — incluindo aquela vítima em particular.” A TVI, acusa, “aproveitou o momento para monetizar a tragédia e ganhar audiências.” Os números dão-lhe razão aritmética.

Do lado regulatório, a ERC confirmou à Euronews que recebeu cerca de 4.400 participações e que o Conselho Regulador abriu um procedimento de averiguações. Alberto Arons de Carvalho, professor universitário e ex-vice-presidente do Conselho Regulador, considera que foram ultrapassados os limites à liberdade de programação “com a agravante de que tudo se passou num horário acessível a crianças e adolescentes.” O caso, diz, pode justificar uma deliberação de condenação com divulgação obrigatória pelo canal — um instrumento raro mas previsto nos estatutos da ERC. Qualquer decisão nunca chegará antes de dois a três meses, uma vez que os visados ainda têm de ser ouvidos no processo.

O que este caso expõe não é apenas Cristina Ferreira. Expõe um modelo de televisão que trata crimes sexuais como entretenimento de horário da manhã, que convida comentadores sem formação específica para analisar violações em directo, e que mede o sucesso em rating — incluindo o rating gerado pela própria controvérsia. A apresentadora mais poderosa da televisão portuguesa disse o que disse. A pergunta que fica não é só sobre ela. É sobre o sistema que a deixou dizê-lo.

Apex — Charlize Theron é Caçada no Deserto Australiano e a Netflix Tem o Thriller do Fim-de-Semana

Há um tipo de thriller que não precisa de ser profundo para ser excelente. Precisa de saber exactamente o que é, de ter dois actores capazes de o sustentar, e de um realizador que conheça o terreno. Apex, que estreou hoje na Netflix, tem as três coisas — e os 95 minutos que dura não desperdiçam um único.

Sasha, interpretada por Charlize Theron, é uma aventureira americana cujo parceiro de escalada morre no início do filme durante uma subida ao Troll Wall norueguês. Em luto, parte em viagem solitária pelo interior da Austrália — uma decisão que qualquer espectador com alguma memória cinematográfica reconhece imediatamente como imprudente. O realizador Baltasar Kormákur e o director de fotografia Lawrence Sher estabelecem desde o início um sentido de perigo físico real, com planos aéreos vertiginosos que capturam tanto a beleza como a hostilidade da paisagem.

A ameaça assume a forma de Ben, um rapaz local de aparência jovial e sotaque australiano, interpretado por Taron Egerton com uma inteligência de casting considerável: projecta uma masculidade mais descontraída e prestável do que o tipo que normalmente se teme nestes cenários — até que muito claramente deixa de o fazer, com uma besta armada na mão. Egerton, que o público conhece de Rocketman e Kingsman, é genuinamente inquietante precisamente porque não parece um villain convencional — e o filme usa isso com habilidade, atrasando o momento em que o perigo se torna inegável.

Kormákur é magistral na utilização das localizações, casando cada curva, gruta, rápido e cascata com a narrativa. É o tipo de realização que raramente recebe o crédito que merece porque parece natural — mas a geografia de um thriller de sobrevivência é tudo, e Apex nunca perde o sentido do espaço nem a consciência de onde estão os dois personagens em relação um ao outro. O filme abre com Theron e Eric Bana a escalar o Troll Wall norueguês em condições meteorológicas extremas, uma sequência que estabelece imediatamente a competência física de Sasha e o nível de risco que ela normaliza. Quando a perseguição australiana começa, o espectador já acredita que esta mulher tem os recursos para sobreviver — o que é exactamente o que o thriller precisa que acredite.

O Deadline descreveu o filme como tendo “uma economia narrativa de bom augúrio” — e é uma descrição justa. Apexnão se detém em backstory desnecessário nem em subtexto que não tem intenção de desenvolver. É um filme sobre duas pessoas num espaço grande e perigoso, uma a tentar matar a outra, a outra a recusar-se a deixar. A balança vai-se inclinando lentamente entre os dois ao longo de uma série de sequências de acção bem coreografadas e revelações bem ganhas.

Gouvernákur — o realizador islandês de Adrift e Beast — rodou Apex em colaboração com a produtora de Theron, Denver and Delilah Productions, o que explica em parte o controlo criativo visível em cada frame. Theron não está aqui apenas como estrela — está como co-arquitecta do projecto, e a diferença nota-se. A força composta de Theron e os olhos assustadoramente lúcidos de Egerton fazem uma combinação que o filme merecia, e que eleva o material acima do thriller de sobrevivência genérico.

É previsível em alguns momentos? Sim. Porque Apex está mais interessado em adrenalina branca do que em emoção excessiva e explicações, o que acaba por ser uma das suas qualidades mais refrescantes. Num fim-de-semana em que os cinemas estão tomados por um biopic que divide críticos e público, a Netflix tem a alternativa mais simples e mais satisfatória. Às vezes isso é mais do que suficiente.

As Estrelas Mais Simpáticas de Hollywood (E Porque Toda a Gente Fala Delas)

Quando o talento encontra a humanidade

Hollywood pode ser um mundo de egos gigantes, agendas impossíveis e pressão constante — mas, no meio de tudo isso, há actores que parecem remar contra a maré. Não pela polémica, nem pelos escândalos, mas por algo bem mais raro: genuína simpatia.

E não estamos a falar de sorrisos ensaiados na passadeira vermelha. Falamos de atitudes consistentes, histórias repetidas por colegas, fãs e equipas técnicas. Pequenos gestos que, ao longo do tempo, constroem reputações… e lendas.

Keanu Reeves: o padrão impossível de bater

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Se há nome que surge sempre nestas conversas, é o de Keanu Reeves. E não é por acaso.

Entre histórias de oferecer lugares no metro, distribuir bónus milionários à equipa de efeitos especiais de The Matrix e manter uma vida surpreendentemente discreta, Reeves tornou-se quase um símbolo de humildade em Hollywood.

Mais do que gestos isolados, o que impressiona é a consistência. Ao longo de décadas, praticamente não existem relatos negativos sobre o actor — algo quase impossível numa indústria onde tudo acaba por vir à superfície.

Tom Hanks: o “boa pessoa” oficial da América

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Tom Hanks construiu uma carreira sólida, mas também uma reputação que vai muito além dos filmes.

Conhecido por tirar fotografias com fãs, responder a cartas e até devolver objectos perdidos com mensagens escritas à máquina, Hanks é frequentemente descrito como alguém acessível e genuinamente interessado nas pessoas à sua volta.

Nos bastidores, técnicos e colegas apontam a mesma característica: respeito. E, em Hollywood, isso vale ouro.

Dwayne Johnson: energia, carisma e respeito

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Dwayne Johnson, também conhecido como “The Rock”, é outro caso curioso: uma estrela gigantesca com uma abordagem quase… familiar.

Nas redes sociais, nos sets de filmagem ou em eventos, há uma constante: energia positiva e proximidade. Johnson faz questão de destacar equipas, agradecer publicamente e envolver-se com fãs de forma directa.

É uma estratégia? Talvez. Mas é também uma prática contínua que consolidou a sua imagem como um dos profissionais mais agradáveis da indústria.

Ryan Reynolds: simpatia com sentido de humor

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Ryan Reynolds acrescenta um ingrediente extra à equação: humor.

A sua simpatia manifesta-se muitas vezes através de interacções divertidas — seja com fãs, colegas ou até outras celebridades. Mas por trás da ironia está uma postura respeitadora e generosa, frequentemente destacada por quem trabalha com ele.

É o tipo de estrela que consegue ser acessível… sem deixar de ser estrela.

Emma Stone: naturalidade num mundo artificial

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Emma Stone é muitas vezes descrita como “normal” — o que, em Hollywood, é quase revolucionário.

Com uma postura descontraída, alguma timidez assumida e um sentido de humor auto-depreciativo, a actriz conquistou não só o público, mas também colegas de profissão.

Nos bastidores, é vista como colaborativa, acessível e livre de pretensões — uma combinação rara num meio onde a pressão pode facilmente distorcer comportamentos.

Mais do que imagem: quando a simpatia é consistente

Há uma diferença clara entre simpatia pontual e carácter consistente. Em Hollywood, onde tudo é observado, repetido e amplificado, manter uma reputação positiva durante anos não é obra do acaso.

Estas estrelas têm algo em comum: tratam as pessoas da mesma forma, estejam perante uma câmara, um colega de elenco ou um técnico nos bastidores.

E talvez seja essa a verdadeira medida do “bom feitio”.

Afinal, o que torna uma estrela verdadeiramente grande?

O talento abre portas. O carisma conquista audiências. Mas é a forma como se trata os outros que constrói legado.

Num mundo onde as histórias negativas viajam depressa, estas figuras mostram que a simpatia — quando é genuína — também se torna notícia.

E talvez, no fim de contas, seja isso que mais perdura.