O que começou como mais uma escaramuça entre a Casa Branca e o late-night americano ganhou uma dimensão muito mais perturbante nos últimos dias. Jimmy Kimmel fez uma piada. Dois dias depois, houve um tiroteio. E a Primeira-Dama dos Estados Unidos aproveitou o momento para pedir à ABC que tomasse uma posição contra o apresentador do seu próprio canal.
A cronologia importa. Na quinta-feira, 23 de Abril, Kimmel gravou para o seu programa na ABC uma paródia do Jantar dos Correspondentes da Casa Branca — a gala anual que junta jornalistas, políticos e celebridades em Washington. O apresentador fez a paródia porque o jantar de 2026, ao contrário do habitual, não tinha um comediante como anfitrião, tendo optado pelo mentalista Oz Pearlman. No seu monólogo alternativo, Kimmel dirigiu-se a Melania Trump: “A nossa Primeira-Dama está aqui. Olhem para a Melania, tão bela. Sra. Trump, tem o brilho de uma viúva expectante.” No sábado seguinte, um atirador abriu fogo num ponto de controlo do Hotel Washington Hilton, onde decorria o jantar oficial. O Presidente, a Primeira-Dama e vários membros do governo foram rapidamente evacuados pelo Serviço Secreto. O agente atingido sobreviveu graças ao colete balístico.
Melania Trump reagiu publicamente esta segunda-feira, afirmando que as palavras de Kimmel são “corrosivas” e “aprofundam a doença política da América”, e exigindo que a ABC “tome uma posição”. Chamou-lhe “cobarde” e disse que as suas palavras eram “retórica violenta e odiosa”. A ABC e o próprio Kimmel não comentaram publicamente.
O pedido de Melania não existe no vácuo. Em Setembro de 2025, a ABC retirou temporariamente Kimmel do ar após comentários que fez na sequência do assassinato de Charlie Kirk. Quando regressou a 23 de Setembro, um visivelmente abalado Kimmel afirmou que nunca foi sua intenção fazer troça da morte de um jovem. A Casa Branca e os seus aliados mediáticos aproveitaram esse precedente para reforçar agora a pressão sobre a ABC.
O elefante na sala chama-se Stephen Colbert. Em Julho de 2025, a CBS cancelou The Late Show With Stephen Colbert — o programa mais visto do seu horário — dois dias depois de Colbert ter criticado publicamente um acordo de 16 milhões de dólares entre a Paramount e Trump, destinado a resolver um processo judicial sobre uma entrevista do 60 Minutes. A CBS insistiu que a decisão foi “puramente financeira”. Trump celebrou-a na Truth Social: “Adoro absolutamente que Colbert tenha sido despedido.” O próprio Colbert, já em modo de despedida, respondeu ao presidente em directo com uma frase que ficou célebre e que aqui não reproduzimos por razões óbvias, mas que a audiência recebeu de pé.
Colbert disse mais tarde à GQ que considera “razoável” que as pessoas associem o cancelamento à pressão política, sublinhando que a CBS pagou 16 milhões de dólares ao presidente num processo que os próprios advogados da Paramount consideravam sem mérito. O programa encerrou em Maio de 2026 — há poucas semanas. E Trump já tinha avisado: “Ouço que o Kimmel é o próximo.”
O que está em causa é uma questão que transcende a política americana e toca no coração do que o jornalismo e a sátira representam numa democracia. Os apresentadores de late-night — Kimmel, Colbert, Seth Meyers — têm sido, nos últimos anos, uma das últimas trincheiras de crítica directa à administração Trump num formato de grande audiência. A questão de saber se as redes de televisão vão continuar a proteger esse espaço, ou se o vão sacrificar à lógica de fusões empresariais e pressão governamental, é uma das mais importantes do panorama mediático actual. É também um teste precoce para o novo CEO da Disney, Josh D’Amaro, que sucedeu a Bob Iger no mês passado e que terá agora de decidir como responde à exigência da Casa Branca sobre um dos apresentadores mais populares da ABC.
Em Portugal e na Europa, onde a figura de Trump é observada com uma mistura de incredulidade e preocupação transversal a todo o espectro político, a pergunta não é se Kimmel foi longe demais com a piada. A pergunta é se uma Primeira-Dama pedir publicamente o despedimento de um apresentador de televisão — e a história recente sugerir que isso pode funcionar — é compatível com a democracia que os Estados Unidos dizem representar.
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