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Hulk Hogan: Real American — A Netflix Fez um Documentário sobre Hulk Hogan sem Coragem para Contar a História de Hulk Hogan

Werner Herzog aparece no quarto episódio de Hulk Hogan: Real American para dizer, com a gravidade que só Herzog consegue: “Na vida de Hulk Hogan, o que é a realidade? Qual é a verdade real? Estranhamente, as emoções são sempre verdadeiras, por mais loucas e implausíveis que as histórias possam ser. E a procura da verdade dá-nos dignidade, dá-nos sentido.” É uma introdução perfeita para um documentário muito melhor do que o que a Netflix fez. Pena que seja o documentário que Herzog devia ter feito — e não o que estamos a ver.

A série de quatro episódios dirigida por Bryan Storkel acompanha a ascensão de Terry Bollea — o homem por baixo das bandanas e dos calções amarelos — ao estatuto de Hulk Hogan, um dos fenómenos culturais mais reconhecíveis da América dos anos 80. Tem acesso considerável: horas de material de arquivo, filmagens caseiras, entrevistas com contemporâneos como Jesse Ventura, Bret Hart, Jimmy Hart e Ted DiBiase, e as últimas entrevistas que Hogan concedeu antes de morrer em Julho de 2025. Tem, portanto, todos os ingredientes para ser um retrato definitivo. Escolhe não o ser.

O problema começa na primeira frase da sinopse oficial: “Antes de ser Hulk Hogan, era Terry Bollea.” A promessa implícita é a de que vamos descobrir o homem por baixo da máscara. O que o documentário entrega é Hulk Hogan com o volume baixado quinze por cento. Terry Bollea gosta de bandanas também. É, como revelações vão, anticlimática. A distinção entre o homem e a personagem — que podia ser o coração de toda a série — dissolve-se rapidamente numa celebração da marca.

O contexto de produção explica muito. Hulk Hogan: Real American foi produzido “em associação” com a WWE Entertainment, que tem uma parceria lucrativa com a Netflix. Vince McMahon não participa — aparece apenas em áudio não atribuído, com o suficiente para quem não presta atenção ficar com a impressão de que participou. Brooke Hogan, filha do lutador, não aparece de todo. A acusação de agressão sexual de 1996 não é mencionada. O processo Gawker — um dos episódios mais reveladores da vida de Hogan, que envolveu financiamento secreto de Peter Thiel e levou à falência de um meio de comunicação social — é tratado de forma superficial e unilateral, sem vozes do outro lado e sem o nome de Thiel. Os insultos raciais da sex tape são reconhecidos mas nunca citados. Um casamento inteiro de dez anos é praticamente ignorado.

O que sobra é a parte fácil da história: a ascensão extraordinária de um músico de baixo da Florida à maior estrela do wrestling mundial, a Hulkamania, os anúncios, o programa de animação de sábado de manhã, os cameos. Para quem cresceu nos anos 80 com aquela cultura — e são muitos —, é uma viagem nostálgica genuinamente eficaz. Andre the Giant, Randy Savage, Roddy Piper passam pelo ecrã, e é impossível não sentir o peso da quantidade de nomes grandes que morreram prematuramente naquele mundo.

Mas há um documentário mais importante algures neste material que a Netflix não quis fazer. Um documentário sobre o custo físico do wrestling profissional no corpo de homens explorados durante décadas sem sindicato — porque Hogan terá sido um dos que se opuseram à sindicalização nos anos 80. Um documentário sobre a forma como a América fabrica heróis e o que acontece quando esses heróis revelam as suas contradições. Um documentário sobre como Donald Trump — que aparece aqui como talking head monossilábico e é tratado com uma deferência que a série não questiona — e Hulk Hogan partilharam exactamente o mesmo espaço cultural e o mesmo tipo de masculinidade performativa durante décadas.

Esse documentário não existe. Existe este — hagiografia corporativa bem filmada, com arquivo generoso e sem espinha dorsal. O público-alvo ficará satisfeito. Os outros ficam com a sensação de que alguém, em algum momento do processo, decidiu que a verdade era demasiado cara.

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