Como 16 Minutos Foram Suficientes Para Criar Um Monstro Imortal no Cinema

Há um dado que continua a surpreender, mesmo para quem já viu The Silence of the Lambs dezenas de vezes: Anthony Hopkins aparece em cena durante pouco mais de 16 minutos. Não é uma figura omnipresente, não domina o tempo de ecrã, nem sequer conduz a narrativa no sentido clássico. E, no entanto, quando pensamos no filme, tudo converge inevitavelmente para ele. O Dr. Hannibal Lecter não é apenas uma personagem marcante — é a presença que contamina o filme inteiro, mesmo quando não está lá.

O que torna isto verdadeiramente fascinante é que essa intensidade não nasce de um processo pesado ou de uma construção académica da personagem. Hopkins nunca escondeu que abordou o papel de forma quase desarmantemente simples. Em vez de mergulhar durante meses em estudos sobre psicopatia ou de adoptar um método de imersão total, fez algo muito mais directo: decorou o texto de forma obsessiva e apareceu preparado para o dizer com precisão. O resto aconteceu no momento.

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Há detalhes que ajudam a perceber essa construção aparentemente espontânea. A imobilidade quase absoluta de Lecter — aquele corpo que parece nunca desperdiçar energia — nasceu da observação de répteis. Hopkins viu lagartos num jardim zoológico e ficou impressionado com a forma como permaneciam quietos, atentos, prontos para agir. Transportou essa qualidade para a personagem, criando uma presença que inquieta precisamente porque não reage como um ser humano comum. Ao mesmo tempo, procurou uma referência vocal inesperada: HAL 9000, o computador de 2001: A Space Odyssey. A voz calma, controlada, quase mecânica, serviu de base para aquele tom educado e assustador que nunca precisa de subir para se impor.

E depois há o pormenor que se tornou lendário: o som sibilante na fala dos “fava beans”. Não estava no guião, não foi planeado com antecedência, não resultou de qualquer método elaborado. Surgiu ali, no momento, como um impulso. Esse instante — que podia facilmente ter sido descartado — acabou por se transformar num dos gestos mais reconhecíveis da história do cinema.

Talvez seja aqui que reside o verdadeiro enigma de Anthony Hopkins. Numa indústria que tantas vezes valoriza o sofrimento, o excesso de preparação e a ideia de que grandes desempenhos exigem grandes sacrifícios, ele segue uma lógica quase oposta. Não há romantização do processo, nem a necessidade de transformar cada papel numa prova de resistência emocional. Há, isso sim, uma confiança absoluta na técnica — saber o texto, compreender o ritmo — e depois uma disponibilidade total para o que surgir no momento da filmagem.

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Essa abordagem não é fruto de desleixo, como por vezes se poderia pensar, mas sim de uma disciplina muito particular. Hopkins sempre falou da importância da memorização como base do seu trabalho. Saber as falas ao detalhe permite-lhe libertar-se durante a performance, reagir, ajustar, encontrar nuances que não estavam planeadas. É uma espécie de paradoxo: quanto mais controlada é a preparação, mais livre se torna a execução.

O contraste com o chamado method acting é inevitável. Enquanto muitos actores procuram desaparecer dentro da personagem através de processos longos e, por vezes, extenuantes, Hopkins faz quase o contrário: mantém uma distância clara, não tenta “ser” a personagem fora de cena e evita prolongar o trabalho para além do necessário. Para ele, a interpretação acontece ali, naquele espaço delimitado, entre o “acção” e o “corta”. E é precisamente essa leveza que dá às suas performances uma naturalidade difícil de replicar.

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Nada disto significa que o percurso tenha sido simples. Antes de alcançar o estatuto que hoje lhe é reconhecido, Hopkins passou por um período profundamente instável, marcado pelo alcoolismo e por uma sensação constante de descontrolo. Nos anos 70, quando a carreira começava a ganhar forma, essa luta pessoal ameaçou deitar tudo a perder. O ponto de viragem surgiu em 1975, quando acordou num quarto de hotel no Arizona sem qualquer memória de como lá tinha chegado. Esse episódio tornou-se decisivo: abandonou o álcool de forma definitiva e passou a encarar tudo o que veio depois como uma segunda vida.

É nessa segunda fase que surgem alguns dos seus trabalhos mais marcantes. De The Remains of the Day a The Father, onde interpreta um homem a perder-se na própria mente, há uma consistência impressionante na forma como constrói personagens profundamente humanas sem nunca parecer que está a “mostrar serviço”. Há sempre contenção, precisão, uma economia de gestos que torna cada olhar ou cada pausa mais significativa.

No caso de Hannibal Lecter, essa economia atinge um nível quase desconcertante. Não há explosões emocionais, não há grandes discursos inflamados. Há silêncio, controlo e uma sensação permanente de que tudo está a ser calculado. E talvez seja precisamente por isso que a personagem continua a ser tão perturbadora: porque nunca nos oferece o alívio de uma explicação ou de uma emoção evidente.

No fim, o impacto daqueles 16 minutos não se explica apenas pelo talento de Anthony Hopkins, mas pela forma como ele encara o próprio acto de representar. Sem excessos, sem mitologias desnecessárias, sem transformar o trabalho num ritual pesado. Apenas preparação, atenção e a capacidade rara de confiar no momento.

E, pelos vistos, isso chega — e sobra — para entrar na história do cinema.

Silêncio dos Inocentes pode ser visto ou revisto no Prime Video.

O Predador Dominante e a arte do thriller de sobrevivência sem complicações: porquê Charlize Theron é a escolha certa

Há um tipo de cinema que Hollywood tem vindo a esquecer com alguma consistência: o thriller de aventura que não precisa de ser um evento cultural para justificar a sua existência. Um filme que sabe exactamente o que é, que respeita a inteligência do espectador sem o sobrecarregar de explicações, e que confia no poder das localizações e dos actores para fazer o trabalho pesado. Apex, o novo filme de Baltasar Kormákur agora disponível na Netflix, pertence a essa tradição — e é melhor do que provavelmente merecia ser.

A sequência de abertura estabelece o tom com uma precisão que o resto do filme vai honrar. Sasha (Charlize Theron) e Tommy (Eric Bana) acordam numa tenda afixada a noventa graus numa parede rochosa, com apenas o vazio por baixo. É uma imagem que diz tudo sobre estas duas personagens sem precisar de uma linha de diálogo: são pessoas que normalizaram o risco como condição de vida. Kormákur — que fez Everest e Adrift e conhece bem este território — filma a cena com a sobriedade de quem sabe que a grandiosidade já está lá, não precisa de ser forçada. O argumento de estreia de Jeremy Robbins pulsa com um respeito genuíno pela natureza que raramente se vê neste género, e é isso que distingue a abertura de Apex de tantos outros thrillers de sobrevivência que tentam a mesma coisa.

Quando a história se transfere para a Austrália e Sasha, em luto e em busca de solidão, embarca numa travessia solitária de kayak pelo interior, o filme muda de registo mas mantém a disciplina. A apresentação de Ben (Taron Egerton) é deliberadamente ambígua — um habitante local que conhece a zona como a palma da mão, simpático, prestável, ligeiramente inquietante. Egerton, conhecido de Kingsman e Carry-On, encontra aqui um papel que lhe permite trabalhar contra o seu charme natural de formas interessantes: os olhos vivamente loucos e o grito maníaco que vai emergindo à medida que o filme avança são a marca de uma construção de personagem cuidada, não de excesso.

Theron, por sua vez, está no seu elemento. A actriz sul-africana tem construído ao longo de uma carreira a reputação de alguém que não finge fazer coisas fisicamente exigentes — faz-as mesmo. Em Apex, isso nota-se em cada plano: há uma qualidade de esforço real nas cenas de escalada e de água que nenhuma pós-produção consegue simular completamente. Quando Sasha se move através das ravinas e rápidos do interior da Nova Gales do Sul, a câmara acompanha-a com a consciência de que está a filmar alguém que treinou genuinamente para isto, e não uma estrela a pousar em frente a um fundo verde.

O filme tem as suas limitações, e é honesto assumi-las. A história dos dois protagonistas existe apenas em linhas largas — sabe-se o suficiente para investir emocionalmente, mas não muito mais. Em certos momentos, a estrutura de perseguição acusa alguma repetição. Estas são as concessões que Apex faz para manter o ritmo e a temperatura — e são concessões que fazem sentido. Kormákur está mais interessado em adrenalina branca do que em psicologia elaborada, e o resultado é um filme que se vê de uma assentada com o coração ligeiramente acelerado, o que é, afinal, exactamente o que promete.

Na tradição dos grandes thrillers de aventura ao ar livre — de Cliffhanger a The River Wild, de Free Solo à obra do próprio Kormákur — Apex lembra que às vezes basta confiar no terreno, nos actores e na câmara. A Netflix tem aqui um dos títulos mais satisfatórios do seu catálogo de acção em 2026. Simples, eficaz, bem executado. Às vezes isso é tudo o que um fim de semana precisa.

CANNESERIES encerra hoje a 9.ª edição: o festival de séries da Croisette que merecia mais atenção

Cannes 2026: Park Chan-wook preside ao júri, Almodóvar e James Gray na corrida à Palma de Ouro
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CANNESERIES encerra hoje a 9.ª edição: o festival de séries da Croisette que merecia mais atenção

Hoje fecha as portas a nona edição do CANNESERIES, o Festival Internacional de Séries de Cannes que desde 2018 ocupa a Croisette uma semana antes da Palma de Ouro entrar em cena. De 23 a 28 de abril, o Palais des Festivals acolheu profissionais da indústria e público geral numa programação que incluiu longas-séries, curtas-séries e documentários serializados em competição, com cerimónias de abertura e encerramento separadas.

A edição arrancou com uma nota de prestígio: Jisoo, membro dos BLACKPINK e atriz em crescendo com séries como SnowdropNewtopia e o mais recente Boyfriend on Demand da Netflix, recebeu o prémio Madame Figaro Rising Star Award na cerimónia de abertura. Foi um momento de euforia no auditório — a estrela K-pop agradeceu “em inglês e com um merci” ao público presente — e um sinal da internacionalização crescente do evento. Adam Scott, por sua vez, recebeu o Canal+ Icon Award durante o festival, marcando presença acompanhado pela mulher Naomi.

A Air France estreou este ano o seu próprio prémio no festival — o Air France Travelers’ Choice Award — dedicado à série da edição anterior com melhor performance a bordo dos seus voos, medida por dados reais de visualização dos passageiros. É uma novidade que diz muito sobre como os festivais de séries procuram novas formas de medir impacto e relevância cultural para além dos júris tradicionais.

O CANNESERIES tem uma posição curiosa no calendário da indústria: não tem a visibilidade dos Emmy nem o prestígio artístico da competição principal de Cannes, mas posiciona-se como um espaço de descoberta de produções internacionais que de outra forma dificilmente chegariam ao radar do público europeu. O formato competitivo distribui prémios em categorias como Melhor Série, Melhor Argumento, Melhor Interpretação e Prémio do Público, com um júri renovado a cada edição.

Para o leitor português, o CANNESERIES é também um barómetro útil: as séries aqui distinguidas costumam aparecer em plataformas europeias nos meses seguintes. A edição de hoje termina com a cerimónia de encerramento e a revelação do palmarès completo, ainda a aguardar divulgação pública no momento desta publicação. O Festival de Cannes Cinema arranca a 12 de maio, a poucos quilómetros e numa outra escala de atenção mediática — mas o mês de Cannes começa, afinal, hoje.

Cannes 2026: Park Chan-wook preside ao júri, Almodóvar e James Gray na corrida à Palma de Ouro
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Cannes 2026: Park Chan-wook preside ao júri, Almodóvar e James Gray na corrida à Palma de Ouro

Faltam duas semanas para a abertura da 79.ª edição do Festival de Cannes e o entusiasmo já se sente na Croisette. A seleção oficial foi anunciada a 9 de abril por Thierry Frémaux e pela presidente Iris Knobloch, mas nas últimas semanas continuaram a cair confirmações importantes — a mais aguardada das quais foi a de Paper Tiger, de James Gray, que entra na competição oficial depois de semanas de suspense público. Frémaux havia deixado a dica em conferência de imprensa: “Há um filme de que vão dizer ‘ah, não está cá!’ Mas vai estar, eu garanto.” Estava. O thriller nova-iorquino, com Adam Driver, Scarlett Johansson e Miles Teller, será a sexta vez de Gray em competição em Cannes.

A seleção deste ano é assumidamente dominada por autores internacionais: Asghar Farhadi, Pedro Almodóvar, Hirokazu Kore-eda, Paweł Pawlikowski, László Nemes e Ryusuke Hamaguchi estão todos em competição, representando um regresso às origens cinéfilas do festival depois de uma edição 2025 marcada por uma forte presença de Hollywood. Ira Sachs é o único realizador americano em competição com The Man I Love, musical fantástico com Rami Malek centrado na crise de VIH nos anos 80 em Nova Iorque. Almodóvar apresenta Bitter Christmas, o único filme da seleção que já teve estreia mundial antes do festival.

A cerimónia de abertura, a 12 de maio, acontece com La Vénus Électrique de Pierre Salvadori — uma comédia romântica burlesca passada no início do século XX em Paris, com Pio Marmai e Gilles Lellouche. A mesma noite, o filme exibe-se simultaneamente em cinemas de toda a França. O cartaz oficial desta edição é uma homenagem a Thelma & Louise, trinta e cinco anos depois de a dupla ter estreado na Croisette — em 1991, com Ridley Scott — antes de chegar aos cinemas de todo o mundo.

Do lado do júri, a escolha de Park Chan-wook como presidente é um sinal claro da orientação artística desta edição. O realizador coreano, cujo trabalho mais recente — No Other Choice — chegou ao Hulu poucas semanas atrás, está a preparar simultaneamente o seu próximo projeto no mercado do festival, o que torna a sua presença em Cannes ainda mais movimentada do que o habitual.

O mercado, que decorre de 12 a 20 de maio em paralelo com a competição, já deu sinais de efervescência, com projetos ambiciosos a surgir antes da abertura oficial. Para além do western de Park Chan-wook, chega ao mercado Margot & Rudi, sobre o romance e a parceria artística entre Margot Fonteyn e Rudolf Nureyev, com Naomi Watts e o bailarino ucraniano Alexandr Trush. O festival e o mercado juntos fazem de Cannes, como sempre, o momento mais intenso do calendário cinematográfico europeu. Para o público português, a presença de Almodóvar — cujo cinema nunca precisou de legenda emocional por estas bandas — é razão suficiente para acompanhar o que se passa na Croisette nas próximas semanas.

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Park Chan-wook dirige western com McConaughey, Pedro Pascal e Austin Butler

O realizador de OldboyA Criada e Decisão de Partir tem um novo projeto em mãos — e é um western. Park Chan-wook confirmou esta semana que o seu próximo filme será The Brigands of Rattlecreek, com um elenco que por si só justifica atenção: Matthew McConaughey, Pedro Pascal, Austin Butler e a sua habitual colaboradora Tang Wei encabeçam o projeto. A notícia foi avançada em exclusivo pelo Deadline e rapidamente confirmada pelo Variety e Screen International.

O argumento é de S. Craig Zahler, o cineasta conhecido pelo western visceral Bone Tomahawk e por Brawl in Cell Block 99 — dois filmes que partilham com Park uma certa predileção pela violência que tem peso moral. O guião andou décadas na gaveta de Hollywood, onde McConaughey esteve ligado ao projeto desde 2019, quando a Amazon o tentou ressuscitar. O que mudou foi a chegada de Park ao leme, que fez revisões no texto mais recente.

A história centra-se num xerife e num médico que procuram vingar-se de uma quadrilha de bandidos que usa uma tempestade para atacar e aterrorizar uma pequena cidade. No papel do xerife está McConaughey; Butler interpreta o líder dos bandidos. Pascal e Tang Wei completam o quarteto principal, com detalhes sobre os seus papéis ainda por revelar. O orçamento está estimado em mais de 60 milhões de dólares, e o filme será apresentado a compradores internacionais no mercado de Cannes em maio, através da produtora 193 de Patrick Wachsberger.

A coincidência não é pequena: Park Chan-wook preside ao júri da 79.ª edição do Festival de Cannes — exatamente o evento onde o seu próximo projeto vai à procura de distribuição. A dupla presença na Croisette, como jurista e como vendedor, é uma jogada que poucos realizadores conseguiriam fazer com tanta naturalidade.

O que torna o projeto genuinamente estimulante é a tensão entre dois mundos. Park é um mestre da vingança enquanto tragédia — nenhum dos seus filmes deixa os seus personagens saírem impunes do ciclo de violência que desencadeiam. Zahler, por outro lado, escreve westerns onde a brutalidade é quase filosófica, despida de glória. A fusão dos dois pode resultar num dos filmes mais interessantes desta segunda metade da década.

Para Park, será apenas o segundo filme em língua inglesa depois de Stoker (2013). A experiência televisiva entretanto acumulada — com The Little Drummer Girl e The Sympathizer — fez dele um cineasta mais à vontade com estruturas narrativas mais longas e com equipas de produção anglo-saxónicas. The Brigands of Rattlecreek não tem ainda data de produção confirmada, mas a movimentação em Cannes sugere que o arranque das filmagens não deve tardar muito.

Kimmel responde a Trump em directo: “Não foi um apelo ao assassínio. E eles sabem isso.”
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Kimmel responde a Trump em directo: “Não foi um apelo ao assassínio. E eles sabem isso.”

Na noite de segunda-feira, Jimmy Kimmel fez o que tem feito sistematicamente sempre que a pressão política sobre o seu programa sobe: virou-se para a câmara e falou. No seu monólogo no Jimmy Kimmel Live!, o apresentador respondeu directamente aos pedidos de despedimento formulados pelos Trump — Donald e Melania — nas horas anteriores, depois de uma piada sua sobre a Primeira-Dama ter circulado nas redes sociais na sequência do ataque ao jantar dos Correspondentes da Casa Branca, no sábado.

A piada em causa foi feita na quinta-feira, antes do incidente. No seu programa, Kimmel encenou um monólogo alternativo ao jantar oficial — que neste ano não tinha um comediante como anfitrião — e disse, dirigindo-se a Melania Trump: “tem o brilho de uma viúva expectante.” No sábado, um atirador tentou entrar no Hotel Washington Hilton, onde decorria a gala, e foi detido por agentes do Serviço Secreto. O Presidente e a Primeira-Dama foram evacuados.

O que se seguiu foi uma lógica que já vimos antes: Trump publicou na sua plataforma Truth Social que a piada de Kimmel era “um desprezível apelo à violência” e exigiu o seu despedimento imediato pela Disney e pela ABC. Melania Trump publicou nas redes sociais que o apresentador “não deveria ter a oportunidade de entrar em nossas casas todas as noites para espalhar ódio”, concluindo com um apelo à ABC para que “tome uma posição”. A porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, afirmou que comentários como os de Kimmel fazem parte de uma “retórica que ajuda a legitimar esta violência.”

Kimmel, no monólogo de segunda-feira, foi directo: descreveu a piada como “uma brincadeira ligeira sobre a diferença de idades” entre Trump e Melania, sublinhando que o presidente tem quase 80 anos e a Primeira-Dama é mais nova do que o próprio apresentador. “Não foi, por nenhuma definição possível da palavra, um apelo ao assassínio. E eles sabem isso”, disse. Reconheceu o trauma do sábado à noite — “o facto de ninguém ter morrido não significa que não foi traumático e assustador” — e expressou solidariedade genuína a todos os presentes na gala. Mas recusou aceitar a premissa de que a sua piada de quinta-feira teve qualquer relação com o que aconteceu dois dias depois. “Querem que acreditemos que uma piada que fiz três dias antes deste jantar teve algum efeito em qualquer coisa que aconteceu no sábado à noite?”

O contexto que o artigo desta segunda-feira não pode ignorar é o que o Clube de Cinema tem acompanhado ao longo do último ano: este não é o primeiro confronto entre Kimmel e a administração Trump, nem a primeira vez que a ABC enfrenta pressão para o afastar. Em setembro de 2025, o programa foi suspenso durante vários dias após comentários sobre o assassinato de Charlie Kirk. Kimmel regressou sem pedir desculpas completas, mas visivelmente afectado. O programa de Stephen Colbert na CBS foi entretanto cancelado — num processo que o próprio apresentador considerou inseparável da pressão política. Trump chegou a dizer publicamente que “Kimmel é o próximo.”

A resposta de Kimmel segunda-feira pode ser lida como um ensaio sobre onde está actualmente a sátira política na televisão americana: entre a obrigação de continuar a falar e a consciência de que cada frase pode ser usada como munição numa batalha que não tem apenas como palco a televisão. “Depois de notar que todos os americanos têm direito à liberdade de expressão”, disse Kimmel, “acho que um bom sítio para começar a baixar a temperatura seria ter uma conversa com o seu marido sobre isso.” A frase foi dirigida a Melania. A ABC não comentou publicamente.

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First Date chega à Filmin a 30 de abril: a curta açoriana que conquistou o mundo sem ICA nem distribuidora

O percurso de First Date é, a seu modo, um pequeno conto sobre o que o cinema independente pode fazer quando decide simplesmente acontecer. Rodado em menos de uma semana na ilha do Pico, sem apoio do ICA, sem produtora de grande dimensão e sem agência de comunicação, o primeiro filme de Luís Filipe Borges — mais conhecido como argumentista, escritor e humorista — passou por mais de 60 exibições em grandes ecrãs em todos os continentes, acumulou 22 prémios em festivais de Angola, Brasil, Estados Unidos, Índia e Reino Unido, e passou pelo ShortCutz Lisboa em abril. Esta quinta-feira, 30 de abril, dá o passo seguinte: estreia na Filmin, tornando-se a primeira curta-metragem de Borges a chegar a uma plataforma de streaming.

A história é uma comédia romântica com subversões discretas: Santiago é um lisboeta que finge ser açoriano; Melissa é americana e chegou ao Pico com uma ideia muito clara sobre o que queria encontrar. O que se segue joga com identidade, expectativa e as pequenas mentiras que as primeiras impressões exigem — tudo com a ilha do Pico como cenário, que em First Date nunca é apenas cenário. Cristóvão Campos e Ana Lopes interpretam os dois protagonistas, e a química entre os dois é, segundo a crítica internacional, um dos elementos mais assinalados do filme.

“Ver o First Date chegar à Filmin é fonte de orgulho desmedido”, admite Borges no comunicado de estreia. “Diretamente dos Açores, sem ICA, sem grandes produtoras ou distribuidoras por trás, sem agência de comunicação — honra-nos mais ainda.” O produtor Terry Costa acrescenta que a estreia coincide com o último dia do mês de destaque ao cinema português que a Filmin promoveu durante abril, o que lhe confere um simbolismo adicional.

A escolha da plataforma não é despropositada. A Filmin — com catálogo partilhado entre Portugal e Espanha — posiciona-se como espaço de referência para cinema de autor e produções premiadas em festivais, o que torna First Dateuma adição coerente. Para uma curta que foi construída fora dos circuitos habituais de financiamento e distribuição, chegar a uma plataforma desta natureza representa também uma validação do modelo: é possível fazer cinema português de qualidade a partir de uma ilha dos Açores, sem as estruturas que habitualmente servem de condição prévia para a visibilidade.

O filme continua em simultâneo o seu circuito de festivais e sessões especiais em Portugal e no estrangeiro. A Filmin representa, portanto, não um ponto final mas uma nova porta de entrada — desta vez para quem prefere o sofá ao festival, ou simplesmente não conseguiu chegar a nenhuma das sessões ao vivo.

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Há uma ironia deliciosa no facto de Thierry Frémaux — o homem que cada ano em abril anuncia ao mundo quais os filmes que merecem existir em Cannes — ser também o guardião mais apaixonado dos filmes que tornaram possível que existisse um Cannes. Como diretor do Institut Lumière em Lyon, Frémaux passou anos a debruçar-se sobre um acervo de mais de 1400 títulos filmados pelos irmãos Auguste e Louis Lumière no final do século XIX. Desta imersão nasceu Lumière, a Aventura Continua!, um documentário que chega ao TVCine Edition e TVCine+ na sexta-feira, 1 de maio, às 22h00.

O trabalho de Frémaux foi o de curador rigoroso: de um acervo vasto e tecnicamente frágil, selecionou 114 filmes, entretanto restaurados em 4K, e construiu com eles um retrato composto do mundo no dealbar do século XX. Não se trata de arqueologia nem de museologia passiva. O argumento central do documentário é provocatório: estes filmes não envelheceram. Ou melhor — nunca foram apenas históricos.

Entre os títulos reunidos estão aquelas que qualquer estudante de cinema conhece de cor: La Sortie de l’Usine Lumière à Lyon, a saída dos operários da fábrica, filmada em 1895 e frequentemente citada como o primeiro filme da história do cinema; L’Arrivée d’un train en gare de La Ciotat, cuja projeção terá, segundo a lenda, provocado o pânico nos primeiros espectadores que viram uma locomotiva avançar sobre eles — lenda amplificada pelo tempo, mas sintomática do choque que aquelas imagens representaram; e Le Repas de bébé, registo doméstico e íntimo que antecipa o gesto do cinema contemporâneo de encontrar o extraordinário no banal. Frémaux não se limita a projetá-los em sequência: contextualiza, interroga, aproxima os espectadores de 2025 do espanto dos de 1895.

O que o documentário propõe, no fundo, é que o cinema nunca se afastou muito dos seus primeiros instintos. O enquadramento cuidado, a atenção ao movimento, a tensão entre o documentado e o encenado — tudo isso está já nos Lumière, com uma clareza que os 130 anos entretanto passados não obscureceram. Para Frémaux, que todos os anos seleciona o que de melhor o cinema mundial tem para oferecer na Croisette, esta foi também uma forma de regressar às origens da sua própria paixão.

A estreia no TVCine Edition é uma proposta de televisão de qualidade num horário nobre: sexta-feira à noite, às 22h00, com o fim de semana pela frente — tempo suficiente para deixar o documentário fazer o seu efeito e, quem sabe, revisitar alguns dos títulos que inspirou.

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