“Playdate” tornou-se um fenómeno global de visualizações, mas os críticos não poupam nas palavras. Afinal, estamos perante um sucesso merecido ou apenas um desastre divertido?
Escolher um filme no streaming pode ser tão complicado como montar um móvel sem instruções: há sempre demasiadas opções, e metade parece prestes a desabar. Ainda assim, há títulos que — por razões misteriosas ou simplesmente porque nos apetece rir sem pensar muito — disparam para o topo das tendências mundiais. É exactamente isso que está a acontecer com Playdate, o filme mais visto do momento na Amazon Prime Video a nível global.
A produção, lançada a 12 de Novembro, mistura comédia e acção num cocktail que parece ter acertado no gosto do público, mesmo que os críticos estejam a preparar tochas e forquilhas. Com Kevin James, Alan Ritchson, Sarah Chalke e Isla Fisher a liderar o elenco, Playdate promete energia, caos e muita correria — e entrega tudo isso com orgulho.
A história segue Brian, um contabilista desempregado que só queria uma tarde tranquila de brincadeira entre crianças. Em vez disso, vê-se perseguido por mercenários, metido em sarilhos absurdos e obrigado a improvisar como se a sua vida fosse um videojogo dos anos 90. A premissa é simples: um pai suburbano, muita trapalhada e uma inesperada descida para o universo dos filmes de acção.
Até aqui, tudo parece inofensivo. Porém, basta espreitar a recepção crítica para perceber o contraste gigante entre o entusiasmo do público e a fúria dos especialistas. No Rotten Tomatoes, Playdate exibe uns modestíssimos 18%, com comentários tão delicados como “um filme incrivelmente estúpido que também acha que tu és incrivelmente estúpido”. No IMDb, o cenário não é muito mais simpático: 5,5 em 10 possíveis.
E, no entanto, milhões estão a carregar no “Play”. Porquê? Parte da culpa — ou mérito — está na tal “vibe de comédia dos anos 90” que muitos espectadores têm elogiado. A dupla Kevin James e Alan Ritchson também parece ter conquistado o público, oferecendo aquele tipo de química que nos faz pensar: “isto é tão parvo… mas estou a gostar.”
Se procuras um filme profundo, inovador e com potencial para ganhar prémios… continua a procurar. Mas se o objectivo é desligar o cérebro, rir de situações absurdas e passar uma hora e meia de boa disposição, Playdate pode ser exactamente aquilo de que precisas. Pode estar a ser arrasado pela crítica, mas o mundo está a vê-lo — e, pelos vistos, a divertir-se à grande.
Há nomes que moldam gerações e há artistas que moldam pessoas — e Eddie Murphy é um desses casos raros. Para quem viveu os anos 80 e 90 com a televisão ligada, Eddie era omnipresente: 48 Hrs., Beverly Hills Cop, Trading Places, Coming to America, Saturday Night Live, a dobragem inconfundível em Shrek.
Era impossível não ser fã.
Ele era energia pura, velocidade cómica, irreverência, carisma — um fenómeno.
Agora, com Being Eddie, a Netflix oferece a Murphy aquilo que já tinha oferecido a Stallone ou Martha Stewart: um palco descontraído, pessoal, quase caseiro, onde a lenda se senta a olhar para a sua própria vida com o humor e a serenidade de quem já viu tudo… e sobreviveu a tudo.
A mansão, a família, as memórias — e um Eddie Murphy muito “Eddie Murphy”
O documentário leva-nos a passear com Murphy pela sua mansão californiana, incluindo um teto retrátil digno de ficção científica. A câmara de Angus Wall apanha-o a fazer aquilo que sempre fez tão bem: observar, comentar, brincar, transformar o banal em comédia — até quando está simplesmente a ver Ridiculousness, que ele descreve com a naturalidade de quem compara MTV a Alejandro Jodorowsky.
De vez em quando, senta-se, abre revistas antigas, lembra os fatos de cabedal e aquela época em que parecia uma estrela rock… mas em modo comediante. O filme acompanha essa subida meteórica, muito antes dos 30 anos, quando Beverly Hills Cop o transformou num dos maiores nomes de Hollywood quase da noite para o dia. Era jovem demais para lidar com tanta atenção? Provavelmente. Mas Eddie, à sua maneira, tratou sempre a fama como se fosse mais uma personagem para representar.
Um legado contado por quem o seguiu: Chappelle, Rock, Hart, Davidson
O documentário tem o cuidado de mostrar como Murphy não foi só um fenómeno — foi um fundador.
Dave Chappelle, Chris Rock, Kevin Hart e Pete Davidson surgem para explicar o impacto profundo que Eddie teve nas suas carreiras.
Ele abriu portas. Ele mostrou o que era possível. Ele ensinou, mesmo sem saber que ensinava.
E há algo comovente na forma como Murphy ouve essas homenagens.
Inclina ligeiramente a cabeça, sorri com aquele ar de surpresa quase tímida e parece, por vezes, um miúdo de Long Island que ainda se pergunta como chegou até ali.
As sombras — e o silêncio sobre elas
O documentário não esconde que parte do passado de Murphy não envelheceu bem. Os anos de Raw e Delirious deixaram piadas sobre mulheres e pessoas LGBT que hoje provocam desconforto, e a própria ausência prolongada de Eddie do stand-up parece carregar um pouco dessa vergonha implícita.
Mas Being Eddie escolhe não mergulhar nos temas mais polémicos.
Assim como também foge aos episódios tensos com John Landis, apesar da presença surpreendente do realizador.
É uma biografia carinhosa, quase uma carta de amor — e, consciente ou não, muito pouco interessada em desconstruir o mito.
A morte como presença constante — e um Eddie feliz mesmo assim
Há algo discreto mas pesado no documentário: a perda.
Murphy fala de quem teve de enterrar, de quem partiu cedo demais, de quem o inspirou e desapareceu — Belushi, Robin Williams, Michael, Prince, Whitney.
A aparição do irmão Charlie Murphy, falecido em 2017, é especialmente tocante.
E, mesmo assim, Eddie recusa qualquer amargura.
Para ele, viver continua a ser uma espécie de bênção cómica.
O homem que outrora varria palcos como um furacão agora caminha devagar pela casa, rodeado da família, absolutamente em paz.
A sua aparição em SNL em 2019 encerra o documentário com a energia de alguém que regressa não para provar nada, mas porque ainda se diverte a fazer isto.
O Eddie de ontem, o Eddie de hoje — e o Eddie que sempre foi nosso
Para quem cresceu com ele, Being Eddie é um reencontro caloroso com uma lenda que marcou infâncias, adolescências e o próprio ADN da comédia moderna.
Osgood Perkins tem construído, quase em silêncio e sem pressas de agradar, uma das filmografias de terror mais sugestivas dos últimos anos. Depois do fenómeno inquietante que foi Longlegs e da recepção calorosa a The Monkey, o realizador regressa com Keeper — um filme envolto em secretismo, promovido pela Neon com a mesma estratégia de sombras e silêncio que transformou o seu nome numa espécie de promessa para fãs de terror psicológico.
E agora que as primeiras críticas chegaram, a pergunta impõe-se: está à altura do hype?
Segundo o Rotten Tomatoes, Keeper estreia-se com 65% de aprovação, baseado nas primeiras dezenas de críticas. É uma recepção intermédia, mas longe de ser um desaire — e, mais importante ainda, confirma algo que já se suspeitava: Perkins continua a ser um realizador fascinante, mesmo quando a crítica se divide.
O score não é o mais alto da carreira do cineasta, que recentemente atingiu os 86% com Longlegs, nem supera os 77% de The Monkey. Porém, supera outros trabalhos anteriores, como I Am the Pretty Thing That Lives in the House, que permanece nos 59%. Há uma oscilação clara, mas também uma evolução: Perkins é um cineasta que arrisca, que experimenta, que não segue tendências. E isso, no terror contemporâneo, vale ouro.
As primeiras críticas sugerem um padrão comum. A narrativa de Keeper pode ser “delgada”, como descreveu o Hollywood Reporter, mas aquilo que parece manter a tensão e a eficácia é o trabalho dos actores — especialmente Tatiana Maslany, cuja performance muitos descrevem como o verdadeiro coração da obra. É interessante notar que Perkins já a tinha dirigido num papel mais pequeno em The Monkey; aqui, ele dá-lhe espaço para respirar, sofrer, comandar a câmara. É visível, nas palavras dos críticos, uma espécie de “confiança absoluta” na actriz, que retribui com um desempenho feroz, íntimo e inquietante.
Há também quem note que a experiência de ver Keeper depende muito do espectador. Britt Hayes, da MovieWeb, escreveu que o filme funciona “se acreditarmos que Perkins usa estes tropos com um propósito claro, se considerarmos que os fins justificam os meios”. É uma observação certeira: o cinema de Perkins nunca foi sobre simplicidade ou gratificação imediata. É sobre atmosfera, silêncio, texturas emocionais — e sobre o desconforto que nasce do que não é explicado.
Independentemente de divisões críticas, há algo que ninguém contesta: Perkins está num ritmo criativo impressionante. Enquanto Keeper chega agora às salas, o realizador já está a meio da produção de The Young People, filme que tem gerado expectativas — não só pela premissa, mas pelo elenco, que inclui Lola Tung, Nico Parker e uma adição sonante: Nicole Kidman. É o tipo de velocidade criativa que poucos cineastas conseguem manter no género, especialmente num mercado onde o terror original luta para sobreviver entre sequelas, remakes e universos partilhados.
Com apenas 1h39 de duração, Keeper promete ser mais uma obra contida, afiada e profundamente estilística — muito à imagem daquilo que fez de Perkins um nome incontornável do terror moderno. E mesmo que não atinja a mesma aclamação que Longlegs, o consenso é claro: este filme tem personalidade suficiente, risco suficiente e densidade emocional suficiente para justificar uma ida ao cinema.
Afinal, o terror precisa de vozes singulares. Mesmo quando essas vozes nos deixam inquietos, divididos ou fora do nosso lugar de conforto. Talvez especialmente por isso.
Christopher Nolan pode estar no mar com The Odyssey, mas quem anda a correr — literalmente — para redefinir a ficção científica distópica é Edgar Wright. O realizador britânico, mestre da energia cinética e dos filmes cheios de alma, está prestes a lançar a nova adaptação de The Running Man, e numa longa conversa revelou detalhes deliciosos sobre o processo, a colaboração inesperada com Stephen King, e até o motivo (bem-humorado e duplamente meta) para incluir Arnold Schwarzenegger numa espécie de cameo presidencial.
Em 2017, Wright respondeu a um tweet casual dizendo que The Running Man era o remake que mais gostaria de fazer. Era quase uma nota de fã, um comentário solto. Mas Simon Kinberg não se esqueceu.
Anos depois, quando a oportunidade surgiu, ofereceu-lhe o projeto.
Wright tinha lido o livro original — assinado por King sob o pseudónimo Richard Bachman — aos 14 anos. Estava proibido de ver o filme de 1987 nos cinemas britânicos (classificação para maiores de 18), e quando finalmente o viu, percebeu que quase nada do que o tinha fascinado no livro estava no ecrã. A semente ficou plantada: um dia, alguém teria de adaptar The Running Man “a sério”.
Agora, esse alguém é ele.
Stephen King: o pen pal improvável e o crítico mais temido
O detalhe delicioso é que Wright e King já tinham uma relação engraçada de “amigos por email”.
Tudo começou quando o escritor elogiou Shaun of the Dead — um elogio tão improvável que, para Wright, foi como ganhar um Óscar secreto.
Durante anos trocaram mensagens sobre… música.
Wright enviava-lhe vinis de aniversário, falavam sobre bandas psicadélicas, guitarras, rock alternativo. Quase nunca sobre cinema.
E, por isso mesmo, Wright evitava falar de The Running Man.
Se o filme não avançasse, não queria ser “o rapaz que grita lobo”.
Só quando a adaptação estava finalmente a ganhar forma é que enviou o email:
“Como provavelmente já sabes, estou a trabalhar em The Running Man desde 2022”, escreveu, entre risos.
King tinha de aprovar dois elementos cruciais:
a escolha do actor principal,
e alterações estruturais ao enredo.
Wright mandou-lhe um link privado de Hit Man, o filme que Glen Powell co-escreveu e protagoniza.
King viu — e aprovou imediatamente.
Quando finalmente assistiu ao filme, enviou a Wright um email com o assunto escrito em maiúsculas:
“WOW.”
E depois deixou o elogio que qualquer cineasta sonharia ouvir:
“É suficientemente fiel ao livro para deixar os fãs felizes, mas diferente o bastante para me entusiasmar.”
Schwarzenegger no dinheiro… e uma piscadela ao Demolition Man
Embora esta nova versão seja uma adaptação muito mais fiel ao livro do que o filme de 1987, Wright não quis ignorar os fãs do clássico de Arnie.
Assim, há um cameo subtil — mas brilhante:
no futuro distópico de Wright, existe uma nota de 100 dólares com o rosto do Presidente Schwarzenegger.
É ao mesmo tempo:
uma homenagem ao filme de 1987,
e um trocadilho cinéfilo com Demolition Man, onde se menciona que Arnold se tornou Presidente dos EUA.
É esse humor lateral, quase invisível, que separa Wright de tantos outros realizadores do género.
A versão de Wright: mais tensa, mais humana, mais King
Se o filme original transformava Ben Richards num herói musculado, Wright regressa às origens.
Nesta versão, Richards — interpretado por Glen Powell — é um homem comum, esmagado por um sistema corporativo distópico que controla a televisão, o dinheiro e até as narrativas públicas.
A história segue-o sempre na primeira pessoa, tal como o livro.
Não há cenas que ele não testemunhe, não há manipulação da perspectiva — o público acompanha-o tal como acompanha um competidor num reality show mortal.
É uma abordagem mais íntima, mais claustrofóbica, mais imersiva.
O toque Mission: Impossible
Há um detalhe delicioso que liga este projeto à saga Mission: Impossible:
Glen Powell, mal recebeu o papel, fez a mesma coisa que qualquer fã faria.
Ligou ao Tom Cruise.
Perguntou-lhe apenas isto:
“Como é que se corre bem para a câmara?”
É maravilhoso imaginar Tom Cruise a dar masterclasses de corrida cinematográfica — mas faz sentido. Powell queria fazer o máximo de acrobacias possível sem recorrer a duplos, e Wright abraçou essa filosofia.
Um filme sem rede de segurança
Wright revelou ainda que quase não teve sessões de teste com público. O filme foi montado numa corrida contra o tempo, com semanas de trabalho de 16 horas, sempre sem margem para falhas.
A equipa via o filme como um todo apenas ocasionalmente, em sessões internas no pequeno cinema ao lado da sala de montagem.
Era um processo austero, tenso, mas necessário para fazer o filme que Wright imaginou aos 14 anos.
Um remake? Não. Uma nova leitura.
Wright diz que evita chamar “remake” ao projeto porque isso não captura o que realmente fez:
“O livro nunca foi adaptado a sério. Havia outro filme possível — e era esse que eu queria fazer.”
Para ele, os melhores remakes são os que reinventam, como The Fly de David Cronenberg.
Refazer por refazer é karaoke.
Recontar com alma é cinema.
Esta nova versão chega com tudo aquilo que Wright faz melhor:
energia, irreverência, estilo, inteligência visual e um amor contagiante pelo cinema.
Christopher Nolan nunca foi homem de metades. Mas com The Odyssey, o realizador que redefiniu o blockbuster cerebral decide, literalmente, ir contra a corrente. O próprio revelou que filmou mais de dois milhões de pés de película, uma quantidade absolutamente insana mesmo para padrões de Hollywood, durante uma rodagem que o levou a passar meses no mar aberto. Ali, longe de estúdios e green screens, descobriu aquilo que sempre procurou: a fisicalidade do mundo real a testar-lhe os limites.
Ao falar com a Empire, Nolan descreveu a experiência com um sorriso cansado e orgulhoso: uma aventura “primal”, basta ver os actores que interpretam a tripulação de Ulisses — todos obrigados a sentir, na pele, a violência e a beleza imprevisível do mar. O vento, as ondas, a luz que muda de humor de minuto a minuto. Para Nolan, isso era essencial para captar a essência de uma viagem que, nos poemas de Homero, era feita de fé cega, determinação e uma solidão quase mística num mundo ainda por mapear.
Há muito que o realizador ambicionava entrar neste território. Ele próprio admite que, em jovem, esperava ver grandes histórias mitológicas tratadas com a mesma seriedade que os estúdios dedicam a epopeias modernas. Cresceu a ver Ray Harryhausen, mas sentia que faltava uma versão que unisse fantasia, rigor e a escala emocional de uma superprodução contemporânea. Agora, com The Odyssey, quer devolver ao cinema esse peso ancestral, esse sentido de maravilha que se perdeu entre universos partilhados e efeitos digitais demasiado limpos.
No centro do filme está Matt Damon como Odysseus, um homem dilacerado entre o dever e o desejo de regressar a casa. A jornada de dez anos que o separa de Penélope — papel ainda envolto em mistério, mas entregue a um elenco que parece uma constelação inteira — é filmada como um verdadeiro teste à alma. Nolan insiste que esta é menos uma história sobre monstros e mais sobre a persistência humana perante o impossível; menos sobre deuses e mais sobre a fragilidade que nos acompanha, mesmo quando fingimos ser heróis.
E que elenco. Tom Holland, Anne Hathaway, Zendaya, Lupita Nyong’o, Robert Pattinson, Charlize Theron, Samantha Morton, Mia Goth e muitos outros surgem aqui reunidos como se o próprio Olimpo tivesse feito escala em Hollywood. É uma reunião rara, não apenas pela fama, mas pela intensidade que cada um deles promete trazer aos seus papéis. Nolan nunca escolhe actores ao acaso — escolhe-os para os empurrar ao limite. E ao filmar no mar aberto, empurrou-os mesmo.
A estreia está marcada para 17 de julho de 2026, e tudo indica que será um daqueles filmes que só ganham sentido numa sala IMAX: gigantesco, físico, desafiante, feito para que o espectador sinta a vibração do casco no mar, o peso da jornada, o assombro dos mitos. Depois de Oppenheimer, Nolan vira-se para uma história ainda mais antiga, ainda mais universal — talvez a mais universal de todas. E fá-lo da única maneira que sabe: tentando aquilo que ninguém tentou, enfrentando a natureza como adversária e cúmplice, e provando que há cineastas que só sabem trabalhar quando o mundo real lhes empurra de volta
Estreia nas salas portuguesas a 25 de dezembro, com trailer e poster já revelados
Este Natal promete ser mais amarelo, mais vibrante e muito mais… quadrado. Spongebob O Filme: À Procura das Calças Quadradas chega aos cinemas nacionais no dia 25 de dezembro, numa aventura cheia de humor, cor e imaginação — tudo aquilo que os fãs esperam do universo criado por Stephen Hillenburg. A versão dobrada e legendada já tem trailer e poster oficiais disponíveis, abrindo caminho para uma das estreias familiares mais aguardadas desta quadra festiva.
A missão impossível do herói mais optimista do oceano
Na nova história, o eterno entusiasta de Bikini Bottom decide provar uma coisa simples: que é “um rapaz crescido”. Naturalmente, e como sempre acontece quando Spongebob tenta mostrar maturidade, o plano descarrila da forma mais divertida possível.
Ao lado de Patrick, Sandy e do resto da tripulação, Spongebob parte numa missão improvável — encontrar as lendárias Calças Quadradas. Sim, as mesmas que lhe deram identidade, estilo e elasticidade emocional durante mais de duas décadas.
A busca leva-os a enfrentar criaturas misteriosas, obstáculos inesperados e até uma das figuras mais temidas dos sete mares: o Holandês Voador, aqui numa versão tão assustadora quanto cómica.
Dobragens portuguesas e estreias especiais
Uma das marcas distintivas do fenómeno Spongebob em Portugal é a longevidade das suas vozes — a série está há mais de 20 anos em exibição nacional, e o filme mantém essa familiaridade. As vozes portuguesas habituais regressam, assegurando a continuidade que o público tanto aprecia.
E há ainda duas novidades:
Wandson Lisboa, como o Despertador do Spongebob
Maria Morango (Francisca Cabral), como a Empregada do Parque de Diversões — personagem cuja voz original pertence à cantora e fenómeno pop Ice Spice
Ambos fazem aqui a sua estreia no universo de Spongebob, numa participação que promete arrancar gargalhadas.
O espírito vibrante que conquistou o mundo
Com as vozes originais de Tom Kenny, Clancy Brown, Bill Fagerbakke e Mark Hamill, esta nova longa-metragem mantém o ADN que transformou Spongebob num dos maiores fenómenos da animação contemporânea.
Visualmente exuberante, ritmado, cheio de piadas subaquáticas e com aquela energia caoticamente positiva que define o herói amarelo, À Procura das Calças Quadradas é o tipo de aventura que lembra porque é que o universo criado por Hillenburg continua a fazer parte das nossas vidas — mesmo muito depois da infância.
Uma comédia marítima para toda a família
O filme promete ser o destaque perfeito das férias de Natal: divertido para os mais novos, cheio de referências para os fãs de longa data e com um humor tão universal quanto imprevisível.
Na sinopse oficial, Spongebob parte numa missão de coragem para impressionar o Mr. Krabs — e acaba numa jornada épica com o Holandês Voador. Entre águas profundas, explosões de cor e encontros absurdos, é garantido: nenhuma esponja foi tão longe para recuperar um par de calças.
🎬 SPONGEBOB O FILME: À PROCURA DAS CALÇAS QUADRADAS
📅 Estreia nos cinemas portugueses a 25 de dezembro
O thriller explosivo que estreia hoje nas salas portuguesas
Chegou finalmente aos cinemas portugueses The Running Man, a nova adaptação do romance de Stephen King (escrito sob o pseudónimo Richard Bachman), agora transformado num thriller distópico cheio de adrenalina pelas mãos de Edgar Wright, o realizador de Baby Driver. Se a versão dos anos 80 com Arnold Schwarzenegger se tornou um objeto de culto, esta nova leitura promete elevar a fasquia — mais sombria, mais política e muito mais alinhada com a visão original de King.
Protagonizado pelo cada vez mais omnipresente Glen Powell (Top Gun: Maverick), o filme chega às salas — incluindo IMAX, 4DX, D-BOX e ScreenX — como uma das grandes estreias do ano e um retrato perturbador de um futuro desconfortavelmente próximo.
Num futuro dominado pela televisão… a morte dá audiências
A premissa continua tão actual quanto inquietante: numa América totalitária, a televisão substituiu a política, o debate e até a justiça. O programa de maior audiência do país chama-se The Running Man, uma competição onde os participantes, conhecidos como Runners, têm de sobreviver durante 30 dias enquanto são perseguidos por assassinos profissionais — e, pior ainda, por cidadãos comuns sedentos de fama instantânea.
A taxa de sobrevivência? Zero.
A recompensa? Milhões.
A moral? Enterrada debaixo dos holofotes.
Glen Powell enfrenta o sistema — e conquista as massas
Powell interpreta Ben Richards, um operário que aceita entrar no jogo como último recurso para salvar a filha doente. O que começa como um sacrifício inevitável transforma-se rapidamente numa inversão inesperada: Richards torna-se o favorito do público e um símbolo de rebeldia numa nação viciada em violência televisiva.
Esta ascensão meteórica desperta a atenção de dois antagonistas poderosos:
Dan Killian, o produtor manipulador interpretado por Josh Brolin,
McCone, o caçador implacável vivido por Lee Pace.
Entre perseguições alucinantes, armadilhas mortais e uma realização que combina espectáculo com crítica social, o filme coloca a pergunta que King tem repetido ao longo da carreira: até onde estamos dispostos a ir por entretenimento?
Edgar Wright dispara em todas as direções
Conhecido pelo seu estilo frenético e sentido de ritmo impecável, Wright traz ao material uma energia visual explosiva, mas também uma dimensão política mais marcada. The Running Man não é apenas acção estilizada — é um espelho desconfortável de uma sociedade que vive colada ao ecrã, disposta a transformar sofrimento em espectáculo.
O elenco secundário reforça essa ambição: Emilia Jones, Colman Domingo, Michael Cera e Katy O’Brian completam uma equipa onde cada interpretação acrescenta densidade à distopia.
Um King mais fiel, mais negro e mais actual
Ao contrário da adaptação dos anos 80, esta nova versão aproxima-se mais do espírito do romance: uma reflexão amarga sobre desigualdade, espectáculo mediático e desumanização. É ação, sim — e muita — mas também é comentário social. É entretenimento de grande ecrã, mas com farpas afiadas.
E, de certa forma, chega num momento perfeito: numa era de reality shows extremos, algoritmos vorazes e polémicas transformadas em trending topics, The Running Man soa menos a ficção científica e mais a aviso.
🎬 THE RUNNING MAN — já em exibição em todas as salas portuguesas
📅 Estreia: 13 de novembro 2025
📽️ IMAX | 4DX | D-BOX | ScreenX | Dolby
🎥 Realização: Edgar Wright
⭐ Elenco: Glen Powell, Josh Brolin, Lee Pace, Emilia Jones, Michael Cera, Colman Domingo, Katy O’Brian
O último relatório com números de subscrições antes de uma nova era
A Disney prepara-se para divulgar os seus resultados trimestrais esta quinta-feira, antes da abertura dos mercados, num momento decisivo para a estratégia de streaming e para a confiança de Wall Street no império mediático da empresa. É um relatório particularmente simbólico: será a última vez que a Disney revela o número de subscritores dos seus serviços, incluindo Disney+, Hulu e a nova app de streaming da ESPN.
Tal como a Netflix fez recentemente, a empresa vai deixar de divulgar dois dos indicadores mais acompanhados pelos analistas:
total de subscritores,
ARPU (receita média por utilizador).
Uma mudança que pode indicar um virar de página no sector — e que promete gerar debate.
O que Wall Street espera ver
De acordo com estimativas da LSEG, o mercado antecipa:
Lucro por ação: 1,05 dólares
Receitas totais: 22,75 mil milhões de dólares
Mas, mais do que os números, os investidores querem perceber o rumo das divisões de media — tanto o streaming, onde cresce a expectativa, como os canais tradicionais, onde se acumulam sinais de erosão.
Em agosto, a Disney tinha:
128 milhões de subscritores Disney+,
55,5 milhões na Hulu,
e lançou a nova app ESPN direct-to-consumer, que agrega toda a programação dos canais da marca.
O relatório de amanhã revelará se estes números foram afetados pelo episódio mais polémico da empresa nos últimos meses: a suspensão temporária do Jimmy Kimmel Live! em setembro, na sequência de comentários do apresentador sobre Charlie Kirk e o movimento MAGA de Donald Trump.
Vários meios norte-americanos reportaram uma fuga significativa de subscritores durante esse período.
A pressão sobre o streaming… e o declínio inevitável da televisão tradicional
O streaming continua a ser a estrela — e a dor de cabeça — das contas da Disney. A empresa voltou a aumentar preços em outubro, numa tentativa de reduzir perdas operacionais e aproximar os serviços do ponto de equilíbrio.
Mas os analistas também estão atentos ao desempenho dos canais tradicionais: ABC, ESPN, FX e restantes redes lineares. A indústria tem sofrido quedas acentuadas de receitas publicitárias à medida que o público migra cada vez mais para serviços on demand.
Os resultados de empresas vizinhas, como a Warner Bros. Discovery, reforçam a tendência:
menos assinantes de TV por cabo,
menos receitas de publicidade,
competição feroz do streaming por tempo de ecrã e investimento publicitário.
A Disney já vinha reportando baixas no rendimento operacional e publicidade das redes lineares — e a expectativa é que este trimestre não seja exceção.
Um relatório que redefine prioridades
Este momento marca uma viragem na estratégia da Disney. Ao abandonar métricas como subscritores e ARPU, a empresa quer que o mercado se concentre noutras dimensões:
rentabilidade,
receitas globais,
tempo de visualização,
valor do ecossistema de media,
e sinergias entre streaming, parques temáticos e cinema.
Com a indústria em mutação constante, a apresentação desta quinta-feira será uma leitura fundamental para perceber como a Disney planeia equilibrar o futuro digital com o declínio dos seus pilares históricos.
Prepare-se para embrenhar-se numa espada, numa capa ondulante e numa aventura de honra — porque dia 16 de Novembro, às 20h50, o Canal Cinemundo exibe “Os Três Mosqueteiros”.
Ambientado na França do século XVII, o filme adapta o clássico de Alexandre Dumas e junta-nos a D’Artagnan, o jovem idealista, aos lendários mosqueteiros Athos, Porthos e Aramis, que juraram pelo lema “Um por todos, todos por um”.
Neste momento em que a coroa francesa vacila entre as maquinações do Cardeal Richelieu e os rumores de traição, o jovem D’Artagnan chega a Paris e junta-se aos mosqueteiros para defender o rei e o reino — mas percebe rapidamente que a espada nem sempre é suficiente quando os verdadeiros inimigos se escondem nas sombras.
Por que vale ver esta versão?
Esta adaptação distingue-se por uma envolvência visual cuidada e um sentimento renovado de aventura. O elenco franco-belga, a acção vigorosa e as intrigas de corte conferem à história de capa e espada uma nova vitalidade. Mesmo que conheça a trama, há algo de sempre fresco em ver camaradagem, honra e duelos ao luar — e, no canal Cinemundo, este momento ganha proporções especiais.
Para quem é?
Se procura um filme que combine bravura, cavalaria, fios de prata entre espadas e promessas de lealdade, esta é uma escolha certeira. Perfeito para uma noite de domingo com espírito de aventura e nostalgia clássica — com o conforto de assistir em casa, mas com o sabor da grande sala.
Com este clássico em exibição, o cinema de outrora encontra-se com o prazer simples de uma grande narrativa — e, com capa, espada e coração, a aventura promete.
A atriz britânica aborda os bastidores de um tema sensível
Florence Pugh, uma das intérpretes mais talentosas e respeitadas da nova geração, abriu o jogo sobre um tema que continua a gerar debate em Hollywood: o papel dos coordenadores de intimidade.
Durante uma conversa franca no The Louis Theroux Podcast, a actriz nomeada ao Óscar partilhou as suas experiências com estes profissionais, criados para assegurar que as cenas de sexo e nudez sejam filmadas com segurança, respeito e consentimento.
“Já trabalhei com bons e maus”, admitiu Pugh. “O objectivo não é complicar, nem tornar tudo mais estranho — é garantir que todos se sintam protegidos. Mas o trabalho ainda está a encontrar o seu equilíbrio.”
Entre o apoio e o desconforto
Desde a sua criação, o papel do coordenador de intimidade tem dividido opiniões. Algumas estrelas, como Jennifer Lawrence e Gwyneth Paltrow, afirmaram recentemente não sentir necessidade de recorrer a esses profissionais. Lawrence revelou que não teve um coordenador em Die My Love, explicando: “Senti-me segura com o Rob [Pattinson]. Ele não é nada inconveniente.”
Já Paltrow contou que, durante as filmagens de Marty Supreme (ao lado de Timothée Chalamet), pediu ao coordenador que “se afastasse um pouco”:
“Se alguém me disser ‘agora ele vai pôr a mão aqui’, eu sinto-me limitada como artista. Prefiro que a cena flua com naturalidade.”
Florence Pugh, por sua vez, reconheceu que o papel ainda se está a definir — e que, como em qualquer função, há profissionais exemplares e outros que “só atrapalham”.
“Tive uma má experiência, em que a pessoa tornou tudo tão estranho e tão desconfortável que deixou de ser útil”, confessou. “Parecia apenas querer fazer parte do set, sem perceber o impacto da sua presença.”
A importância de encontrar “a dança da intimidade”
Apesar das críticas, Pugh defende que os bons coordenadores são essenciais — não apenas pela segurança, mas pelo valor artístico que acrescentam à narrativa.
“Trabalhar com excelentes coordenadores ensinou-me que uma cena íntima pode ter camadas e significado”, explicou. “Não se trata só de mostrar sexo — é descobrir que tipo de intimidade existe entre aquelas pessoas, quanto tempo estão juntas, o que sentem. É uma dança, não uma coreografia mecânica.”
A actriz sublinha que essa abordagem permite humanizar o erotismo e proteger os intérpretes, especialmente as mulheres, num meio onde o poder e o abuso de autoridade ainda são temas delicados.
“Ser mulher no set é mais complicado”
Florence Pugh também abordou o peso de ser mulher em filmagens emocionalmente intensas, lembrando um episódio em que teve de filmar repetidamente uma cena de choro exaustiva.
“Fiz a cena seis vezes, sempre a começar do zero, e o realizador queria mais uma. Eu estava de rastos, mas não consegui dizer que não”, contou.
Foi o colega masculino quem interveio, pedindo ao realizador que parasse.
“Ele disse: ‘Não a faças passar por isto outra vez, já tens o que precisas.’ Nesse momento percebi: eu nunca teria dito isso, porque seria mal recebida.”
A actriz reconhece que a cultura do silêncio ainda pesa sobre as mulheres, que temem ser vistas como “difíceis” ou “problemáticas” se impuserem limites. É precisamente aí que, segundo Pugh, os coordenadores de intimidade podem ser cruciais — funcionando como mediadores de respeito num ambiente onde a vulnerabilidade é inevitável.
Uma voz necessária no debate
Com apenas 28 anos, Florence Pugh já trabalhou com alguns dos realizadores mais exigentes de Hollywood — de Greta Gerwig (Little Women, Barbie) a Christopher Nolan (Oppenheimer). E o seu testemunho vem reforçar uma ideia que a indústria ainda aprende a aceitar: filmar cenas de intimidade requer tanto rigor técnico como qualquer outra sequência dramática.
Pugh encerrou a entrevista com uma nota de otimismo:
“Agora que trabalhei com coordenadores realmente bons, percebo o que tem faltado a muitas cenas — o respeito pela história e pelas pessoas que a contam.”
Uma carreira feita de coragem, entrega e intensidade
O cinema norte-americano despede-se de uma das suas intérpretes mais genuínas e imprevisíveis. Sally Kirkland, nome maior do teatro e do cinema independente, morreu aos 84 anos num hospital de cuidados paliativos em Palm Springs. A actriz, que começou como modelo antes de se tornar presença constante nos palcos e ecrãs, deixa uma filmografia marcada pela ousadia e pela vulnerabilidade — duas qualidades que definiam não apenas a sua arte, mas a própria mulher.
A notícia foi confirmada pelo seu representante, Michael Greene, que revelou que Kirkland enfrentava sérios problemas de saúde desde o início do outono, após fraturas múltiplas no pescoço, punho e anca, agravadas por infeções. Amigos e colegas chegaram a criar uma campanha de apoio para custear os tratamentos médicos — um gesto que espelha o carinho e respeito que inspirava na comunidade artística.
Nascida em Nova Iorque, filha de uma editora de moda da Vogue e da Life Magazine, Sally Kirkland começou a posar aos cinco anos de idade, antes de se formar na American Academy of Dramatic Arts. Foi aluna de Lee Strasberg e Philip Burton, mestres do method acting, e cedo revelou uma entrega sem limites.
A sua carreira começou no teatro experimental dos anos 60, com destaque para a performance ousada em Sweet Eros, de Terrence McNally, onde apareceu totalmente nua — um gesto que a imprensa da época descreveu como “a fronteira entre arte e provocação”.
Em 1964, participou no filme de Andy Warhol 13 Most Beautiful Women, e nos anos seguintes tornou-se presença habitual nas produções off-Broadway. Encenou Shakespeare, interpretando Helena em Sonho de uma Noite de Verão e Miranda em A Tempestade, defendendo até ao fim da vida que “ninguém pode chamar-se actor sem ter passado por Shakespeare”.
“Anna”: o papel que lhe deu o mundo
Depois de dezenas de papéis secundários em filmes como The Way We Were (com Barbra Streisand), The Sting (com Paul Newman e Robert Redford) e JFK (de Oliver Stone), Sally Kirkland teve, finalmente, o seu grande momento com “Anna” (1987), de Yurek Bogayevicz.
No papel de uma actriz checa em declínio que tenta reconstruir a vida nos Estados Unidos, Kirkland ofereceu uma das interpretações mais intensas e comoventes da década, conquistando o Globo de Ouro de Melhor Actriz e uma nomeação ao Óscar.
A crítica do Los Angeles Times foi peremptória:
“Kirkland é uma dessas intérpretes cujo talento era um segredo aberto entre actores, mas um mistério para o público. Com esta performance incandescente, não haverá mais dúvidas sobre quem ela é.”
Na cerimónia dos Óscares, competiu lado a lado com Cher (Moonstruck), Glenn Close (Fatal Attraction), Holly Hunter(Broadcast News) e Meryl Streep (Ironweed) — uma prova do respeito conquistado pela sua entrega absoluta à arte.
Um percurso entre o cinema, a televisão e o activismo
Ao longo das décadas seguintes, Kirkland manteve uma carreira prolífica, alternando entre cinema e televisão. Participou em séries como Criminal Minds, Roseanne e Charlie’s Angels, e em filmes como Revenge (com Kevin Costner), EDtv (de Ron Howard), Bruce Almighty (com Jim Carrey) e Heatwave (com Cicely Tyson).
Mas a actriz também ficou conhecida pelo seu espírito livre e compromisso humanitário. Foi voluntária junto de pessoas com SIDA, cancro e doenças cardíacas, colaborou com a Cruz Vermelha Americana no apoio a sem-abrigo e participou em telemaratonas para hospícios. Também foi uma defensora ativa de prisioneiros e jovens em risco, uma faceta menos visível mas profundamente admirada.
Kirkland era adepta de movimentos espirituais alternativos, ensinando seminários de transformação pessoal e associando-se à Church of the Movement of Spiritual Inner Awareness, dedicada à transcendência da alma.
A actriz que nunca se escondeu
Sally Kirkland nunca temeu o risco. Do teatro experimental à nudez em protestos e causas sociais, o seu corpo e a sua voz foram sempre instrumentos de expressão, arte e convicção. Time Magazine chegou a chamá-la, com humor, “a Isadora Duncan do nudismo teatral”, um título que ela aceitava com orgulho.
A sua carreira teve altos e baixos — chegou a ser alvo de chacota pela participação em Futz (1969), um filme tão desastroso que um crítico do The Guardian o chamou “o pior filme que já vi”. Mas nem isso abalou o espírito da actriz. Kirkland continuou a trabalhar, a ensinar e a inspirar.
Hoje, ao recordar Sally Kirkland, o que fica não é a nudez nem o escândalo — é a autenticidade feroz de uma mulher que viveu a arte como uma forma de libertação.
Preparem as raquetas e os corações cinéfilos: a A24 acaba de lançar o novo trailer de Marty Supreme, a aguardada comédia dramática de Josh Safdie que promete transformar Timothée Chalamet num dos grandes favoritos à próxima temporada de prémios. O actor interpreta Marty Mauser, um prodígio do ténis de mesa nos anos 50 que luta para ser levado a sério num desporto dominado por egos, extravagância e obsessão pela vitória.
Inspirado livremente na vida real do lendário jogador Marty Reisman, vencedor de cinco medalhas em campeonatos mundiais, o filme apresenta-se como uma fábula retro sobre ambição, talento e o preço da glória — tudo embrulhado na energia crua e nervosa que se tornou marca registada de Safdie desde Uncut Gems.
Marty Supreme marca o regresso de Josh Safdie à realização a solo — o seu primeiro filme sem o irmão Benny desde The Pleasure of Being Robbed (2008). Escrito em parceria com Ronald Bronstein, o projecto conta com uma equipa de peso na produção: Safdie, Bronstein, Eli Bush, Anthony Katagas, Chalamet e o próprio estúdio A24.
O elenco é tão improvável quanto fascinante: Gwyneth Paltrow, Fran Drescher, Tyler, The Creator, Penn Jillette, Odessa A’zion, Kevin O’Leary (de Shark Tank) e até o lendário Abel Ferrara participam nesta mistura vibrante entre sátira desportiva e drama existencial.
Durante uma sessão secreta no Festival de Nova Iorque, em Outubro, o filme recebeu uma ovação de pé, com Chalamet, Safdie e parte do elenco a surgirem de surpresa. Em palco, o actor descreveu a obra como “uma carta de amor a Nova Iorque”, sublinhando o orgulho de estrear o filme na sua cidade natal.
O renascimento de um artista e o prenúncio dos Óscares
Desde a exibição surpresa, a crítica norte-americana não tem poupado elogios. O editor de prémios da Variety, Clayton Davis, afirmou que Marty Supreme pode ser o “spoiler” da temporada:
“Num ano em que quatro filmes já se destacam com mais de dez previsões de nomeações, Marty Supreme surge como o cavalo negro que ninguém esperava — tal como o seu protagonista, um jovem com um sonho em que ninguém acredita e que vai até ao inferno e volta em busca da grandeza.”
Com a performance de Chalamet a ser descrita como “hipnótica, nervosa e vulnerável”, muitos apostam que o actor possa finalmente conquistar o Óscar de Melhor Actor que lhe tem escapado, após indicações por Call Me By Your Name e Dune: Part Two.
Safdie, Chalamet e a estética da intensidade
A junção de Josh Safdie e Timothée Chalamet é uma combinação que faz sentido: ambos são obcecados pela energia do detalhe e pela verdade do caos. Safdie filma a pressão como poucos — basta recordar Uncut Gems e a claustrofobia que o acompanha —, e Chalamet, com a sua fisicalidade nervosa e olhar febril, parece ter encontrado aqui o papel ideal.
Visualmente, o filme promete ser um banquete retro, com estética inspirada em revistas desportivas dos anos 50, trilha sonora jazzística e o habitual grão sujo de 16mm que dá à A24 o seu charme autoral.
Um Natal com cheiro a Óscar
Com estreia marcada para 25 de dezembro, Marty Supreme chega às salas como o presente de Natal mais desejado para os amantes de cinema de autor. A crítica vê nele um concorrente inesperado, a A24 aposta num novo fenómeno, e o público prepara-se para ver Chalamet em modo total: carismático, obsessivo e, como sempre, à beira do colapso.
Se Uncut Gems era o caos urbano e pulsante da Nova Iorque moderna, Marty Supreme é o seu espelho nostálgico — uma história de suor, sonho e redenção em mesa de pingue-pongue.
Como um episódio de ER levou Bruce Wayne à urgência
Antes de ser o galã de Hollywood e o realizador respeitado que hoje todos conhecem, George Clooney era o Dr. Doug Ross da icónica série médica ER – Serviço de Urgência. E foi precisamente um episódio dessa série, segundo o realizador Christopher Chulack, que mudou o rumo da sua carreira — e, involuntariamente, o destino do pior filme de Batman alguma vez feito.
Em entrevista à TV Insider, Chulack revelou que o episódio “Hell and High Water”, emitido em Novembro de 1995, foi o catalisador que levou Clooney a vestir o capuz do Cavaleiro das Trevas. Nesse episódio, o médico Doug Ross protagoniza uma operação de resgate heróica, salvando um rapaz preso num esgoto inundado — uma sequência intensa que captou 45 milhões de espectadores e deixou a América colada ao ecrã.
“No dia seguinte, os presidentes da Warner Bros. Television bateram à porta do camarim do George e disseram-lhe: ‘Vais ser o próximo Batman por causa do heroísmo deste episódio’”, contou Chulack.
Pouco depois, Clooney estava em filmagens para Batman & Robin (1997), realizado por Joel Schumacher e com um elenco estelar: Uma Thurman, Arnold Schwarzenegger, Chris O’Donnell e Alicia Silverstone.
O herói que caiu no ridículo
Mas o sonho depressa se tornou pesadelo. Para os fãs da DC Comics e para a crítica em geral, Batman & Robin foi unanimemente considerado o pior filme de toda a saga Batman — e, inevitavelmente, o pior Batman de sempre.
Com vilões caricatos, frases de antologia (“Everybody chill!”), cores berrantes e fatos anatómicos com mamilos em relevo, o filme foi um fracasso tanto artístico como comercial. Clooney, que herdava o papel após Michael Keaton e Val Kilmer, viu-se transformado num meme cinematográfico antes dos memes existirem.
O próprio actor nunca escondeu o embaraço. Em várias entrevistas, Clooney confessou que rever o filme “ainda dói” e que proibiu a família de o ver — incluindo a mulher, Amal Clooney. “Nunca mostrei Batman & Robin à minha mulher. Quero que continue a respeitar-me”, disse com ironia numa conversa com o Variety.
O resgate da carreira
Apesar do fiasco monumental, Clooney rapidamente fez o que o seu Batman não conseguiu: salvou-se a si próprio. Após o desastre de 1997, o actor afastou-se de blockbusters e mergulhou em projetos mais sérios e pessoais, apostando em papéis exigentes e colaborações com realizadores de peso.
Em Three Kings (1999) e Syriana (2005) mostrou a sua veia dramática; em O Brother, Where Art Thou? (2000) revelou talento cómico; e em Good Night, and Good Luck (2005) e Michael Clayton (2007) consolidou o estatuto de actor e realizador de prestígio.
Hoje, Clooney é sinónimo de elegância, inteligência e filantropia — um dos rostos mais respeitados de Hollywood. Mas, por mais prémios que acumule, o espectro do seu Batman camp e sorridente continuará a persegui-lo.
Entre a dor e a redenção
É curioso pensar que tudo começou com um herói da medicina numa série televisiva e terminou com um super-herói que se tornou piada. Clooney conseguiu redimir-se, mas Batman & Robin permanece como uma cicatriz na sua filmografia — uma ferida antiga que ainda o faz estremecer sempre que alguém menciona “mamilos no fato”.
Hollywood nunca dorme — e quando o drama não vem do grande ecrã, vem das redes sociais. Desta vez, o palco da discórdia chama-se Christy, o novo biopic sobre a lendária pugilista Christy Martin, e as protagonistas do combate fora do ringue são Ruby Rose e Sydney Sweeney. A actriz australiana, conhecida por Orange Is the New Black, lançou farpas públicas a Sweeney, acusando-a de ter “arruinado o filme” e de transformar uma história inspiradora numa oportunidade desperdiçada.
A faísca acendeu-se quando Christy estreou nos cinemas, arrecadando apenas 1,3 milhões de dólares na estreia americana — um resultado decepcionante para um projecto que prometia impacto emocional e visibilidade para o boxe feminino. Sweeney interpreta Christy Martin, figura histórica que, nos anos 90, quebrou barreiras num desporto dominado por homens e cuja vida pessoal foi marcada por coragem, violência e superação.
Na terça-feira, Ruby Rose utilizou a rede Threads para desabafar a sua frustração com o filme e com a actriz principal. No texto, revelou ter estado originalmente ligada ao projecto, quando este ainda estava em desenvolvimento:
“O guião original de Christy Martin era incrível. Mudava vidas. Eu estava ligada para interpretar a Cherry — era assim que chamávamos a Christy. A maioria de nós era gay, e tínhamos ligação verdadeira com a história. Foi isso que me manteve na representação.”
Rose criticou abertamente o rumo que o filme tomou e o que considera ter sido uma falta de autenticidade na escolha do elenco, insinuando que Sweeney não teria ligação emocional nem compreensão suficiente do universo retratado:
“As pessoas não querem ver alguém que nos despreza a fingir ser um de nós. És uma cretina e arruinaste o filme. Ponto final. Christy merecia melhor.”
Sydney Sweeney responde com serenidade
As declarações de Rose surgem na sequência de uma publicação de Sydney Sweeney no Instagram, onde a actriz procurou reagir à fraca performance comercial de Christy. Num tom diplomático, Sweeney agradeceu aos fãs pelo apoio e afirmou orgulhar-se da mensagem do filme:
“Nem sempre fazemos arte pelos números. Fazemo-la pelo impacto.”
Mas as palavras não bastaram para conter a onda de críticas — especialmente vindas de quem, como Ruby Rose, defende que histórias queer ou de minorias devem ser contadas por quem vive essas realidades.
A actriz australiana reforçou ainda que o filme perdeu a “voz autêntica” que o tornava especial e lamentou ver uma oportunidade desperdiçada de representar uma mulher complexa e inspiradora como Christy Martin com a verdade que ela merecia.
Um debate que vai além de um filme
A controvérsia reacendeu um debate antigo em Hollywood: quem tem o direito de contar certas histórias? Será a interpretação uma questão de talento e empatia ou de representatividade real?
Enquanto Christy enfrenta críticas mornas e resultados de bilheteira abaixo do esperado, Ruby Rose e Sydney Sweeney tornam-se, involuntariamente, símbolos de uma discussão maior sobre autenticidade, identidade e poder criativo na indústria cinematográfica.
No fim, resta uma certeza: mesmo longe do ringue, as lutas de Christy Martin continuam — agora no coração de Hollywood.
A eterna estrela de Hollywood lidera um elenco de luxo numa história sobre o cansaço das mães no Natal — e a deliciosa liberdade de simplesmente… desaparecer.
Preparem-se para rir, identificar-se e talvez soltar uma lágrima: Michelle Pfeiffer está de volta em grande forma na nova comédia natalícia da Prime Video, intitulada Oh. What. Fun.. O filme, realizado por Michael Showalter (The Big Sick, The Eyes of Tammy Faye), promete ser o retrato hilariante — e surpreendentemente honesto — do que acontece quando a “mãe perfeita” decide tirar férias do caos natalício.
Com estreia marcada para 3 de dezembro, a produção reúne um elenco impressionante: Chloë Grace Moretz, Danielle Brooks, Denis Leary, Dominic Sessa, Havana Rose Liu, Maude Apatow, Eva Longoria, Jason Schwartzman, Devery Jacobs e Joan Chen.
Quando a supermãe diz “basta” 🎄
Pfeiffer interpreta Claire Clauster, a matriarca de uma família numerosa que, ano após ano, transforma o Natal num verdadeiro espetáculo de organização e perfeição. Das bolachas decoradas à mão às pilhas de presentes impecavelmente embrulhados, Claire é o coração e a alma das festividades — até que, um dia, ninguém repara que ela desapareceu.
O enredo dá uma reviravolta deliciosa quando, esgotada e esquecida, Claire decide fugir da rotina familiar e embarcar numa aventura natalícia só sua — sem filhos, sem listas de tarefas e, sobretudo, sem espírito de sacrifício. Enquanto a família entra em pânico e tenta encontrá-la, Claire redescobre a alegria de viver… e o verdadeiro significado do Natal, longe da exaustão e da obrigação.
Uma sátira doce sobre o Natal moderno
A história, coescrita por Showalter e Chandler Baker, mistura humor, ternura e crítica social num tom que lembra clássicos como A Christmas Story e Bad Moms. Tal como Ralphie dizia que a mãe “não tem uma refeição quente há quinze anos”, Oh. What. Fun. questiona quem é que realmente faz a magia natalícia — e porque é que o Pai Natal recebe todo o crédito.
A julgar pelo trailer, o filme oferece uma boa dose de comédia de costumes, com diálogos espirituosos, ritmo acelerado e momentos de puro caos familiar. Pfeiffer — numa performance carismática e irónica — assume o centro da ação, mostrando o que acontece quando a mulher que sempre cuidou de todos decide, pela primeira vez, cuidar de si.
Michelle Pfeiffer em modo “grinch libertador”
A atriz, que nos últimos anos tem alternado entre dramas e papéis secundários, parece divertir-se imenso neste regresso à comédia. A crítica já aponta Oh. What. Fun. como uma das apostas mais promissoras da temporada de Natal, pela sua combinação de humor afiado, energia familiar e uma mensagem reconfortante sobre amor-próprio e equilíbrio.
No papel de Claire, Pfeiffer transita entre o riso e a ternura com a elegância que a tornou uma das intérpretes mais queridas de Hollywood — e o resultado promete aquecer corações (e provocar gargalhadas) em igual medida.
Onde e quando ver
Oh. What. Fun. estreia a 3 de dezembro de 2025 na Prime Video, em todo o mundo, e deverá tornar-se uma das grandes escolhas para a maratona natalícia deste ano.
Se há lição que este filme nos deixa é simples: o Natal não acontece por magia — acontece porque há sempre uma mãe a garantir que tudo corre bem.
Realizado por Olivier Assayas, o novo drama político que conquistou Veneza chega carregado de tensão, intriga e poder — com um elenco de luxo liderado por Jude Law e Paul Dano.
O realizador francês Olivier Assayas, conhecido por obras como Personal Shopper e Carlos, regressa com um dos filmes políticos mais aguardados do ano: “The Wizard of the Kremlin”, uma poderosa incursão nos bastidores do poder russo e na ascensão de Vladimir Putin. O filme, que recebeu uma ovação de 12 minutos no Festival de Veneza, promete ser um dos grandes destaques da temporada cinematográfica europeia.
Inspirado no romance homónimo de Giuliano da Empoli, vencedor do Grande Prémio da Academia Francesa, o argumento foi adaptado por Assayas em parceria com o escritor e argumentista Emmanuel Carrère. O resultado é uma obra ambiciosa que mistura ficção e realidade, mergulhando nas entranhas do Kremlin durante o caótico período pós-soviético.
No centro da narrativa está Paul Dano, que interpreta Vadim Baranov, um “spin doctor” — conselheiro político e manipulador de imagem — inspirado livremente em Vladislav Surkov, o enigmático estratega russo conhecido por ser o arquiteto da propaganda moderna do Kremlin.
Ao seu lado, Jude Law encarna Vladimir Putin, retratado inicialmente como um agente da KGB frio e calculista, cuja sede de poder o transforma num líder implacável. O filme acompanha, ao longo de duas décadas, a forma como Putin ascende e consolida o seu domínio, manipula aliados e destrói adversários, num jogo político que mistura lealdade, medo e sedução.
O trailer revela também Alicia Vikander como Ksenia, a esposa de Baranov, cuja relação conjugal é corroída pelo peso da ambição e do segredo; Tom Sturridge no papel de um banqueiro e oligarca inspirado em Mikhail Khodorkovsky; Will Keen como o magnata Boris Berezovsky, morto em exílio em Londres em circunstâncias suspeitas; e Jeffrey Wright como um jornalista americano em Moscovo, confidente e testemunha de um regime em mutação.
Política, manipulação e o espelho do Ocidente
Mais do que um retrato biográfico de Putin, The Wizard of the Kremlin é um estudo sobre o poder e a ilusão, um retrato do nascimento de um sistema político sustentado pela desinformação e pelo controlo narrativo — um tema particularmente atual.
O crítico Damon Wise, da Deadline, descreveu o filme como “um aviso ao Ocidente sobre como o mundo chegou a este estado de coisas”, sublinhando a forma como Assayas transforma os bastidores do Kremlin num labirinto psicológico e moral, onde cada gesto político é também um ato de teatro.
Visualmente, o filme mantém a assinatura estética do realizador: planos longos, atmosfera densa e fotografia fria, que sublinha a distância emocional e o peso do poder. A banda sonora minimalista, aliada à montagem precisa, reforça o tom inquietante de um país a moldar o seu próprio mito.
Um sucesso de crítica e festivais
Após a sua estreia triunfal em Veneza, onde foi recebido com aplausos prolongados, The Wizard of the Kremlin percorreu os festivais de Toronto, San Sebastián e Londres, consolidando-se como uma das produções europeias mais relevantes de 2025. O filme seguirá em dezembro para o Red Sea Film Festival, no Médio Oriente, antes da estreia comercial em França pela Gaumont, responsável também pela distribuição internacional.
Produzido por Olivier Delbosc (Curiosa Films) e Sidonie Dumas (Gaumont), o projeto contou com a participação de France Télévisions, Disney+ e France 2 Cinéma, confirmando a aposta francesa em narrativas políticas de alcance global.
Com Paul Dano e Jude Law em estado de graça, e uma abordagem que alia realismo e introspeção, The Wizard of the Kremlin promete tornar-se uma das obras cinematográficas mais comentadas do ano — um retrato inquietante de como o poder absoluto nasce, cresce e se perpetua.
A nova temporada da série da Netflix surpreende ao recuperar o espírito dos livros — e ao restaurar a amizade fraterna entre Geralt e Jaskier, perdida nas interpretações anteriores.
Quando Henry Cavill anunciou a sua saída de The Witcher, em 2022, os fãs do bruxo mais famoso da fantasia moderna entraram em pânico. Afinal, Cavill era Geralt de Rívia — a voz grave, o olhar gélido, a presença imponente. Muitos consideraram impossível substituí-lo. Mas eis que chega Liam Hemsworth, e o impensável acontece: o público está… a gostar.
A quarta temporada, agora disponível na Netflix, trouxe não apenas um novo rosto ao caçador de monstros, mas também uma mudança de alma. O Geralt de Hemsworth é mais humano, mais empático — e, sobretudo, mais próximo de Jaskier, o trovador que, nos livros de Andrzej Sapkowski, é o seu companheiro inseparável e amigo leal.
Um laço perdido (e agora reencontrado)
Durante as três primeiras temporadas, a relação entre Geralt (Cavill) e Jaskier (Joey Batey) foi marcada por sarcasmo, impaciência e distância emocional. Os fãs que conhecem os contos originais queixavam-se de que a série tinha transformado uma amizade profunda numa espécie de comédia de insultos.
Mas tudo mudou com a chegada de Hemsworth. Em The Witcher 4, a dinâmica entre os dois personagens foi completamente reformulada: Geralt mostra preocupação genuína, ajuda o amigo em momentos difíceis e até partilha diálogos de humor e ternura que evocam a cumplicidade dos livros.
Nas redes sociais, os elogios multiplicam-se. Muitos fãs afirmam que Hemsworth “devolveu o coração” à série, e que a ligação entre os dois agora “finalmente parece autêntica”.
Henry Cavill e o seu Geralt reservado
Curiosamente, Henry Cavill já tinha explicado, em 2019, porque optou por uma abordagem mais fria da relação entre Geralt e Jaskier. Numa entrevista à The Hollywood Reporter, o ator revelou que a estrutura narrativa da série não lhe deu espaço para desenvolver essa amizade logo de início.
Nos livros, Geralt e Jaskier partilham um laço fraternal, feito de confiança e carinho — mas Cavill afirmou que, para o ecrã, era mais interessante explorar o contraste entre ambos. “Se jogássemos a amizade de forma direta, perderíamos a tensão e o humor que surgem das diferenças”, explicou.
Ainda assim, o ator deixou claro que o seu Geralt “se importava profundamente com Jaskier”, mesmo que o mostrasse apenas de forma subtil. A sua interpretação era de um homem contido, marcado pelo sofrimento e pela solidão — o que fazia sentido para a fase da jornada em que o personagem se encontrava.
Hemsworth e Joey Batey: amizade dentro e fora do ecrã
Se há química entre Geralt e Jaskier, isso deve-se também à amizade real entre Liam Hemsworth e Joey Batey. O ator britânico revelou à SFX Magazine que todo o elenco fez questão de acolher calorosamente o novo protagonista, convidando-o para jantares, conversas e até uma ida ao pub — tradição sagrada entre bruxos e bardos, ao que parece.
“Quando alguém novo chega, o nosso trabalho é fazê-lo sentir-se parte da família”, contou Batey. “Com o Liam, foi natural. Dissemo-lhe: ‘Vem daí, és dos nossos.’”
Esse espírito de camaradagem acabou por transparecer no ecrã. O novo Geralt não é apenas um guerreiro implacável; é um companheiro leal e protetor, alguém que finalmente permite que a sua humanidade brilhe entre monstros, magia e tragédias.
A substituição de Henry Cavill era um risco tremendo, mas a Netflix parece ter acertado na escolha. Hemsworth não tenta imitar o seu antecessor — em vez disso, traz leveza, empatia e uma energia renovada ao personagem.
O resultado é uma temporada que recupera a essência dos livros: a ironia melancólica, a amizade improvável, o humor seco e o eterno dilema moral de Geralt de Rívia. Mesmo que alguns espectadores ainda sintam falta do magnetismo de Cavill, a maioria concorda que The Witcher 4 marca um regresso às origens — e que a nova química entre Geralt e Jaskier é o coração pulsante dessa mudança.
Afinal, entre monstros e maldições, é na amizade que reside a verdadeira magia.
Antes de ser um ícone do cinema de ação, Stallone acreditou que Rambo: First Blood arruinaria a sua carreira. O que era para ser um desastre acabou por definir toda uma era.
Hoje é difícil imaginar Sylvester Stallone sem o suor, o sangue e a bandana vermelha de John Rambo. Mas, em 1982, o ator quase deitou fora a película que o transformaria num mito. First Blood, o filme que deu início à saga Rambo, foi durante meses o seu maior pesadelo — a ponto de Stallone tentar comprar e destruir as cópias originais antes da estreia.
O filme, realizado por Ted Kotcheff e baseado no romance de David Morrell, apresentava Rambo como um veterano da Guerra do Vietname marcado por traumas, rejeitado pela sociedade e perseguido por uma pequena cidade americana. No entanto, o primeiro corte tinha três horas de duração e, segundo o próprio Stallone, era “um desastre completo”.
Numa entrevista a Howard Stern em 2005, o ator confessou que, ao ver a montagem inicial, sentiu-se fisicamente mal: “Era um assassínio de carreira. Fiquei uma hora e meia a correr pela floresta a gritar frases horríveis. O meu agente e eu queríamos queimar o filme.”
Do fracasso anunciado ao ícone do cinema
A versão original de First Blood continha tudo o que um bom filme de ação não deve ter: diálogos ridículos, cenas intermináveis e um protagonista tagarela. Stallone recordou linhas absurdas como “take that, you mouse-munching mother”, após abater uma coruja, ou “I’m easy walker”, numa tentativa falhada de trocadilho com Easy Rider.
Desesperado para salvar o projeto, Stallone convenceu os produtores a aplicar o truque mais antigo de Hollywood: cortar tudo o que era desnecessário — sobretudo o diálogo do herói. O resultado foi transformador. O novo Rambo tornou-se silencioso, introspectivo e letal, uma figura trágica em vez de caricatural.
A decisão deu frutos. Rambo: First Blood estreou e foi um sucesso imediato, elogiado pela crítica e pelo público como um dos filmes de ação mais inteligentes da década de 80. Em vez de glorificar a violência, o filme explorava as feridas psicológicas dos veteranos do Vietname e a alienação de um homem que já não encontrava lugar na sociedade que servira.
Um grito contra o esquecimento dos veteranos
O impacto de First Blood foi profundo. Ao contrário das sequelas, que se tornaram progressivamente exageradas, o original é um retrato cru de stress pós-traumático (PTSD) e da indiferença dos Estados Unidos perante os seus ex-combatentes. A cena final, onde Rambo desaba emocionalmente nos braços do coronel Trautman (Richard Crenna), é uma das mais intensas da carreira de Stallone — e uma das raras vezes em que um filme de ação dos anos 80 ousou mostrar vulnerabilidade masculina.
A tensão entre Rambo e o xerife Teasle (Brian Dennehy) funciona como metáfora para o conflito interno dos próprios EUA: um país dividido entre orgulho militar e culpa social. Cada tentativa de capturar Rambo gera apenas mais caos, até que o espectador percebe que o verdadeiro inimigo não é o soldado traumatizado, mas a sociedade que o rejeitou.
O nascimento de uma lenda de ação
Após First Blood, Stallone nunca mais foi o mesmo. O sucesso catapultou-o de estrela de Rocky a ícone global da ação, ao lado de Arnold Schwarzenegger, Clint Eastwood e Bruce Willis. O papel redefiniu o herói do cinema americano: musculado, determinado, silencioso e imortal.
As sequelas — mais barulhentas e patrióticas — acabaram por transformar Rambo numa caricatura da própria América dos anos Reagan. Mas o primeiro filme manteve-se intocável, um clássico com alma, onde Stallone prova que a força de um herói está no silêncio e não nas explosões.
O episódio de First Blood revela uma faceta muitas vezes esquecida de Stallone: o artista exigente e autocrítico. Longe de ser apenas um corpo de ginásio, o ator é também argumentista, realizador e editor, responsável por moldar as suas próprias personagens. Assim como fez em Rocky, Stallone reescreveu a sua própria história — literalmente.
Hoje, Rambo: First Blood é visto como um dos pilares do cinema de ação moderno, e a personagem tornou-se sinónimo de resistência e dor. Ironicamente, o filme que Stallone quis destruir acabou por o imortalizar.
A saída de Tim Davie e Deborah Turness mergulha a BBC na maior polémica dos últimos anos, após acusações de manipulação numa reportagem sobre o discurso de Trump.
A BBC vive um dos seus momentos mais conturbados em décadas. O diretor-geral da estação pública britânica, Tim Davie, e a presidente executiva da BBC News, Deborah Turness, apresentaram as suas demissões este domingo, na sequência de uma polémica reportagem que visava o então presidente norte-americano, Donald Trump.
O caso teve origem num episódio do programa de investigação Panorama, transmitido em outubro de 2024, que analisava o impacto político de Trump nas vésperas das eleições presidenciais norte-americanas. A peça foi acusada de apresentar de forma enganosa um discurso do ex-presidente, datado de 6 de janeiro de 2021 — o mesmo dia em que o Capitólio foi invadido por centenas de apoiantes trumpistas.
Segundo o jornal The Daily Telegraph, a BBC terá editado excertos do discurso, misturando frases distintas e insinuando que Trump teria instigado os seus apoiantes a “lutar como demónios” ao marchar para o Capitólio. Contudo, o contexto original das declarações mostrava que o ex-presidente se referia a “encorajar os corajosos senadores e representantes no Congresso”. A confusão gerou um escândalo mediático de grandes proporções, com acusações de manipulação e enviesamento político.
O presidente da BBC, Samir Shah, descreveu a situação como “um dia triste para a BBC”, elogiando Davie como “um excelente diretor-geral nos últimos cinco anos”. Ainda assim, admitiu que a pressão pública e política tornou insustentável a sua permanência.
Em mensagem interna aos colaboradores, Tim Davie reconheceu que “erros foram cometidos” e que “o debate atual em torno da informação da BBC contribuiu para esta decisão”. Já Deborah Turness, na carta que acompanhou a sua demissão, afirmou que a controvérsia atingiu um ponto que “prejudica a integridade e reputação da BBC News”.
A ministra britânica da Cultura, Lisa Nandy, classificou o caso como “extremamente grave” e anunciou que Samir Shah será ouvido por uma comissão parlamentar. Em declarações à BBC News, Nandy foi além do caso específico, afirmando que “a BBC enfrenta uma série de alegações muito sérias, incluindo o risco de preconceito sistémico nas suas decisões editoriais”.
Acusações da Casa Branca e novo caso Ofcom
A polémica não se ficou pelo Reino Unido. Karoline Leavitt, porta-voz da Casa Branca, reagiu duramente às revelações, considerando tratar-se de uma montagem “deliberadamente desonesta” e de “informações 100% falsas”. O episódio volta a alimentar a narrativa de Donald Trump de que os grandes meios de comunicação internacionais “têm uma agenda contra ele”.
Este escândalo surge semanas depois de a Ofcom, o regulador britânico dos meios de comunicação, ter censurado a BBC por outra reportagem — desta vez sobre Gaza —, na qual o narrador era filho de um dirigente do Hamas, facto que não foi revelado aos espectadores. A Ofcom considerou o caso uma “violação das regras de difusão” e uma “fonte substancial de engano”.
As demissões de Davie e Turness representam um duro golpe para a credibilidade da estação pública britânica, num momento em que enfrenta concorrência feroz de plataformas digitais e críticas de parcialidade vindas tanto da direita como da esquerda.
A sucessão na liderança promete ser complexa. Internamente, há vozes que pedem uma reforma profunda das práticas editoriais; externamente, há quem veja esta crise como mais um episódio da longa batalha pela independência e neutralidade do serviço público britânico.
Uma coisa é certa: a BBC, instituição centenária e símbolo do jornalismo imparcial, entra agora numa nova era de escrutínio — talvez a mais exigente da sua história recente.
A Lionsgate lança finalmente nos Estados Unidos a versão completa de Kill Bill, com mais de quatro horas e novas sequências animadas criadas pela Production I.G. — resta saber se Portugal terá a mesma sorte.
Mais de vinte anos depois de Kill Bill: Volume 1 ter estreado nos cinemas, Quentin Tarantino vai finalmente mostrar ao público a sua versão definitiva da saga de vingança que marcou o início do milénio. A Lionsgate revelou o primeiro trailer de Kill Bill: The Whole Bloody Affair, a montagem integral que junta os dois filmes — Volume 1 (2003) e Volume 2(2004) — num épico de 247 minutos, com direito a cenas inéditas e nova animação japonesa.
A estreia nos Estados Unidos está marcada para 5 de Dezembro, em formato limitado de cinema, com exibições tanto em 35 mm como em 70 mm, algo raro nos dias de hoje e uma homenagem à paixão de Tarantino pelo cinema tradicional.
Esta montagem — que o realizador já exibira pontualmente em Cannes, em 2006, e no seu próprio cinema New Beverly, em Los Angeles — inclui sete minutos de animação totalmente inéditos, produzidos pelo aclamado estúdio japonês Production I.G, responsável por obras como Ghost in the Shell e Miss Hokusai.
As novas sequências expandem o violento capítulo “The Origin of O-Ren”, mostrando mais detalhes sobre o passado trágico da assassina interpretada por Lucy Liu. O design dos personagens ficou novamente a cargo de Katsuhito Ishii e Shōu Tajima, que também trabalharam na animação original de 2003.
O resultado promete uma experiência mais fluida e completa, sem interrupções entre volumes e com a intensidade visual e rítmica que Tarantino sempre idealizou — sangue, katanas e close-ups à moda do spaghetti western.
🎬 Um regresso sangrento às origens
The Whole Bloody Affair é, em essência, o director’s cut definitivo de Kill Bill, pensado como uma única história desde o início da produção. A separação em dois volumes foi uma exigência comercial da Miramax, na altura. Agora, Tarantino cumpre o seu desejo de mostrar a história completa da “Noiva” (The Bride), vivida por Uma Thurman, tal como a concebeu: uma tragédia de vingança contada em capítulos, com influências do cinema japonês, do western italiano e do kung fu clássico.
🇵🇹 E em Portugal?
Até ao momento, não há confirmação de estreia portuguesa desta edição integral. A Lionsgate anunciou apenas o lançamento em território norte-americano, e não é certo que alguma distribuidora europeia venha a exibir o filme nas salas nacionais.
Contudo, dado o interesse constante pela obra de Tarantino e o sucesso que as versões restauradas dos seus filmes têm tido em festivais e ciclos de cinema, é possível que alguma distribuidora independente portuguesa (como a Midas ou a Alambique) se interesse por trazer o título, pelo menos em exibições limitadas.
Se isso não acontecer, a esperança recai sobre o streaming: como a Lionsgate tem parcerias ativas com a Prime Video e o Filmin, The Whole Bloody Affair poderá chegar a Portugal por essa via nos próximos meses.
Por agora, os fãs terão de aguardar — mas uma coisa é certa: Tarantino não apenas reviveu a sua Noiva, como também reanimou o mito de Kill Bill com a paixão e o detalhe que só ele consegue imprimir no ecrã.