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Zvyagintsev Regressa a Cannes Depois de Nove Anos com Minotaur — Filmado no Exílio, Passado na Rússia

Há realizadores cuja ausência pesa. Andrey Zvyagintsev é um deles. Desde Loveless, em 2017, o realizador russo não tinha rodado um longa-metragem — não por falta de projecto, mas por uma sequência de acontecimentos que seria difícil de inventar: uma batalha quase fatal contra a COVID-19 em 2021, que o deixou em coma induzido durante semanas e danificou 92% da capacidade pulmonar, seguida de onze meses de hospitalização; a invasão russa da Ucrânia em 2022, que o forçou a deixar Moscovo e a estabelecer-se em França como exilado; e o colapso de um projecto sobre um oligarca russo que não conseguiu financiamento.

Minotaur nasceu das cinzas de tudo isso. É o sexto longa-metragem de Zvyagintsev, rodado em Riga, na Letónia, mas ambientado na Rússia contemporânea — numa cidade que o realizador filmou de forma tão deliberadamente universal que, segundo ele próprio, “só os proprietários dos espaços a vão reconhecer.” A premissa é aparentemente clássica: Gleb, um empresário bem-sucedido, está prestes a despedir os seus trabalhadores quando descobre que a mulher o está a trair. O colapso pessoal e o colapso profissional chegam em simultâneo e alimentam-se mutuamente numa espiral que o filme descreve como “uma fábula política entre o thriller policial e a tragédia clássica.”

A referência ao Minotauro é propositada e múltipla. O monstro do labirinto — metade homem, metade touro, condenado pela sua própria natureza a uma existência de violência e enclausuramento — é uma metáfora que Zvyagintsev aplica tanto ao personagem como ao país que deixou para trás. Um homem poderoso preso numa estrutura que ele próprio ajudou a construir, incapaz de sair do labirinto sem se destruir. Não é preciso muito esforço de imaginação para perceber o que o realizador está a dizer sobre a Rússia de Putin — e a coragem de o dizer, mesmo a partir do exílio, é em si mesma parte do significado do filme.

Zvyagintsev regressa ao festival que o coroou duas vezes: Leviathan ganhou o Prémio do Guião em 2014, Loveless o Prémio do Júri em 2017. O cinegrafista Mikhail Krichman e o cenógrafo Andrey Ponkratov, seus colaboradores de longa data, voltaram para este projecto — o que dá ao filme uma continuidade visual com o resto da obra, mesmo que as circunstâncias da produção sejam radicalmente diferentes. A Mubi adquiriu já os direitos de distribuição para a América do Norte, Reino Unido, Irlanda, Alemanha, Áustria e América Latina — um sinal claro de que a plataforma acredita ter em mãos um dos títulos mais importantes do ano.

O regresso de Zvyagintsev a Cannes não é apenas o regresso de um realizador. É o regresso de uma voz que se recusou a ser silenciada — pela doença, pelo exílio e pelo regime que o expulsou. Minotaur estreia a 12 de Maio.

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