Há uma certa lógica poética no facto de o urso que chegou a Londres de chapéu velho e etiqueta de identificação ao pescoço estar agora a planear a conquista de Nova Iorque. Depois de dominar os Olivier Awards deste domingo com sete prémios — o mais premiado da noite, incluindo Melhor Musical, Melhor Realizador, Melhor Actor em Musical e Melhor Cenografia —, a produtora Sonia Friedman confirmou ao Deadline ainda durante a cerimónia no Royal Albert Hall que Paddington: The Musical está na linha de partida para uma transferência para a Broadway em 2027. “Gostaria que fosse para o ano que vem, para manter o momentum”, disse Friedman. Em linguagem de teatro, isto significa que está a acontecer.
Paddington: The Musical abriu no Savoy Theatre em Londres no outono de 2025 e tornou-se imediatamente num dos maiores sucessos do West End em anos — não apenas comercial mas também crítico, o que no teatro musical é uma combinação rara e preciosa. O London Theatre deu-lhe cinco estrelas e chamou-lhe “magia pura de teatro” e “um grande abraço de urso”. A música e letra são de Tom Fletcher, mais conhecido como membro dos McFly, e o livro é de Jessica Swale. A encenação de Luke Sheppard — que ganhou o Olivier de Melhor Realizador — resolve de forma engenhosa o problema central de qualquer adaptação de Paddington para palco: como fazer um urso de marmelada de Lima emocionalmente convincente para uma audiência ao vivo, sem recorrer nem ao disfarce humano nem à animação digital.

A solução que Sheppard encontrou foi partir o papel em dois: James Hameed dá a voz e a presença física ao Paddington que fala e interage com os outros personagens, enquanto Arti Shah opera o fato do urso com uma precisão de movimento que a crítica descreveu repetidamente como hipnótica. Os dois partilham o Olivier de Melhor Actor em Musical — uma situação sem precedentes na história do prémio, e que diz tudo sobre a forma como o espectáculo abordou o problema da representação do urso. Não como um problema a esconder, mas como uma oportunidade de fazer algo teatralmente novo.
O caminho para a Broadway não é garantido nem simples. O West End e a Broadway partilham língua e muita coisa, mas os espaços são diferentes, os custos de produção são outros, e o que funciona em Londres nem sempre funciona em Nova Iorque — e vice-versa. Paddington tem, no entanto, vários factores a seu favor. A personagem tem uma base de fãs americana considerável, o filme de 2014 e a sua sequela de 2017 foram sucessos de bilheteira nos Estados Unidos, e o terceiro filme — Paddington em Peru, de 2023 — confirmou que o urso continua a ser um fenómeno transgeracional. Um musical de Broadway baseado numa personagem com este nível de reconhecimento e com esta qualidade crítica documentada tem uma proposta de valor clara.

Para Portugal e para o resto do mundo lusófono, a trajectória de Paddington: The Musical é relevante por duas razões. A primeira é óbvia: se o espectáculo chegar à Broadway com este impulso, a probabilidade de uma digressão europeia aumenta significativamente — e Lisboa e Porto são destinos habituais dessas digressões. A segunda é mais subtil: o percurso de Paddington no teatro representa exactamente o tipo de adaptação que o cinema de família raramente consegue produzir no palco com este nível de integridade artística. É uma história sobre um estrangeiro que chega a um país novo e é acolhido por uma família que não o conhecia — e que se torna insubstituível para essa família. Em 2026, essa história tem uma ressonância que vai muito além da nostalgia.



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