Um filme pode travar uma carreira? O caso singular de Dane DeHaan em Hollywood

Quando o talento não chega para sobreviver a um grande desaire

Hollywood constrói estrelas com a mesma rapidez com que as deixa cair no esquecimento. No meio dessa lógica implacável, há carreiras que parecem descarrilar não por falta de talento, mas por uma única decisão mal calculada. O percurso de Dane DeHaan é um dos exemplos mais discutidos da última década: um actor elogiado pela crítica, associado a projectos de prestígio, cuja progressão sofreu um abrandamento evidente após protagonizar um dos filmes mais problemáticos da ficção científica moderna.

E o mais curioso é que tudo indicava exactamente o contrário.

Uma ascensão sólida e elogiada pela crítica

Dane DeHaan chamou a atenção do grande público com Chronicle, um sucesso inesperado de bilheteira que transformou um orçamento modesto num fenómeno global. O seu desempenho foi amplamente elogiado pela intensidade emocional e pela complexidade psicológica que trouxe à personagem — algo pouco comum em produções do género.

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Esse reconhecimento confirmou-se rapidamente com The Place Beyond the Pines e Kill Your Darlings, onde DeHaan provou ser particularmente eficaz a interpretar figuras inquietas, contraditórias e emocionalmente instáveis. Mesmo inserido num grande franchise como The Amazing Spider-Man 2, a sua interpretação destacou-se positivamente num filme que, no seu conjunto, dividiu público e crítica.

À entrada de 2017, parecia apenas uma questão de tempo até assumir, de forma definitiva, o estatuto de protagonista em produções de grande escala.

Valerian: ambição excessiva e consequências inesperadas

O ponto de viragem chegou com Valerian and the City of a Thousand Planets, superprodução de ficção científica realizada por Luc Besson. Visualmente deslumbrante e financeiramente ambiciosa, a adaptação prometia lançar uma nova saga cinematográfica.

O resultado ficou muito aquém do esperado. Apesar de não ter sido um desastre absoluto em termos de bilheteira, o filme revelou-se incapaz de justificar o investimento elevado e foi severamente criticado. A relação entre DeHaan e Cara Delevingne foi apontada como um dos principais problemas, com críticas recorrentes à ausência de empatia e credibilidade entre as personagens centrais.

Mais do que uma questão de talento, muitos analistas sublinharam que DeHaan não correspondia ao perfil clássico de herói aventureiro que o filme exigia. Uma leitura discutível, mas suficiente para marcar a sua imagem junto dos grandes estúdios.

Trabalho contínuo, mas longe do centro das atenções

Desde Valerian, Dane DeHaan deixou de ser uma presença regular em papéis principais de grandes produções. Ainda assim, nunca desapareceu do cinema. Em The Kid, voltou a receber elogios pela sua interpretação de Billy the Kid, contracenando com Ethan Hawke e Chris Pratt.

Mais recentemente, integrou o elenco de Oppenheimer, de Christopher Nolan, num papel secundário mas significativo. Um sinal claro de que o actor continua a ser respeitado no meio, mesmo que já não seja visto como aposta segura para liderar blockbusters.

Um percurso interrompido, não uma carreira perdida

O caso de Dane DeHaan ilustra bem uma realidade desconfortável do cinema americano: por vezes, um único projecto pode alterar profundamente a trajectória de um actor, independentemente do mérito demonstrado antes e depois. O talento mantém-se, o trabalho continua, mas a percepção da indústria muda — e isso basta para fechar algumas portas.

Resta saber se surgirá o filme certo para devolver DeHaan ao lugar que muitos acreditaram ser inevitável. Em Hollywood, nem sempre vence quem é melhor. Muitas vezes, vence quem escolhe o projecto certo no momento exacto 🎬

Ralph Fiennes: o actor que Hollywood admirou… mas nunca quis tornar confortável

Quando o prestígio se transforma num incómodo para o sistema

Hollywood gosta de talento. Gosta ainda mais de talento que possa ser embalado, promovido e consumido sem sobressaltos. O problema começa quando um actor se recusa a tornar o seu trabalho mais fácil de digerir. Ralph Fiennes tornou-se famoso precisamente por isso — e, de forma silenciosa, foi também penalizado por nunca ter querido ser “seguro”.

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Depois de Schindler’s List, nada voltou a ser igual. Fiennes não interpretou o mal como caricatura. A sua encarnação de Amon Göth foi fria, quotidiana, quase administrativa. Não havia teatralidade nem catarse. O horror surgia da normalidade. E isso expôs algo que a indústria prefere manter abstracto: a violência extrema não precisa de monstros exuberantes, apenas de permissão, rotina e autoridade.

A interpretação funcionou… demasiado bem.

O sucesso que estreitou possibilidades

Era suposto aquele papel abrir portas. Em vez disso, redefiniu Fiennes de uma forma desconfortável. Para os estúdios, deixou de ser apenas um actor capaz de revelar perigo. Passou a ser o perigo. As conversas de casting tornaram-se cautelosas. Surgiram descrições vagas e evasivas: “intenso”, “difícil de enquadrar”, “severo”. Não são adjectivos criativos — são sinais de alerta.

O contexto dos anos 90 é essencial para perceber o fenómeno. Hollywood aceitava personagens sombrias desde que viessem acompanhadas de charme, ironia ou redenção. A escuridão era tolerável se o público fosse tranquilizado no final. Fiennes recusou sempre essa mediação. Nunca tentou suavizar as personagens para garantir simpatia. Nunca explicou ao espectador que ele não era aquilo que estava a representar.

Escolhas que mantiveram o atrito moral

Nos anos seguintes, Fiennes fez exactamente o oposto do que o sistema esperava. Em vez de capitalizar a fama para entrar em territórios mais seguros, escolheu papéis que mantinham fricção ética: homens danificados, figuras de autoridade desconfortáveis, personagens sem arco de redenção.

Mesmo quando protagonizou The English Patient, filme que lhe valeu uma nomeação ao Óscar e um enorme sucesso crítico, havia ali uma melancolia irresolúvel, uma recusa em oferecer conforto emocional fácil. Não era um galã clássico, nem parecia interessado em sê-lo.

Recusou projectos que pediam simplificação, personagens que exigiam neutralizar essa aresta para serem mais acessíveis. Essa decisão teve um custo claro: o abrandamento da sua ascensão no exacto momento em que poderia ter sido empurrado para o estatuto de estrela-âncora de Hollywood.

Respeitado, mas nunca protegido

A resposta da indústria foi previsível. Ralph Fiennes passou a ser tratado com respeito — mas não com investimento. Admirado, mas raramente priorizado. Tornou-se o actor chamado quando era preciso desconforto, densidade, ambiguidade moral. Não quando era preciso continuidade, segurança ou franquias duradouras.

Aqui existe uma distinção fundamental em Hollywood: os pilares e os especialistas. Os pilares são protegidos, promovidos, mantidos visíveis. Os especialistas são utilizados quando convém. Fiennes foi colocado nesta segunda categoria.

Trabalhou sempre, sem interrupções. Mas permaneceu estranhamente periférico ao verdadeiro poder da indústria americana.

Autoridade sem concessões, mesmo fora do ecrã

Quando mais tarde passou para trás das câmaras, realizando filmes como Coriolanus, a reacção foi educada, contida, distante. O sistema não incentiva artistas que, depois de provarem que não se deixam domesticar enquanto actores, insistem ainda em controlo autoral.

Fiennes nunca foi rejeitado de forma explícita. Foi algo mais subtil — e talvez mais eficaz. Foi gerido.

O incómodo que Hollywood prefere conter

A verdade incómoda é esta: Hollywood aprecia interpretações que revelam verdades perturbadoras, mas afasta discretamente quem se recusa a ajudar o público a recuperar delas. Quando um actor insiste que a clareza deve continuar desconfortável, o sistema limita o seu alcance para que o impacto fique contido.

Ralph Fiennes nunca tornou o seu trabalho mais fácil de consumir. E, ao fazê-lo, manteve-o honesto. O preço foi não se tornar “seguro”. O ganho foi uma filmografia coerente, densa e profundamente respeitada — mesmo que nunca totalmente abraçada pelo centro do poder.

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Num cinema cada vez mais preocupado em não perturbar, Fiennes continua a ser uma presença rara: alguém que acredita que a verdade, quando bem filmada, não precisa de pedir desculpa 🎬

Da glória ao embaraço: a Disney cancela discretamente a estreia europeia do seu maior flop de 2025

Ella McCay sai de cena depois de um desastre anunciado nas bilheteiras

Disney vive um daqueles contrastes difíceis de ignorar. Se, por um lado, celebra o enorme sucesso de Zootopia 2, actualmente o filme de Hollywood mais lucrativo do ano nos Estados Unidos, por outro tenta gerir — com o máximo de discrição possível — o maior fracasso comercial da sua história recente. Falamos de Ella McCay, cuja estreia francesa, prevista para 7 de Janeiro, foi entretanto cancelada sem grande alarido.

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A decisão foi avançada pelo site World of Reel, que não aponta uma razão oficial para a retirada do filme do calendário europeu. Ainda assim, o contexto dificilmente deixa margem para dúvidas. Ella McCay tornou-se rapidamente num verdadeiro pesadelo financeiro para a Disney.

Um arranque desastroso nos Estados Unidos

Estreado nos cinemas norte-americanos no passado fim-de-semana, o filme arrecadou cerca de 2,1 milhões de dólares em mais de 2500 salas — um número que o coloca entre as piores aberturas da Disney na última década. À data, a receita total ronda os 4 milhões de dólares, um valor irrisório face a um orçamento estimado em 35 milhões. Em comparação, até projectos ainda envoltos em incógnita, como Tron: Ares, parecem apostas seguras.

Este desempenho levou a Disney a cortar rapidamente perdas e a evitar prolongar o desgaste internacional de um título que nunca conseguiu gerar entusiasmo junto do público.

Um regresso pouco feliz de James L. Brooks

O mais surpreendente neste cenário é o nome por trás da câmara. Ella McCay marca o regresso à realização de James L. Brooks, quinze anos depois do seu último filme. Brooks é uma figura histórica da televisão e do cinema americano, ligado a clássicos como The Simpsons e As Good as It Gets.

O elenco também não parecia um problema. Emma Mackey e Jamie Lee Curtis lideram um grupo que inclui Rebecca Hall, Woody Harrelson, Ayo Edebiri, Albert Brooks, Kumail Nanjiani, Jack Lowden e Spike Fearn. Ainda assim, nada disso foi suficiente para salvar o projecto.

Crítica implacável e público dividido

Desde cedo, Ella McCay foi alvo de críticas duras. No Rotten Tomatoes, o filme apresenta um score de apenas 24%, com muitos críticos a questionarem se Brooks não teria ficado preso a uma sensibilidade de outra era. Jonathan Romney, do Financial Times, descreveu-o como “um fóssil confuso e auto-indulgente”, enquanto outros falaram de um filme incoerente e sem direcção clara.

O público mostrou-se menos uniforme nas reacções. Algumas vozes elogiaram o ritmo da narrativa, mas outras criticaram a personagem central interpretada por Mackey, considerada frágil e pouco convincente para a posição de poder que ocupa. O resultado é um Popcornmeter de 54%, insuficiente para contrariar a tendência negativa.

Um problema maior do que a crítica

Ao contrário de fenómenos como Five Nights at Freddy’s 2Ella McCay não beneficia de uma base de fãs pré-existente nem de um conceito que justifique a ida ao cinema como experiência “obrigatória”. Num mercado cada vez mais selectivo, a comédia política revelou-se um género difícil de vender em sala.

Tudo indica que o filme encontrará o seu público — se o encontrar — através do streaming, e mais cedo do que o inicialmente previsto. O cancelamento da estreia francesa parece ser apenas o primeiro passo nesse sentido.

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Para a Disney, Ella McCay ficará como um lembrete desconfortável: nem nomes consagrados nem elencos de luxo garantem relevância num panorama cinematográfico em rápida mutação 🎬

Avisem os miúdos (e não só): Lisboa prepara-se para receber o fenómeno das Guerreiras do K-Pop

Do streaming para o palco: o maior êxito infantil da Netflix ganha vida no Coliseu dos Recreios

Há fenómenos geracionais que se reconhecem ao primeiro refrão. Se os Millennials cresceram com A Pequena Sereia e O Rei Leão, e a Geração Z encontrou o seu hino em Frozen, a geração Alpha já tem um novo ponto de referência: Guerreiras do K-Pop. O filme de animação tornou-se no mais visto de sempre da Netflix, conquistando milhões de visualizações e, sobretudo, dominando recreios e salas de aula com as suas canções viciantes.

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Agora, esse universo salta do ecrã para o palco. Lisboa vai receber o espetáculo “As Guerreiras do K-Pop: Tributo”, com duas sessões marcadas para 6 de Junho, às 16h00 e às 20h00, no emblemático Coliseu dos Recreios.

Um tributo musical a um fenómeno global

O espetáculo promete celebrar os maiores êxitos do filme, incluindo temas como “Golden” e “How It’s Done”, canções que acumulam milhões de streams nas plataformas digitais e que rapidamente se tornaram parte do quotidiano dos mais novos — e, em muitos casos, também dos pais.

Trata-se de um projecto internacional que chega agora a Portugal pela mão do Grupo Chiado, apostando numa experiência pensada para toda a família, mas claramente focada no público infantil e juvenil que fez do filme um verdadeiro fenómeno cultural.

Acção, magia e coreografias ao estilo K-Pop

De acordo com a sinopse oficial, o espetáculo acompanha as Huntrix, lendárias guerreiras do universo K-Pop, que enfrentam os Saja Boys, liderados pelo enigmático Jinu. Uma narrativa simples, mas eficaz, que mistura acção, magia e emoção — exactamente os ingredientes que fizeram do filme um sucesso global.

Em palco, o público pode esperar coreografias enérgicas, inspiradas nos grandes espectáculos de K-Pop, efeitos visuais de inspiração cinematográfica e um cuidado visual assinalável, com mais de cinco figurinos diferentes, concebidos para transformar cada momento num verdadeiro número de palco.

O objectivo é claro: transportar o público para dentro do universo do filme, recriando a energia, as cores e o ritmo que conquistaram uma nova geração de fãs.

Bilhetes já à venda e procura elevada

Os bilhetes para As Guerreiras do K-Pop: Tributo já se encontram disponíveis online e nos locais habituais, com preços que variam entre 28€ e 40€. Tendo em conta a popularidade do filme e o entusiasmo em torno do espectáculo, é aconselhável garantir lugar com antecedência.

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Mais do que um simples concerto, este evento assume-se como um reflexo claro de como a animação e a música pop continuam a moldar novas gerações — agora com sotaque coreano, espírito de batalha e refrões impossíveis de tirar da cabeça 🎤✨

Um tríptico sobre família, silêncio e distância: Pai Mãe Irmã Irmão  estreia nos cinemas portugueses

Jim Jarmusch regressa ao grande ecrã com um olhar sereno sobre encontros e desencontros familiares

O novo filme de Jim JarmuschPai Mãe Irmã Irmão, chega às salas de cinema portuguesas no próximo 8 de Janeiro, trazendo consigo um dos mais sólidos selos de prestígio do cinema de autor contemporâneo. A longa-metragem, distinguida com o Leão de Ouro no Festival de Cinema de Veneza, propõe uma reflexão intimista sobre as relações familiares, a distância emocional e a dificuldade de comunicar entre gerações.  

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Estruturado como um tríptico, o filme é composto por três histórias independentes, ligadas por temas comuns e por uma abordagem narrativa coerente. Cada segmento acompanha filhos adultos e a forma como se relacionam entre si e com figuras parentais emocionalmente distantes, em contextos geográficos e culturais distintos.

Três histórias, três países, o mesmo desconforto emocional

As narrativas decorrem no presente e repartem-se por três locais: o episódio “Pai”, situado no nordeste dos Estados Unidos; “Mãe”, passado em Dublin, na Irlanda; e “Irmã Irmão”, que decorre em Paris, França. Esta fragmentação espacial reforça a ideia central do filme: apesar das diferenças culturais, as dinâmicas familiares marcadas pelo silêncio, pela ausência e pela incomunicabilidade são universais.

Mais do que contar uma história tradicional, Jarmusch opta por uma sucessão de estudos de personagem, observados com distanciamento, sem julgamentos morais nem explicações fáceis. O resultado é um cinema de gestos mínimos, pausas significativas e diálogos contidos, onde o não dito assume tanta importância como as palavras.

Um elenco de luxo ao serviço de um cinema contido

O elenco reúne Adam Driver e Cate Blanchett, vencedora de dois Óscares, acompanhados por nomes como Tom WaitsCharlotte RamplingVicky Krieps e Indya Moore.

As interpretações seguem a linha habitual do cinema de Jarmusch: discretas, precisas e despidas de exibicionismo. Cada actor parece existir dentro do espaço emocional da personagem, respeitando o tom observador e melancólico que atravessa todo o filme.

Humor subtil e melancolia como marca autoral

Apesar do peso emocional dos temas abordados, Pai Mãe Irmã Irmão não abdica de um humor subtil, quase invisível, que surge em pequenos detalhes, situações absurdas ou silêncios prolongados. Esta combinação de leveza e melancolia é uma das marcas mais reconhecíveis do realizador, aqui aplicada com particular maturidade.

O filme foi também o filme de abertura do LEFFEST, em Novembro passado, reforçando o seu percurso de destaque no circuito de festivais antes da estreia comercial. A distribuição em Portugal está a cargo da NOS Audiovisuais, que traz assim às salas nacionais uma das obras mais elogiadas do ano.  

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Pai Mãe Irmã Irmão não procura respostas fáceis nem reconciliações forçadas. É um filme sobre o que fica por dizer, sobre a distância que se instala mesmo entre quem partilha laços de sangue — e sobre a humanidade que persiste, apesar disso tudo. Um regresso notável de Jim Jarmusch ao centro do cinema de autor contemporâneo 🎬

40,4 mil milhões em jogo: Larry Ellison entra em cena para reforçar a ofensiva da Paramount sobre a Warner Bros.

Um novo capítulo na guerra dos gigantes do entretenimento

A batalha pelo controlo da Warner Bros. Discovery está a transformar-se num verdadeiro drama corporativo em vários actos — e o mais recente inclui um dos homens mais ricos do planeta. Larry Ellison concordou em fornecer uma garantia pessoal irrevogável de 40,4 mil milhões de dólares, reforçando decisivamente a proposta da Paramount para adquirir a totalidade da Warner Bros. Discovery.

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Este movimento surge num momento particularmente sensível. No início do mês, a Warner Bros. Discovery tinha chegado a acordo para vender o seu estúdio e os activos de streaming à Netflix, numa operação avaliada em cerca de 83 mil milhões de dólares em termos empresariais. Um acordo que, desde então, tem sido alvo de críticas e resistência dentro e fora da indústria.

Paramount não sobe a oferta, mas reforça a segurança

A Paramount, através da sua estrutura Paramount Skydance, mantém uma posição firme: não aumentou o valor global da sua proposta, que avalia a Warner Bros. Discovery em 108,4 mil milhões de dólares, mas decidiu igualar a taxa de rescisão reversa apresentada pela Netflix. O objectivo é claro: demonstrar confiança absoluta na viabilidade da operação e reduzir qualquer margem de hesitação por parte do conselho da Warner.

A Warner Bros. Discovery confirmou ter recebido a proposta revista e declarou que irá analisá-la “cuidadosamente”, tendo em conta os termos já acordados com a Netflix.

A família Ellison entra definitivamente no jogo

Segundo explicou Gerry Cardinale, fundador e sócio-gerente da RedBird Capital Partners, no programa Squawk Boxda CNBC, a revisão da proposta teve como principal objectivo “eliminar a confusão” em torno do financiamento.

Nesse contexto, Larry Ellison comprometeu-se a apoiar a oferta através de um fundo irrevogável garantido por 1,2 mil milhões de acções da Oracle. Importa recordar que David Ellison, director-executivo da Skydance Media e figura central da Paramount Skydance, é filho do fundador da Oracle.

Com um património estimado em 345 mil milhões de dólares, Larry Ellison chegou, inclusivamente, a ser por breves dias a pessoa mais rica do mundo no início de Outubro, ultrapassando Elon Musk.

De acordo com a Paramount, Ellison comprometeu-se ainda a não revogar o fundo fiduciário da família nem a transferir activos de forma adversa durante o processo de transacção pendente — uma camada adicional de segurança que se soma aos fundos já garantidos pela RedBird Capital e por fundos soberanos.

“O acordo com a Netflix acaba com a concorrência”

A tensão em torno do negócio tem vindo a aumentar. Na semana passada, Samuel Di Piazza, presidente da Warner Bros. Discovery, expressou reservas quanto à solidez do apoio financeiro de Ellison.

Em resposta, Cardinale dirigiu-se directamente aos accionistas da Warner, lembrando que “os verdadeiros donos da empresa são os accionistas, não o conselho nem a administração”. Na sua leitura, a alternativa Netflix representa um risco estrutural para o sector.

A fusão entre Netflix e HBO Max criaria um gigante com cerca de 420 milhões de assinantes globais. Um cenário que, segundo Cardinale, “assusta artistas, criadores e exibidores”, devido ao poder de fixação de preços e à concentração de influência que resultaria dessa união.

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Um desfecho ainda em aberto

Com garantias pessoais bilionárias, jogos de bastidores e visões opostas sobre o futuro do streaming, este negócio promete continuar a dominar as manchetes. A decisão final poderá redefinir o equilíbrio de poder em Hollywood durante a próxima década — e, desta vez, Larry Ellison não está apenas a observar a partir da plateia 🎬

Já chegou o primeiro trailer de Odisseia, o novo épico de Christopher Nolan

Um regresso ambicioso ao cinema de grande escala… e à mitologia clássica

A expectativa era enorme e confirma-se agora em imagens. Foi divulgado o primeiro trailer de Odisseia, o novo filme de Christopher Nolan, e o resultado não surpreende: escala monumental, cenários naturais esmagadores e uma sensação permanente de risco físico, marca registada do realizador.

O nível de antecipação é tal que, em Julho, doze meses antes da estreia, os bilhetes para sessões IMAX nos Estados Unidos esgotaram em várias salas em questão de minutos. Um fenómeno raro, mesmo para um cineasta habituado a sucessos de bilheteira e a estreias tratadas como acontecimentos culturais.

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Um épico fundador da literatura ocidental

Odisseia adapta o poema épico homónimo de Homero, datado do século VIII a.C., acompanhando a longa e atribulada viagem de Ulisses após a queda de Tróia. O trailer não revela detalhes narrativos significativos, mas confirma o foco na dimensão física e emocional da jornada: o mar como ameaça constante, a natureza como força indomável e o regresso a casa como obsessão.

O papel principal cabe a Matt Damon, que interpreta Ulisses. Tom Holland surge como Telémaco, o filho que cresce à espera do pai, enquanto Anne Hathaway dá vida a Penélope, figura central da resistência silenciosa e da espera prolongada.

Filmagens no limite do conforto

Fiel à sua filosofia de cinema físico e prático, Nolan voltou a evitar soluções digitais sempre que possível. As filmagens arrancaram em Fevereiro e passaram por Marrocos, Grécia, Itália, Escócia e Islândia, privilegiando locais reais e condições naturais adversas.

Em declarações à revista Empire, o realizador explicou a abordagem:

“Passei os últimos quatro meses no mar. Levámos o elenco que interpreta a tripulação do navio de Odisseu para enfrentar ondas reais, em locais verdadeiros. Queríamos mostrar como estas viagens eram duras e o salto de fé que representavam num mundo desconhecido.”

A ideia é clara: não romantizar a aventura, mas devolver-lhe peso, perigo e desgaste humano.

Um elenco ao nível da ambição

Além de Damon, Holland e Hathaway, Odisseia reúne um elenco de luxo que inclui ZendayaMia GothRobert PattinsonLupita Nyong’o e Charlize Theron. Um conjunto de nomes que reforça a dimensão coral da narrativa e a ambição de criar um verdadeiro épico moderno.

Nolan no auge da carreira

De A Origem a Interstellar e Oppenheimer, Nolan construiu uma filmografia que alia sucesso comercial e reconhecimento crítico. Com mais de 180 prémios ao longo da carreira, incluindo Globos de Ouro e o Óscar finalmente conquistado com OppenheimerOdisseia surge como mais um teste à sua capacidade de reinventar géneros clássicos à escala do cinema contemporâneo.

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Se o trailer é indicativo, estamos perante um filme pensado para ser visto no maior ecrã possível — e sentido como uma verdadeira travessia cinematográfica 🎬

Quando Roger Moore Mudou de Ideias — e Tirou James Brolin do Caminho de James Bond

A história de James Bond está cheia de curiosidades, decisões de última hora e jogos de bastidores dignos do próprio MI6. Mas poucas são tão cruéis — e tão pouco conhecidas — como aquela que envolveu James Brolin e que acabou por mantê-lo fora de Octopussy. Um caso raro em que um actor chegou a ser escolhido, começou a preparar-se… e foi afastado simplesmente porque o titular decidiu regressar.

No início da década de 1980, a continuidade de Roger Moore como 007 estava longe de ser garantida. Após For Your Eyes Only (1981), tudo indicava que Moore iria finalmente despedir-se do papel que já interpretava desde Live and Let Die. Os produtores Albert R. Broccoli e Michael G. Wilson começaram, discretamente, a procurar um sucessor.

E foi aí que James Brolin entrou em cena.

Um Bond improvável… mas quase oficial

À primeira vista, a escolha parecia improvável. Brolin era americano — algo que sempre causou resistência dentro da saga — mas vinha embalado pelo enorme sucesso de The Amityville Horror (1979). Tinha presença física, carisma e um perfil mais duro que agradava à equipa criativa, que pretendia manter um tom mais sério após o registo mais leve de Moore.

Segundo o próprio Brolin, em entrevista à People em 2025, o processo avançou de forma surpreendentemente concreta. Voou para Londres, reuniu-se com os produtores, foi integrado em treinos com duplos, recebeu alojamento… e foi, nas suas palavras, escolhido informalmente para o papel. Faltava apenas assinar o contrato.

Chegou mesmo a realizar um teste de câmara com Maud Adams, que viria a protagonizar Octopussy. O realizador John Glen descreveu o ensaio como “excelente”, sublinhando que Brolin levava o papel muito a sério e tinha entendido o tom pretendido para o novo Bond.

O telefonema que mudou tudo

Convencido de que iria passar um ano em Inglaterra, Brolin regressou a Los Angeles para organizar a sua vida. Foi então que recebeu o telefonema fatídico: Roger Moore tinha mudado de ideias.

Após negociações de bastidores — financeiras, criativas e estratégicas — Moore aceitou regressar para mais um filme. A decisão foi imediata e definitiva. Brolin estava fora. Sem contrato assinado, sem margem para contestação, sem direito a segunda oportunidade.

Como o próprio recorda, tudo terminou tão depressa como começou.

Porque é que Moore regressou?

Moore já tinha ultrapassado o número de filmes inicialmente previstos no seu contrato. Depois de The Spy Who Loved Me, passou a negociar filme a filme. Moonraker e For Your Eyes Only foram feitos nessas condições, e Octopussy surgiu num momento particularmente sensível para a franquia.

Em 1983, a saga enfrentava concorrência directa de Never Say Never Again, que marcava o regresso de Sean Connery ao papel, fora da continuidade oficial. Para a MGM, manter Moore era uma forma de assegurar estabilidade e reconhecimento imediato junto do público.

Além disso, como John Glen admitiu mais tarde, Cubby Broccoli nunca esteve totalmente confortável com a ideia de um Bond americano. Mesmo que Brolin tivesse convencido em câmara, a tradição acabou por pesar mais.

Um sucesso… e uma oportunidade perdida

Octopussy não é hoje lembrado como um dos grandes clássicos da saga, mas foi um enorme sucesso comercial e superou o rival protagonizado por Connery. Para Roger Moore, foi mais uma vitória. Para James Brolin, ficou a sensação agridoce de ter estado a centímetros da imortalidade cinematográfica.

É um daqueles casos em que o destino de Hollywood se decide num simples “vou fazer mais um”. Um gesto aparentemente banal que alterou carreiras, histórias e até a memória colectiva de uma das maiores franquias do cinema.

E deixa uma pergunta inevitável: como teria sido James Bond se James Brolin tivesse realmente vestido o smoking?

O Segredo de Clint Eastwood: Porque é Que os Seus Filmes Nunca Estouram o Orçamento — Nem o Calendário

Num sistema como Hollywood, onde atrasos milionários e orçamentos fora de controlo são quase regra, há uma exceção que intriga produtores, actores e realizadores há décadas: Clint Eastwood. Os filmes que assina como realizador chegam quase sempre ao fim antes do prazo e abaixo do orçamento. Não é sorte. É método. E, acima de tudo, experiência.

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Eastwood está no cinema há mais de meio século — primeiro como actor, depois como realizador — e essa longevidade ensinou-lhe algo que muitos nunca aprendem: saber exactamente o que quer filmar antes de ligar a câmara. No centro da sua filosofia está uma regra simples e quase lendária: um take, dois no máximo. E acabou.

Os actores sabem disso antes sequer de chegarem ao set. Quem trabalha com Eastwood chega preparado, ensaiado e concentrado. Não há espaço para “vamos tentar outra vez só por via das dúvidas”. A história contada por Matt Damon, durante as filmagens de Invictus, é reveladora.

Damon interpretava um sul-africano, com um sotaque particularmente difícil. Levou o trabalho a sério, praticou durante semanas e decidiu testar a famosa reputação do realizador logo no primeiro dia. Fizeram o take. Correu bem. Eastwood disse calmamente: “Cut, print, check the gate.” Tradução: está feito, seguimos em frente. Damon pediu mais um take. A resposta foi seca e definitiva: “Porquê? Queres desperdiçar o tempo de toda a gente?”

Não era arrogância. Era respeito pelo trabalho da equipa.

Eastwood não é um realizador relaxado ou distraído. Pelo contrário: é extremamente preciso. Mas essa precisão vem antes das filmagens, não durante intermináveis repetições. Trabalha regularmente com a mesma equipa técnica, pessoas que conhecem os seus ritmos, a sua linguagem e as suas expectativas. Não há necessidade de microgestão porque todos sabem exactamente o que têm de fazer.

Esse mesmo princípio aplica-se à montagem. Enquanto muitos realizadores passam dias de 12 ou 14 horas colados ao ombro do montador, Eastwood faz o oposto. Vê o material, discute opções, define direcções… e sai. Literalmente. Vai jogar golfe. Volta ao final do dia, vê o que foi feito, dá notas pontuais e segue em frente.

Num célebre encontro entre realizadores de topo, quando outros descreviam jornadas extenuantes em pós-produção, Eastwood explicou o seu método com uma naturalidade desconcertante: reuniões de manhã, golfe à tarde, revisão ao fim do dia. O silêncio que se seguiu foi revelador. Não era preguiça — era confiança.

Confiança na equipa. Confiança no planeamento. Confiança na experiência acumulada.

O resultado é um cinema sem excessos, sem caos e sem desperdício. Um cinema onde cada decisão tem peso e cada minuto conta. É por isso que filmes realizados por Clint Eastwood raramente derrapam financeiramente ou logisticamente. Ele sabe que, num set, tempo é dinheiro — e que mandar repetir sem necessidade é uma forma de desrespeito.

Num Hollywood cada vez mais dominado por produções inflacionadas e rodadas à base de exaustão, o método Eastwood parece quase anacrónico. Mas talvez seja exactamente por isso que continua a funcionar tão bem.

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Às vezes, a verdadeira modernidade está em fazer menos — e fazer melhor.

Quando a Televisão Era “Um Passo Atrás” — e um Actor Aceitou a Contragosto um Papel Que Mudou Tudo

Hoje parece impensável, mas houve um tempo em que aceitar protagonizar uma série de televisão era visto como um retrocesso na carreira de qualquer actor com ambições sérias. Nos anos 80, o pequeno ecrã ainda carregava o estigma de ser território menor, longe do prestígio artístico e cultural do cinema e do teatro. Foi nesse contexto que Edward James Olmos quase disse “não” a um dos papéis mais marcantes da história da televisão.

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Quando Michael Mann estava a montar o elenco de Miami Vice, a sua série revolucionária sobre polícias infiltrados em Miami, Olmos não era exactamente uma estrela de cinema, mas era altamente respeitado no meio artístico. Vinha do teatro — com nomeações para os Tony Awards — e já tinha deixado marca em filmes como Wolfen e Blade Runner. Acima de tudo, era um actor que levava o ofício muito a sério.

Quando Mann o abordou pela primeira vez para interpretar o tenente Martin Castillo, chefe da unidade de narcóticos da polícia de Miami-Dade, Olmos recusou. Televisão? Não, obrigado. Para um actor com formação teatral, aquilo era visto como um compromisso artístico difícil de justificar.

O destino, no entanto, tinha outros planos. Seis episódios depois do arranque da primeira temporada, o actor inicialmente escolhido para o papel saiu abruptamente da série. Mann ficou com um problema sério em mãos — e voltou a bater à porta de Olmos. Segundo relatos feitos mais tarde em documentários sobre a série, o criador de Miami Vice praticamente implorou para que o actor reconsiderasse. Foi a esposa de Olmos quem acabou por o convencer a aceitar.

O acordo, porém, não foi convencional. Olmos exigiu — e obteve — um nível de controlo raríssimo para a televisão da época. Decidia o guarda-roupa de Castillo, ajustava os diálogos, moldava o comportamento da personagem e até a organização da secretária no seu gabinete tinha de reflectir a psicologia do tenente. Nada era arbitrário.

Quando Martin Castillo entrou finalmente em cena, tudo mudou. Silencioso, intimidante, contido e profundamente introspectivo, o personagem contrastava com o estilo mais exuberante de Sonny Crockett e Ricardo Tubbs. Era uma figura quase trágica, carregada de passado e de moral rígida, que elevou imediatamente o tom dramático da série.

Miami Vice explodiu em popularidade e influência cultural, redefinindo a linguagem visual da televisão, a forma como a música era usada nas narrativas e a própria ideia de série policial. E Edward James Olmos tornou-se um dos pilares desse sucesso, provando que a televisão podia ser tão séria, complexa e artisticamente exigente quanto o cinema.

O que começou como uma decisão tomada a contragosto acabou por se transformar num dos maiores acertos da sua carreira. Mais do que isso, ajudou a mudar para sempre a percepção do pequeno ecrã junto dos actores e do público.

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Às vezes, aceitar um papel “errado” no momento certo é tudo o que é preciso para fazer história.

Quando um Papel Secundário Rouba o Filme Inteiro — e Obriga Hollywood a Reescrever o Guião

Há histórias de bastidores que explicam melhor do que qualquer manual como nascem as estrelas de cinema. Uma delas aconteceu em 1992, durante as filmagens de Dazed and Confused, o hoje lendário retrato geracional de Richard Linklater sobre adolescentes texanos nos anos 70. Um filme coral, sem protagonista óbvio, mas que acabou por lançar uma carreira… quase por acidente.

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Na altura, Matthew McConaughey era um completo desconhecido. Tinha 23 anos, nenhuma carreira relevante no cinema e foi contratado para um papel mínimo: David Wooderson, o tipo mais velho que continua a sair com miúdos do secundário, conduz carros vistosos e vive numa adolescência eterna. O personagem estava pensado como uma presença episódica, quase decorativa.

Quem deveria brilhar era Kevin Pickford, o hippie descontraído interpretado por Shawn Andrews, concebido como uma figura central no grupo de amigos do protagonista Pink (Jason London). Só que a realidade no set começou rapidamente a afastar-se do plano original.

Andrews revelou-se problemático. Tinha dificuldades em relacionar-se com o resto do elenco, criava tensão constante e chegou mesmo a envolver-se numa luta física com Jason London, obrigando Linklater a intervir para separar os dois. O ambiente tornou-se tão tóxico que, mesmo nas cenas em que Pickford e Pink surgem juntos no filme final, quase não interagem — um detalhe curioso que salta à vista quando revisto com este contexto em mente.

Do outro lado estava McConaughey. Carismático, bem-disposto, perfeitamente integrado no espírito descontraído das filmagens e, acima de tudo, dono de uma presença magnética. As poucas falas que tinha destacavam-se imediatamente. Linklater percebeu o que estava ali a acontecer e tomou uma decisão rara, mas decisiva: começou a escrever mais cenas para Wooderson durante as filmagens.

Mais do que isso, incentivou McConaughey a improvisar. Foi assim que nasceu, quase por acaso, o icónico “alright, alright, alright”, hoje inseparável da persona pública do actor. Enquanto isso, o papel de Pickford foi sendo progressivamente reduzido na montagem, arrastando consigo a personagem de Michelle, interpretada por Milla Jovovich, cujas cenas estavam quase todas ligadas a ele.

O resultado é um daqueles casos clássicos em que o cinema se adapta à química real dos actores. Wooderson tornou-se uma das figuras mais memoráveis do filme, apesar de nunca ser o centro da narrativa. E para McConaughey, foi o início de tudo: a performance que lhe abriu portas, chamou a atenção da indústria e lançou uma carreira que acabaria por passar por blockbusters, reinvenções dramáticas e até um Óscar.

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Às vezes, Hollywood não escolhe as estrelas. Elas simplesmente impõem-se. E neste caso, McConaughey fez exactamente isso — à sua maneira.

Um Natal Amarelo no Grande Ecrã: Porque o Novo Filme do SpongeBob É a Escolha Certa Para a Família 🎄🍍

Depois de mais de duas décadas a marcar gerações em Portugal, SpongeBob O Filme: À Procura das Calças Quadradas regressa ao cinema com estatuto de verdadeiro acontecimento familiar. A estreia acontece a 24 de Dezembro, em plena véspera de Natal, numa aposta clara em devolver às salas de cinema aquele ritual colectivo que tantos de nós associam a esta época do ano: rir em família, partilhar pipocas e sair da sessão com um sorriso colado à cara.

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Este novo capítulo cinematográfico não tenta reinventar a roda — e ainda bem. Em vez disso, abraça com convicção tudo aquilo que transformou SpongeBob SquarePants num fenómeno global: humor nonsense, optimismo inabalável, personagens inesquecíveis e uma imaginação que parece não conhecer limites. Aqui, SpongeBob sente que chegou o momento de provar que é um verdadeiro herói e, para isso, embarca numa aventura tão improvável quanto ambiciosa, seguindo o temível (e deliciosamente caricato) Holandês Voador até às profundezas do oceano.

A narrativa aposta numa estrutura simples, mas eficaz, pensada para funcionar em vários níveis. As crianças encontram cor, ritmo e situações absurdas em catadupa; os adultos reconhecem ironias, comentários subtis e aquela energia caótica que sempre distinguiu a série. É um equilíbrio difícil de alcançar, mas que este filme consegue manter com surpreendente leveza.

Um dos grandes trunfos desta estreia em Portugal é a continuidade na dobragem nacional. As vozes que acompanham SpongeBob há mais de 20 anos regressam, garantindo familiaridade imediata ao público português. É um detalhe que pode parecer menor, mas que faz toda a diferença quando falamos de um universo tão enraizado na memória colectiva. A isto juntam-se algumas estreias na dobragem cinematográfica, que entram com naturalidade e sem ruído, reforçando o elenco sem quebrar o tom.

Do ponto de vista visual, o filme mantém o estilo vibrante e exagerado que sempre definiu Bikini Bottom, mas adapta-o ao grande ecrã com uma escala mais ambiciosa. Há sequências claramente pensadas para impressionar em sala escura, com um sentido de espectáculo que transforma esta aventura numa experiência verdadeiramente cinematográfica — e não apenas num “episódio longo” da série.

A estreia internacional foi também assinalada com pompa e circunstância em Hollywood, num evento simbólico que reuniu várias figuras históricas ligadas ao universo SpongeBob, sublinhando a importância cultural da personagem criada por Stephen Hillenburg. É um reconhecimento justo para uma série que, ao longo dos anos, soube reinventar-se sem perder identidade.

No fundo, SpongeBob O Filme: À Procura das Calças Quadradas funciona como aquilo que o cinema de Natal deve ser: inclusivo, luminoso e emocionalmente generoso. Não pretende ser profundo ou solene, mas lembra-nos algo essencial — que a amizade, a coragem e a alegria continuam a ser valores universais, independentemente da idade.

Num calendário saturado de estreias “importantes”, este filme destaca-se precisamente por não tentar ser mais do que aquilo que promete. E às vezes, sobretudo no Natal, isso é exactamente o que precisamos.

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O filme estreia a 24 de Dezembro, nas salas de cinema portuguesas, em versões dobrada e legendada, com distribuição da NOS Audiovisuais  .

De Estrela de Acção a Caso Perdido: O Que Destruiu a Carreira de Steven Seagal?

Durante um breve mas intenso período no início dos anos 90, Steven Seagal parecia destinado a tornar-se um dos grandes nomes do cinema de acção. Tinha presença física, uma aura de invencibilidade, uma arte marcial pouco explorada em Hollywood e o apoio das pessoas certas. Mas a mesma carreira que subiu a uma velocidade impressionante acabou por implodir de forma quase tão rápida. A pergunta impõe-se: o que correu tão mal?

A resposta curta é simples e pouco elegante: Steven Seagal é uma besta! … ou pondo em termos mais polidos… tornou-se impossível de suportar. A resposta longa é bem mais reveladora — e diz muito sobre Hollywood, o ego, o talento (ou a falta dele) e a importância de saber evoluir.

Um início improvável… mas eficaz

Steven Seagal não chegou a Hollywood pela via tradicional. O seu primeiro grande trunfo foi o aikido, arte marcial japonesa que ensinava em Los Angeles. Entre os seus alunos estava Michael Ovitz, um dos fundadores da poderosa Creative Artists Agency (CAA). Ovitz viu ali uma oportunidade rara: um tipo grande, exótico, com uma imagem de dureza silenciosa e um estilo de luta diferente de tudo o que o cinema americano tinha mostrado até então.

Ovitz transformou Seagal numa estrela quase por decreto. O actor estreou-se em Above the Law (1988) e, nos quatro anos seguintes, protagonizou cinco filmes, todos eles sucessos comerciais. Hard to KillMarked for Death e Out for Justicecimentaram a imagem do “durão reformado” que regressa à acção para limpar tudo à sua volta.

O auge chegou com Under Siege, frequentemente apontado como o melhor filme da sua carreira. Críticos mais generosos chegaram a compará-lo a Die Hard num navio de guerra. O problema é que, a partir daí, Seagal achou que já tinha ganho o jogo.

O herói que nunca perde deixa de interessar

Ao contrário de Sylvester StalloneArnold SchwarzeneggerBruce Willis ou Harrison Ford, Steven Seagal nunca foi um herói vulnerável. Os seus personagens não enfrentavam obstáculos reais. Não aprendiam, não falhavam, não sangravam de forma significativa. Entravam numa sala e derrotavam todos os inimigos como se fossem figurantes descartáveis.

Esse modelo funcionou… durante algum tempo. Mas rapidamente se tornou repetitivo. Seagal só sabia interpretar uma personagem: o homem moralmente superior, taciturno, praticamente invencível, sempre um passo à frente de toda a gente. Não havia arco dramático. Não havia surpresa. Nem sequer variação de expressão facial — algo que se tornou motivo de piada recorrente.

Quando tentou assumir maior controlo criativo, o desastre foi inevitável. On Deadly Ground (1994), o único filme que realizou, foi um fracasso crítico e comercial, carregado de moralismo ecológico e auto-indulgência. A partir daí, a confiança dos estúdios começou a evaporar-se.

Talento limitado, ego ilimitado

Há um aspecto que Seagal nunca conseguiu contornar: não é um bom actor. Nunca foi. Enquanto os seus contemporâneos evoluíam, exploravam outros géneros e até brincavam com a própria imagem, Seagal manteve-se preso à mesma persona, convencido de que bastava a sua presença para justificar qualquer filme.

O problema agravou-se fora do ecrã. Hollywood é pequena e a reputação conta — muito. Seagal rapidamente ganhou fama de ser rude, confrontacional e abusivo, especialmente com duplos e membros das equipas técnicas. Há relatos de agressões físicas durante ensaios, incluindo um episódio em que terá partido o pulso de Sean Connery durante a preparação de Never Say Never Again.

A isto somam-se acusações de assédio sexual, comportamentos profundamente inadequados em filmagens (incluindo situações envolvendo actrizes muito jovens, como Katherine Heigl), e uma atitude geral de vedeta auto-proclamada quando, na prática, o seu valor comercial já estava em queda livre.

Política, misticismo… e isolamento total

Nos anos seguintes, Steven Seagal conseguiu ainda alienar quem restava. A sua amizade pública com Vladimir Putin, a obtenção da cidadania russa e o seu envolvimento em discursos políticos duvidosos tornaram-no uma figura tóxica para os grandes estúdios americanos.

Como se não bastasse, Seagal passou a apresentar-se como budista tibetano, alegadamente reconhecido como a reencarnação de um lama — um episódio recebido com cepticismo e sarcasmo dentro e fora da indústria. O resultado foi um afastamento quase total de Hollywood.

A partir dos anos 2000, a sua carreira resumiu-se a filmes de baixo orçamento, muitos deles lançados directamente em vídeo, onde aparece cada vez menos em cena, muitas vezes sentado, murmurando diálogos enquanto outros fazem o trabalho físico.

O fim anunciado de uma estrela que nunca quis mudar

Steven Seagal não foi destruído por um único erro, nem por um único escândalo. Foi destruído por uma combinação letal: falta de versatilidade, ego desmedido, comportamentos tóxicos e incapacidade de evoluir. Hollywood pode tolerar divas, pode tolerar excentricidades — mas raramente tolera alguém que seja simultaneamente difícil, dispensável e substituível.

Durante alguns anos, Seagal foi uma estrela. Mas nunca percebeu que, para continuar a sê-lo, precisava de fazer aquilo que sempre recusou: crescer.

E Hollywood nunca perdoa quem acredita que já chegou ao topo… quando, na verdade, só lá esteve de passagem.

Os 20 Dias Que Antecederam o Regresso ao Poder: O Documentário Que Mostra Melania Trump Como Nunca a Vimos

Ainda há poucos dias falámos deste documentário que está a agitar as notícias destes dias. Finalmente temos algo de concreto para o público português.

Durante anos, Melania Trump foi uma das figuras mais enigmáticas da política americana. Discreta, controlada, muitas vezes reduzida a imagens protocolares e a frases cuidadosamente escolhidas, a antiga Primeira-Dama sempre pareceu manter o mundo à distância. Melania, o novo documentário dos Amazon MGM Studios, promete precisamente o contrário: abrir as portas de um período decisivo e mostrar, sem filtros, os 20 dias que antecederam a Tomada de Posse Presidencial de 2025.

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Com estreia mundial nos cinemas a 30 de Janeiro, o filme acompanha o regresso de Melania Trump à Casa Branca, num momento de enorme tensão política, mediática e pessoal. Não se trata de um retrato histórico convencional, nem de um panfleto político. O documentário aposta antes num registo intimista, observacional, centrado na logística, nas decisões e no peso simbólico de reassumir um dos papéis mais escrutinados do planeta.

O grande trunfo de Melania está no acesso sem precedentes concedido à câmara. Reuniões decisivas, conversas privadas e bastidores nunca antes filmados compõem um retrato raro da transição presidencial vista através dos olhos da própria Primeira-Dama. O espectador acompanha a coordenação da tomada de posse, a complexa mudança da família de volta para Washington e o equilíbrio delicado entre vida familiar, compromissos institucionais e estratégias de comunicação.

Nas suas próprias palavras, Melania Trump sublinha a natureza excepcional do projecto, assumindo que este período representa “um capítulo decisivo” da sua vida. O filme procura captar exactamente isso: não apenas a figura pública, mas a mulher que gere pressões contraditórias, expectativas globais e uma imagem construída ao longo de décadas sob o olhar permanente dos media.

Com 104 minutos de duração, Melania evita o tom sensacionalista e aposta numa narrativa contida, quase silenciosa em certos momentos, que reflecte a própria personalidade da protagonista. Há uma clara intenção de controlo da narrativa, mas também uma vontade de mostrar o peso real do cargo e a dimensão humana por detrás da coreografia política.

Para o Clube de Cinema, este documentário interessa menos pelo debate ideológico e mais pelo seu valor enquanto objecto cinematográfico e documento de época. É um raro exemplo de cinema político centrado não no líder, mas na figura que gravita à sua volta, muitas vezes subestimada, mas crucial na construção simbólica do poder.

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Independentemente da posição que cada espectador tenha em relação à família Trump, Melania surge como um retrato revelador de como o poder se organiza, se encena e se vive nos bastidores. Um filme que, sem levantar a voz, diz mais do que muitos discursos.

O Vilão Que Faltava ao Cinema da DC: James Gunn Encontra Finalmente o Seu Brainiac

Durante décadas, os fãs de Superman perguntaram-se como era possível um dos vilões mais icónicos da banda desenhada nunca ter chegado, em condições, ao grande ecrã. Agora, essa lacuna histórica está prestes a ser preenchida. James Gunnjá escolheu quem vai dar vida a Brainiac em Man of Tomorrow: o actor alemão Lars Eidinger, um dos intérpretes mais respeitados do cinema europeu contemporâneo.

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A escolha não é inocente nem óbvia — e isso diz muito sobre o caminho que Gunn está a traçar para o novo universo cinematográfico da DC. Brainiac não é apenas mais um vilão musculado ou um antagonista de ocasião. Criado por Otto Binder e Al Plastino, estreou-se em Action Comics #242 como uma entidade fria, lógica e absolutamente obcecada com o conhecimento. Um andróide oriundo do planeta Colu, cuja missão é recolher — e preservar — todo o saber do universo, mesmo que isso implique destruir civilizações inteiras pelo caminho.

Em Man of Tomorrow, Brainiac será finalmente apresentado ao cinema como a ameaça cósmica que sempre foi nos comics. A história junta Superman, interpretado por David Corenswet, e Lex Luthor, agora com o rosto de Nicholas Hoult, numa improvável aliança contra um inimigo capaz de encolher cidades, apagar planetas e reescrever a própria história do universo. Nos comics, Brainiac tem ligações directas à destruição de Krypton, o planeta natal de Kal-El, o que abre portas a uma abordagem mais trágica e existencial da mitologia do herói.

A escolha de Lars Eidinger reforça essa ambição. Conhecido por trabalhos intensos e desconfortáveis em filmes como Clouds of Sils MariaPersonal Shopper ou White Noise, Eidinger traz consigo uma presença inquietante, cerebral e profundamente humana — qualidades raras num vilão digitalizado até ao último pixel. Nomeado recentemente para Actor Europeu do Ano nos European Film Awards pelo filme Dying, o actor alemão representa uma aposta clara num Brainiac menos caricatural e mais perturbador.

James Gunn confirmou pessoalmente a escolha nas redes sociais, escrevendo: “Na nossa procura mundial por Brainiac para Man of Tomorrow, Lars Eidinger destacou-se claramente. Bem-vindo ao DCU.” Uma frase simples, mas que diz muito sobre o método de Gunn: menos nomes óbvios, mais escolhas com peso artístico real.

Man of Tomorrow deverá iniciar filmagens em Abril e tem estreia marcada para 9 de Julho de 2027. O projecto surge depois do sucesso comercial de Superman, o primeiro grande filme do novo DC Studios liderado por Gunn e Peter Safran, que arrecadou mais de 616 milhões de dólares em todo o mundo. A expectativa é alta, não apenas por ser um novo capítulo do Homem de Aço, mas por finalmente trazer ao cinema um vilão que sempre foi demasiado grande, complexo e inteligente para ser ignorado.

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Se Gunn cumprir o que promete, Brainiac pode tornar-se não só o maior antagonista cinematográfico de Superman, mas também o símbolo de uma DC mais adulta, ambiciosa e disposta a pensar para além do óbvio. E isso, para quem acompanha estas personagens há décadas, já é uma pequena vitória.

Um thriller à moda antiga que sabe divertir: The Housemaid  arruma a casa no Rotten Tomatoes

Durante anos, os thrillers eróticos e psicológicos liderados por protagonistas femininas dominaram as salas de cinema, sobretudo nos anos 90, antes de desaparecerem quase por completo dos multiplexes. The Housemaid surge agora como um curioso regresso a esse território — consciente das suas raízes, assumidamente exagerado quando convém e, acima de tudo, interessado em entreter sem pedir desculpa.

Realizado por Paul Feig, conhecido sobretudo pelo seu trabalho na comédia, o filme aposta num registo inesperadamente sombrio e sedutor. A história acompanha Millie, interpretada por Sydney Sweeney, uma jovem que aceita um emprego aparentemente perfeito ao serviço de um casal rico, vivido por Amanda Seyfried e Branden Sklenar. O que começa como uma oportunidade de recomeço transforma-se rapidamente num jogo perigoso de manipulação, segredos e relações de poder.

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A recepção crítica tem sido, no geral, bastante favorável. Com uma pontuação de 78% no Rotten Tomatoes, baseada em cerca de uma centena de críticas, The Housemaid assume-se como um “guilty pleasure” bem executado. O consenso do agregador descreve-o como um regresso astuto aos thrillers sensacionalistas que outrora dominaram os cinemas, destacando o sentido de diversão do filme e, sobretudo, a interpretação “deliciosamente inquietante” de Amanda Seyfried.

Vários críticos elogiam a forma como o filme abraça o seu lado mais provocador. Há quem sublinhe o prazer quase nostálgico de assistir a um thriller psicológico que não tem receio de ser excessivo, sensual e assumidamente popular. Para alguns, trata-se exactamente do tipo de filme que já não se faz com frequência: directo, retorcido e eficaz na forma como conduz o espectador por sucessivas reviravoltas.

Naturalmente, nem todos ficaram convencidos. Algumas críticas apontam que o filme poderia ter ido ainda mais longe no seu lado “camp”, explorando com maior descaramento a sua natureza exagerada. Outras consideram que, apesar da forte química entre Sweeney e Seyfried, a narrativa nem sempre acompanha o potencial das suas protagonistas. Ainda assim, mesmo entre os detractores, há consenso quanto à qualidade do elenco e à energia que as actrizes imprimem às personagens.

Um dos aspectos mais interessantes de The Housemaid é precisamente o modo como Paul Feig se afasta da comédia pura para explorar um território mais sombrio, sem nunca perder o controlo do tom. O realizador parece divertir-se com as convenções do género, equilibrando tensão, humor negro e provocação, num filme que sabe exactamente o que é — e o que não pretende ser.

Para Sydney Sweeney, o filme representa mais um passo na consolidação de uma carreira que tem sabido alternar entre projectos de prestígio e cinema de género. Já Amanda Seyfried entrega uma das interpretações mais memoráveis do filme, jogando com ambiguidade e ameaça de forma subtil e eficaz.

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The Housemaid não tenta reinventar o thriller psicológico, mas também não se limita a reciclar fórmulas. É um filme consciente do seu ADN, que aposta na tensão sexual, no jogo psicológico e na diversão pura. Para quem sente saudades dos thrillers adultos que enchiam as salas nos anos 90, esta é uma visita surpreendentemente satisfatória — e bem arrumada.

A casa mais doce do cinema de Natal: Sozinho em Casa inspira a maior casa de gengibre do mundo

Trinta e cinco anos depois da sua estreia, Sozinho em Casa continua a provar que é muito mais do que um simples clássico natalício. É um verdadeiro fenómeno cultural, capaz de atravessar gerações, plataformas e… agora também recordes do Guinness. Para assinalar o aniversário redondo do filme, a Disney+ e a Hulu decidiram subir a parada e construíram a maior casa de gengibre do mundo, inspirada na icónica casa da família McCallister.

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A estrutura monumental, certificada oficialmente pelo Guinness World Records, recria a famosa moradia suburbana onde Kevin McCallister enfrentou, sozinho, os inesquecíveis “Wet Bandits”. Com 34 pés de comprimento, 58 de largura e 22 de altura (mais de 10 metros de comprimento e quase 7 metros de altura), a casa não é apenas decorativa: é uma verdadeira obra de engenharia açucarada.

A construção demorou oito dias intensivos e envolveu números absolutamente impressionantes. Foram utilizados cerca de 3.300 quilos de farinha, mais de 6.600 ovos, 75 litros de “cola” comestível e cerca de 4,5 quilos de fondant. Tudo isto para erguer uma réplica doce de uma das casas mais famosas da história do cinema, agora transformada num postal natalício em escala real.

A casa de gengibre encontra-se em exibição em Hollywood e funciona como uma poderosa acção promocional, mas também como uma declaração de amor a um filme que nunca saiu verdadeiramente de cena. Realizado por Chris Columbus e protagonizado por Macaulay CulkinSozinho em Casa estreou em 1990 e tornou-se rapidamente num sucesso global, redefinindo o cinema familiar de Natal e criando um herói improvável que marcou toda uma geração.

Mais do que celebrar um aniversário, esta iniciativa sublinha a longevidade do filme num panorama mediático cada vez mais volátil. Poucos títulos conseguem manter-se relevantes durante três décadas e meia, atravessando VHS, DVD, televisão por cabo e, agora, plataformas de streaming, sem perder o estatuto de ritual natalício obrigatório.

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Entre armadilhas engenhosas, gargalhadas garantidas e uma casa que agora bate recordes mundiais… fica claro que Kevin McCallister continua a proteger muito bem o seu território no imaginário colectivo. Desta vez, coberto de açúcar, farinha e nostalgia.

Quando Rambo deixou de ser vítima para virar super-herói: a guerra criativa entre James Cameron e Sylvester Stallone

Poucos filmes ilustram tão bem a transformação do cinema de acção dos anos 80 como Rambo: First Blood Part II. Aquilo que começou, em First Blood, como um retrato amargo de um veterano traumatizado pelo Vietname acabou por se tornar um desfile musculado de explosões, frases lapidares e contagens de cadáveres dignas de banda desenhada. E, ao contrário do que muitos pensam, essa mudança não foi apenas estética — foi também o resultado de um verdadeiro braço-de-ferro criativo entre James Cameron e Sylvester Stallone.

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Quando Cameron foi contratado pela Carolco para escrever o argumento da sequela, o realizador ainda não era o nome lendário que viria a ser. Aceitou o trabalho “pelo dinheiro”, como admitiria mais tarde, mas tentou manter viva a dimensão psicológica que tornara First Blood especial. O seu guião, intitulado First Blood II: The Mission, mergulhava novamente no trauma de John J. Rambo, explorando o stress pós-traumático e o peso emocional da guerra, mesmo num contexto de missão de resgate em território vietnamita.

O problema é que Stallone tinha outra visão. Depois de, no primeiro filme, ter sido ele próprio a suavizar o argumento original — retirando mortes e tornando Rambo mais humano e vulnerável —, o actor decidiu que a sequela precisava de algo diferente. O público dos anos 80 queria heróis maiores do que a vida, e Stallone percebeu isso antes de muitos. O resultado foi uma revisão profunda do texto de Cameron, ao ponto de o próprio realizador admitir que apenas cerca de metade do seu guião chegou ao ecrã.

A versão final do filme mantém a premissa básica — Rambo regressa ao Vietname para resgatar prisioneiros de guerra —, mas abandona grande parte da introspecção psicológica em favor da acção pura. O Rambo pacifista, que no primeiro filme não matava ninguém, transforma-se aqui numa máquina de combate que elimina dezenas de inimigos. A mudança é tão radical que redefine a personagem para sempre, empurrando a saga para um território cada vez mais exagerado, que atingiria o auge em Rambo III.

As diferenças entre os dois argumentos são reveladoras. No guião de Cameron, Rambo surge internado num hospital de veteranos, isolado, claramente marcado pela guerra. Há mais atenção aos prisioneiros que ele vai salvar, com histórias pessoais e humanidade próprias. Existe até uma personagem secundária pensada como alívio cómico e apoio técnico — alegadamente escrita a pensar em John Travolta — que desapareceu completamente na versão final. Stallone optou por simplificar tudo isso, introduzindo antes a personagem interpretada por Julia Nickson e acelerando o ritmo rumo à carnificina.

Curiosamente, Cameron nunca renegou totalmente o trabalho feito. Pelo contrário: reconheceu que a experiência lhe permitiu reciclar ideias. Alguns dos temas rejeitados em Rambo: First Blood Part II acabariam por ressurgir em Aliens, nomeadamente a ideia de personagens que regressam a cenários traumáticos e lidam com as cicatrizes psicológicas da violência extrema. Onde Rambo se tornou super-herói, Ellen Ripley manteve-se humana.

Este choque de visões diz muito sobre a evolução do cinema comercial da época. Cameron queria complexidade emocional; Stallone queria impacto imediato. Ambos tinham razão à sua maneira. Rambo: First Blood Part II foi um sucesso estrondoso e ajudou a definir o cinema de acção musculado dos anos 80. Mas também marcou o ponto em que a saga deixou definitivamente para trás o comentário social que estivera na sua génese.

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Hoje, visto à distância, o filme funciona quase como um estudo de caso sobre como as estrelas de Hollywood podem moldar narrativas à sua imagem — e como um personagem pode ser completamente reescrito não por um realizador ou argumentista, mas pelo actor que o encarna. Rambo deixou de ser apenas um homem quebrado pela guerra para se tornar um ícone pop global. E essa transformação nasceu, em grande parte, das tesouradas de Stallone no argumento de James Cameron.

O carrinho mais famoso do cinema de Natal: quanto custaria hoje a ida às compras de Kevin McCallister?

Há cenas de cinema que ficam gravadas na memória colectiva como se fossem rituais de época. Uma delas acontece em Sozinho em Casa, quando Kevin McCallister, o miúdo esquecido pela família no Natal, atravessa orgulhoso as portas de um supermercado carregado de sacos. Interpretado por Macaulay Culkin, Kevin sai dali com leite, sumo de laranja, pão, refeições congeladas, detergente, papel higiénico e até soldados de brincar… tudo por apenas 19 dólares e 83 cêntimos. Uma pechincha cinematográfica que, 35 anos depois, se tornou quase ficção científica.

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Nos últimos anos, o valor daquela compra voltou a circular nas redes sociais como símbolo de um tempo em que o dinheiro “esticava” mais. E não é apenas nostalgia: refazer exactamente o mesmo carrinho em 2025 dá um resultado bem diferente. Usando preços actuais de um supermercado próximo da zona suburbana de Chicago onde vive a família McCallister, o total chegaria hoje aos 53,95 dólares — ou 52,95 com o famoso cupão de desconto que Kevin apresenta com ar triunfante. Um aumento de cerca de 167% em pouco mais de três décadas.

O carrinho original incluía meia-garrafa de leite, meia-garrafa de sumo de laranja, um pão branco grande, um jantar de micro-ondas, massa com queijo congelada, detergente líquido Tide, película aderente, folhas para a máquina de secar, papel higiénico e um saco de soldados de brinquedo. Nada de luxos, nada de produtos gourmet. Ainda assim, o choque de preços diz muito sobre a evolução do custo de vida — e ajuda a explicar porque é que aquela cena hoje provoca tanto espanto.

Entre 2019 e 2024, os preços dos alimentos para consumo em casa nos Estados Unidos subiram mais de 27%, segundo o índice de preços ao consumidor. O período mais agressivo coincidiu com a pandemia, quando rupturas nas cadeias de abastecimento, aumento dos custos energéticos, falta de mão-de-obra e instabilidade global empurraram os preços para cima. O ritmo da inflação abrandou, mas os valores nunca regressaram ao ponto de partida.

Alguns produtos tornaram-se símbolos desse aumento. Os ovos mais do que duplicaram de preço em certos momentos, o pão encareceu devido aos custos do trigo e do combustível, e o café sofreu com fenómenos climáticos que afectaram grandes produtores mundiais. A carne seguiu o mesmo caminho, com secas e redução dos efectivos de gado a pressionarem a oferta. Até o leite, presença constante no cinema familiar americano, subiu de forma consistente.

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Visto à distância, Sozinho em Casa ganha uma camada inesperada de leitura: além de clássico natalício, tornou-se uma cápsula do tempo económica. A ingenuidade daquela ida às compras — com um miúdo de oito anos a gerir sozinho a despensa — hoje parece quase tão improvável quanto as armadilhas caseiras que Kevin monta para travar os ladrões. Talvez por isso o filme continue a regressar todos os Natais: não apenas pela comédia e pelo coração, mas porque nos lembra um mundo que, para muitos, já parece pertencer a outro século.

O trailer que correu tudo… menos o som: quando Tom Cruise virou meme e afundou um universo inteiro

Há nove anos, Tom Cruise protagonizou um dos momentos mais involuntariamente cómicos da história recente de Hollywood. Não foi num filme, nem numa entrevista, mas num trailer. Um trailer “partido”, sem música nem efeitos sonoros, que acabou por se tornar a coisa mais memorável — e, ironicamente, mais divertida — de toda uma franquia que nasceu morta: o ambicioso Dark Universe da Universal.

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Em 2017, a Universal Pictures apostava forte em The Mummy, uma nova versão do clássico protagonizada por Cruise, com a missão clara de lançar um universo partilhado inspirado nos lendários monstros do estúdio. A ideia era simples no papel: repetir a fórmula da Marvel com múmias, vampiros, lobisomens e afins. O problema? Tudo começou a descarrilar ainda antes da estreia… graças a um trailer IMAX lançado com um erro técnico absolutamente surreal.

O vídeo chegou às salas praticamente sem banda sonora. Não havia música épica, não havia efeitos especiais sonoros, não havia qualquer tipo de mistura final. O que sobrava? Diálogos soltos… e Tom Cruise a gritar. Muito. Durante quase dois minutos. O resultado era tão estranho quanto hilariante: perseguições aéreas acompanhadas apenas por gritos humanos em eco, sem qualquer enquadramento dramático.

A internet, como seria de esperar, fez o resto. O trailer foi rapidamente retirado pela Universal, mas já era tarde demais. Cópias começaram a circular e o vídeo transformou-se num meme global. Os gritos de Cruise passaram a ser sobrepostos a cenas icónicas do cinema: Darth Vader em Revenge of the Sith, Superman em Man of Steel, ou até a lendária cena de voleibol de Top Gun. Para muitos, essa versão “sem som” tornou-se mais marcante do que o próprio filme.

O mais cruel é que The Mummy precisava desesperadamente de uma boa primeira impressão. O Dark Universe já vinha coxo desde The Wolfman e Dracula Untold, dois ensaios falhados que não convenceram nem público nem crítica. Este reboot com Cruise era visto como o último cartucho. O trailer-meme não ajudou — antes pelo contrário, tornou o filme alvo de chacota antes mesmo de chegar aos cinemas.

Quando finalmente estreou, The Mummy confirmou os receios: uma narrativa confusa, excesso de exposição, personagens mal definidas e um tom indeciso entre terror, aventura e blockbuster genérico. O Dark Universe foi silenciosamente enterrado pouco depois, com projectos como Bride of Frankenstein ou Invisible Man a serem cancelados ou repensados (este último só ressuscitaria anos mais tarde, noutra abordagem).

Hoje, passados nove anos, o legado dessa tentativa falhada resume-se a um vídeo viral. Um erro técnico transformado em fenómeno cultural. Um lembrete de que, mesmo em Hollywood, bastam dois minutos sem música para destruir anos de planeamento estratégico.

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E talvez seja esse o maior paradoxo: o Dark Universe falhou redondamente, mas ofereceu ao mundo algo inesquecível. Não um novo universo cinematográfico — mas um Tom Cruise a gritar no vazio, eternizado na memória colectiva da internet.