Alternativa: “De ‘Eraserhead’ a ‘Uma História Simples’: o cinema português presta homenagem ao mestre do surreal”
Ano e meio depois da morte de David Lynch, em janeiro de 2025, o circuito de cineclubes portugueses continua a prestar-lhe homenagem através daquilo que melhor sabem fazer: programar, com cuidado e afeto, o trabalho de um dos cineastas mais singulares e influentes da história do cinema. Ao longo do mês de agosto, vários cineclubes espalhados pelo país — de Guimarães a Santarém, passando por Faro, Joane e Pombal — incluem sessões dedicadas ao realizador na sua programação regular.
O Cineclube de Guimarães escolheu, para a sua sessão do mês, “Uma História Simples” (1999), talvez o filme mais atípico de toda a filmografia de Lynch — uma produção da Disney, sem qualquer um dos elementos perturbadores ou surreais habitualmente associados ao realizador, que segue a viagem real de Alvin Straight, um homem idoso que atravessa vários estados americanos a bordo de um cortador de relva para visitar o irmão doente, de quem está afastado há anos. É precisamente essa capacidade de Lynch para alternar entre o pesadelo mais absoluto e a ternura mais desarmante, muitas vezes dentro da mesma filmografia, que torna esta escolha tão reveladora sobre a real amplitude do seu talento.
Já o Cineclube de Santarém optou por uma abordagem mais abrangente e ambiciosa: depois de ter exibido, em julho, “O Homem Elefante” (1980) — o drama que consagrou Lynch junto de Hollywood e lhe valeu nomeações ao Óscar — e “Eraserhead: No Céu Tudo é Perfeito” (1989), a sua estreia na longa-metragem e ainda hoje um dos filmes mais radicalmente perturbadores já produzidos, o cineclube dedicou o mês de agosto a uma sessão inteiramente dedicada às curtas-metragens do realizador. Ao todo, seis títulos raramente exibidos em conjunto: “Six Men Getting Sick” (1966), a sua primeira experiência cinematográfica enquanto ainda estudava pintura; “O Abecedário” (1968); “A Avó” (1970), talvez a mais inquietante das seis; “The Amputee” (1973); “The Cowboy and the Frenchman” (1988); e “Lumière” (1995), a sua contribuição ao projeto coletivo francês que assinalou o centenário do cinema.
Esta programação de curtas é particularmente valiosa para quem quer compreender a génese do universo visual de Lynch: é nestes trabalhos iniciais, muitas vezes esquecidos em favor dos longas-metragens mais conhecidos, que já se encontram em embrião as obsessões que definiriam toda a sua carreira — o corpo como fonte de horror e fascínio, a domesticidade transformada em pesadelo, o som como elemento tão narrativo quanto a imagem, e uma iconografia absolutamente própria que nenhum outro realizador conseguiu replicar com a mesma autenticidade.
Este tipo de homenagem descentralizada, feita não através de um grande evento único mas de pequenas sessões espalhadas por cineclubes de todo o país, talvez seja, aliás, a forma mais adequada de recordar um cineasta que sempre valorizou o cinema como experiência comunitária e ritual — e que, ao longo de décadas, encontrou em Portugal um público particularmente fiel e apaixonado pela sua obra.
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