Há histórias que só fazem sentido quando se conhece o contexto. Propeller One-Way Night Coach — o título completo do filme que John Travolta vai apresentar em Cannes na secção Cannes Première — é, na superfície, uma história de aviação sobre um rapaz de oito anos e a sua mãe numa viagem de avião para Hollywood. Na realidade, é um acto de amor de um pai ao filho que perdeu.

Travolta escreveu e ilustrou o livro original em 1997, baseando-se nas suas memórias de infância a observar aviões a descolar do aeroporto de La Guardia, perto de casa. O livro foi escrito para Jett, o seu filho, que morreu em Janeiro de 2009, aos dezasseis anos, vítima de uma convulsão durante umas férias nas Bahamas. O livro existia há quase trinta anos quando Travolta decidiu adaptá-lo para o ecrã — e esta semana, aos 72 anos, fará a sua estreia como realizador no festival que, em 1994, o relançou como actor com Pulp Fiction.
O filme é uma produção Apple Original Films de média-metragem, rodada parcialmente em Kansas City, com a participação da filha Ella Bleu Travolta como assistente de bordo — o mesmo papel que a própria mãe, Kelly Preston, falecida em 2020, poderia ter facilmente interpretado. O protagonista é o jovem actor desconhecido Clark Shotwell; a mãe no filme é Kelly Eviston-Quinnett. A história é deliberadamente simples: uma viagem de avião que se transforma numa aventura de formação. O que lhe dá peso é tudo o que está por baixo — a paixão de Travolta pela aviação, o filho a quem o livro foi dedicado, a filha que está no ecrã, a mulher que já não está.
Travolta tem mais de 9.000 horas de voo no currículo, é certificado para pilotar Boeing 707, 737 e 747 e foi o primeiro piloto privado a voar um Airbus A380. Voou em dois dos seus filmes — Look Who’s Talking e Broken Arrow. É, portanto, alguém que conhece o assunto do outro lado da câmara também. Propeller One-Way Night Coach estreia no Apple TV+ a 29 de Maio. Em Cannes, será apresentado no Teatro Debussy, com Travolta em sala. A quarta vez na Croisette — a primeira vez por detrás das câmaras.
Meryl Streep disse o que muitos pensam: “Tendemos a Marvel-izar os filmes — é muito aborrecido”



No comment yet, add your voice below!