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Teresa — Madre de Calcutá: Noomi Rapace Encarna uma Santa com Energia Punk

Há um momento nas notas de produção de Mother — o título original do filme que chega a Portugal a 14 de Maio como Teresa — Madre de Calcutá — em que a realizadora Teona Strugar Mitevska descreve o que procurava numa actriz para o papel: “Queria trabalhar com uma actriz que naturalmente irradia a energia punk rock que acredito que a Madre Teresa tinha, e que carregue uma ferocidade.” A escolha foi Noomi Rapace. E essa frase — “energia punk rock” aplicada à mulher canonizada pela Igreja Católica em 2016 — diz tudo sobre o tipo de filme que este é.

Teresa — Madre de Calcutá passou em abertura da secção Horizontes do Festival de Veneza em 2025, onde chegou com o peso de quinze anos de gestação. Mitevska começou este projeto com um documentário chamado Teresa and I, onde entrevistou as últimas quatro irmãs vivas que conheceram pessoalmente a Madre Teresa e fundaram a sua ordem. Foram essas conversas — gravadas numa Calcutá húmida e sufocante — que lhe revelaram uma personagem que o mito havia obliterado: uma mulher de 37 anos, ambiciosa, precisa, feroze na sua determinação, capaz de disciplina e de dureza, que escolheu a religião não apesar da sua força de carácter mas por causa dela.

O filme passa-se em apenas sete dias — Agosto de 1948, Calcutá — e concentra-se num momento que a hagiografia oficial raramente examina: o instante em que Teresa, Madre Superiora do Convento das Irmãs de Loreto, aguarda a autorização eclesiástica para abandonar o mosteiro e criar a sua própria ordem. É o momento antes de se tornar a Madre Teresa que o mundo conhece. E é precisamente por isso que o filme é interessante — porque o que vemos não é uma santa em plena santidade, mas uma mulher no limiar de uma decisão que vai definir toda a sua vida, com todas as contradições, ambições e medos que isso implica.

Mitevska, que é ela própria albanesa e macedónia como Teresa de Calcutá, descreve o processo de pesquisa com uma intensidade que vai muito além da preparação cinematográfica habitual. Viveu e filmou entre os intocáveis e os doentes de lepra em Calcutá. Tomou banho ritual no Ganges. Passou anos a analisar as cartas pessoais de Teresa e as polémicas que as rodearam — incluindo a relação profunda com o confessor Padre Exam, documentada em Come Be My Light, e a posição da Madre sobre o aborto, que Mitevska não esquiva nem desculpa mas tenta compreender no contexto de uma mulher que era, antes de mais, um produto do seu tempo. “Não quero apresentar nada além do que experiencio, vejo e vivo diariamente”, disse a realizadora. “As mulheres são fortes, capazes e competentes, e é isso que retrato nos meus filmes.”

Noomi Rapace — a actriz sueca que o mundo conheceu como Lisbeth Salander em Millennium e que construiu desde então uma carreira de personagens que habitam a tensão entre fragilidade e poder — passou um ano e meio a construir esta Teresa com a realizadora. Vinte e um rascunhos de guião. Leituras e releituras. Pesquisa sobre a India dos anos 40, a Igreja Católica, o colonialismo britânico. “Deixar que os seus próprios pensamentos e controlo fossem substituídos pelos dela”, como descreveu. Conta que numa noite, a caminhar pelas ruas de Calcutá durante as filmagens, já não sabia distinguir os seus pensamentos dos da personagem. “Ela mudou-se para dentro de mim.”

O elenco inclui Sylvia Hoeks como Irmã Agnieszka, Nikola Ristanovski como Padre Friedrich e Labina Mitevska — irmã da realizadora e co-produtora do filme — como Irmã Mercedes. A fotografia é de Virginie Saint-Martin, e a banda sonora original é de Magali Gruselle e Flemming Nordkrog. É uma co-produção entre a Bélgica, a Macedónia do Norte, a Suécia, a Dinamarca e a Bósnia-Herzegovina — o tipo de consórcio europeu que o cinema de autor precisa para existir em condições, e que raramente produz filmes medíocres.

Mitevska compara o seu projeto ao de Alexander Sokurov com Moloch e Taurus — os retratos do ditador Hitler e de Lenin na sua vida privada e nas suas contradições humanas. A sua Madre Teresa pertence a essa tradição: figuras históricas vistas no avesso do mito, no momento antes da apoteose, quando ainda são pessoas que fazem escolhas com consequências que não controlam completamente. “Quantas vezes ao longo da história celebrámos homens sob todas as luzes, as melhores e as piores?”, pergunta a realizadora. “Infelizmente, ficamos aquém quando se trata de mulheres.”

Teresa — Madre de Calcutá estreia em Portugal a 14 de Maio. É o tipo de filme que Veneza recebe de braços abertos e que os cinéfilos portugueses raramente têm a oportunidade de ver em ecrã grande. Uma realizadora macedónia, uma actriz sueca, uma santa albanesa, filmada na India com uma equipa de 300 pessoas. O cinema europeu a fazer o que faz de melhor: pegar numa figura que o mundo julgava conhecer e mostrar o que estava por baixo.

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