Quando Ralph Fiennes entrou na sala de audições de A Lista de Schindler, em 1992, nada indicava que aquele momento ficaria gravado na história do cinema. Vindo do teatro clássico britânico, dono de uma voz suave e de uma postura contida, Fiennes parecia uma escolha improvável para interpretar um dos vilões mais aterradores alguma vez retratados no grande ecrã.
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Mas bastaram poucos minutos para o ambiente se transformar. À medida que começava a dar corpo ao comandante nazi Amon Goeth, algo mudou. O olhar endureceu, os movimentos tornaram-se calculados, a respiração mais lenta. O silêncio que se instalou não foi de concentração — foi de desconforto.
No final, Steven Spielberg não aplaudiu. Saiu da sala. Minutos depois regressou, visivelmente perturbado, e disse apenas: “Acho que acabei de me deparar com o mal”.
Um papel que ninguém queria — nem o próprio actor
Ironicamente, Ralph Fiennes não desejava aquele papel. Anos mais tarde confessaria que tinha medo de Amon Goeth. “Não queria habitar a mente daquele homem”, admitiu. Mas Spielberg viu algo raro: uma tranquilidade profundamente inquietante, aquela calma quase clínica que antecede os actos mais cruéis.
Durante as filmagens, Fiennes tomou uma decisão radical. Mantinha o uniforme nazi mesmo fora das cenas. Não por vaidade ou método performativo vazio, mas porque precisava “sentir o peso e a repulsa” da personagem. Era uma forma de não romantizar o horror — de o enfrentar.
Quando a ficção se torna demasiado real
O impacto da sua presença foi tão intenso que sobreviventes do Holocausto que visitavam o set evitavam aproximar-se dele. Uma mulher chegou a chorar ao vê-lo. Disse-lhe: “Não é você… é ele. Você parece-se demasiado com ele”. Poucas validações são tão devastadoras quanto esta.
A interpretação foi amplamente elogiada e valeu-lhe uma nomeação para o Óscar. Mas deixou marcas profundas. “O que mais me assustou foi perceber o quão fácil a crueldade pode surgir”, contou Fiennes. Uma constatação que o acompanhou durante anos.
Recusar rótulos, preservar o mistério
Hollywood tentou empurrá-lo para o papel de vilão elegante e sofisticado. Ele recusou. Para Fiennes, o mistério é uma das últimas formas de poder de um actor. Assim, construiu uma carreira feita de contrastes: do monstro ao amante, do poeta ao assassino, do espião ao sacerdote.

Até que surgiu Lord Voldemort. A proposta arrancou-lhe uma gargalhada inicial. “Não gosto de fantasia”, disse. Só aceitou quando encontrou uma abordagem concreta e física. Estudou serpentes, trabalhou a voz como se respirasse através de vidro e decidiu que Voldemort não deveria ser uma caricatura, mas algo mais perturbador: “como se a morte tivesse aprendido a andar”.
Daniel Radcliffe resumiu melhor do que ninguém: quando Ralph Fiennes entrava no set, não eram precisos efeitos especiais — o ar gelava.
O silêncio como antídoto ao mal
Fora das câmaras, Fiennes é o oposto das figuras que interpreta. Escreve poesia, evita telemóveis e procura o silêncio. “A fama é barulho. Eu prefiro o silêncio”, diz.
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Ralph Fiennes não se limita a representar o mal. Ele desmonta-o, compreende-o e devolve-o ao público com algo ainda mais inquietante: humanidade. Porque o verdadeiro horror, como ele próprio demonstrou, não grita.
Sussurra.



























