Alternativa: “A maldição de Úrsula Iguarán cumpre-se: o desfecho de ‘Cem Anos de Solidão’ já tem data”
Uma das adaptações mais ambiciosas alguma vez produzidas pela Netflix está prestes a fechar o círculo. “Cem Anos de Solidão”, a série baseada na obra-prima de Gabriel García Márquez, prémio Nobel da Literatura, está a chegar ao fim: depois de os primeiros sete episódios da segunda parte terem estreado a 5 de agosto, o grande final — um episódio-filme com quase duas horas de duração — chega a 26 de agosto, encerrando definitivamente a saga da família Buendía e da cidade fictícia de Macondo.
Adaptar “Cem Anos de Solidão” para o ecrã foi, durante décadas, considerado praticamente impossível. O próprio García Márquez recusou repetidamente vender os direitos da obra em vida, precisamente por temer que qualquer adaptação traísse a complexidade narrativa e a densidade temporal do romance — uma história que atravessa gerações inteiras da mesma família, misturando realismo mágico, história política colombiana e um ciclo trágico de repetição que parece condenar os Buendía a cometer sempre os mesmos erros. Foram os filhos do escritor que, já depois da sua morte, autorizaram finalmente o projeto, com a condição expressa de que a série fosse filmada na Colômbia, em espanhol, e com elenco maioritariamente colombiano — exigências que a Netflix respeitou integralmente.
Esta segunda e última parte retoma a história exatamente onde a primeira temporada a tinha deixado, avançando pelos últimos cinquenta anos abrangidos pela obra original. Depois da assinatura do armistício, a paz continua a não chegar a Macondo: os conservadores tramam um atentado contra a vida do Coronel Aureliano Buendía, o que obriga Fernanda del Carpio a deslocar-se de Bogotá até à cidade. É também nesta fase da história que chega a companhia bananeira, atraída pela chegada da linha ferroviária — um acontecimento que desencadeia a decadência económica e moral de toda a cidade, cumprindo finalmente a maldição lançada por Úrsula Iguarán, matriarca da família: a de que as gerações condenadas a cem anos de solidão nunca teriam uma segunda oportunidade sobre a Terra.
O elenco reúne, entre outros, Claudio Cataño no papel do Coronel Aureliano Buendía, Marleyda Soto como Úrsula Iguarán, María Adelaida Puerta como Amaranta Buendía, e Julián Román e Jorge Quintero a dividirem, respetivamente, os papéis dos dois José Arcadio Segundo e Aureliano Segundo — um detalhe de casting particularmente relevante numa obra em que a repetição de nomes entre gerações é, ela própria, um elemento estrutural central da narrativa, um dos muitos recursos que García Márquez usou para sublinhar o ciclo trágico e aparentemente inescapável que atravessa toda a história familiar.
Com este desfecho, a Netflix conclui aquela que é, sem exagero, uma das apostas literárias mais arriscadas e ambiciosas de todo o seu catálogo — um teste real à capacidade do streaming de dar corpo visual a uma das obras mais influentes e intraduzíveis da literatura latino-americana do século XX.
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