Estreias de 18 de Junho: a Pixar, o adeus de Hugh Jackman e muito cinema de autor

A quinta-feira traz uma das semanas mais variadas do ano às salas portuguesas. Há o regresso de uma das maiores marcas da animação, um épico de ação a despedir-se de um herói, terror irlandês com um rosto vindo da comédia, e um punhado de filmes de autor que vão da história de Portugal aos dramas familiares europeus. Oito estreias, para todos os gostos e todas as idades.

Toy Story 5 é, à partida, a locomotiva da semana. Andrew Stanton assume a realização do quinto capítulo da saga que a Pixar abriu há trinta anos, e Tom Hanks, Tim Allen e Joan Cusack voltam a dar voz a Woody, Buzz e Jessie. Desta vez a ameaça à hora de brincar não vem de um brinquedo rival, mas da tecnologia, na forma da Lilypad, uma tablet com vontade própria a quem Greta Lee empresta a voz. O filme chega ainda com um chamariz extra para lá das crianças, uma canção original de Taylor Swift, intitulada “I Knew It, I Knew You”. São cento e dois minutos de aventura distribuídos pela NOS Audiovisuais, e a aposta segura para encher salas de famílias neste arranque de verão.

A Morte de Robin Hood joga noutro campeonato. Michael Sarnoski, o realizador de “Pig” e “Um Lugar Silencioso: Dia Um”, pega na figura do lendário fora da lei e leva-a para um território sombrio e adulto, com classificação para maiores e uma carga de violência que justifica o título. Hugh Jackman é um Robin Hood envelhecido e gravemente ferido, recolhido por uma mulher misteriosa interpretada por Jodie Comer, a Sister Brigid, enquanto Bill Skarsgård entra na pele de Little John. Produzido pela A24 e estreado no Festival de Sydney, o filme tem sido comparado ao desgaste físico e emocional que Jackman trouxe ao seu adeus a Wolverine em “Logan”. Quem procura um épico de ação com peso dramático, e não um conto de embalar, tem aqui o destaque da semana. Distribuição da NOS Audiovisuais, cento e vinte e três minutos.

Hokum – A Maldição Oculta é a estreia de terror, e das mais bem cotadas. O irlandês Damian McCarthy, que já tinha assustado meio mundo com “Oddity”, traz pela primeira vez um ator de Hollywood para o seu universo de casas isoladas e folclore celta. Adam Scott, que muitos conhecem de “Severance” mas que começou precisamente no terror, faz um escritor de histórias de medo que viaja até uma estalagem remota para espalhar as cinzas dos pais. No local, as lendas de uma bruxa que assombra a suite de lua de mel começam a infiltrar-se na sua cabeça, e o que parecia um luto torna-se um pesadelo. A crítica recebeu-o como um dos terrores mais eficazes do ano. Distribuição da Cinemundo, cento e sete minutos.

Magalhães é, provavelmente, a estreia mais ambiciosa do lote, e a que carrega o ângulo mais português. Produção nacional da Rosa Filmes assinada pelo filipino Lav Diaz, mestre do chamado cinema lento, o filme tem Gael García Bernal no papel do navegador Fernão de Magalhães e estreou-se em competição no Festival de Cannes. Diaz não está interessado no retrato heroico do explorador, antes naquilo que a expansão portuguesa e espanhola deixou no seu rasto, dando voz aos povos indígenas e às mulheres apanhados pela máquina colonial. São cento e sessenta e três minutos exigentes, filmados com rigor pictórico, que pedem paciência mas recompensam quem se deixa levar. Não é um filme para todos, é um filme para quem quer ver uma das páginas da história nacional revista por um olhar de fora. Distribuição da Nitrato Filmes.

Por Mais Um Dia marca um momento curioso no cinema português, a estreia de Sónia Araújo como atriz de cinema. O rosto das manhãs da RTP dá corpo a Teresa, uma das personagens centrais deste drama escrito, realizado e montado por Miguel Babo, que também entra no elenco ao lado de Paula Sá, Hugo Nicolau, Miguel Borges e João Damasceno. A história segue um conjunto de personagens em momentos de rutura, quando percebem que nada é o que julgavam ser, e mistura leveza, humor e reflexão sobre a fragilidade da vida e a presença da morte. Para o público que acompanha a apresentadora há décadas, é motivo de curiosidade vê-la num registo totalmente diferente. Classificação para maiores de catorze.

O Que é o Amor? é a comédia da semana, e vem de França com bons créditos. Fabien Gorgeart reúne Laure Calamy e Vincent Macaigne como um casal divorciado há muito que se vê obrigado a uma missão peculiar, provar perante a Igreja que o casamento nunca devia ter existido, para que ele possa voltar a casar pela religião. O que parecia uma formalidade transforma-se numa viagem a Roma, com filhos e novos companheiros a reboque, e com sentimentos que se julgavam apagados a regressar à superfície. O filme arrecadou o Grande Prémio do Festival de l’Alpe d’Huez e um prémio de interpretação para Calamy, e promete riso e ternura em doses equilibradas sobre as famílias recompostas. Distribuição da Outsider Films, cento e quarenta e oito minutos.

Cinco Segundos traz a Portugal o mais recente trabalho de Paolo Virzì, um dos nomes maiores do cinema italiano contemporâneo. Valerio Mastandrea é Adriano, um homem solitário e arredio que vive isolado numa antiga propriedade em ruínas, atormentado por um passado que não o larga. A chegada de um grupo de jovens decididos a recuperar as vinhas abandonadas, entre eles uma rapariga grávida vivida por Galatea Bellugi, perturba a sua rotina de silêncios e acaba por abrir uma brecha inesperada na sua couraça. É um drama sobre dor, paternidade e redenção, com Valeria Bruni Tedeschi em registo de apoio, que conquistou crítica e público em Itália. Distribuição da Leopardo Filmes, cento e cinco minutos.

Duas Vezes João Liberada fecha a lista e é, talvez, a proposta mais arrojada. Primeira longa de Paula Tomás Marques, co-escrita com a atriz June João, foi o único título português em competição na Berlinale deste ano, na secção dedicada a estreantes. É um filme dentro de um filme, em que uma atriz trans protagoniza uma biografia sobre Liberada, uma dissidente de género perseguida pela Inquisição, e em que a produção entra em crise quando o realizador adoece misteriosamente. Rodado em película, a preto e branco e a cores, cruza passado e presente para refletir sobre como se contam, no cinema, as histórias que durante séculos ficaram de fora. Distribuição da Films4You, setenta minutos.

São, portanto, oito caminhos muito diferentes para entrar numa sala esta semana, do conforto da animação ao desconforto produtivo do cinema que faz pensar. Raramente uma quinta-feira ofereceu tanto ao mesmo tempo.

Actualizado às 13:15

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Hugh Jackman Troca o Herói Clássico por um Robin Hood Sombrio e Brutal em “A Morte de Robin Hood”

Há personagens que parecem condenadas a regressar eternamente ao cinema. Robin Hood é uma delas. Ao longo das décadas, o lendário fora da lei de Sherwood já foi aventureiro romântico, herói familiar, guerreiro épico e até protagonista de blockbusters cheios de explosões e flechas digitais. Mas a nova versão promete fugir a tudo isso. E, honestamente, já era altura.

A Morte de Robin Hood, que estreia nos cinemas portugueses a 18 de Junho, apresenta uma abordagem muito mais sombria, humana e emocional da figura mítica, colocando Hugh Jackman no centro de um drama sobre culpa, violência, envelhecimento e redenção.

O título deixa logo claro que este não será um Robin Hood de aventuras leves entre árvores verdejantes e gargalhadas com o Pequeno João. Aqui, o herói surge ferido, física e emocionalmente, confrontado com as consequências da vida que levou. Depois de uma batalha que julgava ser a última, Robin encontra-se gravemente ferido e acaba sob os cuidados de uma mulher misteriosa, interpretada por Jodie Comer, que lhe oferece uma possibilidade inesperada de redenção.

Um Robin Hood mais humano e menos lenda

O realizador Michael Sarnoski, que chamou a atenção da crítica com Pig – A Viagem de Rob e mais recentemente realizou Um Lugar Silencioso: Dia Um, parece determinado em desmontar o mito clássico para encontrar algo mais cru e intimista. Segundo o comunicado divulgado pela NOS Audiovisuais, o filme procura explorar “um retrato mais humano de uma figura confrontada com o seu passado e com a lenda que ajudou a construir”.

E a verdade é que Hugh Jackman parece uma escolha particularmente interessante para essa abordagem. O actor australiano já provou inúmeras vezes que consegue equilibrar intensidade física com fragilidade emocional — basta lembrar Logan, filme que também pegava num herói lendário e o transformava numa figura cansada, violenta e profundamente marcada pelo peso da própria história.

Tudo indica que A Morte de Robin Hood segue um caminho semelhante: menos fantasia heróica e mais reflexão sobre o homem por trás da lenda. Um fora da lei envelhecido, perseguido pelos erros do passado e pela violência que ajudou a alimentar.

Jodie Comer e Bill Skarsgård juntam-se ao elenco

Além de Jackman, o filme conta ainda com Jodie Comer e Bill Skarsgård, dois nomes que continuam a consolidar carreiras particularmente interessantes em Hollywood. Comer, vencedora de um Emmy graças a Killing Eve, tem demonstrado uma capacidade rara para misturar vulnerabilidade e intensidade. Já Skarsgård continua a afastar-se da sombra de Pennywise para construir uma filmografia cada vez mais variada e imprevisível.

Embora ainda não tenham sido revelados muitos detalhes sobre as personagens, a presença dos dois actores reforça a ideia de que este não será apenas mais um filme de acção medieval feito à pressa para aproveitar um nome conhecido.

Até porque Robin Hood tem vivido uma relação complicada com o cinema moderno. Nos últimos anos, várias tentativas de revitalizar a personagem acabaram por passar despercebidas ou falhar junto da crítica e do público. Talvez precisamente porque insistiam em transformar a lenda numa espécie de super-herói medieval em vez de explorarem aquilo que sempre tornou a personagem interessante: a ambiguidade moral.

Uma nova vida para uma velha lenda?

O mais curioso nesta nova versão é precisamente o facto de parecer interessada em discutir o próprio mito de Robin Hood. O comunicado fala num herói confrontado “com o peso do mito” e isso pode abrir espaço para algo mais introspectivo e adulto do que o habitual.

Num momento em que Hollywood parece cada vez mais obcecada por reciclar personagens conhecidas, talvez a única forma de justificar mais um Robin Hood seja precisamente esta: abandonar a aventura confortável e olhar para a figura com alguma melancolia, violência e humanidade.

Se Michael Sarnoski conseguir trazer para este universo o mesmo tom emocional que mostrou em Pig, então A Morte de Robin Hood pode acabar por surpreender muita gente.

E convenhamos: ver Hugh Jackman de arco na mão continua a soar bastante melhor do que mais uma origem genérica de super-herói.