A semana de 6 de agosto traz um dos cartazes mais heterogéneos do verão: um documentário musical dos anos 2010 a reviver-se em sala, um biopic sobre um dos maiores ícones da música pop portuguesa, dois vencedores de festival vindos de Marrocos e de Itália, uma comédia negra de Gregg Araki, um slasher de Eli Roth com gelados assassinos, um clássico literário francês reinventado e, a fechar, a garantia de bilheteira das férias grandes. Eis o que fica para trás da fila e o que vai encher as salas.
Pulp: Um Filme Sobre a Vida, a Morte e Supermercados
Começamos pela reedição mais inesperada da semana. O documentário de Florian Habicht sobre a banda Pulp, originalmente de 2014, regressa às salas portuguesas pela Alambique, quase de certeza a reboque do renovado interesse pela banda de Jarvis Cocker. É cinema de nicho absoluto, dirigido aos fãs de Britpop e aos cinéfilos com memória de festival, mas continua a ser um retrato delicioso sobre o que significa fama numa cidade pequena.
Campo de Batalha (Campo di battaglia)
Gianni Amelio, veterano do cinema italiano, competiu com este drama de guerra em Veneza. Alessandro Borghi lidera um elenco que atravessa a Primeira Guerra Mundial pela óptica de dois médicos com visões opostas sobre o conflito. É cinema sério, bem cotado pela crítica, mas o peso do tema histórico e a distribuição discreta da Risi Film confinam-no ao público habitual do circuito de autor.
Calle Málaga
Carmen Maura, um dos rostos mais reconhecíveis do cinema ibérico das últimas quatro décadas, protagoniza esta história de uma viúva que luta para não perder a casa de família em Tânger. Maryam Touzani, a realizadora de “O Kaftan Azul”, venceu o Prémio do Público na secção Venice Spotlight, sinal claro de que este é arthouse acessível, feito para tocar sem exigir demasiado do espectador. Tem tudo para agradar ao público mais velho fiel ao cinema europeu, mesmo que a Leopardo Filmes lhe reserve um lançamento modesto.
I Want Your Sex
Gregg Araki, figura fundadora do New Queer Cinema, volta a provocar com Olivia Wilde e Cooper Hoffman numa comédia negra sobre uma artista que transforma o seu assistente em musa sexual, até a obsessão descambar em algo mais sombrio. As críticas são muito positivas, 89% no Rotten Tomatoes, elogiando sobretudo a química entre os protagonistas. Não é filme para multidões, é filme para quem gosta de ver os limites empurrados, mas vai gerar conversa.
Os Miseráveis: A História de Jean Valjean
Éric Besnard pega nas primeiras cem páginas do romance de Victor Hugo e transforma-as num filme autónomo sobre o momento em que Jean Valjean encontra pela primeira vez a bondade. Grégory Gadebois veste a pele da personagem mais icónica da literatura francesa, mas o desempenho em França ficou aquém do que o prestígio da fonte fazia prever, pouco mais de 350 mil entradas para uma produção de sete milhões de euros. Tema respeitável, impacto comercial discreto.
Ice Cream Man
Eli Roth regressa ao terror puro e duro com um conceito de trailer perfeito: um vendedor de gelados transforma as crianças de uma cidade suburbana em assassinos. É o tipo de filme que não precisa de convencer ninguém através da crítica, o nome de Roth e a premissa bastam para encher salas de fim de semana junto do público mais jovem, e a distribuição ampla da NOS Audiovisuais ajuda.
Playback
Se há um filme desta semana feito para tocar o público português de forma mais directa, é este. Rafael Ferreira dá corpo a Carlos Paião num biopic com o aval da família do artista, incluindo uma música inédita recuperada de demos caseiras deixadas pelo compositor. É nostalgia bem dosada para quem cresceu com “Play-Back” e “Chico Fininho”, com cobertura mediática que já vinha a crescer há meses antes da estreia. Tem tudo para ser a grande surpresa nacional do cartaz desta semana.
E o que vai dominar: Patrulha Pata — O Filme dos Dinossauros
Fica para o fim o título que, sem grande margem para dúvida, vai liderar as bilheteiras portuguesas nas próximas semanas. Os dois filmes anteriores da franquia já somam perto de 350 milhões de dólares mundiais, e as previsões para esta terceira aventura apontam para uma estreia entre 15 e 20 milhões de dólares só nos Estados Unidos. É animação de marca reconhecida, com público garantido nas férias grandes e distribuição maciça pela NOS Audiovisuais em praticamente todas as salas do país. Nenhum dos outros sete títulos desta semana tem hipótese de rivalizar com este alcance, mas é precisamente esse contraste, entre o gigante infantil e o resto do cartaz repleto de cinema de autor, terror de nicho e nostalgia nacional, que torna esta semana de estreias uma das mais interessantes de ler, mesmo que não seja a mais interessante de prever em bilheteira.



No comment yet, add your voice below!