Depois de mais de uma década a acompanhar as operações secretas de uma unidade israelita infiltrada em território palestiniano, “Fauda” chegou ao fim. A quinta e última temporada estreou a 8 de setembro na Netflix, com os 11 episódios disponíveis de uma só vez, e representa também o primeiro capítulo da série a lidar diretamente com o ataque liderado pelo Hamas a 7 de outubro de 2023, um acontecimento que os próprios criadores, Lior Raz e Avi Issacharoff, sabiam que teriam de enfrentar sem meias medidas.
A ação retoma dois anos depois desse ataque, com Doron Kavillio, personagem interpretada pelo próprio Lior Raz desde a primeira temporada, a lidar com um stress pós-traumático que o próprio ator descreve como o retrato mais cru já feito da personagem. É esse estado emocional debilitado que o arrasta para uma missão de vingança não autorizada, promovida por um velho amigo, levando-o a uma operação secreta de infiltração em Marselha, França, numa mudança de cenário pouco habitual para uma série que sempre esteve firmemente ancorada no território israelo-palestiniano. Ao elenco habitual, que inclui Itzik Cohen, Doron Ben-David e Yaakov Zada Daniel, juntam-se agora a atriz francesa Melanie Laurent e o ator Hakim Djaziri, um sinal claro da expansão geográfica da narrativa nesta reta final. A realização ficou a cargo de Omri Givon, também responsável por “Hostages”, com argumento de Omri Shenhar, criador de “Tehran”.
O mais interessante nesta última temporada é a forma como se recusa a oferecer ao público o desfecho triunfalista que uma série de ação sobre contraterrorismo poderia facilmente ter escolhido. Segundo as primeiras críticas publicadas, “Fauda” fecha não com uma vitória, mas com luto, memória e uma oração pela paz, depois de uma temporada inteira construída à volta do impulso de vingança, uma escolha temática que parece querer responder a uma pergunta incómoda que os próprios criadores admitem ter querido colocar: será que a vingança muda alguma coisa, ou apenas mantém o ciclo de violência em movimento? É uma nota final marcadamente mais sóbria e reflexiva do que a tensão puramente física que sempre foi a marca registada da série, um tom que a crítica tem recebido de forma dividida, com alguns a elogiar a maturidade da abordagem e outros a considerar o resultado emocionalmente pesado até para os padrões já de si intensos de “Fauda”.
Criada em 2015, “Fauda” tornou-se um fenómeno global pouco habitual para uma produção israelita, conquistando audiências bem para além do mercado local graças à sua abordagem pouco convencional para o género: em vez de retratar o conflito israelo-palestiniano através de uma lente estritamente heroica ou propagandística, a série sempre fez questão de humanizar também os seus antagonistas palestinianos, uma escolha narrativa que lhe valeu tanto elogios pela complexidade moral como críticas de diferentes lados do espectro político ao longo dos seus dez anos de existência. Que a série tenha decidido encerrar a sua história precisamente através do acontecimento mais traumático e mais divisivo da história recente da região sublinha até que ponto os seus criadores sempre encararam “Fauda” como um espelho, ainda que dramatizado, da realidade política e humana que procurava retratar.
Com este final, a Netflix perde uma das suas produções internacionais mais duradouras e mais consistentemente premiadas, mas os próprios criadores parecem ter escolhido terminar no momento certo, antes que a série arriscasse tornar-se repetitiva, optando por um fecho que privilegia a reflexão em detrimento do espetáculo fácil.



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