A bilheteira americana de 2026 vai 14% acima do ano passado: o verão pode ser o melhor da última década

Os números são suficientemente bons para que a indústria os diga em voz alta. Entre Janeiro e Abril de 2026, a bilheteira norte-americana acumulou 2,57 mil milhões de dólares — um crescimento de 14% face ao mesmo período de 2025, segundo dados da ComScore. O contexto importa: 2025 foi já um ano de recuperação sólida, e crescer 14% sobre essa base não é trivial.

Os catalisadores são conhecidos: O Super Mario Galaxy Movie tornou-se o primeiro filme de 2026 a superar os 400 milhões de dólares nas salas americanas, com uma carreira global que já vai em 832 milhões; Project Hail Mary, a adaptação do romance de Andy Weir com Matt Damon, aproxima-se dos 319 milhões domésticos na sétima semana de exibição — um feito notável para um filme de ficção científica original sem franchise por detrás; e Michael, o biopic de Michael Jackson, abriu o fim-de-semana passado com 97 milhões nos EUA e mantém-se forte na segunda semana.

O Diabo Veste Prada 2, que estreou ontem em Portugal, insere-se neste contexto como o catalisador da temporada de verão americana — a primeira vez que um filme liderado por mulheres inaugura a temporada que vai de Maio a Setembro. Se os números do fim-de-semana nos EUA confirmarem as projecções mais optimistas, o verão de 2026 poderá rivalizar com os melhores anos do pré-pandemia.

Quanto ao impacto em Portugal, não há ainda dados que permitam traçar um paralelo directo com o mercado nacional. O que se pode dizer é que uma bilheteira americana saudável tende a traduzir-se num calendário de estreias mais robusto em toda a Europa: distribuidores mais confiantes, janelas de lançamento mais curtas entre os EUA e Portugal, e — em última análise — mais filmes a chegar às salas portuguesas com a urgência que merecem.

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“Hokum”: o filme de terror com 91% no Rotten Tomatoes que ficou na sombra do “Diabo Veste Prada”

Há semanas em que o cinema de grande escala engole tudo o que está ao lado. Esta foi uma delas. Enquanto O Diabo Veste Prada 2 ocupava todos os ecrãs e toda a atenção mediática, Hokum — o novo horror de Damian McCarthy, realizador irlandês que já tinha mostrado o que era capaz em Caveat (2020), premiado no SXSW e com distribuição em 2.000 salas nos EUA — estreou praticamente invisível no ruído da semana.

Os números dizem outra coisa: 91% no Rotten Tomatoes e 78 no Metascore. Este segundo valor é particularmente revelador — o Metascore, que agrega críticas de publicações de referência com uma ponderação editorial, é habitualmente mais exigente e mais difícil de comprazer do que o agregador de críticas de audiência. Um 78 no Metascore em horror é um resultado que poucos filmes do género alguma vez atingem.

Adam Scott — melhor conhecido pelo seu papel em Severance, onde a sua capacidade de habitar uma normalidade progressivamente perturbadora se revelou completamente — protagoniza um filme descrito pela crítica como horror de construção lenta e psicológica, que usa a suburbia americana como pano de fundo para algo que se vai tornando cada vez mais difícil de nomear. McCarthy confirma com Hokum o que Caveat apenas prometia: um domínio do terror de atmosfera que é raro e que deve ser seguido de perto.

Hokum estreia em Portugal a 25 de Junho. É tempo suficiente para marcar a data — e para confiar que Damian McCarthy vai fazer exactamente o que McCarthy faz: chegar devagar, instalar-se, e não sair facilmente.

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A Verdadeira Dor — Kieran Culkin e o Óscar que ninguém esquece

Existe cinema para entretenimento puro e depois existem aqueles filmes para perguntar algo e nos fazerem refletir e sentir. Não tenho pejo em admitir que gosto de ambos. E A Verdadeira Dor, de Jesse Eisenberg, pertence claramente ao segundo grupo — e fá-lo com uma elegância e uma honestidade que raramente se encontram juntas no mesmo ecrã. Estes valem sempre mais do que o contracto a prazo de cerca das 2 horas de que vale qualquer bilhete…

A premissa é simples até ao ponto em que deixa de o ser: dois primos, David e Benji, viajam pela Polónia para honrar a memória da avó recentemente falecida. Percorrem os lugares da herança judaica da família, incluindo o campo de concentração de Majdanek, e deixam que essa viagem faça aquilo que as viagens difíceis sempre fazem — expor o que estava enterrado.

O que Eisenberg percebeu, com uma maturidade invulgar para um realizador no seu segundo filme, é que a tensão entre os dois primos é tão rica quanto o peso da história que carregam. David (o próprio Eisenberg) é ansioso, metódico, controlado. Benji (Kieran Culkin) é impulsivo, expansivo, impossível de ignorar. São o tipo de opostos que só a família consegue unir — e que só uma viagem suficientemente intensa consegue obrigar a olhar um para o outro. A Polónia não é apenas cenário: é o catalisador que transforma um tributo numa ajuste de contas íntimo e, por isso mesmo, num filme sobre a vida.

Culkin é simplesmente extraordinário. Há uma qualidade na sua performance que é difícil de descrever sem recorrer a clichés — diremos apenas que ele faz parecer fácil o que é tecnicamente muito difícil: ser simultaneamente o elemento cómico, o mais vulnerável e o mais perturbador de qualquer cena em que aparece. O Óscar de Melhor Ator Secundário que recebeu este ano não foi uma surpresa para quem o viu — foi uma confirmação. Os BAFTA e os Critics Choice Awards disseram o mesmo antes.

Eisenberg, por seu lado, recebeu uma nomeação ao Óscar de Melhor Argumento Original que diz muito sobre o tipo de realizador que está a tornar-se. Depois de Quando Acabares de Salvar o Mundo (2022), confirmou que tem algo a dizer — e que sabe encontrar a forma certa de o dizer sem gritar. A Verdadeira Dor estreou no Festival de Sundance em 2024 com aclamação generalizada, e a temporada de prémios que se seguiu transformou o que poderia ter sido um filme pequeno num dos títulos mais falados do ano.

O que fica, no final, não é a história do Holocausto — que é tratada com o respeito e a seriedade que merece, sem nunca ser instrumentalizada — mas a história de duas pessoas que precisavam de se ver de verdade e só conseguiram fazê-lo no lugar mais improvável. Há humor, desconforto, silêncios que pesam e momentos de uma ternura inesperada. É o tipo de cinema que não resolve nada e, por isso mesmo, ressoa durante dias.

A Verdadeira Dor estreia esta noite, domingo, 3 de maio, às 22h05 no TVCine Top, ficando também disponível no TVCine+.

Dune: Parte Um — O épico que o cinema merecia

Há filmes que chegam com o peso de décadas de expectativas e saem sem as defraudar. Dune: Parte Um, de Denis Villeneuve, é um desses raros casos — uma adaptação que tantos consideravam impossível e que o realizador canadiano transformou numa das experiências cinematográficas mais imponentes dos últimos anos.

A história é conhecida de quem leu Frank Herbert: Paul Atreides (Timothée Chalamet), filho de uma nobre casa galáctica, é arrastado para Arrakis, um planeta desértico e hostil que é, simultaneamente, o lugar mais valioso do universo. É lá que se extrai a especiaria, a substância que o poder quer controlar e que os Fremen — o povo do deserto — protegem com a sua vida. Numa outra mão, está Zendaya como Chani, figura misteriosa que Paul vê em sonhos antes de a encontrar na realidade. É a promessa de algo que, astutamente, Villeneuve guarda para a segunda parte.

Mas Dune: Parte Um não é apenas argumento. É, acima de tudo, uma obra de construção de mundo com uma generosidade visual raramente vista. A direcção de fotografia de Greig Fraser — que valeu um dos seis Óscares que o filme arrecadou — transforma Arrakis numa paisagem quase espiritual, onde a areia não é fundo mas personagem. A pontuação de Hans Zimmer, que escolheu este projecto em detrimento de Tenet de Christopher Nolan (uma escolha que diz muito sobre o estatuto do romance de Herbert no mundo da cultura), usa vozes e texturas para criar algo que soa simultaneamente antigo e alienígena.

O elenco é extraordinário na sua diversidade e no seu compromisso. Oscar Isaac como o Duque Leto transmite uma nobreza trágica em poucos planos. Rebecca Ferguson como a Senhora Jessica navega entre o amor maternal e os segredos de uma ordem quase religiosa. Jason Momoa como Duncan Idaho rouba todas as cenas em que aparece, com uma energia que o torna o elemento mais carismático do filme. E Josh Brolin, Stellan Skarsgård e Dave Bautista compõem os antagonistas com uma presença física que dispensa grandes falas.

O filme tem a coragem de ser lento quando a história pede lentidão, e esmagador quando os momentos de grandiosidade chegam. A sequência dos vermes das areias — os Shai-Hulud — não é apenas espectáculo: é uma declaração de filosofia visual. Villeneuve quer que o espectador sinta a escala, não que a processe. E consegue-o.

Há quem aponte que o filme termina abruptamente, em suspenso — e é verdade. Mas isso é também uma honestidade: Dune: Parte Um é, literalmente, metade de uma história, e Villeneuve nunca fingiu o contrário. Com a segunda parte disponível no mesmo lugar (e igualmente à altura), o argumento perde força.

Para quem ainda não viu, ou para quem quer rever antes do terceiro capítulo que está em produção, Dune: Parte Um está disponível para os subscritores do Netflix e do HBO. Não há desculpa para adiar mais.

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— corrigido um erro de edição no primeiro filme dia 2 de Maio de 2026 às 00:49–

“Não Fales do Mal” — Quando a hospitalidade se torna uma armadilha

Há um tipo de horror que não precisa de monstros. Precisa apenas de um jantar em que ninguém diz o que pensa, de um sorriso que dura tempo a mais, de uma piada que não é bem uma piada. É exatamente esse o terreno de Não Fales do Mal, o thriller psicológico realizado por James Watkins que chega esta noite ao TVCine Top e que transforma a mais banal das situações sociais — o fim de semana em casa de novos amigos — num exercício de inquietação crescente.

Ben e Louise Dalton (Scoot McNairy e Mackenzie Davis) são um casal americano que, em férias na Europa, conhece um par de britânicos aparentemente encantadores. O convite para um fim de semana na sua casa de campo parece o gesto simpático de quem quer continuar uma amizade que nasceu bem. É claro que não é.

A partir daí, Watkins constrói a tensão com precisão cirúrgica, sem recorrer aos atalhos habituais do género. Não há sustos fáceis nem gore gratuito — há algo pior: a acumulação de pequenos desconfortos que qualquer pessoa reconhece. O comentário que passa do limite. A atitude que é invasiva mas não o suficiente para justificar uma saída de cena. A sensação de que algo está errado, mas a educação não deixa dizê-lo em voz alta. O filme explora com inteligência esse espaço incómodo entre a cordialidade social e o instinto de sobrevivência — e faz-o com uma eficácia que deixa o espectador a torcer para que os protagonistas abandonem de uma vez a boa educação.

James McAvoy é a revelação do elenco, num papel que oscila com desconcertante fluidez entre o charme genuíno e a intimidação velada. É o tipo de personagem que o espectador não consegue classificar — e é exactamente essa ambiguidade que o torna tão perturbadora. Ao seu lado, Aisling Franciosi completa um duo de anfitriões que ficará na memória por razões que seria criminoso revelar.

O filme é uma reinterpretação do original dinamarquês de 2022, de Christoffer Borgli, e Watkins — realizador de A Mulher de Negro — amplifica a tensão da premissa original sem a trair. Há aqui uma tese sobre os limites da tolerância e sobre o preço que pagamos por sermos agradáveis que torna Não Fales do Mal algo mais do que um thriller de entretenimento. É um filme que fica.

Não Fales do Mal estreia esta noite, 2 de maio, às 21h30 no TVCine Top, ficando igualmente disponível no TVCine+.