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Um documentário de 75 milhões, protestos à porta e um país em combustão

Melania chega aos cinemas como o projecto mais controverso da era Trump

Não é todos os dias que um documentário se estreia como se fosse um comício político, um desfile de moda e um teste de resistência à realidade americana — tudo ao mesmo tempo. Melania, o novo documentário centrado na actual primeira-dama dos Estados Unidos, entrou em cena a 29 de Janeiro no Kennedy Center, em Washington, envolto num aparato raramente visto no cinema documental. O filme, orçado em 75 milhões de dólares, é já apontado como um dos documentários mais caros de sempre a chegar às salas de cinema.

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Produzido para a Amazon, o filme marca uma nova etapa na exposição pública de Melania Trump, num momento em que o país atravessa uma das fases mais polarizadas da sua história recente.

Brett Ratner regressa atrás das câmaras — e ao centro da polémica

A realização está a cargo de Brett Ratner, cineasta conhecido pela saga Rush Hour e afastado de Hollywood desde 2017, após várias acusações de assédio sexual, que sempre negou. Melania representa o seu primeiro grande projecto em quase uma década — um regresso que, por si só, já levantou fortes críticas dentro e fora da indústria.

Ratner descreve o seu papel como o de um observador invisível, afirmando ter sido “uma mosca na parede” durante as filmagens, que acompanharam Melania Trump ao longo dos 20 dias que antecederam a segunda tomada de posse do marido. O realizador rejeita a ideia de que este filme seja uma tentativa de reabilitação profissional, sublinhando que aceitou o projecto apenas pelo desejo de voltar a filmar.

Alta-costura, política e televisão de luxo

Segundo relatos de quem assistiu à estreia, Melania está longe de ser um documentário tradicional. O filme adopta uma estética altamente estilizada, mais próxima de um episódio de luxo de Real Housewives do que de um retrato político clássico. Guarda-roupa, decoração, encenação e imagem são tratados como elementos narrativos centrais, com a câmara a seguir Melania em provas de vestidos, reuniões de design de interiores da Casa Branca e conversas cuidadosamente coreografadas, incluindo um encontro com a primeira-dama francesa, Brigitte Macron, sobre bullying online.

A inspiração visual, segundo Ratner, aproxima-se mais de um videoclip de Jean-Baptiste Mondino do que de um documentário de observação, reforçando a ideia de que este projecto é também uma declaração estética — e estratégica.

Um lançamento em contraciclo com o país real

Enquanto no interior do Kennedy Center desfilavam figuras ligadas ao universo MAGA — de Robert F. Kennedy Jr. a Marco Rubio, passando por Dr. Phil e nomes inesperados como Nicki Minaj — cá fora o cenário era bem diferente. Protestos multiplicavam-se, alimentados por recentes casos de violência policial e pela crescente tensão social nos Estados Unidos. O contraste entre o luxo da estreia e a raiva nas ruas tornou-se impossível de ignorar.

Mais do que um filme, uma marca em construção

Para além do cinema, Melania parece funcionar como o primeiro capítulo de uma reinvenção pública da primeira-dama. O documentário posiciona-a não como figura política activa, mas como uma marca de lifestyle em potência — uma espécie de resposta conservadora a Martha Stewart ou Oprah Winfrey. A ambição passa por conteúdos, produtos de luxo e uma presença mediática cuidadosamente controlada, agora reforçada pela criação da sua produtora, Muse Films.

Do ponto de vista da Amazon, o investimento pode não fazer sentido apenas em termos de bilheteira. O verdadeiro trunfo poderá estar na futura estreia do documentário no Prime Video, onde poderá servir como chamariz para públicos conservadores, à semelhança do que já aconteceu com séries como Reacher.

Um objecto cultural impossível de ignorar

Quer seja visto como propaganda elegante, exercício de vaidade ou retrato genuíno de uma figura enigmática, Melaniadificilmente passará despercebido. Num país em permanente estado de choque político, o documentário surge como um objecto cultural estranho, luxuoso e profundamente deslocado do seu tempo — o que, paradoxalmente, o torna revelador.

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Resta saber se o público verá nele glamour… ou apenas mais um sintoma de um país em guerra consigo próprio.
Em Portugal neste fim de semana de estreia foram pouco mais de 720 os espectadores que o foram ver.

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