Chega hoje aos cinemas portugueses “Bodyhackers”, o primeiro filme em língua inglesa de Carlos Conceição, um dos nomes mais interessantes e imprevisíveis do cinema português da última década. Depois de “Tommy Guns” (2022), que lhe valeu o prémio Europa Cinemas Label em Locarno, e do documentário híbrido “Serpentarius”, estreado em Berlim em 2019, Conceição muda de registo e de língua sem abdicar do gosto por misturar géneros que já era a sua marca de água.
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A história segue Denver Blake, um ativista ambiental decidido a expor uma corporação de cosmética que lucra à custa das inseguranças criadas pelos padrões de beleza impostos pela sociedade. O plano de Denver complica-se quando se apaixona por Renée, uma ex-bailarina obcecada com a ideia de aperfeiçoar constantemente a própria beleza, o que o arrasta para um submundo clandestino de cirurgia plástica onde as regras normais deixam de se aplicar. O elenco é liderado por McCaul Lombardi e pela portuguesa Joana Ribeiro, com Elina Löwensohn e Jenna Thiam a completar o grupo principal.
Esteticamente, o filme reivindica sem pudor a herança de David Cronenberg e do seu body horror mais clássico, mas fá-lo com um verniz satírico e uma sensibilidade noir muito própria, seguindo pessoas que reinventam os seus próprios ideais de perfeição até incorporarem uma atração sensual por corpos transformados cirurgicamente. É um território temático que dialoga diretamente com as ansiedades contemporâneas em torno de filtros, cirurgia estética e cultura de influenciadores, ainda que a ação decorra num registo mais fabulado e extremo do que documental.
“Bodyhackers” estreou mundialmente em agosto no Festival Internacional de Cinema de Edimburgo, de onde saiu com boas críticas, elogiando sobretudo a coragem formal do realizador em arriscar um registo de género tão físico e desconfortável logo na sua primeira incursão pelo inglês. Tem uma duração relativamente compacta, pouco mais de hora e meia, o que se ajusta bem à intensidade do material.
Para quem acompanha o percurso de Conceição desde os curtas-metragens, esta é também uma confirmação de um padrão: o realizador raramente se acomoda a um único género ou tom, preferindo obras que atravessam fronteiras entre drama, terror, comédia negra e crítica social, muitas vezes dentro do mesmo filme. Com “Bodyhackers”, essa inquietação formal ganha agora um alcance internacional maior, com um elenco anglófono e uma distribuição que já passou por festivais de referência do circuito americano e britânico antes de chegar às salas portuguesas.
É uma das estreias mais originais e arriscadas da semana em Portugal, e uma oportunidade de ver um dos autores mais estimulantes do cinema nacional a testar-se num contexto completamente novo, sem perder a identidade que o tornou reconhecível.

