O ciclo “Estrela do Mês: Alfred Hitchcock” chega, esta segunda-feira, dia 17 de agosto, às 20h30, ao seu terceiro capítulo — e é, sem qualquer margem para dúvida, o mais influente de todos os cinco filmes selecionados pelo Canal Cinemundo. Depois de “O Homem que Sabia Demais” e “A Mulher que Viveu Duas Vezes” (“Vertigo”), é a vez de “Psico” (“Psycho”, 1960) preencher o horário nobre das segundas-feiras dedicado ao mestre do suspense.
É difícil exagerar o impacto que “Psico” teve, e continua a ter, sobre a história do cinema. Antes deste filme, o género de terror vivia sobretudo de monstros clássicos, criaturas sobrenaturais e cenários exóticos e distantes. Hitchcock decidiu, em vez disso, instalar o horror num motel de beira de estrada perfeitamente banal, gerido por um jovem aparentemente inofensivo chamado Norman Bates — e, com isso, redefiniu para sempre aquilo que o público entende por medo no cinema. A célebre cena do chuveiro, filmada ao longo de vários dias, com dezenas de ângulos de câmara diferentes e uma banda sonora de cordas dissonantes composta por Bernard Herrmann, tornou-se provavelmente a sequência mais estudada, analisada e imitada de toda a história do cinema — e continua, décadas depois, a ser ensinada em escolas de cinema de todo o mundo como exemplo máximo de montagem ao serviço do terror psicológico.
Parte do génio de “Psico” está também na forma como Hitchcock brincou, de forma deliberada e quase provocatória, com as expectativas do próprio público. Ao matar a sua protagonista principal — interpretada por Janet Leigh, então uma das grandes estrelas de Hollywood — a meio do filme, numa altura em que nenhuma convenção narrativa da época permitia sequer imaginar tal coisa, Hitchcock retirou ao espectador qualquer sensação de segurança narrativa. Ninguém, a partir daquele momento, podia ter a certeza de quem sobreviveria até ao final. Essa quebra brutal de expectativas tornou-se, ela própria, um modelo replicado inúmeras vezes por gerações posteriores de realizadores de terror e suspense.
O filme foi ainda pioneiro em termos de estratégia de exibição: Hitchcock insistiu, junto dos donos das salas de cinema, para que nenhum espectador pudesse entrar depois do início da sessão — uma prática hoje considerada absolutamente normal, mas que na época constituiu uma verdadeira revolução na forma como o público consumia cinema, obrigando as pessoas a respeitar o horário de início como parte essencial da experiência da própria história.
Anthony Perkins, no papel de Norman Bates, entrega uma das interpretações mais marcantes de toda a carreira, condenando-o, de certa forma, a ficar para sempre associado a esta personagem perturbadora — um destino que o próprio ator reconheceu, com alguma amargura, em entrevistas ao longo dos anos seguintes. Mais de seis décadas depois da sua estreia original, “Psico” continua a funcionar como uma verdadeira aula de tensão cinematográfica, prova de que o medo mais eficaz nem sempre precisa de sangue nem de efeitos especiais — só precisa de um realizador que saiba exatamente quando e como o revelar.
Cineclubes portugueses dedicam agosto a David Lynch
“Outer Banks” chega ao fim com a 5.ª temporada, a 20 de agosto na Netflix
“Mother Mary”: o thriller surreal de Anne Hathaway estreia na HBO Max a 21 de agosto
“Nosferatu”: Robert Eggers reinventa o vampiro mais antigo do cinema para o TVCine
