Juliette Binoche lidera Queen at Sea, um dos filmes mais perturbadores da Berlinale
Durante anos, o nome de Lance Hammer foi sinónimo de promessa. Em 2008, o realizador destacou-se com Ballast, um drama cru passado no Mississippi que venceu o prémio de Melhor Realizador no Festival de Sundance e lhe valeu múltiplas nomeações nos Spirit Awards e Gotham Awards. Depois disso, silêncio. Quase vinte anos de ausência.
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Agora, Hammer regressa com Queen at Sea, apresentado no Berlin International Film Festival de 2026, onde causou impacto pela sua abordagem frontal, dolorosa e moralmente inquietante da demência — e, sobretudo, da questão do consentimento dentro de um casamento quando a memória desaparece.
O resultado é um filme difícil, perturbador e profundamente humano.
Uma família à beira da ruptura
No centro da narrativa está Amanda, interpretada por Juliette Binoche, uma académica em pausa profissional que regressa a Londres para acompanhar a deterioração da mãe, Leslie. Esta última, vivida com devastadora precisão por Anna Calder-Marshall, perde gradualmente noção de tempo, memória e identidade.
Leslie vive com o marido, Martin, interpretado por Tom Courtenay, numa relação de 19 anos agora colocada à prova por uma doença que apaga tudo o que os uniu.
A tensão instala-se quando Amanda encontra o padrasto numa situação íntima com Leslie — num momento em que esta aparenta estar completamente desligada da realidade. O choque desencadeia uma espiral de decisões dolorosas: intervenção policial, separação do casal e eventual institucionalização.
Mas o filme não se limita ao choque inicial. O que Queen at Sea realmente explora é a zona cinzenta moral.
Pode haver consentimento quando já não há memória?
Ao contrário de obras como Amour, de Michael Haneke, ou Away from Her, de Sarah Polley, que se concentram sobretudo na erosão emocional entre parceiros, Hammer introduz uma questão particularmente desconfortável: uma pessoa com demência pode consentir em manter relações sexuais?
Martin insiste que a mulher ainda sente prazer. Que há instintos que permanecem. Que o corpo continua a responder, mesmo quando a mente se dissolve. Amanda vê apenas vulnerabilidade.
O filme não oferece respostas fáceis. E talvez seja esse o seu maior mérito.
Uma das cenas mais perturbadoras envolve um exame forense imposto a Leslie após a denúncia. A humilhação é quase insuportável, sobretudo porque a própria não compreende o que está a acontecer. A questão ecoa: em que mundo poderia um homem violar a própria esposa? E, ao mesmo tempo, que mundo permite ignorar a possibilidade?
Interpretações que elevam a dor
Juliette Binoche entrega uma das suas interpretações mais cruas dos últimos anos. Longe de sentimentalismos, constrói uma filha dividida entre proteger a mãe e destruir o único homem que talvez ainda a reconheça.
Tom Courtenay, recordado pelo drama conjugal em 45 Years, compõe aqui um retrato devastador de um homem à deriva, agarrado à ideia de que ainda tem um lugar na vida da mulher que ama.
Hammer opta por uma realização íntima, muitas vezes com câmara à mão, captando o desconforto sem artifício. A fotografia de Adolpho Veloso envolve Londres numa luz esbatida, quase melancólica, contrastando com os interiores clínicos e frios das instituições.
Nem tudo resulta plenamente — a subtrama envolvendo a neta Sara parece menos integrada e algo esquemática — mas o núcleo emocional permanece firme.
Um regresso sem concessões
Queen at Sea não oferece esperança reconfortante. Não há discursos redentores nem soluções fáceis. O que há é a exposição honesta daquilo que a demência faz às pessoas — e às relações.
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Lance Hammer regressa ao cinema com um filme que não procura agradar, mas confrontar. E com o apoio de um elenco extraordinário, transforma um tema doloroso numa experiência cinematográfica que dificilmente será esquecida.
O filme estreou em Berlim e encontra-se actualmente à procura de distribuição nos Estados Unidos. Depois de quase duas décadas de silêncio, Hammer volta a falar. E fá-lo num tom que ninguém consegue ignorar.



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