A despedida do Sundance Film Festival deixa um vazio económico — e cultural — no Utah
Depois de mais de 40 anos a transformar Park City, no Utah, num dos epicentros mundiais do cinema independente, o Sundance Film Festival despediu-se definitivamente da cidade. A partir de 2027, o festival muda-se para Boulder, no Colorado, deixando para trás não apenas memórias cinéfilas, mas também um impacto económico difícil de ignorar: cerca de 196 milhões de dólares, o equivalente a aproximadamente 180 milhões de euros, que deixaram de entrar anualmente na economia local.
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Em 2025, a última edição completa em Park City atraiu 85.472 visitantes, um crescimento de 17% face ao ano anterior. Durante cerca de dez dias, hotéis, restaurantes, bares, transportes e comércio local funcionavam em modo de sobrecarga máxima. A partir de agora, esse fluxo económico seguirá para outro destino.
Uma decisão polémica… mas não inesperada
A decisão de abandonar Park City foi tomada após um processo competitivo de candidaturas, no qual uma proposta conjunta entre Park City e Salt Lake City chegou à fase final, juntamente com Cincinnati. Ainda assim, o festival acabou por escolher Boulder, decisão que caiu como um choque para muitos residentes.
Apesar disso, o presidente da câmara de Park City, Ryan Dickey, tenta desdramatizar o impacto imediato.
“Não diria que isto é esmagador. Fizemos tudo para manter o festival, mas também conhecemos bem os desafios que o Sundance enfrentava aqui”, afirmou ao SFGATE.
Mesmo que o festival tivesse permanecido no Utah, o plano do estado previa deslocar o centro de gravidade para Salt Lake City, mantendo Park City apenas como pólo secundário para eventos especiais.
Incentivos: Utah perdeu para o Colorado
O Utah apresentou uma proposta robusta: mais de 11 milhões de euros por ano em incentivos financeiros e apoios em espécie, acrescidos de cerca de 9 milhões de euros em donativos privados. No entanto, parte significativa desses apoios dependia de candidaturas a fundos e processos burocráticos.
O Colorado foi mais directo e agressivo: um pacote de cerca de 63 milhões de euros em incentivos ao longo de 10 anos, incluindo créditos fiscais, transportes gratuitos, passes para bicicletas eléctricas, estacionamento, segurança pública e apoio municipal garantido. Para Boulder, o dinheiro foi apenas parte do argumento.
Segundo Cris Jones, director de parcerias estratégicas da cidade, o Sundance “já tinha ultrapassado há muito a escala física de Park City”.
Trânsito, alojamento e frustração local
Para muitos residentes, o festival sempre foi uma relação de amor-ódio. Durante quatro ou cinco dias, a pequena cidade de montanha entrava em colapso total de trânsito, com SUVs pretos, estrelas de cinema e equipas de imprensa a dominar as ruas.
Além disso, 88% da força laboral de Park City vive fora da cidade, o que agravava ainda mais os constrangimentos diários. O alojamento era outro problema crónico: preços médios de cerca de 630 euros por noite, levando muitos participantes a dividir quartos, dormir em sofás ou até no chão.
“Se pensarmos nos jovens cineastas que frequentam festivais, muitos simplesmente não conseguiam pagar para ficar em Park City”, reconheceu Dickey.
Park City continua a ser… uma estância de ski
Apesar da associação mediática ao Sundance, a verdadeira espinha dorsal económica da região continua a ser o ski. Na temporada 2024-2025, a indústria do ski gerou cerca de 2,3 mil milhões de euros no Utah, sendo 1,2 mil milhões apenas no condado de Summit, onde se localiza Park City.
As grandes operadoras — Vail Resorts e Alterra Mountain Company — continuam a investir fortemente, com novas pistas, infra-estruturas e teleféricos. A esperança da autarquia é que dois fins-de-semana extra de ski possam compensar parte da ausência do festival.
Ainda assim, as contas não fecham totalmente: 10 dias fortes de ski geram cerca de 80 milhões de euros, bem abaixo do impacto anual do Sundance.
Restaurantes cheios… mas sem pânico
Negócios locais como o bar O’Shucks White House confirmam que o festival representa os 10 dias mais lucrativos do ano, com aumentos de faturação entre 200% e 400%. Ainda assim, o gerente Manny Luna acredita que o impacto será amortecido com mais visitantes locais e esquiadores.
“O que assusta mesmo é não haver neve. Se não houver neve, não vem ninguém — isso sim é preocupante.”
Um vazio cultural difícil de substituir
Mais difícil de quantificar é o impacto cultural. O histórico Egyptian Theatre, berço original do Sundance, tornou-se um símbolo do festival. Recebeu figuras como Robert Redford, Bill Gates e até Bill e Hillary Clinton, tudo no pequeno átrio de um teatro de montanha.
Apesar da saída do festival, o proprietário garante que não haverá despedimentos e aponta vantagens para os residentes, como preços mais acessíveis e menos filas.
“É como ver um amigo partir”
Para os cinéfilos de longa data, nada substitui o Sundance. Sean Baker, voluntário durante 20 anos e espectador de mais de 850 filmes no festival, resume o sentimento:
“É incrível ver realizadores começarem aqui e tornarem-se gigantes do cinema. Ver o festival sair de Park City é, honestamente, de partir o coração.”
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Baker irá seguir o Sundance até Boulder, mas admite: não será a mesma coisa.



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