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Morreu Frederick Wiseman: O Cineasta Que Transformou Instituições em Monumentos Humanos

Um olhar imersivo e sem concessões sobre a vida real

O cinema documental perdeu uma das suas vozes mais singulares. Morreu Frederick Wiseman, aos 96 anos, deixando uma obra monumental que redefiniu a forma como olhamos para as instituições e, através delas, para nós próprios.

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Ao longo de mais de cinco décadas, Wiseman construiu um corpo de trabalho que recusava atalhos narrativos, explicações fáceis ou comentários em “off”. Nos seus filmes não há narrador, não há entrevistas conduzidas pelo realizador, não há legendas orientadoras. Há apenas o mundo — cru, complexo, desconfortável — diante da câmara.

Se muitos documentários assentam num conceito claro e numa tese evidente, os de Wiseman eram o oposto: vastos, imersivos, exigentes. Não cabiam num “elevator pitch”. Eram o edifício inteiro.

O maximalismo aplicado ao quotidiano

Tradicionalmente, associamos filmes de duração épica a acontecimentos históricos extraordinários — como Shoah, de Claude Lanzmann, ou The Sorrow and the Pity, de Marcel Ophüls. Wiseman fez algo diferente: aplicou essa escala monumental a temas aparentemente banais.

Em Titicut Follies (1967), mergulhou na vida quotidiana de um hospital psiquiátrico para criminosos no Massachusetts. Em Welfare (1975), realizou um retrato devastador da burocracia da assistência social em Nova Iorque. Em Near Death(1989), com cerca de seis horas de duração, acompanhou decisões clínicas numa unidade de cuidados intensivos.

O seu método era paciente e observacional. Filmava longamente, montava com rigor extremo e deixava que as estruturas institucionais se revelassem através das interacções humanas. O resultado eram obras densas, sem música manipuladora nem explicações didácticas, mas cheias de humanidade.

“Welfare”: o labirinto kafkiano da assistência social

Entre os seus muitos trabalhos, Welfare é frequentemente apontado como obra-prima. O filme acompanha funcionários exaustos, seguranças e cidadãos desesperados dentro de um sistema que parece simultaneamente indispensável e impenetrável.

O título encerra uma ironia amarga: o “bem-estar” prometido transforma-se num labirinto burocrático onde ninguém parece verdadeiramente vencer. Como num romance de Kafka, os protagonistas tentam aceder a algo que está sempre fora de alcance.

Wiseman não julga. Observa. E é nessa ausência de comentário explícito que reside a força — e também a exigência — do seu cinema.

Um arquivo vivo da condição humana

Assistir a um documentário de Wiseman é como ter acesso a um arquivo gigantesco, uma base de dados audiovisual onde o espectador é convidado a construir as suas próprias conclusões. É um gesto profundamente democrático: a interpretação não é imposta, é partilhada.

Alguns críticos consideraram que essa abordagem poderia diluir o impacto político imediato. Outros — como o crítico Peter Bradshaw — viram nela algo raro: uma forma de empoderamento intelectual do espectador.

Entre os seus trabalhos mais recentes, destaca-se In Jackson Heights (2015), um retrato vibrante de uma comunidade nova-iorquina diversa sob pressão da gentrificação. O título não engana: sentimos verdadeiramente que estamos “em” Jackson Heights, vivendo o tempo e o espaço daquele lugar.

Frederick Wiseman filmou o sofrimento humano, os desafios colectivos e as possibilidades de mudança sem nunca recorrer ao espectáculo. As suas obras são monumentos silenciosos à complexidade da vida social.

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Num tempo de consumo rápido e narrativas simplificadas, o seu cinema lembrava-nos que compreender o mundo exige tempo, atenção e escuta.

E essa talvez seja a sua maior herança.

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