A nova série de Ryan Murphy estreia em Portugal no Disney+ e transforma a obsessão estética num pesadelo visceral
“Beleza é dor” deixou há muito de ser apenas um cliché repetido em passerelles e salões de estética. Em The Beauty, a nova série criada por Ryan Murphy e Matt Hodgson, essa frase ganha contornos literais, sangrentos e profundamente desconfortáveis. Produzida pelo FX, a série estreia em Portugal no Disney+ a 22 de Janeiro, com três episódios disponíveis no lançamento e novos capítulos a chegarem semanalmente à plataforma.
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Adaptada da banda desenhada homónima de Jeremy Haun e Jason A. Hurley, The Beauty cruza horror corporal, thriller conspirativo e sátira social para explorar o preço real da perfeição num mundo dominado pela ganância, pela aparência e pelo lucro a qualquer custo.
Um desfile de moda que termina em carnificina
A série arranca com uma das sequências mais desconcertantes do ano televisivo. Num desfile de alta-costura em Paris, Ruby — interpretada por Bella Hadid — entra na passerelle visivelmente desorientada, suada e fora de controlo. Minutos depois, o glamour dissolve-se numa explosão de violência gráfica que choca o público e inaugura o tom da série.
Rapidamente percebemos que este não é um caso isolado. Incidentes semelhantes começam a surgir entre supermodelos por todo o mundo, levando os agentes do FBI Cooper Madsen (Evan Peters) e Jordan Bennett (Rebecca Hall) a investigar a origem deste fenómeno aparentemente inexplicável.
A perfeição como vírus — literalmente
A investigação conduz a uma revelação tão absurda quanto aterradora: um “milagre” biotecnológico que começa como uma injecção estética e evolui para um vírus sexualmente transmissível. O efeito? Transformar qualquer pessoa na versão fisicamente perfeita de si mesma. O processo, no entanto, é tudo menos bonito: prolongado, doloroso e grotesco, com o corpo a rasgar-se, reconstruir-se e sangrar em nome da perfeição.
Ryan Murphy aproveita este conceito para levar o horror corporal ao limite, numa sucessão de imagens que incluem cirurgias falhadas, “nascimentos de beleza” e mutações que farão muitos espectadores desviar o olhar.
Capitalismo, poder e a mercantilização do corpo
Como não poderia deixar de ser, a origem do problema está no dinheiro. O cérebro por detrás desta “cura” é The Corporation, um bilionário delirante interpretado por Ashton Kutcher, claramente inspirado nas figuras reais que dominam o sector tecnológico global. Obcecado com lucros e expansão, vê no vírus da beleza uma oportunidade de negócio sem precedentes.
Para proteger o império, recorre a The Assassin, um matador profissional vivido por Anthony Ramos, encarregado de silenciar qualquer investigação antes que ganhe tração. Pelo caminho, a série ainda acompanha personagens secundárias, como Jeremy (Jeremy Pope), um jovem isolado que encontra neste “milagre” uma porta perigosa para a validação pessoal.
Quando o excesso começa a pesar
Durante os primeiros episódios, The Beauty é um espectáculo perturbador, provocador e, por vezes, brilhante. No entanto, a partir do episódio oito, a narrativa começa a fragmentar-se. Subtramas multiplicam-se, o ritmo acelera em excesso e a série perde algum do controlo que inicialmente parecia fazer parte do plano.
É também nesta fase que o tom satírico descamba ocasionalmente para o absurdo, com decisões narrativas que enfraquecem o comentário social. Questões como padrões de beleza branca e identidade racial são tocadas de forma superficial, apesar de um elenco diverso e de uma premissa que pedia maior profundidade.
Imperfeita, mas estranhamente viciante
Apesar dos seus tropeços, The Beauty continua a ser uma experiência televisiva envolvente. Os 11 episódios, com durações entre os 24 e os 50 minutos, são fáceis de consumir e mantêm um nível de tensão constante. A série aborda temas extremamente actuais — desde a obsessão com a aparência e o privilégio da beleza até ao uso de “drogas milagrosas”, redes sociais e educação sexual deficiente — envoltos num pacote visualmente chocante.
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The Beauty não é subtil, não é equilibrada e nem sempre sabe quando parar. Mas é ousada, incómoda e consciente o suficiente para nos fazer reflectir enquanto nos perturba. Uma série longe da perfeição — o que, ironicamente, acaba por reforçar a sua mensagem.



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