Do mito clássico ao delírio romântico de The Bride!
Há personagens que marcaram a história do cinema mesmo tendo aparecido apenas durante alguns minutos. A Noiva surgiu em 1935, no clássico Bride of Frankenstein, realizado por James Whale, e apesar do reduzido tempo de ecrã tornou-se uma das imagens mais icónicas do terror universal.
O cabelo electrizado, o olhar assustado, o grito lancinante perante o monstro que lhe estava destinado. Bastou isso para entrar no imaginário colectivo.
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Quase noventa anos depois, a personagem regressa aos cinemas portugueses a 5 de Março com uma nova identidade e uma ambição muito mais ousada. A Noiva — no original The Bride! — é realizado por Maggie Gyllenhaal, que depois da surpreendente estreia atrás das câmaras com The Lost Daughter volta a mergulhar numa história feminina intensa, mas agora com contornos góticos, musicais e assumidamente excêntricos.
E sim, estamos longe de um simples remake.
Um Frankenstein em plena Chicago dos anos 30

The Bride! transporta o mito para a Chicago dos anos 30, num ambiente industrial, decadente e estilizado, onde horror se cruza com melodrama e até com elementos musicais. A proposta de Gyllenhaal não é reverente — é reinterpretativa.
A história acompanha Frankenstein — aqui interpretado por Jake Gyllenhaal — que pede a um cientista para criar uma companheira. A mulher ressuscitada ganha vida na pele de Jessie Buckley, actriz que tem demonstrado uma intensidade rara no cinema contemporâneo.
Mas, tal como no filme de 1935, a criatura não reage como esperado. Só que desta vez a narrativa não se limita ao momento da recusa. A Noiva sobrevive, foge, descobre o mundo e constrói uma identidade própria. A premissa sugere uma abordagem quase punk ao mito clássico: em vez de aceitar o destino traçado, ela revolta-se.
O elenco reforça a ambição do projecto. Christian Bale e Penélope Cruz integram também o filme, elevando-o desde logo a uma das produções mais aguardadas do ano no circuito de autor com músculo de grande estúdio.
A criatura que nunca teve escolha — agora com voz própria
No filme original, a Noiva nasce já condenada: criada como companheira para o monstro, concebida como solução para a sua solidão, desenhada para amar alguém que nunca escolheu. A sua recusa — um grito, um gesto de horror — tornou-se um dos momentos mais poderosos do cinema clássico.
Gyllenhaal parte dessa mesma centelha, mas transforma-a em combustão narrativa. A nova versão parece interessada em explorar o que acontece depois do “não”. O que significa existir apenas para satisfazer o desejo de outro? E o que acontece quando essa criação ganha consciência?
Há indicações de que o filme mistura horror gótico com uma dimensão quase operática, assumindo o excesso emocional e visual como parte da linguagem. A estética deverá ser estilizada, teatral, com um lado sombrio mas também irónico. Não se trata apenas de sustos: trata-se de identidade, liberdade e da recusa em aceitar um destino imposto.

Romance trágico ou manifesto de autonomia?
Uma das grandes questões será a relação entre Frankenstein e a sua criação. No clássico, a dinâmica era fatalista: duas criaturas condenadas à marginalidade. Aqui, parece haver mais espaço para conflito ideológico e emocional.
A Noiva não surge apenas como objecto de desejo, mas como sujeito activo da narrativa. E isso altera tudo. Em vez de um apêndice do mito masculino, passa a ser o seu centro.
Num momento em que Hollywood revisita constantemente os seus monstros fundadores, poucos regressos parecem tão arriscados quanto este. The Bride! não procura apenas actualizar o visual — quer redefinir o significado da personagem.
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A 5 de Março, o público português poderá descobrir se Maggie Gyllenhaal conseguiu transformar um ícone silencioso num grito cinematográfico à altura do século XXI.
Se o filme cumprir o que promete, esta Noiva não veio para casar. Veio para reescrever o próprio mito.



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