Nota rápida antes de mais: esta retrospetiva decorreu já ao longo deste fim de semana, sábado e domingo, no TVCine Edition, com a última sessão de hoje, “Encontros de Paris”, ainda por exibir às 22h. Mas vale a pena escrever sobre ela por dois motivos: quem tiver o TVCine+ pode ainda hoje apanhar essa última exibição, e a boa notícia é que a obra de Rohmer permanece disponível no streaming do serviço, na secção “Grandes Realizadores”, para quem quiser recuperar em catálogo o que perdeu na emissão linear.
Éric Rohmer (1920-2010), nascido Maurice Schérer, é uma das figuras mais singulares e paradoxalmente discretas da Nouvelle Vague francesa. Ao contrário de contemporâneos como Godard ou Truffaut, com quem partilhou as páginas dos Cahiers du Cinéma (que chegou a dirigir entre 1957 e 1963, depois de ter sido um dos fundadores da publicação que lhe deu origem, ainda com o nome de La Gazette du Cinéma), Rohmer construiu uma carreira avessa ao escândalo e ao gesto formal espetacular, preferindo um cinema de diálogo, de moral quotidiana e de pequenas decisões que definem vidas inteiras. Foi essa discrição, aliás, que o tornou uma figura quase mítica: chegou a dar informações contraditórias sobre a própria biografia, incluindo datas e locais de nascimento distintos consoante a fonte, como se preferisse manter para si o mistério que tão habilmente retirava das suas personagens.
A retrospetiva do TVCine percorre praticamente toda a sua filmografia, começando pelo primeiro longa-metragem, “O Signo do Leão” (1962), e avançando pelos dois grandes ciclos que viriam a definir a sua obra: os “Seis Contos Morais”, de que fazem parte “A Colecionadora”, “A Minha Noite em Casa de Maud” e “O Joelho de Claire”, filmes que exploram a tensão entre desejo, tentação e autocontrolo moral através de protagonistas que passam mais tempo a racionalizar as suas paixões do que a agir sobre elas; e as “Comédias e Provérbios”, de que se destacam “A Mulher do Aviador”, “O Bom Casamento”, “Paulina na Praia” e “Noites de Lua Cheia”, ciclo em que Rohmer aprofunda ainda mais o retrato de personagens femininas complexas em busca de autonomia sentimental.
Um dos pontos altos da seleção é, sem dúvida, “O Raio Verde” (1986), vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza (e ainda do Prémio FIPRESCI nesse mesmo ano), um retrato de solidão estival filmado quase inteiramente em 16mm e construído sobre diálogo largamente improvisado, uma das obras-primas incontestáveis do ciclo “Comédias e Provérbios”. A retrospetiva inclui ainda incursões fora do registo mais habitual do realizador, como a adaptação medieval “Perceval, O Galês” (1978), inspirada em Chrétien de Troyes, e “A Marquesa d’O” (1979), adaptação do escritor alemão Heinrich von Kleist, ambas a provar que Rohmer, apesar de indelevelmente associado ao retrato do amor contemporâneo francês, também sabia arriscar-se em território literário e histórico bem mais distante da sua zona de conforto habitual.
Para quem nunca viu um filme de Rohmer, este é o momento ideal para uma introdução em grande escala a um cineasta cuja influência se sente hoje, de forma direta ou indireta, em praticamente todo o cinema independente contemporâneo centrado em diálogo e relações humanas complexas, de Hong Sang-soo a Mia Hansen-Løve, passando por Richard Linklater.



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