Política, celebridades e o difícil equilíbrio do humor em palco
Apresentar uma cerimónia como os Globos de Ouro nunca foi tarefa simples. Mas, num clima político e social particularmente sensível, o desafio ganha outra dimensão. Depois da gala, Nikki Glaser voltou à já habitual tradição pós-Globos: sentar-se no The Howard Stern Show para revelar as piadas que ficaram pelo caminho — e a lista é longa, afiada e, em muitos casos, politicamente explosiva.
Entre os gags cortados estiveram várias referências a ICE e ao Presidente Donald Trump. Glaser explicou que a decisão foi consciente: “É difícil acertar no tom certo. E, honestamente, há coisas que simplesmente não são engraçadas naquele momento.”
Quando a realidade pesa mais do que a piada
Uma das ideias abandonadas envolvia um jogo de palavras com “ice”, explorando o duplo sentido entre gelo e a agência federal de imigração norte-americana. A comediante acabou por rejeitar a piada por a considerar demasiado leve para o contexto. A cerimónia decorreu poucos dias depois da morte de Renee Good, uma mulher de 37 anos abatida a tiro por um agente do ICE em Minneapolis, um caso que desencadeou protestos a nível nacional.
Durante o evento, várias figuras públicas — entre elas Mark Ruffalo, Natasha Lyonne e Wanda Sykes — usaram pinscom mensagens como “Ice Out” e “Be Good”, numa homenagem silenciosa à vítima. Perante este cenário, Glaser decidiu recuar. “Mesmo uma piada subtil podia parecer trivializar algo demasiado sério”, admitiu.
Trump, silêncio estratégico e um conselho inesperado
Outro momento que ficou no papel foi uma piada sobre o Beverly Hilton ser rebatizado como “Trump Beverly Hilton”, numa alusão às polémicas recentes em torno de instituições culturais norte-americanas. Aqui, a decisão foi ainda mais clara. “Neste momento, simplesmente não se diz o nome dele”, afirmou Glaser. “Às vezes, dar espaço é a melhor opção.”
Curiosamente, a piada tinha sido enviada por Steve Martin, que acabou por aconselhar a apresentadora a não a usar e a evitar política no geral. Um gesto revelador de como até veteranos do humor sentem que o terreno está particularmente minado.
Celebridades, egos e piadas sem filtro (demais)
Se a política foi evitada, o mesmo não se pode dizer do resto. A lista de piadas cortadas mostra uma Nikki Glaser no seu registo mais cáustico — talvez demasiado para um palco global em horário nobre.
Houve gags sobre Brad Pitt e a sua idade, sobre Sean Penn (incluindo referências às suas veias do pescoço), sobre Leonardo DiCaprio e a diferença de idades nas suas relações, e até sobre Timothée Chalamet, usado como punchline num comentário particularmente atrevido envolvendo Amy Poehler.
Nada escapou: Julia Roberts, Jeff Goldblum, Jonathan Bailey e até a inteligência artificial foram alvos de piadas que, embora engenhosas, poderiam facilmente gerar polémica nas redes sociais minutos depois da transmissão.
O que ficou… e o que resultou
Apesar dos cortes, Glaser conseguiu manter algumas referências actuais no monólogo final — incluindo uma farpa à própria estação que transmitia a cerimónia, CBS, numa piada que arrancou elogios do próprio Howard Stern. Foi um exemplo claro de como o humor político ainda pode funcionar… desde que cuidadosamente calibrado.
No fundo, este episódio revela mais do que simples piadas descartadas. Mostra o equilíbrio delicado entre humor, sensibilidade social e espectáculo num dos palcos mais visíveis da indústria do entretenimento. Para Nikki Glaser, a linha entre o ousado e o inadequado nunca foi tão ténue — e, desta vez, a tesoura falou mais alto.



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