Há um detalhe no título de 18 Buracos para o Paraíso que não é imediato mas que, depois de se saber do que o filme trata, faz todo o sentido: dezoito buracos é uma volta completa de golfe — o desporto que mais transforma a paisagem do interior sul de Portugal, que mais consome água numa região que a não tem, que melhor simboliza a especulação imobiliária que está a redesenhar o Alentejo à imagem dos que chegam com dinheiro e não com raízes. João Nuno Pinto não escolheu o título por acidente.
O novo filme do realizador português chega às salas a 11 de Junho, distribuído pela NOS Audiovisuais, e é o tipo de cinema que o mercado português raramente produz com esta ambição temática: um retrato do colapso ambiental contemporâneo contado através de três perspectivas femininas distintas sobre os mesmos acontecimentos, num Alentejo sufocado pela seca e pela pressão de uma venda imobiliária que vai apagar um mundo. Margarida Marinho, Beatriz Batarda e Rita Cabaço protagonizam — uma tríade que cobre gerações e classes sociais diferentes e que o argumento usa para revelar como a mesma realidade pode ser lida de formas completamente opostas dependendo de quem a vive.
A história instala-se numa herdade no interior sul de Portugal, num verão de calor extremo. Uma família prepara-se para vender as terras herdadas do pai — pressionada pela especulação, fragilizada pela seca prolongada. As irmãs Francisca e Catarina, proprietárias, e Susana, filha da empregada da herdade, vêem o seu destino cruzar-se num espaço que as liga a todas mas que as coloca em lados diferentes de uma herança de poder patriarcal que o calor está a fazer ferver. Quando um incêndio cerca a região e impede todos de sair, as personagens são forçadas a confrontar o que evitaram durante anos.
Pinto, que viveu no Alentejo, fala do território com a familiaridade de quem conhece a diferença entre o Alentejo que existe e o Alentejo que os outros imaginam. “Esta é, na sua essência, uma história sobre o fogo — tanto literal como metafórico, nascido de um pensamento predatório, uma forma de ver o mundo que continua a dominar e a empurrar-nos em direcção ao abismo.” É uma declaração de intenções que situa o filme claramente no território do cinema político — não o cinema de tese, mas o cinema que usa a intimidade das personagens para falar de algo maior.
18 Buracos para o Paraíso é também o primeiro filme português a receber a certificação Green Film, que distingue produções ambientalmente responsáveis — um dado que não é apenas simbólico num filme sobre colapso ambiental. As sessões contarão com audiodescrição e legendas descritivas em sala, promovidas pela AMPLA, garantindo acesso a pessoas cegas, com baixa visão, surdas ou com deficiência auditiva. A estreia é a 11 de Junho.

