Cannes 2026: o festival dos autores regressa com Almodóvar, Farhadi, Kore-eda — e Lukas Dhont nas trincheiras da Grande Guerra

Thierry Frémaux gosta de dizer que Cannes depende apenas dos filmes. A edição deste ano, a 79.ª do Festival de Cannes, que decorre de 12 a 23 de Maio na Croisette, parece confirmar exactamente isso: uma competição dominada por cineastas de autor internacionais, poucos blockbusters americanos à vista, e um júri presidido pelo realizador sul-coreano Park Chan-wook. Se 2025 foi o ano em que Hollywood voltou a Cannes com estrondo — Tom Cruise e Spike Lee incluídos —, 2026 é a correcção de rumo.

A selecção oficial foi anunciada a 9 de Abril em Paris. Em Competição pela Palme d’Or, os nomes mais esperados são Pedro Almodóvar, Asghar Farhadi, Hirokazu Kore-eda, Paweł Pawlikowski e Ryusuke Hamaguchi. Farhadi, Nemes e Hamaguchi apresentam todos filmes em língua francesa — uma presença quase sem precedentes de realizadores estrangeiros a filmar em francês na mesma edição. O único realizador americano em Competição é Ira Sachs, com The Man I Love, um musical de fantasia passado na Nova Iorque dos anos 80 durante a crise da SIDA, com Rami Malek, Tom Sturridge e Rebecca Hall. Rodrigo Sorogoyen representa Espanha com El Ser Querido, com Javier Bardem como um realizador que roda no deserto do Sahara e reencontra a filha.

A surpresa mais comentada da selecção é Coward, do realizador belga Lukas Dhont, que explora o conceito de heroísmo e cobardia a partir da perspectiva de jovens soldados na Primeira Guerra Mundial. O filme foi rodado parcialmente nos campos de batalha reais perto de Ypres, na Bélgica — o mesmo território onde morreram centenas de milhares de combatentes entre 1914 e 1918. Frémaux admitiu que os programadores do festival só viram o filme no dia anterior ao anúncio. Os dois filmes anteriores de Dhont estrearam ambos em Cannes — Girl (2018) em Un Certain Regard e Close(2022) em Competição, este último nomeado para o Óscar de Melhor Filme Internacional. Coward é produzido e vendido internacionalmente pela The Match Factory, e a expectativa é considerável.

O realizador russo em exílio Andrei Zvyagintsev regressa com Minotaur, o seu primeiro filme desde 2017. O filme rodou na Letónia e é descrito como uma fábula política sobre um empresário russo confrontado com crise e trauma. O MUBI já assegurou os direitos para a América do Norte, Reino Unido, Alemanha e América Latina — sinal de que as expectativas no mercado são altas.

Cannes dedica esta edição a dois nomes históricos com Palmas de Ouro honorárias: Peter Jackson e Barbra Streisand. O festival abre a 12 de Maio com La Venus Électrique, de Pierre Salvadori, uma comédia passada nos anos 20. O cartaz oficial da 79.ª edição homenageia Thelma & Louise de Ridley Scott, com uma imagem das suas protagonistas retirada das rodagens de 1991 — 35 anos depois, Geena Davis e Susan Sarandon regressam à Croisette como ícones do festival.

Para o leitor português, há pelo menos um ponto de interesse directo: o IndieLisboa, que arranca a 30 de Abril, apresenta já este ano vários filmes que passarão por Cannes no mês seguinte, numa circulação que demonstra como os dois festivais funcionam em vasos comunicantes dentro do circuito europeu de cinema independente. Os primeiros filmes do mercado de Cannes — que decorre de 12 a 20 de Maio — estão já a ser anunciados, com projectos como The Brigands of Rattlecreek, um western de Park Chan-wook com Matthew McConaughey, Pedro Pascal e Austin Butler, a confirmar que o festival continua a ser o maior palco de negócios do cinema mundial.

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Daqui a quatro dias, o Cinema São Jorge enche-se para a sessão de abertura da 23.ª edição do IndieLisboa — Festival Internacional de Cinema, e é difícil não sentir que esta é uma das edições mais ambiciosas de sempre. São 241 filmes entre curtas e longas-metragens, dezasseis estreias mundiais só na Competição Nacional, e uma programação que atravessa continentes, linguagens e formatos com a irreverência que tornou o festival numa referência do circuito europeu de cinema independente. O festival decorre de 30 de Abril a 10 de Maio nas principais salas da capital: Cinema São Jorge, Culturgest, Cinemateca Portuguesa, Cinema Ideal e Cinema Fernando Lopes.

A sessão de abertura, marcada para 30 de Abril às 19h no São Jorge, é The Loneliest Man in Town, de Tizza Covi e Rainer Frimmel — dupla que já havia vencido o Prémio de Distribuição no IndieLisboa em 2010 com La Pivellina. O filme acompanha um bluesman em risco de ser despejado, confrontado com a perda iminente de toda uma vida acumulada em discos e livros. Para o encerramento, a 10 de Maio às 21h30 na Culturgest, John Wilson — o criador da série documental How To with John Wilson — estreia-se nas longas-metragens com The History of Concrete, um documentário que começa num workshop do Hallmark sobre como escrever comédias românticas e termina, de alguma forma, a falar de betão. É exatamente o tipo de premissa que define o espírito do festival.

A Competição Nacional, uma das secções mais importantes do IndieLisboa, reúne 29 filmes — incluindo a maior selecção de curtas da história do festival, com 21 obras. Entre os destaques, A Providência e a Guitarra, de João Nicolau, que chegou ao IndieLisboa depois de abrir o Festival de Roterdão. O filme conta com Salvador Sobral no elenco e apresenta-se como uma deambulação divertida entre tempos. Susana de Sousa Dias regressa com Fordlândia Panacea, sobre o complexo industrial da Ford na Amazónia brasileira. E a Competição Nacional acolhe também uma homenagem a Patrícia Saramago, relevante nome da montagem do cinema português, falecida em Outubro passado, com a exibição da sua primeira obra, Dois e Um Gato.

A secção IndieMusic é outro dos pontos fortes desta edição, com dez longas-metragens e três curtas, seis das quais em estreia mundial. Entre os títulos a não perder, Sun Ra: Do the Impossible, de Christine Turner, recupera a figura do músico de free jazz através de imagens de arquivo e testemunhos dos membros da sua Arkestra. E estreia em Portugal Quem tem medo de Zurita de Oliveira?, documentário de Francisca Marvão sobre a primeira mulher portuguesa a escrever, cantar e gravar uma música rock — o EP O Bonitão do Rock, de 1960 — e sobre a invisibilidade histórica das mulheres na cena artística nacional. Uma estreia mundial com um ângulo particularmente necessário.

Fora das salas, o IndieLisboa continua a ser também uma festa. O Cinema na Piscina regressa a 2 e 3 de Maio, em parceria com a Piscina Municipal da Penha de França, com clássicos para adultos à noite e curtas para famílias durante o dia. O IndieByNight prolonga o programa pelos bares oficiais da edição — a Casa do Comum e as Damas. E para quem prefira resistência cinematográfica sem saída, há a Maratona Boca do Inferno no Cinema Ideal: seis horas de sessões contínuas.

Os bilhetes estão disponíveis no site do festival. Para os que estão em Lisboa nos próximos onze dias e ainda não sabem como passar o tempo — aqui está a resposta.

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Há um momento no novo trailer de Spider-Noir em que Nicolas Cage, envolto na penumbra da Nova Iorque dos anos 30, murmura qualquer coisa sobre os impulsos que tenta suprimir — na maior parte do tempo. O que se segue é uma pancadaria num bar, uma teia disparada entre arranha-céus e a confirmação de que este pode ser o projecto mais estranho e mais interessante do universo Marvel em anos. O trailer foi lançado ontem, 25 de Abril, durante um painel da CCXP México, em duas versões — a preto-e-branco e a cores completas — e o efeito imediato é difícil de ignorar.

Spider-Noir estreia a 27 de Maio na Prime Video, em todo o mundo incluindo Portugal, com os oito episódios disponíveis de uma só vez. Nos Estados Unidos, o primeiro episódio é lançado dois dias antes, a 25 de Maio, no canal linear MGM+. A série é produzida pela Sony Pictures Television exclusivamente para as duas plataformas.

O que o trailer deixa finalmente claro é a lógica narrativa da série: Ben Reilly — e não Peter Parker, por razões que os criadores prometem explicar — é um detetive particular envelhecido e com dinheiros contados na Nova Iorque de 1930, que foi outrora o único super-herói da cidade antes de uma tragédia pessoal o afastar do papel. Quando Cat Hardy, interpretada por Li Jun Li, lhe bate à porta à procura de um amigo desaparecido, Reilly é forçado a regressar ao que foi. Os vilões em cena incluem Silvermane (Brendan Gleeson), Sandman (Jack Huston) e Tombstone (Abraham Popoola), e o trailer mostra-os em dose suficiente para perceber que a série não vai ser leve em termos de ameaças.

A equipa criativa é tudo menos aleatória. Os realizadores Phil Lord e Christopher Miller — os mesmos por trás de Spider-Man: Into the Spider-Verse — estão na produção executiva, ao lado de Amy Pascal. Os showrunners são Oren Uziel e Steve Lightfoot, conhecido do universo Marvel pela série The Punisher. Os dois primeiros episódios foram dirigidos por Harry Bradbeer, o realizador responsável por Fleabag e Killing Eve, o que explica a atenção evidente ao detalhe visual e à textura emocional do que se viu até agora. Lord e Miller descreveram Ben Reilly como alguém com o seu “momento de Chinatown já consumado”, um detetive que perdeu as ilusões antes de a série começar — o que, no fundo, é a premissa perfeita para o noir clássico.

A dupla de versões — preto-e-branco “autêntico” e cores saturadas ao estilo Technicolor — é uma das apostas mais ousadas da série. Cage comparou a versão colorida ao quadro Nighthawks de Edward Hopper; do lado da crítica especializada, a Esquire já sugeriu que cada versão oferece uma experiência distinta, com a versão a cores mais próxima de Dick Tracy e a preto-e-branco mais sombria, à Raymond Chandler. A ideia de um único produto disponível em dois registos visuais completamente diferentes não tem precedentes em televisão mainstream — e pode ser precisamente o tipo de conversa que Spider-Noir precisa de gerar antes de chegar às plataformas.

Cage, que emprestou a voz ao personagem no Into the Spider-Verse de 2018, assume aqui o primeiro papel principal numa série de televisão de toda a sua carreira. O showrunner Uziel revelou que o actor assistiu à temporada completa e reagiu com entusiasmo às suas próprias falas — o que, conhecendo Cage, provavelmente quer dizer exactamente o que parece. Spider-Noir chega a 27 de Maio. Um mês é pouco tempo para uma espera tão longa.

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A 26 de Março de 2026, a Netflix actualizou silenciosamente a sua página de planos e preços nos Estados Unidos. Sem conferência de imprensa, sem campanha de comunicação — apenas os novos valores já em vigor para novos subscritores, e um e-mail prometido aos actuais clientes antes de a mudança chegar à sua próxima fatura. É o segundo aumento de preços em menos de um ano e o padrão é suficientemente conhecido para merecer atenção de qualquer pessoa que pague uma subscrição mensal, em Portugal ou em qualquer outro país.

Nos EUA, os novos valores são estes: o plano com publicidade passou de 7,99 para 8,99 dólares por mês; o plano Standard subiu de 17,99 para 19,99 dólares; e o plano Premium passou de 24,99 para 26,99 dólares mensais. A justificação da empresa é invariavelmente a mesma — investir em conteúdos de qualidade e melhorar a experiência dos utilizadores — e as reacções nas redes sociais são, também elas, invariavelmente as mesmas: irritação, ameaças de cancelamento e memes sobre o que mais se podia comprar com esse dinheiro.

Para Portugal, a boa notícia imediata é que a Netflix confirmou ao Notícias ao Minuto que estes aumentos dizem respeito apenas ao mercado norte-americano, sem impacto por enquanto no nosso país. Os preços em Portugal mantêm-se desde a última actualização de Janeiro de 2025: 8,99 euros no plano Básico, 12,99 euros no Standard e 17,99 euros no Premium. A má notícia é que o “por enquanto” pesa. O histórico da plataforma é claro: os aumentos nos EUA costumam atravessar o Atlântico em ondas, com a Europa a seguir nos meses subsequentes. Analistas estimam que a subida norte-americana gere cerca de 6% mais receita por subscritor nos EUA e Canadá ao longo do ano — o tipo de resultado que incentiva a replicação noutras geografias.

O contexto é importante. Em Janeiro de 2025, a Netflix já tinha subido os preços em Portugal — o plano Base de 7,99 para 8,99 euros, o Standard de 11,99 para 12,99 euros, e o Premium de 15,99 para 17,99 euros, com o custo de membro adicional a passar de 3,99 para 4,99 euros por mês. Não foi o primeiro aumento e quase certamente não será o último. A empresa fechou 2024 com 302 milhões de subscritores a nível mundial e prevê que as receitas publicitárias quase dupliquem em 2026 face ao ano anterior — o plano com publicidade tornou-se peça central da estratégia, e não apenas uma opção de entrada.

A questão para o subscritor português é menos “vai subir?” e mais “quando?”. O que o padrão histórico sugere é que qualquer ajuste em Portugal tende a ser gradual e comunicado com alguma antecedência. Neste momento, os preços estão estáveis. Mas vale a pena avaliar o que realmente se vê: se forem duas ou três séries por mês, um ou dois serviços alternados por temporada podem ser suficientes. O plano com publicidade, que em Portugal custa 8,99 euros, permite manter acesso ao catálogo com um custo controlado — sobretudo se a alternativa for pagar o dobro para ver a mesma quantidade de conteúdo. A Prime Video, a Max e a Apple TV+ seguiram tendências semelhantes nos últimos meses, e o Spotify iniciou o ano com um ajuste de tarifas. O streaming em 2026 é mais caro do que era, e essa trajectória não parece estar prestes a inverter-se.