Morreu Catherine O’Hara, actriz de culto entre a comédia absurda e o coração de Hollywood De Sozinho em Casa, uma carreira longa, singular e impossível de confundir

Morreu Catherine O’Hara, uma das grandes figuras da comédia norte-americana das últimas cinco décadas. A actriz tinha 71 anos e faleceu na sexta-feira, na sua casa em Los Angeles, na sequência de uma doença súbita, confirmou o seu agente à revista Variety. A notícia encerra uma carreira riquíssima, marcada por personagens excêntricas, um sentido de humor absolutamente próprio e uma rara capacidade para equilibrar o absurdo com a emoção mais genuína.

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Para o grande público, Catherine O’Hara será para sempre a mãe desesperada de Kevin McCallister em Sozinho em CasaSozinho em Casa 2, mas o seu percurso vai muito além dessas comédias natalícias que se tornaram tradição televisiva. O’Hara foi uma actriz de actores, respeitada pelos pares e adorada por várias gerações de espectadores.

Uma carreira que começou na sátira — e nunca a largou

A carreira de Catherine O’Hara arrancou nos anos 70 com a mítica série canadiana Second City Television, onde se destacou pela versatilidade e pelo humor físico, conquistando o seu primeiro Emmy. Esse espírito irreverente acompanhá-la-ia por toda a vida, tanto no cinema como na televisão.

Nos anos 80, integrou filmes que hoje são considerados clássicos de culto, como Depois de HorasOs Fantasmas Divertem-se e Best in Show. Tornou-se presença regular nos mockumentaries de Christopher Guest, participando também em À Espera de GuffmanPor Sua Consideração e A Mighty Wind, onde o improviso e o desconforto social eram levados ao limite com elegância rara.

O renascimento tardio com Moira Rose

Apesar de nunca ter desaparecido, foi já na casa dos 60 anos que Catherine O’Hara viveu uma inesperada e merecida segunda juventude artística. Aconteceu com Schitt’s Creek, onde interpretou a inesquecível Moira Rose, uma ex-socialite falida, dramática, extravagante e profundamente humana.

A personagem tornou-se um fenómeno cultural e valeu-lhe um segundo Emmy, além de a apresentar a uma nova geração de fãs. O sucesso da série abriu-lhe portas para novos projectos de relevo, incluindo The Last of Us e The Studio, cuja segunda temporada se encontrava em fase inicial de rodagem.

Vozes, regressos e despedidas discretas

Catherine O’Hara emprestou também a sua voz a filmes de animação marcantes, como O Estranho Mundo de Jack e Chicken Little. Nos últimos anos, regressou a personagens icónicas, nomeadamente Delia Deetz em Beetlejuice Beetlejuice, a sequela do clássico de Tim Burton, e integrou ainda o elenco de Argylle.

Nascida em Toronto, mas adoptada por Los Angeles, O’Hara tornou-se uma figura querida da cidade, tendo sido nomeada presidente honorária do bairro de Brentwood em 2021. Manteve sempre uma relação próxima com colegas de trabalho, incluindo Macaulay Culkin, a quem prestou homenagem na cerimónia da Calçada da Fama em 2023.

Um legado de humor inteligente e personagens inesquecíveis

Catherine O’Hara nunca procurou o estrelato fácil. Preferiu personagens estranhas, exageradas, desconfortáveis — e foi precisamente aí que se tornou única. A sua morte representa uma perda enorme para a comédia, mas o seu legado permanece intacto: dezenas de personagens que continuam a fazer rir, pensar e emocionar.

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Uma actriz verdadeiramente irrepetível.

Melania: glamour em Washington, polémica internacional e estreia hoje em Portugal

O documentário da primeira-dama divide atenções antes de chegar às salas portuguesas

O documentário Melania, centrado na vida de Melania Trump, chega hoje às salas de cinema portuguesas, com exibição assegurada em grande parte dos complexos da NOS Audiovisuais. A estreia acontece num contexto particularmente tenso a nível internacional, depois de o filme ter sido retirado das salas sul-africanas ainda antes da sua estreia naquele país, invocando-se de forma vaga o “clima atual”.

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O contraste não podia ser maior: enquanto em Washington o documentário foi apresentado numa noite de luxo, poder político e celebridades, na África do Sul o mesmo filme foi afastado silenciosamente da programação, levantando questões sobre política, diplomacia e liberdade de exibição cultural.

Uma estreia de alto perfil no coração do poder americano

A estreia mundial de Melania decorreu no Trump Kennedy Center, em Washington, perante uma plateia onde se misturaram membros do Governo norte-americano, figuras da música, empresários e personalidades mediáticas. Donald Trump marcou presença e descreveu o documentário como “uma história moderna da Casa Branca”, elogiando o seu potencial de sucesso junto do público.

Melania Trump surgiu como anfitriã da noite, vestida com um conjunto preto da Dolce & Gabbana, e acompanhada pelo realizador Brett Ratner e pelos produtores Fernando Sulichin e Marc Beckman. A primeira-dama afirmou estar “muito orgulhosa” do trabalho desenvolvido, destacando a coesão da equipa criativa.

Entre os convidados estiveram Robert F. Kennedy Jr.Nicki MinajGianni Infantino, Waka Flocka Flame, Dr. Phil McGraw e Jordan Belfort, numa lista que sublinha a dimensão simbólica e mediática do evento.

Um filme retirado das salas sul-africanas antes da estreia

Quase em simultâneo com o brilho da estreia em Washington, surgiu a notícia de que Melania tinha sido retirado das principais cadeias de cinema da África do Sul, a Nu Metro e a Ster Kinekor, poucas horas antes da sua estreia internacional, prevista para 30 de Janeiro.

Em declarações ao portal News24, Thobashan Govindarajulu, responsável de marketing da distribuidora Filmfinity, afirmou que “tendo em conta o clima atual, o filme não será mais exibido em salas no território”, sem especificar a que clima se referia. A agência France-Presse acrescenta que não foi possível obter esclarecimentos adicionais junto da empresa.

A decisão surge num momento de relações particularmente tensas entre o Governo sul-africano e a administração Trump, marcadas por divergências diplomáticas profundas, incluindo críticas de Washington à política externa de Pretória e à acusação apresentada pela África do Sul contra Israel no Tribunal Internacional de Justiça.

Cinema, imagem e política — tudo no mesmo ecrã

Melania apresenta-se como um retrato próximo de 20 dias decisivos antes da tomada de posse de Donald Trump, acompanhando a primeira-dama num momento de transição e reposicionamento político. Mais do que um simples documentário biográfico, o filme assume-se como um exercício de controlo narrativo e de afirmação pública, algo que ajuda a explicar tanto o aparato da estreia americana como o desconforto gerado noutros contextos internacionais.

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A chegada do documentário às salas portuguesas acontece, assim, envolta em polémica e curiosidade. Entre glamour, diplomacia e cinema político, Melania promete não passar despercebido — nem dentro, nem fora do grande ecrã.

Christian Bale faz anos hoje — o actor que nunca se escondeu atrás do estrelato

Um aniversário que é também um bom pretexto para revisitar uma carreira singular

Hoje, 30 de JaneiroChristian Bale celebra mais um aniversário. Nascido em 1974, no País de Gales, o actor completa 52 anos e continua a ser uma das figuras mais respeitadas, imprevisíveis e exigentes do cinema contemporâneo. A data serve de excelente pretexto para revisitar uma carreira construída à margem da vaidade fácil, marcada por escolhas difíceis, transformações físicas extremas e uma recusa persistente em se repetir.

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Num tempo em que Hollywood valoriza cada vez mais a presença mediática, Bale optou pelo caminho inverso: desaparecer dentro das personagens e deixar que os filmes falem por si.

De criança-prodígio a actor adulto sem rede de segurança

Christian Bale chamou a atenção do mundo ainda criança, ao protagonizar Império do Sol (1987), de Steven Spielberg. Com apenas 13 anos, revelou uma maturidade emocional rara, interpretando um rapaz britânico separado da família num campo de prisioneiros japonês durante a Segunda Guerra Mundial. O filme dividiu a crítica, mas houve unanimidade quanto a um ponto: aquele jovem actor não era um acaso.

Ao contrário de muitos actores-mirins, Bale conseguiu atravessar a transição para a idade adulta sem perder relevância. Durante os anos 90, alternou cinema, teatro e televisão, surgindo em títulos como Adoráveis MulheresVelvet Goldmine e Sonho de Uma Noite de Verão. Foram escolhas menos comerciais, mas fundamentais para cimentar uma identidade artística própria.

Psicopata Americano e o nascimento de um ícone incómodo

O verdadeiro ponto de viragem chega em 2000, com Psicopata Americano. A sua interpretação de Patrick Bateman — um yuppie narcisista, violento e emocionalmente vazio — tornou-se imediatamente icónica. Bale construiu uma personagem perturbadora, simultaneamente grotesca e fascinante, que permanece até hoje como uma das grandes criações do cinema moderno.

O filme dividiu opiniões, gerou polémica e consolidou a reputação do actor como alguém disposto a arriscar tudo por um papel. A partir daí, Bale deixou de ser apenas “promissor” para se tornar um actor central na sua geração.

O corpo como ferramenta dramática

Se há algo que distingue Christian Bale da maioria dos seus pares é a forma como transforma o corpo em extensão da personagem. Em O Maquinista (2004), emagreceu de forma extrema para interpretar um homem consumido pela culpa e pela insónia, num dos exemplos mais radicais de transformação física da história do cinema.

Pouco depois, surpreendeu novamente ao assumir o papel de Bruce Wayne na trilogia Batman: O InícioO Cavaleiro das Trevas e O Cavaleiro das Trevas Renasce, realizadas por Christopher Nolan. O seu Batman afastou-se do herói estilizado e aproximou-se de uma figura trágica, marcada pelo trauma e pela obsessão, ajudando a redefinir o género dos super-heróis no cinema moderno.

O reconhecimento da Academia — e a consagração definitiva

Em 2011, Christian Bale recebeu o Óscar de Melhor Actor Secundário pela sua interpretação de Dicky Eklund em O Lutador. O papel valeu-lhe também um Globo de Ouro, um SAG Award e vários prémios da crítica, confirmando aquilo que já era evidente: Bale era um actor de primeira linha, capaz de elevar qualquer projecto.

Nos anos seguintes, voltou a impressionar em filmes como Guia para um Escândalo AmericanoA Queda de Wall Street e Vice – O Segundo na Sombra. Neste último, transformou-se fisicamente para interpretar Dick Cheney, recusando qualquer caricatura fácil e optando por uma composição fria, meticulosa e profundamente inquietante.

Um actor que prefere desaparecer

Apesar da fama, Christian Bale sempre manteve uma relação distante com o estrelato. Evita redes sociais, raramente concede entrevistas promocionais e vive longe dos grandes centros de exposição mediática. Casado desde 2000 com Sibi Blažić, pai de dois filhos, construiu uma carreira longa e sólida sem depender de polémicas externas.

O que permanece é o trabalho — rigoroso, obsessivo e, muitas vezes, desconfortável. Bale não procura agradar; procura compreender as personagens que interpreta, mesmo quando estas são moralmente repulsivas ou emocionalmente opacas.

Um aniversário com futuro pela frente

Ao celebrar mais um ano de vida, Christian Bale continua longe de qualquer ideia de acomodação. Cada novo projecto gera expectativa não pelo espectáculo exterior, mas pela curiosidade de descobrir que nova transformação, física ou emocional, irá surgir no ecrã.

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Num cinema cada vez mais previsível, Bale permanece uma força inquieta. Um actor que faz do risco uma regra e da exigência uma ética. Hoje é dia de anos — mas o legado, esse, continua em construção.

Morreu João Canijo, uma voz incómoda e essencial do cinema português

Um cineasta que filmou o país sem filtros nem concessões

Morreu João Canijo, um dos realizadores mais importantes, coerentes e exigentes do cinema português das últimas décadas. Tinha 68 anos e faleceu esta quinta-feira, dia 29 de Janeiro, perto de Vila Viçosa, distrito de Évora, onde repartia residência com Lisboa. A notícia foi confirmada à agência Lusa por fonte da produtora Midas Filmes. Segundo informações avançadas pela CNN Portugal e pelo jornal Público, o cineasta terá sofrido um ataque cardíaco fulminante durante a noite, tendo o corpo sido encontrado pela empregada de limpeza.

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Distinguido com o Urso de Prata no Festival de Berlim em 2023, João Canijo deixa uma obra marcada por uma visão implacável da sociedade portuguesa, quase sempre observada a partir do interior das famílias, dos conflitos domésticos e das tensões invisíveis que atravessam gerações. O seu cinema nunca foi confortável — e talvez por isso tenha sido tão necessário.

Do assistente ao autor: um percurso sólido e singular

Natural de Vinhais, no distrito de Bragança, João Canijo iniciou a sua carreira nos anos 1980 como assistente de realização, trabalhando com nomes fundamentais do cinema europeu como Manoel de Oliveira, Paulo Rocha e Wim Wenders. Em 1990 estreia-se na realização de longas-metragens com Filha da Mãe, assinando também a série televisiva Alentejo Sem Lei.

A partir daí construiu uma filmografia profundamente autoral, reconhecível pela forma como expõe feridas sociais raramente tratadas com complacência: machismo, imigração, prostituição, corrupção, marginalidade e dificuldades socioeconómicas. Como escreveu o investigador Daniel Ribas, trata-se de uma verdadeira “dramaturgia da violência”, onde o conflito é estrutural e raramente encontra redenção.

Filmes que ficaram — e que ficam

Entre os títulos mais marcantes da sua carreira contam-se Sapatos Pretos (1998), Ganhar a Vida (2001), Mal Nascida(2007) e, sobretudo, Sangue do Meu Sangue (2011), frequentemente apontado como uma das grandes obras do cinema português contemporâneo.

Em 2023, Canijo atinge um novo patamar de reconhecimento internacional com Mal Viver, vencedor do Urso de Prata em Berlim e candidato português aos Óscares. O filme acompanha uma família de mulheres que gere um hotel, vivendo num ambiente corroído por ressentimento e rancor, abalado pela chegada inesperada de uma neta. A obra dialoga directamente com Viver Mal, que observa a mesma realidade a partir do ponto de vista dos hóspedes.

Em 2024, esta dupla cinematográfica ganha uma nova dimensão com a série Hotel do Rio, exibida na RTP, apresentada como a “visão total” deste universo narrativo.

Um cinema feito de mulheres, tensão e verdade

Grande parte da força do cinema de João Canijo reside nas personagens femininas, complexas, contraditórias e centrais. Atrizes como Rita Blanco, Anabela Moreira, Beatriz Batarda, Madalena Almeida ou Cleia Almeida tornaram-se presenças recorrentes na sua obra, num trabalho continuado de cumplicidade artística raro no cinema português.

Outro momento relevante da sua carreira foi Fátima (2017), um filme rodado com 11 atrizes portuguesas numa peregrinação ao santuário, onde Canijo explorou não a fé, mas as dinâmicas de grupo entre mulheres. “As relações de grupo entre mulheres parecem-me muito mais interessantes do que com homens à mistura”, afirmou então à Lusa.

Projetos por concluir e um legado difícil de substituir

À data da sua morte, João Canijo encontrava-se a finalizar Encenação, longa-metragem protagonizada por Miguel Guilherme, centrada num encenador de teatro confrontado com a idade e com a relação com as suas atrizes. Deixa ainda por estrear o filme As Ucranianas.

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Nas redes sociais, a Medeia Filmes recordou o cineasta com uma frase que resume bem a sua visão artística: “A verdade é a interpretação que cada um faz da realidade. E é uma escolha que cada um faz da realidade.” João Canijo fez essa escolha com frontalidade, rigor e uma recusa sistemática do facilitismo. O cinema português fica mais pobre sem ele — mas a sua obra permanece, incómoda, viva e indispensável.

Quando a maternidade se transforma num campo de batalha emocional: Se Eu Tivesse Pernas, Dava-te um Pontapé chega aos cinemas

Há filmes que se instalam lentamente no espectador e outros que entram sem pedir licença. Se Eu Tivesse Pernas, Dava‑te um Pontapé pertence claramente ao segundo grupo. O novo filme da realizadora Mary Bronstein estreia-se nas salas portuguesas a 19 de Fevereiro, trazendo consigo um retrato implacável do esgotamento emocional, da ansiedade e das pressões invisíveis associadas à maternidade contemporânea.

Protagonizado por Rose Byrne, o filme apoia-se quase integralmente numa interpretação intensa e sem rede de segurança, capaz de sustentar um drama psicológico que oscila entre o thriller emocional, o humor negro e uma sensação constante de colapso iminente.

Uma vida em queda livre

Linda é terapeuta, mãe e uma mulher que tenta desesperadamente manter o controlo quando tudo à sua volta começa a ruir. A filha desenvolve uma doença misteriosa e resistente a tratamentos, o marido está emocionalmente — e fisicamente — ausente, uma paciente desaparece sem explicação e a própria saúde mental de Linda começa a deteriorar-se a um ritmo alarmante.

O filme acompanha esta descida progressiva com um olhar próximo, quase claustrofóbico, recusando explicações fáceis ou soluções reconfortantes. A câmara insiste no desgaste, na repetição, na exaustão acumulada — como se o espectador fosse obrigado a partilhar o mesmo fôlego curto da protagonista.

Drama psicológico com nervo de thriller

Mary Bronstein constrói o filme com um ritmo tenso e nervoso, mais próximo de um thriller psicológico do que de um drama convencional. Cada situação quotidiana é tratada como um potencial detonador emocional, e o humor negro surge não como alívio, mas como mecanismo de sobrevivência.

Se Eu Tivesse Pernas, Dava-te um Pontapé fala de maternidade sem romantização, expondo as expectativas irreais, o isolamento silencioso e a culpa permanente que tantas vezes acompanham este papel. O resultado é um filme desconfortável, mas profundamente humano, que recusa suavizar a experiência feminina para consumo fácil.

Rose Byrne em estado de graça

O grande motor do filme é, sem dúvida, a prestação de Rose Byrne. A actriz — vencedora de um Globo de Ouro e nomeada para o ÓscarBAFTA e outros prémios de prestígio — entrega aqui uma das interpretações mais cruas e exigentes da sua carreira. A sua Linda é frágil, obsessiva, por vezes difícil de suportar, mas sempre reconhecível.

Esta performance valeu-lhe o Prémio de Melhor Atriz no Festival de Cinema de Berlim, consolidando o filme como uma das propostas mais intensas do cinema independente recente.

Uma estreia que não passa despercebida

Se Eu Tivesse Pernas, Dava-te um Pontapé chega aos cinemas como uma experiência imersiva, desconfortável e absolutamente contemporânea. Um filme que não procura agradar, mas sim confrontar — e que encontra na honestidade emocional a sua maior força.

Para quem procura cinema desafiante, centrado em personagens complexas e disposto a explorar zonas emocionalmente difíceis, esta é uma estreia a não ignorar.

De A Coisa a Inception: 25 filmes entram no Registo Nacional de Cinema dos Estados Unidos

O cinema enquanto património cultural voltou a ser celebrado nos Estados Unidos com o anúncio da mais recente selecção do Registo Nacional de Cinema, iniciativa da Library of Congress que visa preservar obras consideradas essenciais para a memória colectiva do país. Este ano, 25 novos filmes foram escolhidos, elevando o total para 925 títulos, abrangendo mais de um século de História do cinema, desde o final do século XIX até à segunda década do século XXI.

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A decisão foi tornada pública a 29 de Janeiro, pelo National Film Preservation Board, e reflete uma selecção particularmente eclética: cinema mudo, clássicos de Hollywood, documentários, animação e filmes contemporâneos que, apesar da sua relativa juventude, já demonstraram um impacto cultural duradouro.

Entre os títulos agora consagrados encontram-se A Coisa, de John Carpenter, Antes do Amanhecer, de Richard Linklater, e Inception, de Christopher Nolan — três obras muito diferentes entre si, mas unidas pela forma como moldaram o imaginário cinematográfico das últimas décadas.

Um século de cinema preservado

O arco temporal desta selecção é particularmente expressivo. O filme mais antigo incluído é The Tramp and the Dog(1896), enquanto o mais recente é O Grande Hotel Budapeste, de Wes Anderson. Pelo meio, surgem obras que marcaram épocas, géneros e gerações, confirmando que a noção de “clássico” já não está limitada ao cinema do passado distante.

Entre os títulos mais reconhecidos pelo grande público estão Karate Kid – O Momento da VerdadeGloryPhiladelphiaAs Meninas de Beverly HillsO Show de Truman e Os Incríveis. Filmes que, apesar de recentes quando comparados com os primórdios do cinema, já provaram a sua relevância cultural e estética.

Seis filmes mudos e histórias recuperadas do esquecimento

Um dos aspectos mais sublinhados pela organização é a inclusão de seis filmes mudos, demonstrando um esforço contínuo de preservação dos primeiros anos da produção cinematográfica norte-americana. Segundo Jacqueline Stewart, presidente do conselho e rosto habitual da Turner Classic Movies, esta selecção “mostra a diversidade temática e estilística do cinema nos seus anos formativos”.

Entre estes títulos destaca-se The Tramp and the Dog, considerado perdido durante décadas e redescoberto apenas em 2021 na Biblioteca Nacional da Noruega. O filme tem ainda a particularidade de ser o primeiro comercialmente produzido em Chicago e incluir aquele que muitos historiadores consideram o primeiro exemplo de humor físico envolvendo… a perda de calças em cena.

Outros títulos mudos agora preservados incluem The Oath of the Sword, um dos primeiros exemplos conhecidos de cinema asiático-americano, The Maid of McMillan, considerado o mais antigo filme estudantil existente, The Lady, um melodrama realizado por Frank Borzage, e Sparrows, protagonizado por Mary Pickford, numa das suas interpretações mais elogiadas.

Autores modernos entram definitivamente no cânone

A lista de 2025 confirma também a consolidação de vários cineastas contemporâneos no cânone cultural norte-americano. Para além de Carpenter, Linklater e Nolan, surgem nomes como Amy Heckerling, com As Meninas de Beverly Hills, e Ken Burns, que entra pela primeira vez no Registo Nacional com um dos seus documentários históricos — um reconhecimento simbólico da importância do documentário enquanto forma de cinema.

Cinema como memória colectiva

Segundo Robert R. Newlen, “quando preservamos filmes, preservamos a cultura americana para as gerações futuras”. Uma ideia reforçada por representantes da indústria exibidora, que sublinham o papel das salas de cinema como espaços de memória social, descoberta e formação cultural.

Os 25 filmes agora escolhidos foram seleccionados a partir de quase 8.000 nomeações feitas pelo público, num processo que continua aberto a novas propostas. Qualquer filme com mais de dez anos pode ser nomeado até 15 de Agosto de 2026.

Para assinalar a selecção deste ano, a Turner Classic Movies vai emitir um especial televisivo a 19 de Março, com a exibição de vários dos filmes agora integrados no Registo Nacional.

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Entre o cinema mudo e os grandes filmes contemporâneos, esta lista lembra-nos de algo essencial: o cinema não é apenas entretenimento — é História, identidade e memória projectada em luz.

Brian De Palma prepara novo regresso a Hollywood com talento brasileiro — e filmagens em Portugal

Aos 85 anos, Brian De Palma não mostra qualquer intenção de abrandar. Pelo contrário: o realizador norte-americano prepara-se para regressar aos sets com Sweet Vengeance, um novo projecto que marca o seu retorno ao cinema internacional e que conta com a participação de dois nomes centrais do cinema brasileiro contemporâneo.

A informação foi confirmada pelo produtor Rodrigo Teixeira, da RT Features, durante uma mesa-redonda da Mostra de Cinema de Tiradentes dedicada à internacionalização do audiovisual brasileiro. Segundo Teixeira, Sweet Vengeance terá direcção de fotografia de Pedro Sotero e figurinos de Cláudia Kopke.

Talento brasileiro ao serviço de um mestre do cinema

Pedro Sotero é amplamente reconhecido pelo seu trabalho em Bacurau e Aquarius, ambos realizados por Kleber Mendonça Filho, bem como em títulos mais recentes como Propriedade (2022) e Baby (2024). A sua fotografia, marcada por uma atenção rigorosa ao espaço e à textura da imagem, tornou-se uma referência no cinema brasileiro contemporâneo.

Já Cláudia Kopke chega a este projecto depois de assinar os figurinos de filmes emblemáticos como Que Horas Ela Volta? e Ainda Estou Aqui, este último distinguido com o primeiro Óscar da história do cinema brasileiro. O seu trabalho é frequentemente elogiado pela forma como contribui para a construção psicológica das personagens, sem nunca se impor de forma gratuita.

Um regresso aguardado de Brian De Palma

Sweet Vengeance será o primeiro filme de Brian De Palma desde Domino – A Hora da Vingança (2019). O realizador é responsável por uma filmografia fundamental do cinema norte-americano, que inclui títulos como Carrie, a EstranhaVestida para MatarUm Tiro na NoiteO Duplo e Os Intocáveis — obras que continuam a influenciar cineastas e espectadores décadas depois da sua estreia.

Embora os detalhes do enredo permaneçam em segredo, sabe-se que o filme será inspirado em dois homicídios reais, o que sugere um regresso a um território mais sombrio e próximo do thriller psicológico, género onde De Palma sempre se moveu com particular mestria.

Filmagens em Portugal e ambições internacionais

As filmagens de Sweet Vengeance deverão arrancar em Maio, em Portugal, reforçando a crescente atractividade do país como palco de produções internacionais de grande escala. A escolha sublinha também a vocação cada vez mais global da RT Features, produtora que tem no seu currículo filmes como Chama‑me Pelo Teu Nome, de Luca Guadagnino, e A Bruxa, de Robert Eggers.

Sem data de estreia definida e com o elenco ainda por anunciar, Sweet Vengeance começa desde já a gerar expectativa, não apenas pelo regresso de Brian De Palma, mas pela forma como cruza talento brasileiro, produção internacional e uma filmografia lendária que continua longe de dizer a última palavra.

Há imagens novas… e a imortalidade regressa: Henry Cavill assume o legado de Highlander

Quase quatro décadas depois de se tornar um clássico improvável da cultura pop, Highlander – O Guerreiro Imortalprepara-se para regressar ao grande ecrã — e as primeiras imagens oficiais do remake já começaram a circular. O responsável pela revelação foi o próprio Henry Cavill, que recorreu ao Instagram para mostrar um primeiro vislumbre da sua transformação no novo Connor MacLeod, o lendário guerreiro imortal que ficou eternamente associado a Christopher Lambert.

Ainda sem data oficial de estreia, o novo Highlander é realizado por Chad Stahelski, cineasta conhecido sobretudo pelo universo John Wick, o que desde logo levanta expectativas quanto ao tratamento da acção, do combate corpo-a-corpo e, claro, das inevitáveis decapitações.

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Cavill: do Super-Homem ao guerreiro imortal

Na legenda que acompanha as imagens, Cavill mostrou-se visivelmente entusiasmado com o projecto:

“Divirtam-se com esta primeira prévia de Highlander! Tem sido uma grande jornada para mim, que contarei quando chegar a altura certa. É um momento especial poder partilhar isto convosco.”

Depois de ter vestido a capa de Superman em O Homem de AçoBatman v Superman: Dawn of Justice e Liga da Justiça, Cavill regressa agora a um território que parece talhado à sua imagem: um herói físico, solene, marcado pelo peso do tempo e da violência — características que encaixam naturalmente no mito de Connor MacLeod.

O regresso de uma mitologia muito própria

Highlander original, realizado por Russell Mulcahy, contava a história de MacLeod, um guerreiro escocês do século XVI que descobre ser imortal e é treinado por Ramirez, também ele um imortal, interpretado por Sean Connery. A premissa era simples e absolutamente irresistível: guerreiros imortais espalhados pelo mundo enfrentam-se ao longo dos séculos, sabendo que “só pode haver um” — e que a única forma de morrer é pela decapitação.

No remake, o papel de Ramirez passa para Russell Crowe, numa escolha que promete dar uma nova gravidade à personagem. Já o antagonista principal será interpretado por Dave Bautista, actor que tem vindo a construir uma carreira curiosamente equilibrada entre o cinema de acção e projectos mais autorais.

Um elenco recheado… e ambições renovadas

Além de Cavill, Crowe e Bautista, o elenco inclui ainda Karen GillanDjimon HounsouMarisa Abela e Max Zhang. Um conjunto de nomes que sugere uma abordagem mais global e contemporânea ao universo Highlander, sem perder a sua essência mitológica.

A escolha de Chad Stahelski para a realização é particularmente reveladora. Depois de redefinir o cinema de acção moderno com John Wick, o realizador tem agora nas mãos uma mitologia que pede precisamente isso: coreografias rigorosas, combate estilizado e uma linguagem visual forte que ajude a diferenciar épocas, espaços e séculos.

Um legado difícil… mas tentador

O filme de 1986 teve duas sequelas cinematográficas — Highlander II: A Ressurreição e Highlander III: O Feiticeiro —, além de uma série televisiva extremamente popular nos anos 90, animações, bandas desenhadas e romances. Nem tudo envelheceu bem, mas o conceito base manteve sempre um poder quase mítico.

Este remake surge, por isso, como uma oportunidade rara: respeitar o espírito do original, corrigir excessos do passado e apresentar Highlander a uma nova geração de espectadores. As primeiras imagens com Henry Cavill não revelam muito — mas dizem o suficiente para perceber que a imortalidade está longe de estar gasta.

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No fim, continua a aplicar-se a velha regra: só pode haver um. Resta saber se este Highlander será o escolhido.

O vento da mudança não espera: Living the Land e a China num ponto de viragem histórico

Há filmes que chegam às salas como simples estreias semanais e há outros que se impõem como verdadeiros retratos de um país em transformação. Living the Land – O Vento é Imparável, que se estreia esta quinta-feira em Portugal, pertence claramente ao segundo grupo. Vencedor do Urso de Prata para Melhor Realização no Festival de Cinema de Berlim em 2025, o segundo filme do realizador Huo Meng afirma-se como um olhar delicado, sensorial e profundamente humano sobre uma China em mutação acelerada.

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Da Revolução Cultural à explosão criativa

Durante décadas, o cinema chinês viveu sob fortes limitações, especialmente no período da Revolução Cultural. O seu ressurgimento internacional começou nos anos 1980 com a chamada Quinta Geração, onde se destacaram nomes como Zhang Yimou e Chen Kaige. Hoje, essa classificação tornou-se quase irrelevante: o número de cineastas chineses revelados e premiados em grandes festivais é tal que já não se contam gerações — contam-se filmes marcantes.

Huo Meng é um desses novos nomes a acompanhar de perto. Com apenas a sua segunda longa-metragem, conquista Berlim e confirma que o cinema chinês contemporâneo continua a reinventar-se, agora com um olhar mais íntimo, menos épico e mais atento ao quotidiano.

Um ano, um lugar, um país em transição

Living the Land decorre numa região rural do nordeste da China, em 1991, um ano simbólico num país que acelerava a modernização económica e social. Partindo das suas próprias memórias de infância, Huo Meng constrói um retrato sensível das consequências dessa mudança, sobretudo na relação entre campo e cidade.

A narrativa acompanha uma família rural ao longo de um ciclo completo das estações do ano. No centro está Chuang, um rapaz de dez anos que vê os dois irmãos mais velhos partirem para a cidade em busca de trabalho e futuro, enquanto ele permanece no campo, ligado à terra, aos rituais e a uma forma de vida que começa lentamente a desaparecer.

Cinema como experiência sensorial

Mais do que uma história linear, Living the Land propõe uma experiência impressionista. Pessoas e paisagem surgem em pé de igualdade, num cinema que observa gestos, silêncios e rituais com paciência quase contemplativa. O realizador recorre maioritariamente a actores amadores, reforçando a autenticidade dos rostos e das emoções, e constrói um universo onde o som — do vento, da terra, dos animais — é tão importante quanto a imagem.

Sem negar o progresso nem cair na nostalgia fácil, o filme sublinha algo essencial: a modernização tem custos, e a ruptura total com a tradição pode significar a perda de uma identidade espiritual profunda, enraizada na vida rural chinesa.

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Um filme necessário

Encantador enquanto espectáculo cinematográfico e revelador na sua dimensão sociológica, Living the Land – O Vento é Imparável confirma Huo Meng como uma voz a seguir com atenção. Um filme discreto, mas poderoso, que observa a História a partir do chão — literalmente — e lembra que, por mais imparável que seja o vento da mudança, a terra guarda sempre memória.

Falso documentário, sucesso bem real: filme de Charli XCX esgota sessões e agita Sundance

O que acontece quando uma mega-estrela pop decide rir de si própria, da indústria que a rodeia e do circo mediático que ajudou a criar? A resposta chama-se The Moment — um falso documentário protagonizado por Charli XCX que está a provar ser tudo menos uma brincadeira passageira. Apresentado recentemente no Festival de Sundance, o filme tornou-se no lançamento limitado da A24 com vendas mais rápidas de sempre nos Estados Unidos.

De acordo com o estúdio, mais de 50 sessões esgotaram em tempo recorde nos chamados mercados estratégicos, com bilhetes a desaparecerem antes mesmo da estreia oficial. Para completar o fenómeno, uma sessão especial com perguntas e respostas, em Brooklyn, com Charli XCX e o realizador Aidan Zamiri, esgotou de imediato e viu os ingressos a serem revendidos online — algo raro para um filme de lançamento limitado e ainda sem distribuição alargada.

Uma diva fictícia… demasiado próxima da realidade

Em The Moment, Charli XCX interpreta uma versão exagerada e autoconsciente de si própria: uma “diva” controladora, obsessiva com detalhes e presa entre a vontade de evoluir artisticamente e a pressão constante para manter uma imagem rentável. O ponto de partida é simples e irónico: depois de dominar um verão inteiro, lançar um álbum multimilionário (Brat) e até influenciar dicionários a elegerem a palavra do ano, o que deve fazer uma estrela pop a seguir?

A resposta surge sob a forma de crise existencial, sátira mordaz e um olhar desconfortavelmente honesto sobre a fama contemporânea. A Charli do filme tenta afastar-se da estética “brat”, das tank tops justas e da atitude “IDGAF” que definiram 2024, mas encontra resistência precisamente onde menos queria: na máquina industrial que vive dessa persona.

Indústria vs. artista, com humor ácido

O elenco secundário reforça esta guerra de visões criativas. Hailey Benton Gates interpreta Celeste, a directora criativa da digressão, aliada na tentativa de mudança estética. Do outro lado da barricada estão a executiva da editora discográfica, vivida por Rosanna Arquette, e Johannes, um realizador egocêntrico contratado para supervisionar o filme da digressão, interpretado por Alexander Skarsgård.

O choque de egos e ideias transforma o planeamento da digressão num campo de batalha criativo: luzes estroboscópicas e mensagens directas dão lugar a pulseiras luminosas e a um palco que, segundo uma das personagens, “parece uma lâmpada de lava”. Pelo meio, surgem absurdos deliciosos, como uma campanha publicitária de um cartão de crédito dirigido a jovens queer ou uma fuga para um spa em Ibiza, símbolo máximo da alienação pop.

Críticos divididos, público rendido

A estreia em Sundance dividiu a crítica — como costuma acontecer com obras que brincam com o ego da indústria —, mas o público respondeu em força. Durante a sessão no festival, Charli XCX assumiu com humor a proximidade entre ficção e realidade:

“Gostaria de acreditar que não sou tão problemática como a Charli do filme”, brincou, arrancando gargalhadas.

O argumento, assinado por Bertie Brandes e pelo próprio Zamiri, assume conscientemente os arquétipos do clássico “artista contra a indústria”, algo que a cantora defendeu como realista: “Conheci versões de todas estas pessoas. Algumas torcem mesmo por ti; outras só querem estar perto do artista.”

De Spinal Tap à Berlim

O estilo de falso documentário deve muito a This Is Spinal Tap, influência assumida por Zamiri, que aproveitou a estreia para prestar homenagem a Rob Reiner, realizador do clássico de 1984.

Depois de Sundance, The Moment prepara-se para a estreia europeia na Festival de Berlim, que decorre de 12 a 22 de Fevereiro, levando consigo o estatuto de fenómeno inesperado. Para Charli XCX, o cinema surge também como uma tentativa consciente de se afastar da persona “brat” — ou, como a própria resumiu citando uma das suas canções: quando se ama algo, simplesmente faz-se, sem dormir nem parar.

Paul Dano reage às críticas de Tarantino — com classe, gratidão e o apoio de Hollywood

Nem todos os dias um actor é publicamente “arrasado” por Quentin Tarantino, muito menos por alguém conhecido por opiniões fortes e língua afiada. Mas foi exactamente isso que aconteceu com Paul Dano, alvo recente de comentários particularmente duros do realizador durante uma conversa no podcast de Bret Easton Ellis. A resposta de Dano? Elegância, contenção… e uma dose inesperada de gratidão.

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“O mundo falou por mim”

Paul Dano abordou o tema esta semana no Festival de Sundance, onde marcou presença para celebrar os 20 anos de Little Miss Sunshine, filme que ajudou a consolidar o seu estatuto em Hollywood. Questionado pela Variety sobre a polémica, o actor optou por uma resposta desarmante:

“Foi mesmo muito bonito. Fiquei incrivelmente grato por o mundo ter falado por mim, para que eu não tivesse de o fazer.”

Uma frase simples, mas reveladora de alguém que prefere deixar o trabalho — e os colegas — falarem mais alto.

O ataque de Tarantino

A polémica teve origem em Dezembro, quando Tarantino afirmou que a presença de Dano em There Will Be Blood foi suficiente para fazer o filme cair do topo da sua lista pessoal de melhores filmes de sempre para o quinto lugar. O realizador descreveu a prestação de Dano como o “defeito” do filme, recorrendo a expressões como “weak sauce” e “weak sister”, e acrescentando que o actor lhe parecia uma “não-entidade” em cena.

Apesar de Tarantino ter clarificado que não considerava a performance “terrível”, a agressividade da crítica gerou reacções imediatas — não tanto pela opinião em si, mas pelo tom utilizado.

Hollywood fecha fileiras

A resposta da indústria foi rápida e praticamente unânime. Várias figuras de peso saíram em defesa de Paul Dano, sublinhando o seu talento e consistência ao longo da carreira. Entre os nomes que manifestaram apoio estiveram Ethan HawkeBen StillerSimu Liu e Reese Witherspoon, todos apontando Dano como um actor “brilhante” e “profundamente talentoso”.

Esta onda de solidariedade acabou por transformar um ataque isolado num raro momento de consenso em Hollywood — algo que, convenhamos, não acontece todos os dias.

Toni Collette não poupou palavras

Durante a celebração de Little Miss Sunshine em Sundance, houve ainda espaço para reacções menos diplomáticas. Toni Collette, colega de Dano no filme, foi directa ao assunto quando questionada sobre Tarantino:

“F*** that guy! Ele devia estar pedrado… Foi tudo muito confuso. Quem é que faz uma coisa dessas?”

Uma resposta crua, espontânea e muito alinhada com o espírito independente que sempre marcou o filme.

Um actor que não precisa de defesa

A ironia de toda esta situação é que Paul Dano nunca precisou verdadeiramente de ser defendido. A sua carreira fala por si: de Little Miss Sunshine a There Will Be Blood, passando por Love & Mercy12 Years a Slave ou mais recentemente The Batman, Dano construiu um percurso sólido, discreto e respeitado — precisamente o oposto do ruído mediático que agora o rodeia.

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No fim de contas, enquanto Tarantino continua fiel ao seu estilo incendiário, Paul Dano mostrou que há outras formas de lidar com a crítica: silêncio, gratidão e um reconhecimento sereno de que, às vezes, a melhor resposta vem dos outros.

Muito Para Além do Mito: o retrato definitivo de Liza Minnelli chega finalmente ao cinema

Durante décadas, Liza Minnelli foi vista como um ícone maior do que a vida: a voz poderosa, a presença eléctrica em palco, o sorriso indestrutível mesmo nos momentos mais difíceis. Mas por detrás da figura pública existiu sempre uma mulher complexa, moldada por uma herança artística esmagadora e por uma determinação rara. Liza Minnelli: A Incrível e Absolutamente Verdadeira História propõe-se finalmente olhar para essa vida sem filtros nem reverências fáceis. O documentário estreia em exclusivo nos cinemas portugueses a 29 de Janeiro de 2026.

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Uma infância vivida sob holofotes intensos demais

Filha de Vincente Minnelli, um dos grandes nomes do cinema clássico de Hollywood, e da lendária Judy Garland, Liza Minnelli cresceu num mundo onde o espectáculo não era excepção, mas regra. O filme acompanha de perto essa infância pouco convencional, marcada por bastidores de estúdios, ensaios intermináveis e a consciência precoce de que o talento, por si só, não garante felicidade.

Sem cair no sensacionalismo, o documentário contextualiza o impacto psicológico de crescer à sombra de um mito como Garland, mostrando como essa herança foi simultaneamente um privilégio e um fardo. Mais do que “a filha de”, Liza foi obrigada desde cedo a provar que existia por mérito próprio.

A afirmação de uma artista irrepetível

É nos anos 1970 que Liza Minnelli: A Incrível e Absolutamente Verdadeira História ganha uma energia particular. O filme acompanha a afirmação artística de Minnelli num período em que se torna uma referência internacional absoluta, tanto no cinema como nos palcos. O Oscar por Cabaret surge aqui não como um ponto de chegada, mas como a confirmação pública de um percurso feito de disciplina, estudo e resistência.

Através de imagens de arquivo raramente exibidas, entrevistas e momentos de bastidores, o documentário revela uma artista obcecada pelo rigor, pela entrega total e pela ideia de que cada actuação poderia ser a última. Uma ética de trabalho que ajudou a construir um legado singular no entretenimento do século XX.

Um olhar humano, informado e sem mitificações fáceis

Realizado por Bruce David Klein, o filme distingue-se pela abordagem clara e profundamente humana. Não há aqui tentativa de criar uma narrativa artificialmente heróica, nem de esconder fragilidades. Pelo contrário: o documentário entende que é precisamente nas contradições, nas quedas e nos recomeços que se constrói a verdadeira dimensão de Liza Minnelli.

O resultado é uma leitura rigorosa e informada sobre uma carreira extraordinária, mas também um retrato íntimo de uma mulher que nunca deixou de lutar pela sua identidade artística, mesmo quando o mundo parecia exigir apenas que fosse uma continuação do passado.

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Um documentário essencial para cinéfilos e melómanos

Mais do que um simples exercício biográfico, Liza Minnelli: A Incrível e Absolutamente Verdadeira História afirma-se como um documento essencial sobre fama, herança e sobrevivência artística. Um filme que respeita a inteligência do espectador e faz justiça a uma das figuras mais marcantes do entretenimento moderno.

Anos de Inquietude: quatro filmes, quatro olhares sobre a juventude em ebulição no TVCine Edition

Fevereiro promete noites intensas no TVCine Edition, com um especial que olha a juventude sem filtros, romantizações fáceis ou respostas simples. Anos de Inquietude, exibido todos os domingos, de 1 a 22 de Fevereiro, sempre às 22h00, reúne quatro filmes assinados por cineastas de referência que exploram o crescimento, o conflito e a procura de identidade como territórios instáveis, por vezes dolorosos, mas sempre transformadores  .

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Quatro filmes, uma mesma urgência de viver

O especial parte de uma ideia simples e poderosa: a juventude como um tempo de incerteza permanente. Seja nos subúrbios ingleses, numa escola de teatro em Paris, numa herdade argentina ou numa aldeia rural francesa, estas histórias falam de personagens que tentam perceber quem são, de onde vêm e para onde podem ir. Em comum, há inquietação, desejo de fuga e a sensação constante de que o mundo exige decisões antes de estarmos preparados para as tomar.

Bird: crescer quando ninguém está a olhar

O ciclo abre a 1 de Fevereiro com Bird, de Andrea Arnold, uma das vozes mais consistentes do cinema britânico contemporâneo. O filme acompanha Bailey, uma adolescente negligenciada que vive com o pai e o irmão nos subúrbios de Kent. Entre realismo social e um lirismo subtil, Arnold constrói um retrato duro e comovente sobre invisibilidade, identidade e pertença. Apresentado em competição no Festival de Cannes em 2024, Bird confirma a capacidade da realizadora para transformar quotidianos marginais em cinema profundamente humano.

Les Amandiers – Jovens para Sempre: memórias de palco e de pele

No dia 8 de Fevereiro, chega Les Amandiers – Jovens para Sempre, de Valeria Bruni Tedeschi, um filme marcado pela nostalgia e pela intensidade emocional. Inspirado nas memórias da própria realizadora, o drama acompanha um grupo de jovens actores admitidos numa prestigiada escola de teatro no final dos anos 80. Entre paixões, excessos e descobertas, o filme é uma carta de amor à juventude criativa e caótica, distinguida em Cannes e nos Prémios César.

Um Segredo de Família: crescer à sombra do passado

15 de Fevereiro, o tom muda com Um Segredo de Família, do argentino Pablo Trapero. Aqui, a juventude é confrontada com heranças emocionais e políticas difíceis de digerir. O regresso de uma filha à propriedade familiar desencadeia revelações sobre mentiras antigas, traumas da ditadura e relações marcadas por ressentimentos silenciosos. Um melodrama contido, mas devastador, ancorado em interpretações intensas de Bérénice Bejo e Martina Gusmán.

Amor e Queijo: a idade adulta chega sem pedir licença

O especial termina a 22 de Fevereiro com Amor e Queijo, de Louise Courvoisier, uma estreia sensível e luminosa sobre o fim da adolescência. Num meio rural francês, Totone vê-se obrigado a assumir responsabilidades demasiado cedo, num filme que mistura descoberta amorosa, sobrevivência económica e a beleza rude do campo. Apresentado na secção Un Certain Regard de Cannes, o filme conquistou o Prémio da Juventude e dois Césares, afirmando Courvoisier como um nome a seguir de perto.

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Um ciclo para ver e sentir

Anos de Inquietude não oferece respostas fáceis, mas propõe algo mais valioso: empatia. Quatro filmes, quatro olhares autorais e uma certeza comum — crescer é sempre um processo imperfeito, instável e profundamente cinematográfico.

Quando a fama não deixa dormir: Hurry Up Tomorrow leva The Weeknd ao limite no TVCine Top

A fama, quando vista de fora, parece feita de luzes, aplausos e sucesso sem fim. Mas Hurry Up Tomorrow propõe um mergulho inquietante no lado menos glamoroso desse estrelato — aquele onde a insónia, a exaustão emocional e a perda de identidade caminham de mãos dadas. O thriller psicológico protagonizado por The Weeknd e Jenna Ortega estreia-se na televisão portuguesa no dia 31 de Janeiro, às 21h30, em exclusivo no TVCine Top e no TVCine+ .

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Uma descida vertiginosa ao abismo psicológico

No centro da narrativa está um músico no auge da carreira que, incapaz de dormir há semanas, começa a ver a sua perceção da realidade fragmentar-se perigosamente. Entre concertos, entrevistas e noites intermináveis, a mente entra em curto-circuito. É numa dessas madrugadas sem fim que surge uma jovem fã misteriosa, cuja presença oscila entre o conforto emocional e uma ameaça silenciosa. O encontro entre os dois desencadeia uma sucessão de episódios cada vez mais intensos e perturbadores, levando o protagonista a confrontar traumas antigos, culpas mal resolvidas e a pressão esmagadora do sucesso.

À medida que a relação se aprofunda, Hurry Up Tomorrow transforma-se numa espiral psicológica onde nada é totalmente fiável — nem as pessoas, nem as memórias, nem o próprio protagonista. Cada decisão aproxima-o de um ponto de rutura inevitável, num jogo perigoso entre identidade pública e intimidade pessoal.

Thriller existencial com assinatura de autor

Realizado por Trey Edward Shults, conhecido por filmes como Ele Vem à Noite e As Ondas, o filme cruza o thriller psicológico com um drama profundamente existencial. Shults volta a explorar estados emocionais extremos, usando o som, a música e a noite como extensões da mente humana em colapso.

The Weeknd apresenta-se num registo surpreendentemente vulnerável, dando corpo a uma personagem consumida pela autoexigência e pelo vazio que muitas vezes acompanha o estrelato. Já Jenna Ortega constrói uma figura inquietante e imprevisível, funcionando como catalisadora de uma viagem emocional tão sedutora quanto destrutiva.

Uma experiência sensorial e perturbadora

Com uma estética marcada pela escuridão, pela música e por uma atmosfera quase hipnótica, Hurry Up Tomorrow não é apenas um filme sobre fama — é um retrato desconfortável da solidão, da obsessão e do preço psicológico do sucesso. Uma obra que pede entrega total do espectador e que promete ficar na memória muito depois dos créditos finais.

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Para quem procura um thriller intenso, emocionalmente exigente e longe das fórmulas convencionais, a noite de sábado, 31 de Janeiro, tem destino marcado.

Harrison Ford emocionou Michael J. Fox no plateau de Shrinking: “Reconheci o Parkinson nos olhos dele”

O encontro entre Harrison Ford e Michael J. Fox na terceira temporada de Shrinking foi muito mais do que uma simples colaboração entre duas lendas de Hollywood. Tornou-se um momento profundamente emocional, marcado pela empatia, pelo respeito mútuo e por uma representação da doença de Parkinson que tocou quem a vive na primeira pessoa.

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Um reencontro carregado de significado

Michael J. Fox, de 64 anos, junta-se ao elenco da terceira temporada da série da Apple TV+, onde Harrison Ford interpreta o Dr. Paul Rhoades, um terapeuta diagnosticado com Parkinson. A particularidade desta colaboração é evidente: Fox vive com a doença há mais de três décadas e tornou-se uma das vozes mais importantes na sensibilização para o Parkinson a nível mundial.

Em declarações à Vanity Fair, Fox não poupou elogios à forma como Ford abordou a personagem. “Não precisei de o convencer de que tenho Parkinson, mas ele teve de me convencer de que o tinha”, confessou. O actor explicou que ficou surpreendido com a profundidade emocional que Ford trouxe para o papel, acrescentando: “Reconheci o Parkinson nos olhos dele. As coisas que eu sinto estavam lá, na forma como ele se expressava”.

Uma interpretação que foi além da representação

A força da interpretação de Harrison Ford foi tal que Michael J. Fox admitiu ter sido levado às lágrimas durante as gravações. Para Ford, esse reconhecimento resume quem Fox é enquanto pessoa e enquanto artista. O actor descreveu o colega como “generoso, solidário, aberto” e não resistiu a acrescentar, com humor, que Fox é também “um actor incrivelmente bom”.

Ford sublinhou ainda a responsabilidade de representar uma doença tão complexa: “É uma condição intimidante e também um trabalho intimidante retratá-la da forma certa. Foi uma experiência muito importante para mim”. Apesar de interpretar uma personagem numa fase diferente da doença, o actor fez questão de estudar e compreender o Parkinson com rigor e respeito.

Mais do que dois actores, uma história necessária

Antes de Shrinking, Harrison Ford admitiu que não conhecia bem Michael J. Fox, apesar de se terem cruzado algumas vezes ao longo dos anos. Ainda assim, destacou a importância da presença do actor na série: “A vontade dele em fazer parte do projecto dá-nos um propósito real. Não somos apenas dois actores a trabalhar juntos. Há uma história para contar”.

Fox, por sua vez, elogiou a subtileza do trabalho de Ford, considerando-o um actor muitas vezes subestimado, apesar do reconhecimento generalizado da sua carreira. Acrescentou ainda que Ford foi “extremamente protector” durante as filmagens, garantindo que a experiência fosse positiva e segura.

Uma série que ganha nova profundidade

Shrinking, criada por Bill Lawrence, tem sido elogiada pela forma honesta e humana como aborda temas difíceis, equilibrando drama, humor e emoção. A entrada de Michael J. Fox na terceira temporada acrescenta uma camada extra de autenticidade e impacto emocional, reforçando a série como uma das propostas mais sensíveis da televisão actual.

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Os novos episódios de Shrinking estreiam às quartas-feiras na Apple TV+, prometendo momentos tão comoventes quanto memoráveis.

Matt Damon escolhe o maior actor cómico de sempre – e não é quem está a pensar

Ao longo de uma carreira marcada por thrillers, dramas intensos e blockbusters de grande escala, Matt Damon nunca foi exactamente catalogado como um actor de comédia. Ainda assim, quem acompanha o seu percurso sabe que o actor sempre revelou um apurado sentido de tempo cómico, mesmo quando o riso não era o objectivo principal.

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Uma carreira onde a comédia aparece de surpresa

Nos anos 90, Damon mostrou essa faceta em filmes como Chasing Amy e Dogma, de Kevin Smith, onde provou que sabia lidar com diálogos rápidos e humor mordaz. Mais tarde, voltou a surpreender em Stuck on You, dos irmãos Farrelly, uma comédia hoje impensável em muitos aspectos, mas que na altura funcionou como um produto típico do início dos anos 2000.

Apesar de nunca se ter dedicado de corpo e alma ao género, Damon continuou a espalhar pequenos momentos cómicos ao longo da sua filmografia. A trilogia Ocean’s ElevenOcean’s Twelve e Ocean’s Thirteen, realizada por Steven SoderberghThe Informant!, de Tom McCarthy, ou até as suas participações nos filmes de Thor realizados por Taika Waititi demonstram uma versatilidade rara. E sim, EuroTrip continua a ser citado com carinho por toda uma geração.

O génio que todos admiram, mesmo fora da comédia

Naturalmente, alguém com esta sensibilidade não deixa de reconhecer o verdadeiro génio quando o vê. Numa conversa com a Rotten Tomatoes, Matt Damon foi claro ao apontar quem considera ser o maior actor cómico de todos os tempos: Peter Sellers.

A escolha não é inocente. Sellers é o protagonista de Dr. Strangelove, de Stanley Kubrick, um dos filmes preferidos de Damon. No clássico de 1964, o actor britânico interpreta várias personagens com uma mestria que continua a surpreender décadas depois. Para Damon, a dúvida nem sequer se colocava entre vários títulos: o importante era garantir que Peter Sellers estava presente.

“Ele é absolutamente brilhante e terrivelmente engraçado”, afirmou o actor, resumindo uma opinião partilhada por nomes como Jim CarreySteve MartinMike Myers ou Will Ferrell, todos assumidamente influenciados pelo trabalho de Sellers.

Um legado impossível de ignorar

Apesar da fama de difícil nos bastidores, poucos negam o impacto duradouro de Peter Sellers na história do cinema. A sua capacidade camaleónica, o risco constante e a inteligência do seu humor fizeram dele uma referência transversal, respeitada tanto por actores de comédia como por intérpretes mais associados ao drama.

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Será Peter Sellers o maior actor cómico de sempre? A resposta continua aberta, mas quando um actor como Matt Damon o coloca nesse pedestal, é difícil discordar. Pelo menos, no panteão dos grandes, o seu lugar está mais do que garantido.

De McDreamy a assassino: Patrick Dempsey estreia-se na acção numa série que está a dividir a crítica

Durante anos, Patrick Dempsey foi sinónimo de charme televisivo. Para milhões de espectadores, será sempre o eterno “McDreamy” de Grey’s Anatomy. Mas os tempos mudam — e Dempsey decidiu trocar o bloco operatório por algo bem mais sombrio. A nova série Memory of a Killer, da Fox, marca a sua estreia como protagonista num registo de acção pura e dura… com resultados curiosos.

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Um assassino com Alzheimer e uma vida dupla

Em Memory of a Killer, Dempsey interpreta Angelo, um assassino profissional de elite que vê a sua vida virar do avesso após ser diagnosticado com Alzheimer de início precoce. À medida que a memória começa a falhar, algo inesperado acontece: a consciência desperta. Como se não bastasse, Angelo começa a suspeitar que a recente morte da mulher pode não ter sido um simples acidente, empurrando-o para um caminho de vingança inevitável.

O conceito joga deliberadamente com contrastes fortes. Angelo vive duas vidas completamente separadas: durante a semana é um pacato vendedor de fotocopiadoras em Cooperstown e pai dedicado; nas sombras, é um temido assassino em Nova Iorque. Uma compartimentação perfeita… até deixar de o ser.

Um remake com várias camadas de ADN cinematográfico

A série é um remake directo do filme Memory, protagonizado por Liam Neeson, que por sua vez foi inspirado no premiado filme belga De Zaak Alzheimer. Segundo Michael Thorn, responsável da Fox, o tom da série pode ser descrito como uma mistura improvável entre 24 e House — acção, urgência e dilemas morais em doses generosas.

Crítica dividida, elogios a Dempsey

As primeiras reacções não tardaram e são tudo menos consensuais. No Rotten Tomatoes, Memory of a Killer apresenta, para já, uma pontuação modesta de 43%, reflectindo uma recepção claramente dividida. Ainda assim, há um elemento que reúne elogios quase transversais: Patrick Dempsey.

Wall Street Journal considera-o “sólido”, destacando as cenas de perseguição, enquanto a USA Today sublinha que sem o carisma de Dempsey — e de Michael Imperioli, seu colega de elenco — a série seria facilmente esquecível. Já a Variety e a Hollywood Reporter são menos simpáticas, apontando falta de personalidade e um excesso de suspensão de descrença.

Vale a pena dar uma oportunidade?

Apesar das fragilidades apontadas, Memory of a Killer tem curiosidade suficiente para justificar uma espreitadela. Ver Patrick Dempsey abandonar definitivamente o estatuto de galã televisivo para abraçar um anti-herói marcado pela culpa, pela doença e pela violência não deixa de ser um passo arrojado. Mesmo que a série ainda não saiba exactamente o que quer ser, o potencial está lá.

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McDreamy pode já não salvar vidas num hospital, mas como “McKiller”, pelo menos, conseguiu dar que falar. 🔫🧠

Depois de longa espera, o novo thriller de acção de Guy Ritchie com Henry Cavill já tem data marcada

Demorou mais do que o previsto, alimentou rumores e levantou dúvidas, mas agora é oficial: Guy Ritchie está finalmente pronto para regressar ao grande ecrã com In the Grey. O aguardado thriller de acção protagonizado por Henry Cavillestreia a 10 de Abril de 2026, mais de um ano depois da data inicialmente anunciada.

Um regresso à acção com assinatura Ritchie

In the Grey acompanha uma equipa secreta de operacionais de elite que vive nas sombras do sistema global. São tão eficazes a manipular poder e influência como a manusear armas automáticas e explosivos de alto calibre. Quando um déspota implacável se apodera de uma fortuna avaliada em mil milhões de dólares, a equipa é enviada para a recuperar numa missão que, para qualquer outra pessoa, seria puro suicídio.

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Aquilo que começa como um golpe aparentemente impossível rapidamente se transforma num conflito total, onde estratégia, engano e sobrevivência se misturam num cenário de guerra aberta. Tudo elementos familiares para quem conhece o cinema de Guy Ritchie, aqui novamente a escrever e a realizar, prometendo ritmo acelerado, diálogos afiados e personagens maiores do que a vida.

Um elenco de luxo e um adiamento estratégico

Além de Henry Cavill, o filme conta com Jake GyllenhaalEiza GonzálezKristofer HivjuFisher Stevens e Rosamund Pike. Um elenco claramente pensado para dar músculo dramático e carisma a um projecto ambicioso.

Originalmente previsto para Janeiro de 2025, poucos meses após The Ministry of Ungentlemanly Warfare, o filme acabou por ser retirado do calendário no final de 2024. Na altura, a Lionsgate justificou a decisão afirmando que o projecto “ainda não estava pronto”. Houve quem especulasse que o adiamento estaria ligado ao desempenho modesto do anterior filme da dupla nas salas de cinema — algo que acabou por ser parcialmente compensado pelo sucesso posterior em streaming.

Confiança total no projecto

Benjamin Kramer, responsável pela distribuição nos EUA da Black Bear, não esconde o entusiasmo: elogia Guy Ritchie como um dos grandes mestres do cinema de acção moderno e garante que In the Grey concentra “cada grama do seu estilo e humor característicos”, sublinhando ainda a importância da colaboração com a Lionsgate para tornar o lançamento possível.

Ritchie e Cavill: dois nomes sempre em movimento

Desde a última colaboração, ambos têm mantido agendas recheadas. Ritchie lançou Fountain of Youth na Apple TV+, com John Krasinski, e prepara ainda a comédia negra Wife & Dog. Pelo caminho, esteve envolvido em séries como The GentlemenMobland e Young Sherlock, além de vários documentários.

Já Henry Cavill, após uma participação especial em Deadpool & Wolverine, prepara um futuro igualmente intenso, que inclui Enola Holmes 3Voltron, o aguardado remake de Highlander e uma ambiciosa série de Warhammer 40,000 para a Prime Video.

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Depois de tanta espera, In the Grey começa finalmente a ganhar forma concreta. Resta agora saber se o filme vai corresponder às expectativas… mas com Guy Ritchie e Henry Cavill no comando, pelo menos matéria-prima não falta.

Um homem armado de canções: Bob Marley: One Love chega à televisão portuguesa

Há figuras que ultrapassam o estatuto de artista e se transformam em símbolos universais. Bob Marley é uma dessas raras exceções. Ícone global da música, voz maior do reggae e mensageiro de paz num mundo marcado por divisões, Marley é agora celebrado no grande drama biográfico Bob Marley: One Love, que estreia na televisão portuguesa no dia 30 de Janeiro, às 21h30, no TVCine Top e no TVCine+  .

Mais do que uma biografia, um retrato de momentos decisivos

Longe de seguir o formato clássico de “vida desde a infância até à morte”, Bob Marley: One Love opta por se concentrar em períodos-chave da vida e da carreira do músico jamaicano. O filme acompanha momentos determinantes como a criação do lendário álbum Exodus, a tentativa de assassinato sofrida em 1976 e o histórico One Love Peace Concert, realizado em 1978, num contexto de extrema tensão política na Jamaica  .

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É através destes episódios que o filme constrói o retrato de um homem dividido entre a pressão externa, os conflitos internos e a responsabilidade de usar a sua voz como instrumento de mudança social. Marley surge não apenas como músico, mas como figura espiritual e política, profundamente ligada ao movimento rastafári e à ideia de união entre povos e classes.

Kingsley Ben-Adir dá corpo e alma à lenda

No papel principal, Kingsley Ben-Adir oferece uma interpretação amplamente elogiada, captando não só a presença em palco de Bob Marley, mas também a sua fragilidade, determinação e humanidade fora dos holofotes. Ao seu lado, Lashana Lynch interpreta Rita Marley, companheira de vida e de luta, figura essencial no percurso pessoal e artístico do cantor.

O filme acompanha ainda a dinâmica com The Wailers, mostrando como a música se tornou uma arma pacífica num país dividido pela violência e por rivalidades políticas profundas.

Uma celebração do poder transformador da música

Realizado por Reinaldo Marcus Green, nomeado para os Óscares por King Richard: Para Além do JogoBob Marley: One Love aposta numa abordagem sensível e emotiva, sem fugir aos momentos mais duros da história. A banda sonora — distinguida nos Grammy Awards 2025 — reforça a força emocional do filme e sublinha o impacto duradouro das canções de Marley, ainda hoje usadas como hinos de resistência, esperança e fraternidade  .

Mais do que um simples retrato cinematográfico, o filme funciona como uma homenagem sentida a um homem que acreditava genuinamente que a música podia mudar o mundo. E, de certa forma, mudou mesmo.

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Uma estreia a não perder

Bob Marley: One Love é uma proposta imperdível para quem aprecia cinema biográfico, música com mensagem e histórias de coragem em tempos difíceis. A estreia acontece sexta-feira, 30 de Janeiro, às 21h30, no TVCine Top, com disponibilidade também no TVCine+ — uma oportunidade perfeita para revisitar o legado de uma das maiores vozes da história da música.

O “Não” Que Mudou Hollywood: Don Johnson Recusou o Filme Que Transformou Kevin Costner numa Estrela

Uma decisão improvável nos anos 80 que continua a intrigar cinéfilos

Há decisões em Hollywood que parecem inexplicáveis à distância. Uma delas aconteceu em 1986, quando Don Johnson, então no auge da popularidade graças a Miami Vice, recusou o papel principal em Os Intocáveis, de Brian De Palma. O filme viria a tornar-se um clássico do cinema de gangsters… e a lançar definitivamente Kevin Costner para o estrelato.

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À primeira vista, parecia dinheiro fácil e prestígio garantido. Um grande realizador, um argumento ambicioso e um lugar de destaque num épico criminal sobre Eliot Ness e Al Capone. Mas Johnson viu exactamente o contrário: um risco sério de ficar preso para sempre ao mesmo tipo de personagem.

Quando Miami Vice era o centro do mundo

Entre 1984 e 1989, Miami Vice foi um fenómeno cultural. Carros desportivos, fatos italianos, cores pastel e música pop definiram uma estética que marcou toda uma década. Don Johnson, no papel do detective Sonny Crockett, tornou-se um ícone global quase da noite para o dia.

Curiosamente, esse sucesso absoluto não lhe trouxe conforto. Pelo contrário. Johnson sentia-se sufocado pela imagem do “polícia estiloso” e receava tornar-se um actor de um só registo. Num meio onde o rótulo pode ser uma sentença, decidiu travar antes que fosse tarde demais.

O convite de Brian De Palma — e a recusa imediata

Quando Brian De Palma lhe apresentou o projecto de Os Intocáveis, Johnson não ficou impressionado. O argumento que leu pareceu-lhe superficial, excessivamente decorativo e pouco desafiante. Eliot Ness, aos seus olhos, era apenas mais um polícia bem-apessoado, sem margem para crescimento dramático.

Anos mais tarde, numa conversa no podcast WTF with Marc Maron, Johnson explicou o seu raciocínio com franqueza: precisava de separar Don Johnson de Sonny Crockett “o mais depressa possível” e escolher projectos diametralmente opostos para evitar o temido typecasting. Recusar Os Intocáveis foi, para ele, um acto consciente de sobrevivência artística.

O actor admitiu ainda que desconhecia um detalhe crucial: Robert De Niro iria interpretar Al Capone. Se soubesse, garante que a decisão teria sido outra.

Kevin Costner: o homem certo, na hora certa

Sem Don Johnson, o papel acabou nas mãos de Kevin Costner, então um actor praticamente desconhecido. O timing foi perfeito. Os Intocáveis não só foi um sucesso comercial e crítico, como abriu caminho a uma carreira fulgurante, que incluiria Dances with WolvesJFK e The Bodyguard.

Curiosamente, Costner não era o primeiro nome numa longa lista de actores abordados — Gene HackmanHarrison Ford e Mickey Rourke também terão recusado. Às vezes, Hollywood funciona mesmo assim: quem aceita o papel que ninguém quer acaba por ganhar tudo.

Vida depois da recusa (e depois do Vice)

Após dizer “não” ao filme que podia tê-lo tornado uma estrela de cinema, Don Johnson seguiu outros caminhos — nem sempre felizes. Fez uma comédia romântica discreta (Sweet Hearts Dance), arriscou em projectos menores e acabou por perder o embalo enquanto protagonista de grandes produções.

Ironia das ironias, regressou ao papel de polícia nos anos 90 com Nash Bridges, voltando a patrulhar as ruas — desta vez sem fatos Armani, mas com o mesmo carisma. Mais tarde, reinventou-se como actor de carácter em filmes como Django Unchained e Knives Out.

Arrependimento? Nem pensar

Apesar de tudo, Don Johnson garante que nunca se arrependeu da decisão. Na altura, estava envolvido em música, corridas de lanchas rápidas e múltiplos projectos. Recentemente, participou na série Doctor Odyssey, entretanto cancelada, mostrando que continua activo e selectivo.

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Recusar Os Intocáveis pode ter custado uma carreira de blockbusters. Mas, para Johnson, foi o preço justo por manter controlo sobre quem queria ser — dentro e fora do ecrã.