Quando a Loucura Encontra Ritmo: Joker – Loucura a Dois  Estreia na Televisão Portuguesa

Um regresso perturbador ao universo de Arthur Fleck, agora em dueto

Depois de ter marcado profundamente o cinema contemporâneo em 2019, Joker regressa com um novo capítulo tão inesperado quanto provocador. Joker – Loucura a Dois chega à televisão portuguesa no dia 2 de Janeiro, às 21h30, trazendo de volta Joaquin Phoenix ao papel de Arthur Fleck e juntando-lhe uma parceira que muda radicalmente o tom da narrativa: Lady Gaga. O resultado é um filme inquietante, estranho e assumidamente ousado, que aprofunda o delírio emocional do anti-herói mais desconfortável da DC  .

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Arkham, julgamento e uma identidade em fratura

A história retoma os acontecimentos que abalaram Gotham. Arthur Fleck encontra-se agora internado no hospital psiquiátrico de Arkham, à espera de julgamento pelos crimes cometidos enquanto Joker. Preso entre a figura pública que se tornou símbolo de caos e a fragilidade psicológica que sempre o definiu, Arthur vive num limbo identitário, incapaz de separar o homem do mito.

É neste espaço de contenção e ruína mental que conhece Harleen Quinzel, também ela internada. Interpretada por Lady Gaga, esta nova versão da futura Harley Quinn afasta-se do estereótipo da cúmplice caricatural para se afirmar como espelho e catalisador da loucura de Arthur. A ligação entre ambos rapidamente ultrapassa os limites da empatia, transformando-se numa relação obsessiva, intensa e profundamente desequilibrada.

Folie à deux: quando o delírio se canta

O subtítulo original do filme remete directamente para o conceito psiquiátrico de folie à deux, um transtorno raro em que duas pessoas partilham o mesmo delírio. Esse conceito é o verdadeiro motor narrativo de Loucura a Dois. Arthur e Harleen constroem uma realidade paralela onde o sofrimento, a violência e o amor se expressam através da música, num registo que cruza musical, drama psicológico e romance doentio.

As sequências musicais não funcionam como alívio, mas como extensão do colapso emocional das personagens. São fantasias encenadas, números que existem apenas na mente dos protagonistas, reforçando a ideia de que o espectáculo nasce do desequilíbrio e não do entretenimento fácil.

Continuidade autoral e risco criativo

O filme volta a ser realizado por Todd Phillips, que assina o argumento em conjunto com Scott Silver. A abordagem mantém o tom sombrio e opressivo do primeiro filme, mas arrisca ao introduzir uma estrutura menos convencional, recusando repetir a fórmula que garantiu sucesso ao original.

Essa ousadia foi amplamente debatida aquando da estreia em festivais, onde o filme dividiu opiniões, mas confirmou uma coisa: Joker – Loucura a Dois não existe para agradar a todos. Existe para incomodar, questionar e levar mais longe a desconstrução de uma figura icónica.

Um elenco de peso e um universo em expansão

Além de Phoenix e Gaga, o filme conta com um elenco de luxo que inclui Zazie BeetzCatherine KeenerKen LeungBrendan Gleeson e Steve Coogan. O conjunto reforça a densidade dramática de um filme que continua a explorar Gotham como espaço mental antes de ser cidade.

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Uma noite para espectadores sem medo

Joker – Loucura a Dois não é uma sequela tradicional, nem um musical clássico, nem um thriller convencional. É um objecto estranho, híbrido e provocador, que convida o espectador a entrar num dueto onde amor e loucura dançam sem rede. Um filme para quem prefere ser desafiado em vez de confortado — e uma estreia televisiva que promete dar que falar.

Ano Novo, Filmes Novos: Duas Estreias Portuguesas para Começar 2025 com Cinema

Os Infanticidas e A Vida Luminosa inauguram o ano no TVCine Edition

Começar o ano com cinema português é mais do que uma boa resolução — é quase um acto de resistência cultural. No dia 1 de Janeiro, o TVCine Edition aposta forte no novo cinema nacional com a exibição de dois filmes portugueses recentes, assinados por dois realizadores que se estreiam na longa-metragem. Os Infanticidas e A Vida Luminosa formam a dupla Ano Novo, Filmes Novos, uma proposta que convida o espectador a reflectir sobre crescimento, identidade e o momento delicado em que deixamos de ser jovens… mesmo que ainda não saibamos bem o que é ser adulto.

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A sessão arranca às 18h30, prolongando-se pela noite dentro, numa programação que dá palco a duas obras muito diferentes no tom, mas unidas por um olhar atento às inquietações de uma geração em suspenso.

Os Infanticidas: crescer assusta mais do que parece

Primeira longa-metragem de Manuel Pureza, Os Infanticidas parte de uma promessa tão absurda quanto reveladora: dois amigos juram que, se um dia crescerem, acabam com a própria vida. A frase pode soar a bravata juvenil, mas funciona como ponto de partida para um retrato honesto, irónico e por vezes cruel sobre o fim da juventude.

Entre o pacto feito na adolescência e a chegada inevitável aos 30 anos, surgem os medos, as expectativas falhadas, os sonhos adiados e a constante sensação de que ninguém nos explicou realmente como se faz para ser adulto. O filme observa essa travessia com humor seco e uma melancolia muito portuguesa, lembrando que “somos todos heróis à meia-noite, mas cobardes às 9 da manhã”.

Sem respostas fáceis, Os Infanticidas questiona se crescer é sinónimo de compromisso ou apenas a continuação de um jogo em que fingimos saber o que estamos a fazer. Uma estreia segura e surpreendentemente madura para um realizador vindo do universo da comédia televisiva.

A Vida Luminosa: quando a vida começa a andar para a frente

Exibido às 19h55A Vida Luminosa acompanha Nicolau, um jovem de 24 anos preso entre o passado e um futuro que não consegue imaginar. Vive em casa dos pais, sonha ser músico, sobrevive com biscates e mantém-se emocionalmente refém de uma relação que terminou. Lisboa surge aqui não como postal turístico, mas como cenário íntimo de uma deriva silenciosa.

A mudança acontece quando Nicolau percebe que não está sozinho na insatisfação: também a mãe carrega frustrações e sonhos adiados. Esse choque não o paralisa — empurra-o para a frente. Um emprego numa papelaria, uma casa partilhada e novos encontros fazem com que a vida, lentamente, volte a mover-se.

Com um tom delicado e observacional, o filme constrói um retrato sensível sobre amadurecer sem dramatismos excessivos, mostrando que crescer nem sempre é cair — às vezes é simplesmente avançar, mesmo sem saber bem para onde.

Duas estreias, um mesmo retrato geracional

Apesar das diferenças de estilo, Os Infanticidas e A Vida Luminosa dialogam entre si. Ambos olham para personagens em transição, suspensas entre aquilo que imaginaram ser e aquilo que a vida lhes permite ser. São filmes sobre o medo de falhar, sobre a dificuldade em largar versões antigas de nós próprios e sobre o lento — e por vezes doloroso — processo de assumir escolhas.

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Para quem procura começar o ano longe dos blockbusters previsíveis, esta dupla é um excelente convite a pensar, sentir e reconhecer no ecrã pedaços muito familiares da vida real.

Quando o Amor se Torna Ruptura: Mata-te, Amor Chega aos Cinemas com Jennifer Lawrence em Estado de Graça

Um drama psicológico intenso sobre maternidade, identidade e colapso emocional

Há filmes que não pedem licença ao espectador. Mata-te, Amor é claramente um deles. Realizado por Lynne Ramsay, uma das vozes mais implacáveis e singulares do cinema contemporâneo, o filme chega finalmente aos cinemas portugueses a 15 de Janeiro, depois de uma passagem muito falada pelo Festival de Cannes e de uma nomeação aos Globos de Ouro para Jennifer Lawrence, na categoria de Melhor Atriz em Filme Dramático  .

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Baseado no romance homónimo da escritora argentina Ariana Harwicz, Mata-te, Amor mergulha de forma frontal e sem concessões nos territórios da maternidade, da saúde mental e da erosão da identidade feminina. Um filme desconfortável, exigente e profundamente perturbador — exactamente como Ramsay gosta.

Uma casa no campo, um bebé e o início do desmoronar

A história centra-se em Grace, interpretada por Jennifer Lawrence, e no seu companheiro Jackson, vivido por Robert Pattinson. O casal muda-se para uma antiga casa de campo numa zona rural dos Estados Unidos, numa tentativa de recomeço. Grace sonha tornar-se escritora, enquanto Jackson se ausenta frequentemente, deixando-a sozinha com o peso da vida doméstica.

O nascimento do primeiro filho, longe de unir o casal, funciona como catalisador de uma lenta mas implacável implosão emocional. A solidão, a frustração e a sensação de apagamento pessoal empurram Grace para um estado de instabilidade crescente, que Ramsay filma com uma proximidade quase sufocante.

Não há aqui romantização da maternidade nem respostas fáceis. Mata-te, Amor recusa o conforto narrativo e obriga o espectador a permanecer dentro do desconforto — um traço recorrente na filmografia da realizadora escocesa.

Jennifer Lawrence como nunca a vimos

A interpretação de Jennifer Lawrence tem sido amplamente apontada como uma das mais intensas e corajosas da sua carreira, valendo-lhe a nomeação aos Globos de Ouro  . Longe do glamour hollywoodiano, a actriz entrega-se a uma composição crua, física e emocionalmente desgastante, que raramente procura empatia fácil.

Ao seu lado, Robert Pattinson constrói um Jackson distante e opaco, cuja ausência pesa tanto quanto a sua presença. O elenco conta ainda com nomes de peso como Sissy SpacekNick Nolte e LaKeith Stanfield, reforçando a densidade dramática do filme.

Um olhar autoral sem concessões

O argumento é assinado por Enda Walsh, Lynne Ramsay e Alice Birch, numa adaptação que preserva a violência emocional e a linguagem interior do romance original. A produção reúne nomes de peso, incluindo Martin Scorsese, num sinal claro da relevância do projecto.

Apresentado em competição oficial em Cannes, Mata-te, Amor confirmou-se como uma das obras mais debatidas da temporada, consolidando Ramsay como uma cineasta interessada na fragilidade humana, na ruptura psicológica e nos espaços onde o amor deixa de ser abrigo para se tornar ameaça.

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Estreia em Portugal

Distribuído em Portugal pela NOS AudiovisuaisMata-te, Amor estreia nos cinemas nacionais a 15 de Janeiro. Um filme que não pretende agradar a todos, mas que dificilmente deixará alguém indiferente.

Terry Gilliam não perdoa: porque Time Bandits falhou sem anões — e porque nunca poderia resultar

Terry Gilliam nunca foi conhecido por medir palavras. Mas, desta vez, o realizador de Brazil e 12 Monkeys foi particularmente directo: a série Time Bandits, reimaginada por Taika Waititi para a Apple TV, falhou por uma razão muito simples — não tinha anões. E, para Gilliam, isso não é um detalhe estético nem uma decisão lateral. É estrutural. É o coração do filme original.

A série, cancelada após apenas uma temporada, nasceu envolta numa decisão polémica desde o primeiro momento: substituir os icónicos anões do filme de 1981 por personagens de estatura “normal”, numa tentativa assumida de evitar controvérsia ou leituras problemáticas junto de um público mais jovem. Uma opção que, para Gilliam, retirou à história aquilo que a tornava única.

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Em declarações recentes à imprensa italiana, o cineasta foi claro ao afirmar que essa mudança foi escondida dele durante meses. Só quando o projecto estava já demasiado avançado percebeu que os ladrões do tempo deixariam de ser anões. Nessa altura, diz Gilliam, o destino da série estava traçado. Não por vingança pessoal ou purismo artístico, mas porque Time Bandits deixa simplesmente de ser Time Bandits sem esse elemento central.

O filme original, realizado por Gilliam em 1981, não usava os anões como curiosidade visual ou gimmick cómico. Eles eram parte essencial da lógica do mundo, da subversão da escala, do humor absurdo e da identidade visual profundamente ligada ao imaginário dos Monty Python. Eram figuras marginalizadas, irreverentes, moralmente ambíguas — e, acima de tudo, profundamente humanas. Retirá-los é tornar a narrativa genérica, indistinta, semelhante a qualquer aventura juvenil de catálogo.

Gilliam foi creditado como produtor executivo não argumentista na série, acreditando que teria algum controlo criativo. Mas, ao ler os guiões, percebeu que o espírito do projecto lhe escapava por completo. O próprio Waititi, de quem Gilliam diz ter gostado muito em Jojo Rabbit, acabou por se afastar criativamente do desenvolvimento da série, algo que o realizador veterano não deixou passar sem uma farpa subtil, referindo-se a trabalhos recentes do neozelandês como “desapontantes”.

A tensão tornou-se evidente durante uma visita de Gilliam ao set, na Nova Zelândia. A sua presença, que deveria durar duas semanas, resumiu-se a apenas três dias. Testemunhos da equipa descrevem um Gilliam visivelmente irritado, a comentar em voz alta e a demonstrar desconforto constante com o rumo do projecto. Saiu cedo e nunca mais falou bem da série.

O cancelamento acabou por confirmar aquilo que muitos fãs do filme original já suspeitavam: ao tentar “corrigir” Time Bandits para um novo contexto cultural, o projecto perdeu a sua alma. A decisão de eliminar os anões não foi apenas uma escolha de casting — foi uma amputação conceptual.

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Num tempo em que remakes e reimaginações parecem obcecados em evitar riscos, Time Bandits serve de exemplo claro de como o medo de ofender pode resultar em algo ainda mais problemático: um objecto cultural inofensivo, mas irrelevante. E, para Terry Gilliam, irrelevância é o maior dos pecados.

Comprou domínios só para gozar com Trump — e agora a piada tornou-se realidade no coração cultural de Washington


Há sátiras que envelhecem mal. Outras envelhecem tão bem que acabam por parecer profecias. É precisamente neste segundo grupo que entra a história, deliciosamente absurda, protagonizada por Toby Morton, argumentista de South Park, que decidiu comprar — meses antes de qualquer anúncio oficial — os domínios trumpkennedycenter.com e trumpkennedycenter.org. Não para lançar um negócio, nem para fazer dinheiro rápido, mas apenas para uma coisa: trollar Donald Trump.

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O mais notável é que, desta vez, a realidade não só acompanhou a piada como a ultrapassou. Em Agosto, quando Trump começou a mexer discretamente na estrutura de poder do Kennedy Center, Morton teve um pressentimento. Segundo contou mais tarde, percebeu rapidamente que aquilo não era apenas uma remodelação administrativa: era branding pessoal em marcha lenta. Comprou os domínios e ficou à espera.

Meses depois, Trump foi eleito presidente do conselho da instituição cultural mais emblemática de Washington. Seguiram-se declarações sobre o fim de produções “woke”, a substituição de membros do conselho e, por fim, a decisão que confirmou o palpite do argumentista: o edifício passaria a chamar-se Trump Kennedy Center. A sátira deixou de ser hipótese e passou a ser comentário político em tempo real.

Morton não revelou ainda o que planeia fazer com os domínios, mas deixou claro que não serão usados de forma neutra. Pelo contrário, prometeu que o conteúdo “vai reflectir a absurdidade do momento” e admitiu que há situações tão caricatas que se tornam difíceis de parodiar. Quando uma instituição criada para celebrar cultura, memória e legado passa a funcionar como extensão do ego de um político, a comédia quase se escreve sozinha.

O episódio encaixa perfeitamente num ano em que South Park voltou a afirmar-se como uma das poucas vozes satíricas verdadeiramente incómodas para o poder. Enquanto programas de comentário político parecem cada vez mais condicionados, a série animada continua a atacar sem pedir licença — e, talvez por isso mesmo, Trump tenha optado por um silêncio estratégico. Afinal, reagir seria amplificar.

Entretanto, o Kennedy Center tornou-se palco de protestos, cancelamentos simbólicos (como o musical Hamilton) e momentos de embaraço público, incluindo vaias e performances de drag queens na primeira visita de Trump após assumir o controlo. Tudo isto enquanto um argumentista de animação observa à distância, satisfeito por ter registado um domínio que passou de piada privada a símbolo público de um tempo estranho.

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Num mundo onde a política parece cada vez mais escrita como guião de comédia negra, há algo de reconfortante em saber que ainda existem autores capazes de antecipar o absurdo — e comprá-lo por uns poucos dólares anuais.

35 anos depois, os fãs de Sozinho em Casa descobriram o detalhe que explica tudo

Há filmes que resistem ao tempo não apenas pela nostalgia, mas porque continuam a revelar pequenos segredos a cada nova revisão. Sozinho em Casa é um desses casos. Trinta e cinco anos após a sua estreia, um detalhe aparentemente insignificante passou despercebido a milhões de espectadores — até agora. E, curiosamente, ajuda a esclarecer uma das maiores “falhas” narrativas do filme.

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Durante uma reposição natalícia do clássico realizado por Chris Columbus, fãs mais atentos repararam numa cena do início do filme que muda a forma como olhamos para toda a confusão que leva Kevin McCallister a ficar sozinho em casa. Na famosa sequência do jantar caótico da família McCallister, Kevin e o irmão Buzz provocam uma discussão que termina com a mesa virada e leite entornado sobre documentos importantes — incluindo os bilhetes de avião para Paris.

No meio dessa confusão, o pai, Peter McCallister, apressa-se a limpar a mesa com guardanapos. Sem se aperceber, atira para o lixo o cartão de embarque de Kevin, que estava colado aos restantes documentos molhados. É um gesto rápido, quase invisível, mas com consequências decisivas: Kevin nunca chegou sequer a ter um bilhete válido para embarcar.

Um “erro” que afinal não é erro nenhum

Esta descoberta tornou-se viral nas redes sociais, acumulando milhões de visualizações e reacções de espanto. De repente, uma das perguntas mais recorrentes dos fãs — “como é que ninguém deu pela falta de uma criança no avião?” — passou a ter uma resposta simples e lógica. O bilhete de Kevin nunca foi apresentado, nunca foi verificado, nunca foi contado.

Ou seja, mesmo que alguém tivesse reparado na ausência de Kevin, tecnicamente ele não fazia parte da lista de passageiros embarcados. Um pormenor de guião discretíssimo que demonstra o cuidado narrativo do filme e desmonta, com elegância, uma crítica repetida durante décadas.

As obsessões natalícias continuam

Como acontece todos os anos, Sozinho em Casa volta a ser escrutinado plano a plano. Além do mistério do bilhete, há outras curiosidades que continuam a alimentar debates. Uma delas é a rapidez com que Kevin se desloca entre a igreja, onde conversa com o temido (e afinal bondoso) Old Man Marley, e a casa da família — uma distância considerável para uma criança, especialmente em plena noite de inverno. Táxi? Corte de montagem conveniente? O filme nunca responde.

Outra questão eterna prende-se com o nível de vida dos McCallister. Como é que uma família numerosa consegue sustentar uma mansão nos subúrbios de Chicago e viagens internacionais em primeira classe? A explicação oficial nunca foi dada, mas teorias não faltam — desde empregos altamente lucrativos até ajudas familiares discretas.

Um clássico que continua vivo

Estes detalhes são precisamente o que mantém Sozinho em Casa relevante geração após geração. Mais do que um simples filme de Natal, tornou-se um objecto de análise colectiva, um ritual anual e um exemplo raro de cinema popular com um nível de construção narrativa mais sólido do que aparenta à primeira vista.

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E agora que este mistério foi finalmente resolvido, fica a pergunta inevitável, repetida todos os anos à mesa de Natal: prefere Sozinho em Casa ou Sozinho em Casa 2?

Sequências, remakes e nostalgia: os trailers mais vistos de 2025 dizem muito sobre o cinema actual

Se havia dúvidas de que Hollywood continua profundamente ancorada na nostalgia e na força das marcas conhecidas, os números de 2025 tratam de as dissipar. Os trailers mais vistos do ano foram, quase sem excepção, sequências, remakes ou extensões de universos já bem estabelecidos — uma fotografia clara de uma indústria que aposta cada vez menos no risco e cada vez mais no reconhecimento imediato.

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O caso mais impressionante foi o de The Devil Wears Prada 2. Um teaser com menos de um minuto bastou para bater um recorde histórico: 181,5 milhões de visualizações nas primeiras 24 horas, tornando-se o trailer de comédia mais visto dos últimos 15 anos. O regresso de Meryl Streep e Anne Hathaway ao universo criado em 2006 mostrou que, duas décadas depois, Miranda Priestly continua a exercer um fascínio quase absoluto sobre o público.

Um dado curioso ajuda a explicar o fenómeno: cerca de um terço das visualizações veio directamente das redes sociais pessoais de Anne Hathaway. A coincidência com o seu aniversário reforçou ainda mais o impacto viral do lançamento, provando como hoje a promoção de um filme passa tanto pelo marketing tradicional como pela presença digital das suas estrelas.

A Disney domina — outra vez

Logo atrás surgem dois remakes em imagem real da Disney, confirmando a estratégia agressiva do estúdio em revisitar os seus clássicos animados. Moana somou 161,2 milhões de visualizações nas primeiras 24 horas, enquanto Lilo & Stitch alcançou 149,4 milhões. São números que colocam estes filmes muito acima da maioria das estreias originais do ano.

O top 5 fica completo com The Fantastic Four: First Steps, reboot da Marvel que chegou aos 144,1 milhões de visualizações, e Toy Story 5, com 133,6 milhões, marcando o regresso da saga sete anos depois do último filme.

Mais abaixo na lista continuam a surgir títulos bem conhecidos: Avatar: Fire and AshZootopia 2 e Wicked: For Good. Entre os dez trailers mais vistos, apenas um não pertence a uma sequela, remake ou propriedade intelectual pré-existenteMichael, a biografia de Michael Jackson protagonizada pelo sobrinho do cantor.

Streaming: Stranger Things continua imbatível

No universo do streaming, o domínio foi absoluto por parte de Stranger Things. A quinta e última temporada ocupou três dos quatro primeiros lugares entre os trailers mais vistos do ano, somando, no total, cerca de 490 milhões de visualizações em diferentes teasers e anúncios de data de estreia.

Também Squid Game e Wednesday confirmam que as grandes plataformas apostam sobretudo em fenómenos já testados, capazes de gerar atenção global imediata.

Menos visualizações, outras plataformas

Apesar destes números impressionantes, há sinais de mudança. No conjunto, os dez trailers cinematográficos mais vistos de 2025 registaram menos 8% de visualizações face a 2024. O YouTube perdeu peso, enquanto o TikTok ganhou relevância, sendo determinante para o sucesso de trailers como Lilo & StitchAvatar: Fire and Ash e Zootopia 2.

A Disney foi, ainda assim, a grande vencedora do ano, colocando sete filmes no top 10, um aumento significativo face ao ano anterior. O panorama é claro: menos espaço para apostas originais, mais investimento em marcas reconhecíveis e uma dependência crescente da nostalgia como motor de atenção.

2025 não deixa grandes dúvidas. O cinema continua a avançar… mas a olhar constantemente pelo retrovisor.

Jamie Lee Curtis agradece decisão da mãe: “Ainda bem que não me deixou fazer O Exorcista aos 12 anos”

Muito antes de se tornar um dos rostos mais icónicos do cinema de terror, Jamie Lee Curtis esteve a um passo de entrar num dos filmes mais perturbadores da história do cinema — e hoje não podia estar mais agradecida por isso não ter acontecido.

Cinco anos antes de alcançar a fama mundial com Halloween (1978), Jamie Lee Curtis quase teve a sua estreia cinematográfica em O Exorcista, realizado por William Friedkin. Tinha apenas 12 anos quando o produtor Ray Stark, amigo próximo da família, sugeriu que a jovem atriz fizesse audições para o papel de Regan MacNeil — a criança possuída que viria a traumatizar gerações.

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Foi Janet Leigh, a sua mãe e eterna estrela de Psycho, quem travou tudo de imediato.

“A minha mãe disse simplesmente ‘não’”

Em conversa recente no The Drew Barrymore Show, Jamie Lee Curtis recordou o episódio com humor e enorme gratidão. Segundo a atriz, Ray Stark ligou directamente a Janet Leigh a perguntar se autorizava a audição da filha para O Exorcista. A resposta foi curta e definitiva: não.

Curtis explicou que, na altura, era “uma miúda gira, espirituosa, com personalidade” e que provavelmente Stark a tinha visto numa festa e achado que poderia resultar no papel. Mas a mãe tinha outros planos. Janet Leigh queria, acima de tudo, que a filha tivesse algo raro em Hollywood: uma infância normal.

Hoje, olhando para trás, Curtis reconhece que essa decisão foi fundamental. Não apenas para a sua saúde emocional, mas para o percurso artístico que viria a construir com tempo, maturidade e escolhas conscientes.

Uma protecção que nem todos tiveram

Durante a conversa, Curtis fez questão de sublinhar que nem todas as crianças-actoras tiveram essa protecção. A observação foi particularmente sensível por estar a falar com Drew Barrymore, cuja infância em Hollywood foi tudo menos tranquila.

Segundo Curtis, a mãe sempre acreditou que a experiência de vida devia vir antes da exposição mediática. E isso permitiu-lhe chegar ao cinema já adulta, preparada para lidar com a pressão, o escrutínio e os riscos da indústria.

O papel que marcou outra carreira

O papel de Regan acabou por ir para Linda Blair, que tinha apenas 14 anos quando protagonizou O Exorcista. A performance tornou-se lendária, mas também trouxe consigo uma carga psicológica pesada, frequentemente associada à intensidade do filme e à forma como o público passou a olhar para a atriz.

Blair regressaria à personagem na sequela Exorcist II: The Heretic (1977) e, anos mais tarde, brincaria com a fama do papel numa paródia com Leslie Nielsen. Ainda assim, a marca deixada por Regan nunca desapareceu totalmente da sua carreira.

Um “e se” que correu pelo melhor

No caso de Jamie Lee Curtis, a recusa de Janet Leigh acabou por empurrá-la para outro destino dentro do mesmo género. Em Halloween, Curtis redefiniu o conceito de “final girl”, tornando-se um símbolo do cinema de terror moderno — mas já adulta, consciente e dona do seu percurso.

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Hoje, vencedora de um Óscar e com uma carreira que atravessa décadas e géneros, Curtis olha para trás e não tem dúvidas: começar a carreira com O Exorcista aos 12 anos poderia ter mudado tudo. E não necessariamente para melhor.

Às vezes, em Hollywood, o maior acto de amor é mesmo saber dizer não.

X-Men em Cena: Trailer Furtivo de Avengers: Doomsday Finalmente Acende o Entusiasmo dos Fãs

Durante meses, Avengers: Doomsday foi alvo de expectativa moderada, envolta numa estratégia de marketing curiosamente discreta para um dos filmes mais decisivos do futuro do Universo Cinematográfico da Marvel. Mas isso mudou nas últimas horas. Um novo trailer — desta vez centrado nos X-Men — começou a circular online em versões gravadas dentro de salas de cinema e, pela primeira vez, o entusiasmo parece genuíno.

Não é a estreia oficial que a Marvel gostaria, mas é a que está a funcionar.

Tal como aconteceu com os trailers dedicados a Steve Rogers e Thor, a Disney continua a apostar na exibição exclusiva em sala. O problema é que, em 2025, essa exclusividade dura minutos. O resultado? Imagens tremidas, som imperfeito… e uma avalanche de reacções entusiasmadas.

O regresso simbólico dos X-Men

O trailer é dominado por uma sequência inesperadamente contida: Professor X e Magneto jogam xadrez, num claro eco visual e temático do cinema clássico dos mutantes. Professor X surge com um casaco azul marcado pelo icónico “X” vermelho e preto, enquanto Magneto aparece com cabelo comprido e barba desgrenhada, transmitindo desgaste, luto e convicção.

Em voz-off, Magneto profere uma frase que define o tom do filme:

“A morte chega a todos nós. A questão não é se estás preparado para morrer, mas quem és quando fechas os olhos.”

É um discurso grave, quase filosófico, que contrasta com a leveza de muitos momentos recentes do MCU — e isso, só por si, já diz muito.

O momento que incendiou a internet

Mas o verdadeiro ponto de ruptura surge segundos depois.

Um Cyclops devastado pela dor aparece em pleno ecrã, vestido com o clássico uniforme azul e amarelo inspirado directamente em X-Men ’97. Sem visor. Sem contenção. Um disparo óptico massivo rasga o céu.

É um plano curto, mas suficiente para provocar algo raro nos últimos anos da Marvel: reacção visceral.

Durante décadas, Cyclops foi tratado como personagem secundária no cinema. Aqui, surge finalmente como líder trágico, poderoso e emocionalmente carregado. Para muitos fãs, este único momento vale mais do que trailers inteiros de filmes anteriores.

Entre o cânone e o multiverso

Embora a estética remeta directamente para X-Men ’97, a série animada nunca fez parte do cânone oficial do MCU. Mas estamos em plena saga do multiverso — e, neste território narrativo, quase tudo é possível.

Os X-Men confirmados no filme incluem:

  • Professor X
  • Magneto
  • Cyclops
  • Nightcrawler
  • Beast
  • Mystique
  • Gambit

Faltam nomes óbvios, desde logo Wolverine, cuja versão interpretada por Hugh Jackman já regressou ao MCU. Ainda assim, tudo aponta para que Doomsday funcione mais como uma ponte do que como ponto de chegada.

O grande confronto entre Vingadores e X-Men deverá ter consequências mais profundas em Avengers: Secret Wars, onde se espera já uma nova geração de mutantes — mais jovem, mais integrada e definitivamente pensada para o futuro da Marvel.

Mais do que nostalgia

O aspecto mais interessante deste trailer não é apenas o fan service. É o tom. Há peso dramático, conflito ideológico e uma sensação clara de que estes personagens não estão ali apenas para um cameo.

A ideia de um confronto entre X-Men e Vingadores parece apontar para um clássico “mal-entendido multiversal”, mas a duração e o foco do trailer sugerem algo mais substancial. Não se trata apenas de aparecer, lutar e desaparecer.

Um raro sinal de esperança

Depois de anos de hesitação estratégica, Avengers: Doomsday dá finalmente sinais de saber o que quer ser. E, talvez mais importante, de perceber o que o público quer sentir.

Se aquele disparo de Cyclops é um indicador do caminho criativo que a Marvel pretende seguir, então — pela primeira vez em muito tempo — há razões para acreditar que isto pode resultar.

Agora resta esperar pelo próximo trailer. Diz-se que será centrado em Doctor Doom. Se mantiver este nível de ambição, talvez o MCU esteja finalmente a reencontrar o seu rumo.

Os Números Não Enganam: Eis o Verdadeiro Motivo do Cansaço do Universo Marvel (E Como Ainda Pode Ser Salvo)

Desde a estreia de Avengers: Endgame em 2019, o Universo Cinematográfico da Marvel vive numa espécie de ressaca prolongada. O filme, que arrecadou uns impressionantes 2,8 mil milhões de dólares em todo o mundo, não foi apenas o culminar de uma saga — para muitos espectadores, funcionou também como um ponto final emocional. A partir daí, algo mudou.

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É verdade que ainda surgiram fenómenos pontuais, como Spider-Man: No Way Home ou o mais recente Deadpool & Wolverine, mas esses sucessos tornaram-se excepções num percurso cada vez mais irregular. A própria promoção de Avengers: Doomsday assume isso sem pudor, apostando forte na nostalgia e no regresso de figuras clássicas como Steve Rogers, interpretado por Chris Evans. A mensagem é clara: os novos heróis ainda não chegaram ao mesmo patamar emocional.

O problema não é só “demasiado conteúdo”

Internamente, a explicação oficial aponta para a chamada “diluição da marca”. Bob Iger já admitiu que a avalanche de séries e filmes associados ao Disney+ pode ter enfraquecido o impacto do MCU. Há verdade nisso, mas os números revelam algo ainda mais preocupante.

Quando se analisam os intervalos entre a primeira, segunda e terceira aparição dos heróis nas diferentes fases do MCU, o padrão é evidente: os personagens das Fases 1 a 3 regressavam muito mais depressa, permitindo ao público criar laços, acompanhar arcos narrativos e investir emocionalmente.

Nas Fases 1 a 3, o intervalo médio entre a estreia de um herói e o seu regresso rondava dois anos. Já na Fase 4, esse intervalo sobe para mais de três anos, com ainda mais tempo entre a segunda e a terceira aparição — quando esta acontece.

Novos heróis apresentados… e abandonados

Este atraso tem consequências claras. O público conhece uma nova personagem, simpatiza com ela, e depois… espera. Durante anos. Em alguns casos, sem qualquer sinal de continuidade.

Shang-Chi, interpretado por Simu Liu, é talvez o exemplo mais gritante. Shang-Chi and the Legend of the Ten Rings foi um sucesso em plena pandemia, mas o herói só voltará ao grande ecrã seis anos depois, em Avengers: Doomsday. Seis anos é uma eternidade na cultura popular contemporânea.

O mesmo sucede com Kate Bishop, vivida por Hailee SteinfeldHawkeye teve uma recepção muito positiva, mas desde 2021 não houve qualquer desenvolvimento concreto da personagem em imagem real.

Até projectos televisivos sofreram do mesmo mal. Houve três anos de espera entre WandaVision e a série centrada em Agatha Harkness, e quase o mesmo com Ironheart, cuja série ficou concluída muito antes de finalmente ver a luz do dia.

A excepção que confirma a regra

Curiosamente, há uma personagem da Fase 4 que parece ter beneficiado de uma estratégia mais próxima do “velho” MCU: Yelena Belova, interpretada por Florence Pugh. A sua presença em Black Widow e Hawkeye no mesmo ano ajudou a solidificar a personagem, criando continuidade e empatia. Ainda assim, só quatro anos depois voltou a assumir um papel central em Thunderbolts.

Não é coincidência que seja uma das poucas novas figuras que realmente ganhou peso cultural.

O que a Marvel parece ter esquecido

O erro da Marvel não foi apenas apresentar demasiados heróis. Foi apresentá-los e não os acompanhar. O público não cria ligação emocional com personagens descartáveis ou intermitentes. Iron Man, Captain America ou Thor não se tornaram ícones por acaso: regressavam regularmente, cruzavam-se com outros heróis e evoluíam diante dos nossos olhos.

Com Avengers: Secret Wars no horizonte e a inevitável chegada dos X-Men a preparar uma nova saga, o risco repete-se. Se a Marvel não reaprender a investir tempo nas personagens que cria, continuará a viver de memórias em vez de construir o futuro.

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Menos lançamentos pode ser uma boa decisão. Mas menos pressa e mais continuidade será, provavelmente, a única forma de devolver ao MCU a relevância emocional que já teve.

James Cameron Promete Contar o Final de Avatar Nem Que Seja Numa Conferência de Imprensa

Há realizadores persistentes. E depois há James Cameron.

Depois de 16 anos dedicados quase exclusivamente ao universo de Avatar, Cameron deixou claro que a história de Pandora vai ser concluída, aconteça o que acontecer — nem que para isso tenha de subir a um púlpito, abrir um microfone e explicar, ponto por ponto, o destino dos Na’vi, de Eywa e de todas as tribos que entretanto inventou.

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A declaração surgiu numa entrevista recente, onde o realizador afirmou que, mesmo no cenário improvável de Avatar: Fire and Ash não gerar receitas suficientes para justificar os planeados Avatar 4 e Avatar 5ele revelaria publicamente todo o final da saga numa conferência de imprensa. Sem metáforas. Sem rodeios. Palavra por palavra.

A afirmação soa quase absurda — mas, vinda de Cameron, é apenas mais um capítulo numa carreira marcada por obsessão criativa, perfeccionismo extremo e uma confiança inabalável nas histórias que quer contar.

Um medo que, na prática, não existe

Na realidade, tudo indica que Cameron nunca terá de cumprir essa promessaAvatar: Fire and Ash arrecadou cerca de 500 milhões de dólares na primeira semana em cartaz, um valor inferior aos anteriores capítulos, mas ainda assim esmagador quando comparado com a esmagadora maioria dos filmes produzidos em Hollywood.

O fascínio global por Pandora, pelas ligações neurais com árvores, criaturas voadoras gigantes e baleias espaciais com consciência espiritual continua claramente intacto. A probabilidade de a Disney retirar o apoio à conclusão da saga é, neste momento, praticamente nula.

Ainda assim, há algo de fascinante na imagem de Cameron disposto a explicar todo o arco narrativo de Avatar à força da palavra, caso o cinema lhe fosse negado.

A mitologia que não cabe num slide

Parte do encanto desta ideia reside no próprio homem. Cameron não é conhecido por simplificar conceitos. Pelo contrário: a mitologia de Avatar cresce a cada filme, acumulando nomes de clãs, variações culturais, criaturas, sistemas espirituais e relações ecológicas cada vez mais complexas.

A simples hipótese de o realizador tentar organizar tudo isto numa conferência levanta questões legítimas:

— Usaria um PowerPoint?

— Precisaria de diagramas para distinguir Omatikaya, Metkayina e Mangkwan?

— Confundiria algum Toruk com um Tulkun a meio da explicação?

Ou, mais provavelmente, Cameron avançaria confiante, apoiado apenas na convicção absoluta de que Eywa quis assim, e que o público é que ainda não percebeu totalmente a grandiosidade do plano.

Uma obsessão assumida

Brincadeiras à parte, esta declaração revela algo essencial sobre Cameron: Avatar não é apenas uma franquia, é um projecto de vida. Ao contrário de muitas sagas planeadas em função de resultados trimestrais, esta foi concebida desde o início como uma narrativa fechada, com princípio, meio e fim.

Cameron já demonstrou noutras fases da carreira — de Titanic a The Abyss — que não abdica facilmente das histórias que sente que precisa de contar. E, se for necessário, fá-lo-á fora do grande ecrã.

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Mas, sejamos honestos: enquanto houver espectadores dispostos a ver humanos azuis ligados a árvores cósmicas durante três horas, James Cameron não vai precisar de púlpitos nem microfones improvisados.

Pandora continuará. Eywa continuará. E Cameron também.

“The Institute”: a série de Stephen King que começou na HBO Max e continua a conquistar público no Prime Video

As adaptações de Stephen King continuam a encontrar no formato televisivo um terreno particularmente fértil — e The Institute é mais um exemplo claro disso. A série, baseada no romance homónimo publicado em 2019, estreou originalmente na HBO Max, estando actualmente disponível também no Prime Video, incluindo em Portugal, onde tem vindo a ganhar novo fôlego junto do público.

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Longe de ser apenas mais uma história sobre crianças com poderes especiais, The Institute mergulha num dos territórios mais desconfortáveis da obra de King: o abuso de poder institucional, a instrumentalização do medo e a ideia de que fins supostamente nobres podem justificar meios profundamente desumanos.

Um pesadelo muito próximo da realidade

A narrativa centra-se em Luke Ellis, um adolescente dotado de capacidades telecinéticas que é raptado e levado para uma instalação secreta conhecida apenas como “o Instituto”. Nesse local, crianças com talentos fora do comum são sujeitas a experiências brutais, sob o pretexto de estarem a contribuir para a segurança do mundo.

Como é habitual no universo de King, o verdadeiro horror não reside apenas nos poderes sobrenaturais, mas sobretudo na frieza burocrática com que o sofrimento é normalizado. O Instituto funciona como uma máquina bem oleada, onde a crueldade é apresentada como necessidade estratégica.

À medida que Luke compreende a verdadeira dimensão do que ali acontece, começa a organizar uma resistência silenciosa com outras crianças, num jogo perigoso entre submissão aparente e rebelião interior.

Alterações felizes em relação ao romance

Um dos aspectos mais elogiados da adaptação televisiva foi a forma como reorganizou a estrutura narrativa do livro. A personagem de Tim Jamieson, um antigo polícia interpretado por Ben Barnes, surge desde cedo integrada na trama principal, aproximando o seu percurso dos acontecimentos no Instituto.

Esta decisão elimina a dispersão geográfica presente no romance e confere maior urgência dramática à série, permitindo um cruzamento mais eficaz entre os diferentes núcleos narrativos.

No elenco destaca-se ainda Mary Louise Parker, cuja presença acrescenta ambiguidade moral a uma história onde raramente existem vilões unidimensionais.

Uma série que cresce com o tempo

Embora a recepção crítica tenha sido dividida aquando da estreia, The Institute revelou uma notável capacidade de permanência. Após a sua chegada ao Prime Video, a série encontrou um novo público, beneficiando de um contexto de visualização mais descontraído e de um interesse renovado pelas adaptações de Stephen King em formato seriado.

Com oito episódios na primeira temporada, a série constrói a tensão de forma gradual, apostando mais no desconforto psicológico do que no choque imediato. É uma abordagem que pode não agradar a todos, mas que se revela coerente com o material de origem.

O sucesso sustentado levou à confirmação de uma segunda temporada, sinal claro de que a história de Luke Ellis ainda tem muito para revelar — e que o público continua disposto a enfrentar este pesadelo cuidadosamente encenado.

Stephen King em modo clássico

The Institute não é uma série para consumo apressado. É um regresso ao Stephen King mais político, mais inquietante e menos interessado em soluções fáceis. Num mundo cada vez mais obcecado com controlo, vigilância e segurança a qualquer custo, a série soa menos a ficção científica e mais a aviso.

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Disponível em Portugal tanto na HBO Max como no Prime VideoThe Institute afirma-se como uma das adaptações televisivas mais sólidas e desconfortáveis do autor nos últimos anos — e uma prova de que o verdadeiro terror, muitas vezes, não precisa de monstros visíveis.

Morreu Brigitte Bardot, Ícone Absoluto do Cinema Francês, aos 91 Anos

A morte de Brigitte Bardot, aos 91 anos, assinala o desaparecimento de uma das figuras mais marcantes — e contraditórias — da história do cinema europeu. Atriz, musa, símbolo sexual, fenómeno mediático global e, mais tarde, ativista radical pelos direitos dos animais, Bardot foi muito mais do que uma estrela: foi um choque cultural à escala mundial.

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Apesar de se ter afastado do cinema há mais de meio século, a sua imagem continuou a atravessar gerações. O simples uso das iniciais “BB” tornou-se sinónimo de liberdade, provocação e uma feminilidade que desafiou frontalmente os códigos morais da década de 1950. A sua consagração chegou com E Deus Criou a Mulher, realizado por Roger Vadim, um filme que escandalizou plateias e transformou Bardot numa estrela planetária, numa altura em que Hollywood ainda vivia sob forte censura moral.

Nascida em Paris em 1934, Brigitte Anne-Marie Bardot teve formação em ballet, entrou cedo no mundo da moda e rapidamente despertou a atenção do cinema. Os primeiros anos foram marcados por filmes de sucesso irregular, mas a sua presença mediática — sobretudo em Cannes — já era avassaladora. A partir do final dos anos 1950, Bardot tornou-se o rosto de uma nova Europa culturalmente libertária, eclipsando fronteiras linguísticas e rivalizando em notoriedade com estrelas americanas como Marilyn Monroe.

A década de 1960 consolidou o seu estatuto artístico. Trabalhou com realizadores como Henri-Georges ClouzotLouis Malle e Jean-Luc Godard, destacando-se em filmes como La vérité e O Desprezo. Paradoxalmente, quanto maior era o reconhecimento artístico, mais insuportável se tornava para ela o peso da fama. A perseguição obsessiva dos paparazzi e uma vida pessoal permanentemente exposta acabariam por empurrá-la para uma retirada precoce.

Em 1973, aos 38 anos, Bardot abandona definitivamente o cinema. O gesto foi radical e sem regresso. Refugiou-se em La Madrague, em Saint-Tropez, e iniciou aquilo que considerava a “segunda vida”: uma dedicação absoluta à defesa dos animais. Fundou a Fundação Brigitte Bardot e tornou-se uma das vozes mais influentes — e controversas — do ativismo animal na Europa, denunciando práticas como a caça às focas, a experimentação animal e o uso de peles.

Esse mesmo radicalismo marcou também o lado mais sombrio do seu legado. As posições políticas extremadas, declarações contra imigração, o Islão e minorias, valeram-lhe várias condenações judiciais por incitamento ao ódio racial e um progressivo afastamento do consenso público. Bardot nunca recuou. Pelo contrário, assumiu sempre a coerência entre as suas convicções e o isolamento que elas implicavam.

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A sua morte fecha um capítulo essencial da história do cinema francês e europeu. Brigitte Bardot foi simultaneamente libertação e polémica, arte e escândalo, ícone cultural e figura fraturante. Poucas estrelas ousaram viver — e pagar — com tamanha intensidade a liberdade que reivindicavam.

Império da extravagância: Babylon celebra e destrói o sonho de Hollywood no TVCine Top

O épico excessivo de Damien Chazelle chega à televisão portuguesa

A Hollywood dos excessos, das ambições desmedidas e da glória efémera invade o pequeno ecrã no domingo, 28 de Dezembro, às 22h05, com a exibição de Babylon no TVCine Top e no TVCine+. Realizado por Damien Chazelle, o filme propõe uma viagem vertiginosa à era dourada do cinema americano, num retrato simultaneamente apaixonado e impiedoso de uma indústria em permanente combustão.  

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Ambientado nos anos 1920, num período de profunda transformação tecnológica e cultural, Babylon acompanha a transição dos filmes mudos para o cinema sonoro, um momento que redefiniu carreiras, destruiu ídolos e deu origem a novos mitos. É nesse caos criativo que o filme constrói a sua narrativa, cruzando várias personagens que tentam sobreviver — ou dominar — um sistema que tanto glorifica como devora.

Ascensão, queda e demónios pessoais

No centro da história está Manny Torres, um jovem latino ambicioso e determinado que acredita cegamente no sonho de Hollywood. Ao seu redor orbitam figuras maiores do que a vida: Nellie LaRoy, uma estrela em ascensão cujo talento bruto e comportamento imprevisível a tornam simultaneamente irresistível e autodestrutiva; e Jack Conrad, um ícone do cinema mudo que vê o seu estatuto ameaçado pela chegada do som e pela mudança dos gostos do público.

À medida que a indústria se transforma, cada uma destas personagens enfrenta os seus próprios demónios: festas descontroladas, dependências, rivalidades ferozes e uma luta constante por relevância. Chazelle não suaviza nada. Pelo contrário, mergulha de cabeça na decadência, no excesso e na violência simbólica de um sistema que cria estrelas com a mesma rapidez com que as descarta.

Um espectáculo sem pudor nem contenção

Escrito e realizado por Damien Chazelle, vencedor do Óscar de Melhor Realizador por La La LandBabylon assume-se como o seu projecto mais desmesurado. É um filme que recusa a moderação, apostando numa encenação frenética, num ritmo avassalador e numa mise-en-scène que transforma o excesso em linguagem cinematográfica.

O elenco acompanha essa ambição. Brad Pitt e Margot Robbie lideram um conjunto de luxo que inclui Diego Calva, Tobey Maguire, Olivia Wilde e Jean Smart, todos entregues a personagens maiores do que a vida, presas num turbilhão de vícios, desejos e ilusões.

Música, caos e memória do cinema

Um dos elementos mais celebrados do filme é a banda sonora de Justin Hurwitz, que valeu a Babylon o Globo de Ouro de Melhor Banda Sonora Original. A música funciona como motor emocional do filme, amplificando o frenesim das festas, a euforia do sucesso e a melancolia inevitável da queda.

Mais do que um retrato histórico, Babylon é também uma reflexão sobre o próprio cinema: a sua capacidade de fascinar, de destruir e de se reinventar. Chazelle filma Hollywood como um organismo vivo, belo e cruel, onde a arte nasce muitas vezes do caos e da dor.

Um domingo de cinema sem concessões

Frenético, sumptuoso e carregado de humor negro, Babylon é um filme que divide, provoca e desafia o espectador. Não procura agradar a todos, nem romantizar o passado. Prefere expor as contradições de uma indústria construída sobre sonhos — e ruínas.

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No dia 28 de Dezembro, às 22h05, o TVCine Top convida a entrar neste império da extravagância. Uma experiência cinematográfica intensa, excessiva e impossível de ignorar

Alec Baldwin, o Peso Invisível de Rust e a Ferida que Não Fecha em Hollywood

Mais de três anos depois do trágico incidente ocorrido no set de RustAlec Baldwin voltou a falar abertamente sobre o impacto profundo que o episódio teve na sua vida — não apenas a nível profissional, mas sobretudo no plano psicológico, emocional e familiar. As palavras do actor revelam uma ferida que permanece aberta e ajudam a compreender o peso humano por detrás de um dos casos mais traumáticos da história recente de Hollywood.

Durante uma conversa num podcast dedicado a temas de saúde mental e dependência, Baldwin admitiu ter atravessado um período de depressão severa após a morte da directora de fotografia Halyna Hutchins, baleada mortalmente em Outubro de 2021, durante um ensaio com uma arma de fogo que deveria conter apenas munições de segurança. O actor, hoje com 67 anos, revelou que chegou a ter pensamentos suicidas e que sentiu a sua vida “encurtar pelo menos dez anos” desde aquele dia.

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O relato é particularmente duro quando Baldwin fala do impacto nos filhos e na esposa. Pai de oito crianças, o actor descreve momentos em que se sentava isolado, incapaz de reagir, enquanto os filhos o observavam sem compreenderem plenamente o que se passava. A dor, segundo o próprio, não foi apenas pessoal: estendeu-se à família, aos irmãos, aos colegas de profissão e a todos os que estavam ligados ao projecto Rust.

Baldwin reconhece que o trauma o afectou “em todos os aspectos”: espiritual, financeiro, profissional e emocional. A carreira, que durante décadas foi marcada por uma presença constante no cinema e na televisão, ficou subitamente suspensa, envolta num processo judicial mediático e numa exposição pública implacável. Mesmo depois de as acusações de homicídio involuntário terem sido arquivadas em 2024, a marca emocional do caso manteve-se.

O actor voltou a reiterar que nunca puxou o gatilho da arma e que confiava nos procedimentos de segurança do set, sublinhando que existiam profissionais responsáveis pela verificação do armamento. Ainda assim, a absolvição judicial não trouxe o alívio psicológico que muitos poderiam esperar. Baldwin descreve uma luta diária para encontrar forças para continuar, confessando que houve momentos em que apenas a fé o impediu de “não acordar no dia seguinte”.

O caso Rust tornou-se um ponto de viragem na discussão sobre segurança nos sets de filmagem, mas também abriu um debate mais amplo sobre saúde mental em Hollywood — especialmente quando tragédias ocorrem fora do controlo directo dos actores envolvidos. O testemunho de Alec Baldwin não procura absolvição pública nem dramatização gratuita; é, acima de tudo, um retrato cru de alguém a tentar sobreviver ao peso de um acontecimento irreversível.

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Num meio frequentemente acusado de superficialidade, estas declarações lembram que, por detrás das figuras públicas, existem pessoas confrontadas com culpa, luto e sofrimento prolongado. E que, mesmo quando a justiça fecha um processo, as consequências humanas podem nunca desaparecer por completo.

Judd Apatow, a Comédia Como Arma Política e o Mistério do Silêncio de Trump sobre South Park

Ao longo de décadas, Judd Apatow construiu uma carreira marcada pela sensibilidade emocional, pela comédia de personagens imperfeitas e por um profundo respeito pela história do humor americano. Mas nos últimos anos, o realizador, argumentista e produtor tem-se mostrado cada vez mais interessado num outro papel da comédia: o de instrumento de resistência, sátira e confronto directo com o poder.

Essa reflexão ganha novo fôlego com Comedy Nerd, o seu mais recente livro, e com as conversas que tem mantido sobre o estado actual da comédia num contexto político cada vez mais tenso. Entre esses temas, há um que se destaca pela sua estranheza: o silêncio absoluto de Donald Trump perante as representações devastadoras que South Park tem feito da sua figura.

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Para Apatow, esse silêncio não é inocente nem acidental. Pelo contrário, é estratégico. Enquanto Trump reage quase instintivamente a críticas vindas de programas de “late night”, redes sociais ou comentadores políticos, opta por não tocar num fenómeno cultural que sabe ser particularmente perigoso: uma sátira que não escolhe lados, que ridiculariza tanto a esquerda como a direita e que é consumida, ironicamente, por muitos dos seus próprios eleitores.

A força de South Park, criado por Trey Parker e Matt Stone, reside precisamente aí. Ao contrário da comédia política tradicional, que funciona em ciclos rápidos e previsíveis, a série constrói episódios que desmontam estruturas de poder, expõem corrupção sistémica e atacam o capitalismo de compadrio com uma sofisticação narrativa rara. Apatow acredita que qualquer reacção pública de Trump só serviria para amplificar essa crítica e levar ainda mais espectadores até ela.

Este debate encaixa-se numa visão mais ampla que Apatow tem sobre a história da comédia. No seu trabalho recente, incluindo os documentários dedicados a Mel BrooksGeorge Carlin ou Garry Shandling, o cineasta sublinha como o humor sempre foi uma ferramenta para expor abusos de autoridade, desmontar figuras intocáveis e dizer verdades que outros discursos não conseguem.

Para Apatow, a comédia não perde relevância quando incomoda — pelo contrário, cumpre exactamente a sua função. O que o preocupa é a concentração crescente de poder mediático e a possibilidade de vozes incómodas serem progressivamente silenciadas de forma discreta, sem polémica pública, sem protestos visíveis. Nesse contexto, South Parksurge como uma excepção quase anacrónica: um espaço onde a sátira continua feroz, independente e impossível de domesticar.

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Num tempo em que muitos humoristas sentem a pressão de se autocensurarem ou de suavizarem o discurso, Judd Apatow vê na série animada um lembrete essencial: a comédia, quando é verdadeiramente livre, continua a ser uma das formas mais eficazes de enfrentar o poder — precisamente porque o ridiculariza onde mais dói.

Jennifer Lopez, Natal em Modo Calmo: Entre o Passado com Affleck e o Presente Rodeado de Afectos

Depois de dias marcados por rumores, reencontros inesperados e inevitáveis leituras mediáticas, Jennifer Lopez optou por passar o Natal longe do ruído exterior, num registo intimista, acolhedor e surpreendentemente simples. A cantora e actriz escolheu celebrar a quadra rodeada de amigos próximos e familiares, num ambiente que privilegiou o conforto, a proximidade e a ideia de casa como refúgio.

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As imagens partilhadas mostram uma Jennifer Lopez descontraída, vestida com pijamas às riscas em tons de rosa e branco, cabelo apanhado e maquilhagem mínima — um visual distante do glamour habitual das passadeiras vermelhas, mas profundamente alinhado com o espírito da ocasião. O espaço onde decorreu a celebração reforça essa sensação de recolhimento: uma árvore de Natal elegantemente decorada em dourado e blush, luzes suaves, velas, mantas e presentes cuidadosamente dispostos, compondo um cenário quase cinematográfico de Natal contemporâneo.

Em várias fotografias, Lopez surge sentada no chão, junto à árvore, sorridente e visivelmente confortável no meio do seu círculo mais próximo. Noutras, aparece reclinada num sofá, rodeada por amigos vestidos de forma semelhante, como se a noite tivesse sido pensada mais como uma reunião informal do que como um evento. É um Natal sem excessos, sem pose e sem necessidade de afirmação pública — algo que, vindo de uma das figuras mais mediáticas do entretenimento global, acaba por ser particularmente revelador.

Este momento de tranquilidade surge poucos dias depois de Jennifer Lopez ter sido vista na companhia do ex-marido Ben Affleck, num encontro casual que rapidamente reacendeu especulações. O reencontro aconteceu durante uma tarde de compras em Los Angeles, na companhia de Samuel, o filho mais novo de Affleck. O trio passou por várias lojas antes de almoçar num espaço bastante conhecido da zona, num ambiente descrito como descontraído e sem demonstrações públicas de intimidade.

Apesar da atenção mediática em torno desse encontro, tudo indica que o Natal foi vivido num plano completamente distinto. Fontes próximas referem que Lopez seguiu o seu caminho após o almoço, sem prolongar o convívio, reforçando a ideia de que o reencontro foi cordial, mas não necessariamente carregado de significado emocional. Situação semelhante terá ocorrido pouco tempo antes, quando Lopez, Affleck e Jennifer Garner coincidiram num evento escolar dos filhos, onde o contacto entre os adultos foi mínimo.

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Neste contexto, o Natal vivido por Jennifer Lopez assume quase um valor simbólico. Não como resposta directa aos rumores, mas como afirmação silenciosa de um presente vivido com estabilidade emocional, longe de narrativas românticas forçadas ou leituras simplistas. Entre o passado que insiste em reaparecer e um presente cuidadosamente protegido, Lopez parece ter escolhido a única coisa verdadeiramente inegociável: estar bem, rodeada das pessoas certas, no tempo certo.

Quatro Filmes, Quatro Olhares: Janeiro de Cinema de Autor no Cine-Teatro Avenida

O início de 2026 traz consigo uma proposta cinematográfica sólida e exigente no Cine-Teatro Avenida, em Castelo Branco, que aposta em quatro filmes de forte identidade autoral e reconhecido relevo no panorama internacional contemporâneo. A programação de janeiro confirma uma linha curatorial coerente, centrada no cinema de autor europeu e norte-americano, com obras que exploram o trauma, a memória, o reencontro e a reconstrução pessoal e colectiva.

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O ciclo arranca a 7 de janeiro com Onde Aterrar, do realizador norte-americano Hal Hartley. A comédia, de tom assumidamente existencial, acompanha um realizador aposentado que se vê confrontado com os equívocos, projeções e mal-entendidos daqueles que o rodeiam. Fiel ao estilo minimalista e irónico de Hartley, o filme propõe uma reflexão sobre identidade, envelhecimento e a forma como somos lidos pelos outros num mundo que raramente escuta com atenção.

13 de janeiro, chega ao ecrã Pequenos Clarões, da realizadora espanhola Pilar Palomero. Trata-se de um drama intimista centrado em reencontros familiares, no cuidado prestado aos outros e nas memórias que permanecem por resolver. Com uma abordagem sensível e contida, o filme inscreve-se numa tradição de cinema emocionalmente rigoroso, onde os silêncios e os pequenos gestos assumem um peso narrativo determinante.

No dia 20 de janeiro, é exibido Justa, da cineasta portuguesa Teresa Villaverde. Inspirado na tragédia dos incêndios de Pedrógão Grande, o filme acompanha várias personagens num território marcado pela perda, pelo luto e pela difícil tentativa de reconstrução. Sem recorrer a dramatismos fáceis, Justa propõe um olhar humanista sobre uma ferida colectiva ainda aberta, cruzando experiências individuais com uma dimensão social e política profundamente enraizada na realidade portuguesa recente.

A programação encerra a 27 de janeiro com Miroirs Nº 3, do realizador alemão Christian Petzold. O filme explora as consequências do trauma e as relações humanas construídas a partir do acolhimento e da partilha. Petzold volta a demonstrar a sua mestria na construção de narrativas psicológicas densas, onde a identidade se reconstrói lentamente através do contacto com o outro e da aceitação da fragilidade.

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Todas as sessões decorrem no Cine-Teatro Avenida, sempre às 18h00 e 21h30, com classificação etária M/12. O bilhete tem o custo de 4,00 euros, estando prevista uma oferta especial na compra de três ingressos, com direito ao quarto bilhete gratuito. Uma programação que reforça o papel do Cine-Teatro Avenida como espaço de resistência cultural e de promoção de um cinema exigente, reflexivo e profundamente humano.  

Val Kilmer: Talento Incandescente, Ego Indomável e a Carreira Que Hollywood Nunca Soube Domar

Durante décadas, Val Kilmer foi sinónimo de intensidade absoluta. Um actor de entrega total, obsessivo com o processo, frequentemente brilhante em cena — e, fora dela, notoriamente difícil. A sua trajectória é uma das mais fascinantes de Hollywood: um talento raro que atingiu o estrelato muito cedo, mas que pagou um preço elevado por nunca ter aprendido a jogar o jogo da indústria.

Kilmer formou-se na prestigiada Juilliard School, onde entrou com apenas 17 anos, sendo um dos alunos mais jovens de sempre. Desde início ficou claro que não era um intérprete “normal”. Tinha ambições teatrais, desprezava o vedetismo fácil e encarava a representação como um acto quase espiritual. Essa postura acompanhá-lo-ia por toda a carreira — para o bem e para o mal.

O grande salto para o estrelato chegou com Top Gun, onde interpretou o icónico Iceman. Apesar do sucesso estrondoso do filme, Kilmer nunca escondeu o seu desconforto com o projecto, que via como propaganda militar simplista. Ainda assim, roubou cenas a Tom Cruise com uma frieza calculada que o público nunca esqueceu. Era o início de uma reputação: Kilmer brilhava mesmo quando não queria.

Essa intensidade atingiu o auge em The Doors, onde encarnou Jim Morrison com um grau de imersão raríssimo. Cantou ele próprio todas as músicas, viveu como Morrison durante meses e exigiu que o elenco e a equipa técnica o tratassem como tal no set. O resultado foi uma das melhores interpretações biográficas dos anos 90 — mas também relatos de um ambiente de trabalho tenso e exaustivo. Para Kilmer, o sacrifício era inevitável; para Hollywood, começava a ser um problema.

O padrão repetiu-se. Em Batman Forever, Kilmer entrou em conflito com realizador, produtores e colegas. O actor odiava o fato, detestava a falta de profundidade psicológica da personagem e não escondeu o seu desinteresse. O filme foi um sucesso comercial, mas Kilmer foi afastado da sequela. O estúdio preferiu a previsibilidade à fricção criativa.

Curiosamente, no mesmo ano, Kilmer entregou uma interpretação magistral em Heat, de Michael Mann. Como Chris Shiherlis, provou que conseguia roubar atenção a monstros sagrados como Al Pacino e Robert De Niro com poucas falas e uma presença magnética. Mann, um realizador conhecido pela exigência, sempre defendeu Kilmer — talvez porque reconhecia nele o mesmo perfeccionismo obsessivo.

Mas Hollywood é uma cidade pequena, e a fama de “difícil” cola depressa. Ao longo dos anos, multiplicaram-se histórias de conflitos em rodagem, atrasos, confrontos verbais e uma inflexibilidade quase autodestrutiva. Kilmer não se adaptava a sistemas industriais, recusava compromissos fáceis e parecia genuinamente desinteressado em agradar. Enquanto outros actores do seu calibre aprenderam a equilibrar ego e diplomacia, Kilmer escolheu o confronto silencioso.

A partir dos anos 2000, os grandes papéis começaram a desaparecer. O talento permanecia intacto, mas a indústria já não tinha paciência. A doença agravou tudo: em 2015, foi diagnosticado com cancro da garganta, perdendo grande parte da capacidade vocal. Para um actor cuja voz era instrumento essencial, foi um golpe devastador.

Ainda assim, Kilmer encontrou uma forma de regressar — com dignidade. O documentário Val revelou um homem consciente dos seus erros, lúcido sobre a própria carreira e surpreendentemente sereno. Não há autopiedade nem revisionismo fácil. Há, sim, a aceitação de alguém que escolheu a arte acima da conveniência.

O seu regresso emocional em Top Gun: Maverick foi mais do que nostalgia: foi um acerto de contas com o passado, tratado com respeito e humanidade. Sem grandes discursos, Kilmer lembrou ao mundo porque foi, durante tanto tempo, um actor absolutamente singular.

Val Kilmer nunca foi fácil. Nunca quis ser. E talvez seja precisamente por isso que continua a fascinar. Num sistema que recompensa a docilidade e pune a diferença, Kilmer pagou caro por ser fiel a si próprio. Mas deixou um legado de interpretações intensas, imperfeitas e inesquecíveis — como ele.

O Génio Que Hollywood Aprendeu a Tolerar (Até Deixar de Conseguir): A Lenda e o Caos de Marlon Brando

Durante décadas, Marlon Brando foi tratado como uma força da natureza. Um actor revolucionário, um talento sísmico, o homem que mudou para sempre a forma como se representava no cinema. Mas, nos bastidores, Brando tornou-se também sinónimo de caos, imprevisibilidade e de uma pergunta que Hollywood foi adiando até ser tarde demais: até onde se pode tolerar o génio?

Nos anos 50, Brando era intocável. A Streetcar Named Desire, On the Waterfront e Viva Zapata! redefiniram a interpretação cinematográfica. O seu método era visto como intensidade pura, verdade emocional sem filtros. Os atrasos, as excentricidades e a recusa em obedecer a regras eram tolerados porque o resultado no ecrã era avassalador. O problema surgiu quando o comportamento deixou de ser excentricidade artística e passou a ser sabotagem activa de produções inteiras.

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O caso mais célebre é Apocalypse Now. Brando chegou às Filipinas com excesso de peso, sem ter lido o argumento e exigindo mudanças radicais no papel do coronel Kurtz. Recusava-se a ser filmado com luz total, improvisava longos monólogos e obrigou Francis Ford Coppola a reconstruir o filme à sua volta. O próprio Coppola admitiu mais tarde que Brando era simultaneamente um presente e uma ameaça constante à sobrevivência do projecto (fonte: Hearts of Darkness, documentário oficial).

Se Apocalypse Now ainda acabou como obra-prima, o mesmo não se pode dizer de The Island of Dr. Moreau. Aqui, Brando levou o descontrolo ao limite do absurdo: apareceu com um balde de gelo na cabeça, insistiu em ter um actor anão permanentemente ao seu lado e ignorava indicações básicas. O realizador original foi despedido, o substituto perdeu o controlo do filme e o resultado tornou-se um dos exemplos mais citados de colapso criativo em Hollywood (fonte: livro Lost Soul, de John Frankenheimer).

Ao longo dos anos, Brando passou a usar auriculares para que assistentes lhe ditassem falas em tempo real, recusava decorar textos e tratava o platô como um espaço que orbitava em torno dele. Ainda assim, durante muito tempo, ninguém ousou dizer “não”. Porque Brando não era apenas um actor: era um mito vivo.

Mas os mitos também cansam. A partir dos anos 90, os convites diminuíram drasticamente. O talento permanecia, mas o risco tornou-se demasiado elevado. Hollywood, pragmática como sempre, decidiu que já não compensava.

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Marlon Brando deixou uma herança contraditória. Inspirou gerações de actores, elevou o cinema a novos patamares… e mostrou como o culto do génio pode normalizar comportamentos que, noutras circunstâncias, seriam inaceitáveis. A pergunta que fica não é se Brando era brilhante — isso é indiscutível. A pergunta é: quanto do seu legado artístico teria sobrevivido sem o caos que o acompanhava?