Quando se fala de cinema português em Cannes, a memória recente não é escassa. Miguel Gomes esteve em competição com As Mil e Uma Noites. João Pedro Rodrigues tem uma relação longa com o festival. Teresa Villaverde, João Salaviza, Susana de Sousa Dias — o cinema português tem uma presença discreta mas consistente na Croisette ao longo das últimas décadas. E ontem, com o anúncio das últimas adições à Selecção Oficial de 2026, o nome de Tiago Guedes entrou nessa lista.
Aqui, o novo filme de Tiago Guedes, foi seleccionado para Cannes Première — a secção que acolhe filmes fora da competição principal mas com uma visibilidade e um prestígio que qualquer realizador do mundo reconhece imediatamente como significativos. Cannes Première é onde estreiam filmes de realizadores com carreira consolidada que o festival quer celebrar sem os colocar na corrida pela Palma de Ouro. É um lugar de honra, não uma concessão.
Tiago Guedes é um dos realizadores portugueses mais interessantes da sua geração. Tristeza e Alegria na Vida das Girafas (2013) — a adaptação da peça de Tiago Rodrigues sobre uma rapariga que decide falar com o primeiro-ministro — foi uma estreia que demonstrava uma voz cinematográfica com confiança e originalidade raras. O Filho (2019), com Albano Jerónimo e Sandra Faleiro, confirmou que Guedes sabe explorar a intimidade das relações familiares com uma contenção formal que amplifica em vez de diminuir a intensidade emocional.
Os detalhes de Aqui são ainda escassos — o festival não disponibilizou sinopse no momento do anúncio. Mas a presença em Cannes Première, numa edição que já inclui filmes de Almodóvar, Farhadi, Koreeda, Zvyagintsev, Dhont e James Gray, é por si mesma uma afirmação sobre a qualidade e a relevância do projecto. Para o cinema português, e para os que o acompanham, é a confirmação de que Tiago Guedes pertence a essa conversa internacional — e que Cannes, o árbitro mais exigente do cinema de autor mundial, reconhece isso.
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