Quando a maternidade se transforma num campo de batalha emocional: Se Eu Tivesse Pernas, Dava-te um Pontapé chega aos cinemas

Há filmes que se instalam lentamente no espectador e outros que entram sem pedir licença. Se Eu Tivesse Pernas, Dava‑te um Pontapé pertence claramente ao segundo grupo. O novo filme da realizadora Mary Bronstein estreia-se nas salas portuguesas a 19 de Fevereiro, trazendo consigo um retrato implacável do esgotamento emocional, da ansiedade e das pressões invisíveis associadas à maternidade contemporânea.

Protagonizado por Rose Byrne, o filme apoia-se quase integralmente numa interpretação intensa e sem rede de segurança, capaz de sustentar um drama psicológico que oscila entre o thriller emocional, o humor negro e uma sensação constante de colapso iminente.

Uma vida em queda livre

Linda é terapeuta, mãe e uma mulher que tenta desesperadamente manter o controlo quando tudo à sua volta começa a ruir. A filha desenvolve uma doença misteriosa e resistente a tratamentos, o marido está emocionalmente — e fisicamente — ausente, uma paciente desaparece sem explicação e a própria saúde mental de Linda começa a deteriorar-se a um ritmo alarmante.

O filme acompanha esta descida progressiva com um olhar próximo, quase claustrofóbico, recusando explicações fáceis ou soluções reconfortantes. A câmara insiste no desgaste, na repetição, na exaustão acumulada — como se o espectador fosse obrigado a partilhar o mesmo fôlego curto da protagonista.

Drama psicológico com nervo de thriller

Mary Bronstein constrói o filme com um ritmo tenso e nervoso, mais próximo de um thriller psicológico do que de um drama convencional. Cada situação quotidiana é tratada como um potencial detonador emocional, e o humor negro surge não como alívio, mas como mecanismo de sobrevivência.

Se Eu Tivesse Pernas, Dava-te um Pontapé fala de maternidade sem romantização, expondo as expectativas irreais, o isolamento silencioso e a culpa permanente que tantas vezes acompanham este papel. O resultado é um filme desconfortável, mas profundamente humano, que recusa suavizar a experiência feminina para consumo fácil.

Rose Byrne em estado de graça

O grande motor do filme é, sem dúvida, a prestação de Rose Byrne. A actriz — vencedora de um Globo de Ouro e nomeada para o ÓscarBAFTA e outros prémios de prestígio — entrega aqui uma das interpretações mais cruas e exigentes da sua carreira. A sua Linda é frágil, obsessiva, por vezes difícil de suportar, mas sempre reconhecível.

Esta performance valeu-lhe o Prémio de Melhor Atriz no Festival de Cinema de Berlim, consolidando o filme como uma das propostas mais intensas do cinema independente recente.

Uma estreia que não passa despercebida

Se Eu Tivesse Pernas, Dava-te um Pontapé chega aos cinemas como uma experiência imersiva, desconfortável e absolutamente contemporânea. Um filme que não procura agradar, mas sim confrontar — e que encontra na honestidade emocional a sua maior força.

Para quem procura cinema desafiante, centrado em personagens complexas e disposto a explorar zonas emocionalmente difíceis, esta é uma estreia a não ignorar.