Quatro décadas a filmar o país sem concessões: TVCine homenageia João Canijo

Uma maratona inédita revisita a obra de um dos maiores cineastas portugueses

No domingo, 8 de Fevereiro, o TVCine Edition dedica mais de 24 horas consecutivas à obra de João Canijo, numa maratona cinematográfica sem precedentes na televisão portuguesa. Intitulada Maratona João Canijo: Quatro Décadas de Cinema, esta retrospetiva surge como uma homenagem sentida a um realizador que marcou de forma indelével o cinema nacional e que faleceu a 29 de Janeiro, aos 68 anos.

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Ao longo de um dia inteiro — da madrugada de domingo até às primeiras horas de segunda-feira — serão exibidos 13 filmes que percorrem praticamente toda a filmografia de Canijo. Em paralelo, os títulos estarão igualmente disponíveis no TVCine+, permitindo aos espectadores reverem — ou descobrirem pela primeira vez — uma obra exigente, incómoda e profundamente ligada à realidade social portuguesa.

Um cinema de realismo, conflito e identidade

Com uma carreira iniciada no final dos anos 80, João Canijo afirmou-se como uma das vozes mais consistentes e rigorosas do cinema português contemporâneo. O seu cinema nunca procurou o conforto nem a evasão fácil. Pelo contrário, construiu-se a partir de um olhar atento sobre as tensões familiares, os conflitos de classe, a precariedade económica e os silêncios morais que atravessam a sociedade portuguesa.

A retrospetiva do TVCine destaca precisamente essa coerência artística. Desde Três Menos Eu (1988), o primeiro filme exibido na maratona, até ao díptico Mal Viver e Viver Mal (2023), vencedor do Urso de Prata – Prémio do Júri no Festival de Berlim, a obra de Canijo revela um cineasta que nunca virou o rosto aos lados mais desconfortáveis do país que filmou.

Cópias restauradas e a versão definitiva de 

Noite Escura

Um dos aspectos mais relevantes desta maratona é a exibição de cópias restauradas pela Cinemateca Portuguesa, garantindo uma experiência visual fiel à intenção original do realizador. No caso de Noite Escura (2004), será apresentada a versão longa, correspondente à versão final desejada por Canijo aquando do processo de restauro — um detalhe particularmente significativo para cinéfilos e estudiosos da sua obra.

Filmes como Sapatos PretosGanhar a VidaSangue do Meu Sangue ou Fátima regressam assim ao pequeno ecrã com uma nova vida, reforçando a actualidade de um cinema que continua a dialogar com o presente.

As mulheres no centro do olhar de Canijo

Outro traço fundamental da filmografia de João Canijo, amplamente representado nesta maratona, é a centralidade das personagens femininas. Ao longo de décadas, o realizador construiu retratos densos e complexos de mulheres confrontadas com estruturas de poder, sobrevivência e identidade, recusando estereótipos e simplificações.

Essa abordagem atingiu um dos seus pontos mais altos com Mal Viver e Viver Mal, dois filmes que se complementam e se confrontam, oferecendo diferentes pontos de vista sobre as mesmas dinâmicas familiares e sociais. Uma espécie de síntese madura de um cinema que sempre se construiu a partir do conflito e da observação crítica.

Uma homenagem que é também um convite

Mais do que uma programação especial, Maratona João Canijo: Quatro Décadas de Cinema funciona como um convite à redescoberta de um autor essencial. Um cineasta que, como escreveu Tiago Rodrigues, “travou um combate poético com o país que somos”, mostrando-nos um espelho onde convivem violência e ternura, dureza e humanidade.

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No dia 8 de Fevereiro, o TVCine transforma-se, durante 24 horas, numa verdadeira sala de cinema dedicada a um dos seus maiores criadores. Uma oportunidade rara — e necessária — para voltar a olhar para o cinema português sem filtros.  

Morreu João Canijo, uma voz incómoda e essencial do cinema português

Um cineasta que filmou o país sem filtros nem concessões

Morreu João Canijo, um dos realizadores mais importantes, coerentes e exigentes do cinema português das últimas décadas. Tinha 68 anos e faleceu esta quinta-feira, dia 29 de Janeiro, perto de Vila Viçosa, distrito de Évora, onde repartia residência com Lisboa. A notícia foi confirmada à agência Lusa por fonte da produtora Midas Filmes. Segundo informações avançadas pela CNN Portugal e pelo jornal Público, o cineasta terá sofrido um ataque cardíaco fulminante durante a noite, tendo o corpo sido encontrado pela empregada de limpeza.

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Distinguido com o Urso de Prata no Festival de Berlim em 2023, João Canijo deixa uma obra marcada por uma visão implacável da sociedade portuguesa, quase sempre observada a partir do interior das famílias, dos conflitos domésticos e das tensões invisíveis que atravessam gerações. O seu cinema nunca foi confortável — e talvez por isso tenha sido tão necessário.

Do assistente ao autor: um percurso sólido e singular

Natural de Vinhais, no distrito de Bragança, João Canijo iniciou a sua carreira nos anos 1980 como assistente de realização, trabalhando com nomes fundamentais do cinema europeu como Manoel de Oliveira, Paulo Rocha e Wim Wenders. Em 1990 estreia-se na realização de longas-metragens com Filha da Mãe, assinando também a série televisiva Alentejo Sem Lei.

A partir daí construiu uma filmografia profundamente autoral, reconhecível pela forma como expõe feridas sociais raramente tratadas com complacência: machismo, imigração, prostituição, corrupção, marginalidade e dificuldades socioeconómicas. Como escreveu o investigador Daniel Ribas, trata-se de uma verdadeira “dramaturgia da violência”, onde o conflito é estrutural e raramente encontra redenção.

Filmes que ficaram — e que ficam

Entre os títulos mais marcantes da sua carreira contam-se Sapatos Pretos (1998), Ganhar a Vida (2001), Mal Nascida(2007) e, sobretudo, Sangue do Meu Sangue (2011), frequentemente apontado como uma das grandes obras do cinema português contemporâneo.

Em 2023, Canijo atinge um novo patamar de reconhecimento internacional com Mal Viver, vencedor do Urso de Prata em Berlim e candidato português aos Óscares. O filme acompanha uma família de mulheres que gere um hotel, vivendo num ambiente corroído por ressentimento e rancor, abalado pela chegada inesperada de uma neta. A obra dialoga directamente com Viver Mal, que observa a mesma realidade a partir do ponto de vista dos hóspedes.

Em 2024, esta dupla cinematográfica ganha uma nova dimensão com a série Hotel do Rio, exibida na RTP, apresentada como a “visão total” deste universo narrativo.

Um cinema feito de mulheres, tensão e verdade

Grande parte da força do cinema de João Canijo reside nas personagens femininas, complexas, contraditórias e centrais. Atrizes como Rita Blanco, Anabela Moreira, Beatriz Batarda, Madalena Almeida ou Cleia Almeida tornaram-se presenças recorrentes na sua obra, num trabalho continuado de cumplicidade artística raro no cinema português.

Outro momento relevante da sua carreira foi Fátima (2017), um filme rodado com 11 atrizes portuguesas numa peregrinação ao santuário, onde Canijo explorou não a fé, mas as dinâmicas de grupo entre mulheres. “As relações de grupo entre mulheres parecem-me muito mais interessantes do que com homens à mistura”, afirmou então à Lusa.

Projetos por concluir e um legado difícil de substituir

À data da sua morte, João Canijo encontrava-se a finalizar Encenação, longa-metragem protagonizada por Miguel Guilherme, centrada num encenador de teatro confrontado com a idade e com a relação com as suas atrizes. Deixa ainda por estrear o filme As Ucranianas.

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Nas redes sociais, a Medeia Filmes recordou o cineasta com uma frase que resume bem a sua visão artística: “A verdade é a interpretação que cada um faz da realidade. E é uma escolha que cada um faz da realidade.” João Canijo fez essa escolha com frontalidade, rigor e uma recusa sistemática do facilitismo. O cinema português fica mais pobre sem ele — mas a sua obra permanece, incómoda, viva e indispensável.