“La Bola Negra” faz a dobradinha: vence em Toronto e em San Sebastián, depois de já ter arrasado em Cannes

Tínhamos apontado aqui “I Play Rocky” como o grande favorito ao People’s Choice Award do TIFF, mas o público de Toronto decidiu de forma diferente: o prémio foi para “La Bola Negra” (“The Black Ball”), de Javier Calvo e Javier Ambrossi, a dupla espanhola conhecida como Los Javis, deixando a biografia de Sylvester Stallone e “Being Heumann”, de Siân Heder, no lugar de finalistas. E a história não ficou por aí: dias depois, o mesmo filme venceu também o Prémio do Público em San Sebastián, com uma pontuação recorde de 9,40, a nota mais alta de sempre atribuída a um filme espanhol nesta categoria, um feito que vem acompanhado de um prémio de 50 mil euros para a distribuidora.

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Esta dupla vitória confirma uma trajetória que já vinha a construir-se desde a estreia mundial em Cannes, onde “La Bola Negra” recebeu uma ovação em pé de 16 a 20 minutos (consoante a fonte), uma das mais longas do festival este ano, com Penélope Cruz, presente na sessão apesar do seu papel reduzido no filme, visivelmente emocionada perante a reação da plateia.

O filme é uma épica queer que atravessa 85 anos de história espanhola, inspirada num fragmento inacabado do poeta e dramaturgo Federico García Lorca. A estrutura narrativa alterna entre 1933 (a época do próprio Lorca), 1962 (a Espanha do pós-guerra civil, sob a ditadura franquista) e o presente, usando personagens masculinas interligadas ao longo destas três linhas temporais para explorar temas de desejo, herança e sobrevivência ao longo de quase um século de história espanhola. O elenco reúne, além de Cruz, nomes como Miguel Bernardeau, o cantor Guitarricadelafuente e Glenn Close, uma combinação pouco habitual de estrelas espanholas e internacionais para um projeto desta ambição.

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A Netflix, que já tinha travado uma verdadeira guerra de licitações por este filme logo a seguir a Cannes, detém os direitos para os Estados Unidos e prepara uma estratégia de distribuição híbrida: uma exibição exclusiva nos cinemas de 47 dias a partir de 16 de outubro, antes da estreia na própria plataforma a 2 de dezembro, um modelo pensado precisamente para capitalizar ao máximo no boca-a-boca gerado por este percurso extraordinário de festivais.

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Com dois dos prémios de público mais importantes do calendário de outono já conquistados, e uma campanha de Cannes que já se tinha tornado viral pela duração da ovação, “La Bola Negra” surge agora como um dos nomes mais falados da temporada de prémios que se aproxima, com Los Javis a confirmarem-se como uma das vozes mais ousadas e ambiciosas do cinema espanhol contemporâneo.

Hamnet”: O Filme Que Está a Partir Corações e a Rumo aos Óscares 💔🎭

Chloé Zhao regressa com Paul Mescal e Jessie Buckley num drama sobre Shakespeare, a perda e o poder do amor que sobrevive à morte

Prepare os lenços: o novo filme de Chloé Zhao, Hamnet, está a ser descrito como “o melhor filme do ano” — e o trailer agora divulgado confirma que vem aí uma verdadeira torrente de emoções. Depois de conquistar o público com Nomadland (que lhe valeu o Óscar de Melhor Realização), Zhao volta a mergulhar na dor humana com uma história de amor, perda e inspiração, centrada na figura do filho de William Shakespeare.

Antes de Hamlet, houve Hamnet

Baseado no romance homónimo de Maggie O’Farrell, Hamnet leva-nos à Inglaterra do século XVI, onde William Shakespeare (Paul Mescal) ainda luta por afirmar-se enquanto dramaturgo. Quando o seu filho Hamnet morre aos 11 anos, a tragédia transforma-se num ponto de viragem na vida do autor — um trauma que muitos acreditam ter dado origem à escrita de Hamlet, uma das maiores obras da literatura mundial.

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Mas a verdadeira alma do filme é Agnes (interpretada por Jessie Buckley), a esposa de Shakespeare, retratada como uma mulher intuitiva, ligada à natureza e consumida pelo luto. A relação entre ambos, filmada com a sensibilidade que Zhao já nos habituou, promete ser o coração emocional da narrativa.

Uma dor que ilumina

Apontado como um dos grandes candidatos à temporada de prémios, Hamnet já conquistou o People’s Choice Award no Festival de Toronto — distinção que, nos últimos anos, antecipou vários vencedores do Óscar de Melhor Filme. A estreia mundial deu-se em Telluride, onde foi recebido com aplausos de pé e críticas entusiasmadas.

A fotografia de Łukasz Żal (Ida, Cold War) envolve o filme numa aura etérea: campos verdejantes do País de Gales banhados por luz dourada, contrastando com o peso da dor e a serenidade de quem aprende a aceitar a perda.

Paul Mescal e Jessie Buckley: química e devastação

Depois de Aftersun, Paul Mescal confirma-se como um dos atores mais intensos da sua geração. Aqui, o seu Shakespeare é um homem dividido entre o génio criativo e a culpa pela ausência. Jessie Buckley, por sua vez, oferece uma performance descrita pela crítica como “mística e arrebatadora”, tornando Agnes numa das personagens femininas mais comoventes do cinema recente.

O cinema como elegia

Com argumento coescrito por Zhao e Maggie O’Farrell, Hamnet promete uma reflexão profunda sobre o amor, a morte e a arte como forma de eternizar a dor. Não é apenas um filme sobre Shakespeare — é sobre o que nos resta quando perdemos tudo.

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E se o trailer é alguma indicação, prepare-se: Hamnet não será apenas um dos filmes mais belos do ano — será também um dos mais tristes.