A selecção oficial de Cannes 2026 está fechada. Ontem, o festival anunciou os últimos 16 títulos que completam a programação da 79.ª edição — e a notícia mais aguardada era a que toda a indústria sabia que ia acontecer mas precisava de ver confirmada: Paper Tiger, de James Gray, entra em competição pela Palma de Ouro.
O filme é um thriller de crime passado em Nova Iorque sobre dois irmãos que tentam realizar o sonho americano e se enredam numa esquema com a máfia russa. Estelarizado por Adam Driver, Scarlett Johansson e Miles Teller, é o sexto filme de Gray em competição em Cannes — ele esteve pela última vez na Croisette com Armageddon Time em 2022 — e foi adquirido pela Neon para a América do Norte, a distribuidora que já tem quatro filmes em competição esta edição e que está na corrida para a sua sétima Palma de Ouro consecutiva, depois de Parasitas, Titane, Triângulo de Tristeza, Anatomia de uma Queda, Anora e It Was Just an Accident. A competição fica assim fechada com 22 filmes. Ira Sachs é o único outro americano em competição com The Man I Love.
Em Un Certain Regard, a adição mais comentada é Victorian Psycho de Zachary Wigon — um thriller de horror gótico passado na Inglaterra vitoriana sobre uma governanta excêntrica que chega a uma mansão remota e começa a gerar suspeitas entre os residentes. Maika Monroe, que substituiu Margaret Qualley após um conflito de agenda, lidera o elenco com Thomasin McKenzie, Jason Isaacs e Ruth Wilson. O filme foi originalmente desenvolvido na A24 antes de aterrar na Bleecker Street, e a sua presença em Cannes confirma Monroe como uma das presenças mais relevantes do cinema de género contemporâneo.
Também em Un Certain Regard, A Girl’s Story de Judith Godrèche. A actriz francesa que se tornou uma das figuras centrais do movimento #MeToo em França — depois de revelar em 2024 abusos sexuais por parte dos realizadores Benoît Jacquot e Jacques Doillon — estreia-se como realizadora de longa-metragem no mesmo festival onde denunciou os seus agressores. TheWrap Godrèche já tinha estado em Cannes como realizadora em 2023 com a curta-metragem Moi Aussi, que abriu precisamente o Un Certain Regard. Este regresso em formato longo é um dos momentos mais carregados de significado de toda a edição.
A lista de adições inclui ainda Titanic Ocean da realizadora grega Konstantina Kotzamani — uma história de formação passada numa escola especial no Japão que treina adolescentes como sereias profissionais —, Ulysse de Laetitia Masson como filme de encerramento de Un Certain Regard, e Ceniza en la Boca de Diego Luna na secção Cannes Première, onde estreia a sua primeira longa-metragem como realizador. Também em Cannes Première, Mariage au Goût d’Orange de Christophe Honoré, um drama familiar dos anos 70 com Adèle Exarchopoulos e Paul Kircher.
E há uma notícia especialmente relevante para o cinema português: Aqui de Tiago Guedes foi seleccionado para Cannes Première. O realizador de Tristeza e Alegria na Vida das Girafas e O Filho leva ao festival mais importante do mundo o seu mais recente trabalho, numa secção que acolhe filmes fora da competição principal mas com visibilidade e prestígio consideráveis. É uma das melhores notícias do cinema nacional deste ano.
Cannes 2026 decorre de 12 a 23 de Maio. Com a selecção agora completa — Almodóvar, Farhadi, Koreeda, Hamaguchi, Mungiu, Pawlikowski, Zvyagintsev, Dhont, Na Hong-jin, Ira Sachs e agora James Gray em competição — é difícil não concluir que esta é uma das edições mais densas em talento da última década.
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