Dacre Montgomery afastou-se de Hollywood no auge de Stranger Things. Agora regressa nos seus próprios termos

Do estrelato súbito ao silêncio voluntário

Quando a segunda temporada de Stranger Things estreou em 2017, Dacre Montgomery tinha apenas 22 anos e via o seu nome espalhar-se a uma velocidade vertiginosa. A interpretação intensa de Billy Hargrove transformou-o num dos rostos mais comentados da série e num novo “vilão de culto” da cultura pop televisiva. Tudo indicava que Hollywood tinha encontrado mais uma estrela pronta a ser explorada até à exaustão. Mas Montgomery fez precisamente o contrário do esperado: saiu de cena.

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O actor australiano regressou a Perth, a sua cidade natal, e recusou praticamente todos os convites que lhe surgiram durante quase quatro anos. Um afastamento consciente, motivado por um desconforto profundo com a exposição súbita. Segundo o próprio, a fama trouxe uma fragilidade emocional para a qual não estava preparado, tornando necessário proteger-se antes que o sucesso o consumisse por completo.

Um telefonema inesperado de Gus Van Sant

Há nomes, porém, capazes de quebrar silêncios autoimpostos. Um deles é Gus Van Sant. Sete anos após o seu último filme, o realizador decidiu regressar com Dead Man’s Wire e escolheu Montgomery para um dos papéis principais, depois de ter visto — e ficado impressionado — com o famoso self-tape de audição do actor para Stranger Things, já lendário entre profissionais da indústria.

No filme, Montgomery contracena com Bill Skarsgård, num thriller inspirado num caso real de 1977, centrado no rapto de um poderoso banqueiro e no impasse mediático que se seguiu. Dead Man’s Wire estreia em salas seleccionadas e aposta num tom contido, desconfortável e deliberadamente provocador — características que o tornam um ponto de regresso simbólico para um actor que reaprendeu a ter paciência.

Um regresso feito de aprendizagem e limites

Trabalhar com Skarsgård revelou-se, para Montgomery, tão desafiante fora de cena como dentro dela. Conhecido pela sua intensidade quase obsessiva em preparação, o actor admite que tende a isolar-se durante as filmagens. O colega sueco forçou-o a quebrar essa barreira, lembrando-lhe que a acessibilidade emocional também faz parte do trabalho de actor. Uma lição inesperada, mas transformadora.

O afastamento de Hollywood permitiu-lhe redefinir prioridades. Longe do ruído mediático, Montgomery percebeu que não queria aceitar projectos por impulso, dinheiro ou visibilidade. Queria trabalhar com realizadores e personagens que justificassem o investimento pessoal total que coloca em cada papel. E isso mudou tudo.

O futuro longe da obsessão pela fama

Apesar do impacto que Stranger Things teve na sua vida, Montgomery olha para a série com gratidão e não com arrependimento, reconhecendo-a como um período formativo essencial. Ainda assim, deixa claro que a fama não é, nem nunca foi, o motor da sua carreira.

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Recentemente, deu outro passo decisivo ao concluir as filmagens da sua primeira longa-metragem como realizador, um projecto preparado ao longo de uma década. Para ele, cada trabalho é encarado como se fosse o último — uma filosofia radical, mas libertadora. Se um dia se retirar definitivamente, fá-lo-á em paz, sabendo que nunca esteve ali por vaidade, mas por entrega total.

Não encontrámos data de estreia de Dead Man’s Wire confirmada para Portugal, mas sabemos que vai passar no LEFFEST em Lisboa algures entre os dias 6 e 15 de Novembro em Lisboa,

Marrakech Abre as Portas ao Cinema Mundial: Bong Joon Ho, Jenna Ortega e Anya Taylor-Joy Dão o Arranque Oficial à 22.ª Edição do Festival

O realizador de Parasitas comanda um júri de luxo numa edição que celebra novos talentos, grandes homenagens e a consolidação de Marrakech como ponte entre continentes e palco estratégico na corrida aos Óscares.

O Festival Internacional de Cinema de Marrakech regressou em força para a sua 22.ª edição, inaugurado com uma noite que reuniu nomes maiores do cinema mundial e reafirmou o estatuto do certame como um ponto de encontro entre continentes, culturas e gerações de cineastas. Bong Joon Ho, que preside ao júri deste ano, foi recebido com uma ovação calorosa, acompanhado por Jenna Ortega, Anya Taylor-Joy e muitas outras figuras destacadas da indústria. A sessão de abertura incluiu a exibição de Dead Man’s Wire, o novo filme de Gus Van Sant, apresentado no palco pelo produtor Cassian Elwes.

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O vencedor do Óscar por Parasitas abriu oficialmente o festival evocando a sua própria juventude: “Aos 22 anos, devorava filmes com fome de estudante de cinema”, recordou. Ao olhar para Marrakech a celebrar igualmente os seus 22 anos de existência, Bong disse reconhecer “a mesma energia vibrante, cheia de paixão pelo cinema”. A comparação não poderia ser mais feliz: o festival, tal como ele próprio naquela idade, está num momento de maturidade efervescente, movido por impulso criativo e pelo desejo de descoberta.

Dead Man’s Wire, inspirado no caso real do criminoso Tony Kiritsis, chega ao festival depois da estreia em Veneza e colecciona elogios da crítica internacional, com destaque para a interpretação de Bill Skarsgård. O filme prepara-se para entrar em circuito comercial em Janeiro, mas em Marrakech foi sobretudo o elenco do júri que roubou atenções. Para além de Bong, a organização reuniu Jenna Ortega — actualmente um dos rostos mais reconhecidos da nova geração — Anya Taylor-Joy, Celine Song, Julia Ducournau, Karim Aïnouz, Hakim Belabbes e Payman Maadi. Uma equipa ecléctica e prestigiada, capaz de valorizar como poucos a selecção de 14 filmes de realizadores emergentes que competem este ano.

Na passadeira vermelha, Melita Toscan du Plantier, presidente do festival e figura central na sua arquitectura programática, sublinhou o impacto do painel de jurados para os novos talentos. Para muitos dos realizadores estreantes, saber que o seu primeiro ou segundo filme será visto por Bong Joon Ho, por vencedores de prémios internacionais ou por estrelas globais, é quase tão importante quanto a própria competição. E houve ainda espaço para confirmar a chegada de Jodie Foster, homenageada nesta edição e que visita Marrocos pela primeira vez.

Celine Song, realizadora de Past Lives e Materialists, confessou estar particularmente entusiasmada com esta vertente do festival — a capacidade de descobrir cinema sem o peso das expectativas. Para ela, Marrakech tem a mesma frescura de Sundance: um lugar onde se entra “sem contexto” e onde a surpresa é parte essencial da experiência.

Remi Bonhomme, director artístico, reforçou esse posicionamento híbrido: Marrakech vive entre a Europa e África, e isso permite-lhe ter uma programação simultaneamente cosmopolita e regional. Para além disso, o lugar estratégico no calendário — no final do ano — coloca o festival directamente no corredor da temporada de prémios. E não é coincidência que tantos países tenham inscrito os seus candidatos aos Óscares na secção dedicada ao cinema internacional, como HomeboundPalestine 36Calle MalagaThe President’s CakeA Poet e No Other Choice.

Bill Kramer, director executivo da Academia de Hollywood, esteve presente e deixou claro que a instituição pretende reforçar a sua presença no Norte de África e no Médio Oriente. Marrakech, disse, está a tornar-se “uma paragem incontornável no circuito dos Óscares”. É um elogio raro, mas merecido, para um festival que tem investido na expansão internacional sem perder o cuidado artesanal da curadoria.

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A cerimónia de abertura terminou com uma homenagem emotiva ao actor egípcio Hussein Fahmi, de 85 anos, que recebeu aplausos de pé enquanto revia cenas de alguns dos seus papéis mais marcantes. Depois, cumprimentou um a um os membros do júri, num momento de reverência entre gerações e geografias.

O festival decorre até 6 de Dezembro e promete encontros memoráveis com nomes como Jodie Foster, Guillermo del Toro, Laurence Fishburne, Kleber Mendonça Filho, Andrew Dominik e Jafar Panahi — uma edição que reafirma a vocação universalista de Marrakech e a sua crescente influência no mapa dos grandes festivais de cinema.

Existencialismo e ameaça nuclear: Ozon e Bigelow dominaram a terça-feira em Veneza

O Estrangeiro ganha nova vida pelas mãos de François Ozon

O Festival de Veneza continua a ser palco de estreias de peso. Esta terça-feira, o realizador francês François Ozonapresentou a sua versão de O Estrangeiro, clássico literário de Albert Camus, filmado a preto e branco e protagonizado por Benjamin Voisin e Rebecca Marder.

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A história segue Mersault, um funcionário na Argélia colonial cuja vida sofre uma viragem radical após a morte da mãe. Voisin surpreende ao encarnar um homem apático e recluso, distante das personagens expansivas a que habituou o público.

“Teríamos adorado filmar em Argel, mas as relações entre França e Argélia complicaram essa possibilidade”, admitiu Ozon, que acabou por rodar em Tânger, Marrocos. O cineasta sublinhou que quis oferecer “uma visão atual” desta obra ainda marcada por feridas históricas.

Kathryn Bigelow e a “casa de dinamite”

Do existencialismo ao suspense político, a segunda grande estreia do dia foi assinada por Kathryn Bigelow, realizadora de Estado de Guerra. Em A House of Dynamite, produzido para a Netflix, a cineasta de 73 anos leva o público até à Casa Branca em plena crise nuclear, com um míssil lançado por um agressor desconhecido contra os EUA.

O filme conta com Idris Elba e Rebecca Ferguson nos papéis principais. “Estamos realmente a viver numa casa de dinamite”, alertou Bigelow na conferência de imprensa, sublinhando a urgência de discutir a ameaça das armas nucleares.

Outras propostas do dia: Van Sant e novos talentos

Também na terça-feira, Gus Van Sant apresentou Dead Man’s Wire, um drama baseado na história verídica de Tony Kiritsis, que em desespero tomou como refém o seu credor. Fora de competição, o filme marca o regresso do realizador norte-americano, igualmente com 73 anos, a temas de forte carga social.

Na secção Horizontes, a surpresa veio de Stillz, realizador americano-colombiano conhecido pelos videoclipes de Bad Bunny e Rosalía. A sua primeira longa-metragem, Barrio Triste, transporta o público para a Medellín dos anos 1980, entre violência, fragilidade e a procura de inocência.

Já nas Jornadas dos Autores, o espanhol Gabriel Azorín estreou Anoche conquisté Tebas, sobre um grupo de amigos portugueses que visita termas romanas e acaba por se cruzar com os soldados que as ergueram há séculos.

Uma competição de alto nível

Tanto O Estrangeiro como A House of Dynamite integram a seleção oficial de 21 filmes que disputam o Leão de Ouro, entregue a 6 de setembro. O júri é presidido por Alexander Payne e conta ainda com Fernanda TorresZhao TaoStéphane BrizéMaura DelperoCristian Mungiu e Mohammad Rasoulof.

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Com propostas que vão do existencialismo literário à tensão política contemporânea, Veneza reafirma-se como o festival onde o cinema procura constantemente dialogar com o mundo.

As Polaroids de Gus Van Saint

Gus Van Sant, reconhecido cineasta norte-americano, é amplamente celebrado por obras como “O Bom Rebelde” e “O Meu Idaho Privado”. Para além da sua carreira cinematográfica, Van Sant cultivou uma paixão pela fotografia, especialmente através de uma câmara Polaroid adquirida nos anos 70, após concluir os estudos na Rhode Island School of Design. 

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Entre 1983 e 1999, Van Sant utilizou esta câmara para capturar imagens espontâneas de atores emergentes que passavam pelo seu estúdio. Estas fotografias serviam não só como ferramenta de casting numa era pré-fotografia digital, mas também como um meio de documentar momentos autênticos e despretensiosos de futuras estrelas de Hollywood. 

As Polaroids de Van Sant incluem retratos de figuras como Keanu Reeves, Nicole Kidman, Matt Damon e Drew Barrymore, entre outros. Estas imagens destacam-se pela sua simplicidade e autenticidade, oferecendo uma perspetiva íntima de atores antes de alcançarem a fama mundial. 

Em 2016, estas fotografias foram compiladas no livro “Gus Van Sant: Icons”, publicado pela La Cinémathèque Française em colaboração com a Actes Sud. A obra proporciona uma visão aprofundada do processo criativo de Van Sant, incluindo entrevistas, moodboards e diagramas de cenas, além das suas Polaroids. 

As Polaroids de Van Sant evocam a estética dos “Screen Tests” de Andy Warhol, capturando a essência dos sujeitos de forma crua e não ensaiada. Estas imagens não só documentam a evolução de carreiras promissoras, mas também refletem a habilidade de Van Sant em reconhecer e eternizar momentos de vulnerabilidade e autenticidade no mundo do cinema. 

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Para os entusiastas de cinema e fotografia, o trabalho de Gus Van Sant oferece uma fusão única destas duas formas de arte, proporcionando uma compreensão mais profunda da sua visão artística e do panorama cinematográfico das últimas décadas.